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...E EU VENCI ASSIM MESMO

DORINA DE GOUVA NOWILL


TOTALIDADE

CONTRA CAPA

Dorina Gouveia,

Sua vida  um romance que eu gostaria de ter escrito.
Criaturas como voc - com seu esprito e sua coragem -
constituem um enorme crdito para a raa humana. No creio que
jamais nos tenhamos encontrado ou
cruzado... Mas voc tem em mim um admirador que
espera ter o prazer e o privilgio de um dia apertar-lhe a
mo.
Considere-me seu amigo e creia na simpatia e
respeito que voto a voc e  sua grande obra.

Porto Alegre, 17 de novembro de 1956.

Erico Verssimo


Querida Dorina,

 maravilhoso Dorina, como seu entusiasmo, atividade e talento
esto acelerando o movimento pelos que no tm viso, no s no
Brasil, mas em toda a Amrica Latina.
Sinto que no h personalidade mais corajosa e inspiradora que a
sua entre os habitantes da Terra da Escurido no hemisfrio sul.
Eu uso freqentemente a gua marinha que voc me
deu, e ao toc-la, sinto a sua querida mo na minha...

17 de Julho de 1953

Helen Keller



DORINA DE GOUVA NOWILL

...E EU VENCI ASSIM MESMO


Apoio Cultural:

MAKRON Boocks


 TOTALIDADE EDITORA



...E EU VENCI ASSIM MESMO


Dorina de Gouva Nowill



...E EU VENCI ASSIM MESMO
DORINA DE GOUVIA NOWILL

Copyrigth  1996 de TOTALIDADE EDITORA, que se reserva todos os
direitos de titularidade desta edio e de qualquer outra em
portugus e em qualquer outro idioma,
para o Brasil e exterior. Proibida, dentro da legislao vigente,
a reproduo total ou parcial, sob qualquer forma, ou por qualquer
meio, sem autorizao, por escrito,
de TOTALIDADE EDITORA  - Rua Eng. Alcides Barbosa, 29, Jd Amrica,
So Paulo, Si', Brasil, CEP 0 Fone (011)64-3688, Fax: (0)1)881-
9503.

Este livro foi escrito a partir da gravao de sessenta e seis
fitas cassetes pela autora,
transcrio eletrnica de Thas Malta Campos, Adaptao e Edio
de Adriano Cypriano.

ISBN 85-85293-11-X

Editora: Bisa Guerra Malta Campos

Transcrio de Fitas: Thais Malta Campos

Adaptao: Adriano Cypriano

Arte e Capa: Emilio Dias Carvalho/Ana Elena Salvi

Produo Editorial: Gislia C. Costa
Composio Editorial e Fotolitos: JOIN Editorao Eletrnica Ltda.


Dados Internacionais de Catalogao na Publicao ICIP)
(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Nowill, Dorina
...Eeu venci assim mesmo / Dorina Nowill. - So Paulo: Totalidade,
1996.

ISBN 85-85293-11-X

1. Nowill, Dorina, 1919- Autobiografia. 1. Ttulo.

96-1335        CDD-305.90816109

ndice para catlogo sistemtico:
1. Mulheres deficientes visuais : Autobiografia 305.90816109



A vocs, meus netos, que so a mais linda condecorao que seus
pais e a vida me deram, esta narrativa para que saibam respeitar e
preservar a famlia que seu av e eu constitumos um dia imbudos
de esprito cristo e amor a Deus.

A vocs professores, tcnicos, profissionais, diretores,
conselheiros, doadores e voluntrios, estas memrias para que
possam continuar e transformar esta obra que ns todos construmos
juntos pelos ideais de solidariedade,
cooperao e amor ao prximo.


Senhora Dorina de Gouvea Nowill,
So Paulo, Brasil

Querida Dorina,

Sua carta trouxe dupla alegria. Alegro-me em saber que voc e a
Fundao para o Cego ainda se lembram to carinhosamente da minha
visita a So Paulo. Sinto-me encantada
por tantas boas recordaes, pela sua amizade hospitaleira, e pelo
fervor afetuoso com o qual as pessoas me receberam e seguraram as
minhas mos, na tarefa a que me propus com os cegos no Brasil.

Estou tambm feliz em saber que a American Foundation Overseas
Blind vai patrocinar a Conferncia Panamericana de Trabalho para o
cego.  maravilhoso, Dorina, como
o seu entusiasmo e atividade incansvel esto acelerando o
movimento pelos que no tm viso, no somente no Brasil, mas em
toda Amrica Latina. Sinto que no h
personalidade mais corajosa e inspiradora que a sua entre os
habitantes da terra da escurido no hemisfrio sul.

E que ocasio extraordinria ser o IV Centenrio de So Paulo,
para estimular entre tantos projetos um interesse ativo tanto na
educao, quanto na preveno da
cegueira. Com a presena de mil oftalmologistas, esses dois
movimentos sero reforados mutuamente trazendo felicidade para
aqueles cujos olhos esto fechados para a luz do dia.

Polly envia calorosas saudaes juntamente com as minhas aos
membros da sua Fundao. Ns falamos de vocs freqentemente, da
gentileza dos cegos e surdos que nos
deram as boas vindas e as lindas flores que foram jogadas sobre
mim de tal modo que tornou a minha estadia entre vocs um festival
de bnos. Eu uso freqentemente a gua-marinha
que voc me deu, e ao toc-la, sinto a sua querida mo na minha.

Com amor e grande apreo,
Afetuosamente, sua amiga

Helen Keller, 17 de julho de 1953.

AGRADECIMENTOS

Algum um dia me disse: menina, anote tudo o que fizer porque voc
ter de escrever sobre isso um dia. A recomendao ficou gravada
em minha memria e 50 anos depois
cumpri a tarefa. Obrigada, Dr. Jorge Americano, ento Reitor da
Universidade de So Paulo. Alex, voc insistia persistentemente
para que eu escrevesse um livro.
Obrigada pela confiana e estimulo. O livro aqui est. Espero que
voc o aprove. A minha famlia, meus filhos e netos o meu
agradecimento pela compreenso de todos
vocs pelas muitas horas que tive de me privar da companhia de
todos. Meus agradecimentos s minhas companheiras de diretoria da
Fundao. Vocs exigiram que eu
escrevesse as minhas experincias para o cinqentenrio da
Fundao. Vocs me encorajaram e a nossa histria aqui est.

Sempre achei que para escrever um livro era preciso aprender a
faz-lo. Consultei quem de direito, um editor, Alfredo Weiszflog.
Ele gentilmente disse-me que pediria
a algum que me orientasse. Foi assim que eu um dia conheci Prof.
Hernni Donato. Perguntou-me como eu escrevia. Contei que
datilograva meus artigos. Prof. Hernni
imediatamente disse que eu deveria gravar em vez de datilografar.
Tive que vencer minha inibio e assim foi. Gravei este livro.
Devo ao Prof. Hernni o ter adquirido
mais uma habilidade: a de gravar quando quero escrever. Muito
obrigada.

Meus agradecimentos  Fundao pela logstica colocada  minha
disposio, principalmente atravs das providncias tomadas pela
nossa Coordenadora Jurema Lucy Venturini. Nada me faltou para
escrever.

pag:VII

Contei com datilgrafos com Vera Lcia e minha secretria Isabel.
Para passar para o papel o trabalho gravado, contei com Olenka,
minha acessora que tirou do gravador os primeiros captulos, e
depois voc Thas, que passou praticamente todo o trabalho no
computador para que eu pudesse ler e corrigir. Obrigada.

O trabalho de correo foi longo, demorado, eu tive que escrever e
reescrever vrias vezes, mas graas a Deus, contei com uma
voluntria inesperada, uma grande amiga, Teresinha, minha
companheira de estudos e Olenka, minha acessora. Essas foram duas
heronas, entusiastas, exigentes, colaboradoras. Este livro muito
deve a vocs e a voc Dcio, marido de Teresinha, que nos ajudou
na pesquisa e ficou sozinho muitas e muitas tardes, para que eu
pudesse ouvir e corrigir o livro.

Era preciso verificar datas, grafia de nomes, preciso de termos,
e voc apareceu, Leontina. Muito obrigado pelo seu excelente
trabalho.

Obrigada Milton Mira Assumpo Filho, pelo seu entusiasmo,
interesse e pela pronta colaborao na divulgao deste livro.

Obrigada Maria Helena Souza Barros, que fez meu primeiro contato
com Elisa Guerra Malta Campos.

O meu agradecimento a todas as pessoas que me deram informaes ou
que procuraram dados exatos para que eu pudesse usa-los nas
pginas deste livro.  Editora Totalidade meu agradecimento
sincero pela determinao de Elisinha, que me procurou e me achou
quando eu iniciava esta narrativa. Sua confiana ajudou-me a
prosseguir.

Obrigada  Associao de Mulheres de Negcios e Profissionais de
So Paulo pelo estimulo e apoio e pela disposio em promover a
publicao do livro.

Foram muitos, muitos mesmo que me pediram pra que eu contasse a
histria da minha vida pra que eu pudesse transforma-la numa
biografia. Fiz questo de escreve-la eu mesma. Estas paginas so
meu agradecimento a todos.

pag:VIII

SUMRIO

PREFCIO.... XIII

INTRODUO.... XVII

DO SONHO  REALIDADE...... 1

Minha Infncia.......1
Elvira Brando.......3
Menina Comportada........6
Minha F........7

SABER RECOMEAR........20

Caetano de Campos.......20
O Grupo de Especializao........24
Fundao para o Livro do Cego no Brasil..........25
Formatura da Caetano de Campos..........27
O Incio das Atividades como Professora........29
Nova Iorque e os Cursos...........34

pag:IX

OS DIVERSOS CAMINHOS DA VIDA.......38

Duas Grandes Personalidades: Helen Keller e Robert B. Irwin....38
Imprensa Braille  - Kellog Foundation ..... 43
Final do Semestre Primavera & Vero.......45
Retomo ao Brasil .......47
Novos Rumos.........48
Recursos Humanos.........57
Nosso Futuro Lar ........59
Histrias que a Histria No Conta.......64
Dorininha e o 1 Congresso Panamericano de Assistncia aos Cegos e
Preveno da Cegueira .......71
Batizados .......75
Prdio Novo  - Atividades Novas......76
TV  - Mesa Redonda .........79
Uma Longa Viagem.......81
Mestra do Ano......85
Aulas de Ingls.......86
Reavaliando......87
Continuando.......90
Os Livros e a Literatura em Minha Vida ..........96
Os Anos Sessenta......98
Minha Me......102
Frias e Mar .......103
Tapetes......105
Promoes .......108
Mulher - Famlia  Trabalho ........110
Reabilitao.......111
Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos......117
Crianas-Adolescentes ........120
Minhas Amigas do Alto de Pinheiros........124

pag:X

Sanae.......125
Voluntrios e Colaboradores.......126
Polticas e Relacionamentos Internacionais........128
Soroptimistas ...........134
1974 - V Assemblia Geral .......135
Os Fatos Como Eu os Vi ..........145
Parentes Alm Fronteiras ..........149
E a Vida Continua ..........152
Fellowship .........156
Bodas de Prata .......158
Ano Internacional da Mulher ..........161
Meu Pai ........166
ADESG .........167
Oriente Mdio ........168
Direitos do Autor ........170
Os Primeiros Casamentos na Famlia.......174
Associaes Nacionais e Internacionais .......176
AA  - Alcolicos Annimos ........180
A Fundao na Comunidade.......182
Clnica de Viso Subnormal .......185
Estimulao Precoce .......188
Coordenadores...........189
Lazer ........190
Meu Trabalho no Ministrio da Educao e Cultura ......196
Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos Japo....199
Conselho Mundial  - Comit de Cultura ....202
Comentrios .........203
1979 - Ano da Sexta Assemblia do Conselho Mundial para o Bem-
Estar dos Cegos.....205
ONCE ........210

pag:XI

O IDEAL SEMPRE PREVALECE ........216
Ano Internacional da Pessoa Deficiente..... 216
A Grande Aventura de Ser Av....... 218
Seqncia de Fatos........ 223
Uma Noite de Suspense......... 227
Situao da Mulher Cega  Seminrios........ 229
Plano de Ao........... 230
Visitas a Organizaes em Vrios Pases......... 231
A Fundao: Mudanas e Transformaes........... 237
Caminhos.......... 240
Tarefas rduas, mas Valiosas Experincias......... 243
OIT - Conveno 159......... 250
Misso Difcil - Misso Cumprida......... 255
Unificao.......... 259
Depois da Presidncia......... 263
Tatu.......... 264
Casamento de Kiko e Segunda Leva de Netos........ 265
Agradveis Recordaes.......... 267
O Futuro me Estimula.......... 270
O Passado e o Presente Assim me Encorajam......... 270
Clubes e Outras Associaes.......... 275
Reunies de Famlia - Meus 70 Anos........ 276
Fundao Dorina Nowill para Cegos........ 280
Reformas......... 287

pag:XII

PREFCIO

DORINA E O SEU MODO DE VER O MUNDO

A tentao  grande  - reduzir o prefcio a uma frase: Dorina
Nowill  das pessoas que enxergam mais longe, mais claramente,
neste pas de tantos cegos de ver e cegos
de perceber. Tentao de escrever isso e remeter o leitor 
intimidade do texto. Frase trivial, claro. Mas, tambm, verdade
decorrente da confirmao, pela leitura,
da incessante e variada atividade da autora, do seu pensamento
equilibrado, lcido, despido de mgoas e de reclamos, da sua fina
anlise do acontecido e de arguta percepo do por acontecer.

No digo novidade quando afirmo ser Dorina uma criatura
referencial. So Jernimo, na Carta a Paulo, exibe desnimo e
conformidade ao considerar a cegueira: "Si caecus
fuero, amici me lectio, consolabitur". Buscaria consolo na leitura
feita por um amigo. Dorina, cegando depois de ter feito conviver a
sadia curiosidade juvenil
com tudo o que de belo e bom oferece o mundo, no se quedou a
ouvir o que amigos lessem ou dissessem para aquecer e preencher o
seu novo mbito. Ao contrrio, alegando
a leitura como chave de todas as portas, ensinou a ler, ou seja, a
ver, a centenas de outras pessoas, ento suas iguais na
necessidade. Obra monumental a Fundao
para o Livro do Cego. Quanta desesperana ela poupou ao mundo.
Quanto vazio interior ela fez encolher.

pag:XIII

Milton, o de O Paraso Perdido chorou a perda da viso depois de
lamentar as formosuras ocultadas pelo vu das sombras: "... em vez
de tais belezas, me circunda/ Nuvem cerrada, escurido perene/ Que
as avenidas do saber me entupe" (na traduo de Antonio Jos Lima
Leito). Dorina, no apenas acendeu luzes
dentro da sua escurido e com elas transitou pelas "avenidas do
saber" como iluminou outras sombras. Aceitou a poro que
caprichosamente lhe foi
atribuda no plano da imperfeio humana e dela emergiu, no um
peso mas uma fora. Diz, nestas pginas de tocante sinceridade:
"Este  o encanto mgico que nos concedeu a Providncia Divina e
que faz de cada vida um romance que no pode ser copiado, nem
modificado em sua essncia e sua grande realidade".
A consagrao que o mundo lhe prestou e presta dispensa que me
alongue na aluso ao seu trabalho,  sua utilidade.

Ouvindo-a, no timbre lacre revelador de vontade indesvivel;
vendo-a, desenvolta e precisa, planejar e executar; seguindo-a - o
que s  possvel pelo noticirio
 - nas viagens, visitas, entrevistas, palestras, eventos,
premiaes em variadas longitudes, me ocorre e isso
prazerosamente, que a Dorina escritora memorialista
revelada neste livro sempre foi uma literata oculta nos quefazeres
de uma lder. Leio Dorina e penso em Borges. Releio Borges
visualizando Dorina:
"Se pudesse viver novamente a minha vida.., correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais
montanhas, nadaria em mais rios . Dorina,
vivssima, assume riscos, viaja, sobe montanhas, transpe rios,
fecunda generosamente o seu entardecer. Ambos, cegos, iluminaram o
seu mundo. E sem ver, viram tudo quanto desejaram dominar.

Agora, Dorina revela-se escritora. Abre a alma e descreve o tempo,
a gente, os acontecimentos, os sonhos, os contratempos, as idas e
vindas, o que alcanou e o que
lhe escapou. Tudo, dorinescamente visto: "ningum narra apenas os
fatos de uma vida sem imprimir muito de sua prpria alma e sem
dar-lhe um pouco de contedo do
seu prprio eu: desnudar-se, ou melhor, desnudar sua alma".
Testemunho, evocao, confiteor.

No Brasil, Histria e Literatura ressentem-se da falta de bom
memorialismo, sem o qual  difcil estruturar uma cultura. O texto
produzido por Dorina Nowill ajuda
a minorar aquela carncia. Apto a ser inscrito em diversos itens
de catalogao, oferece contributo precioso e amplo sobre a So
Paulo, o pas e diferentes outros
lugares que involucraram a vida da autora. Com nitidez, colorido,
faceirice, pertinncia e com o processo descomplicado de quem
conduz nada mais do que alegre conversa
entre gente que se conhece e se estima, Dorina relembra sociedade,
costumes, transporte urbano, modas, educao, convvio, flertes,
relao entre os sexos e as classes sociais, festas,
religiosidade, grandes

pag:XIV

lojas, hotis preferidos, coleguismo, ascenso social, o longo e
cansativo vo da Panair para os Estados Unidos. A receita? "A vida
de qualquer um de ns  um fato
ao mesmo tempo simples e complexo. Minha vida  uma vida simples,
semelhante a tantas outras, que sofre a interferncia de aes e
fatores..."

Comear a ler Dorina  ir at a ltima linha, ouvindo, vendo,
dialogando, convivendo com Dorina. O que, por todos os ttulos e
ngulos,  coisa para se pedir mais e mais bis.

Habemos livro! Graas ao muito e ao valioso que Durma Nowill v e
registra.


Hernni Donato

So Paulo, abril, 1996.

pag:XV


pag:XVI


INTRODUO

Relutei muito tempo, anos mesmo, para narrar fatos de minha
prpria vida,
mas no fundo sempre tive a certeza de que um dia deveria faz-lo.

Porm, como se relata uma vida?

Esta pergunta no passa de pretexto para adiar um fato que sempre
teve uma soluo bvia: comear a escrever. Na realidade, era s
escolher entre a mquina de datilografia
e o gravador. Tenho uma inibio diante do gravador, mas nada me
impedia de procurar super-la - como j superei tantos outros
empecilhos que a vida colocou diante
de mim. Sempre gostei de escrever. Estmulo, recebi de todos os
lados. Sei que a publicao deste livro se constituir numa imensa
alegria para Alex, meu marido.
Ele se preocupou, ao acompanhar as minhas atividades, com a
necessidade de coloc-las no papel, para descrever como de fato as
coisas se passaram.

Meus mestres e amigos foram prdigos em conselhos e insistncia
para que eu prpria fizesse a narrao, com o colorido da
realidade dos acontecimentos. Mas, ningum
narra apenas os fatos de uma vida sem imprimir muito de sua
prpria alma e sem dar-lhe um pouco do contedo do seu prprio eu.
Desnudar-se, ou melhor, desnudar sua
alma, o seu eu: eis a, talvez, o motivo da inibio.

Penso que existe um certo encanto em guardar um segredo que, por
vezes, no dividimos nem conosco mesmo. Acredito que seja
impossvel remexer

pag:XVII

nos fatos de uma vida sem revelar uma parte desse segredo, muitas
vezes inconscientemente guardado. Essa "transparncia" que pode
ser chamada de inibio que me
assusta. Mas, sem que essa transparncia exista, no vale a pena
tentar fazer a prpria biografia.

Eu sempre gostei de biografias romanceadas mas no  o caso de uma
autobiografia, onde a realidade no pode ser alterada, embora uma
narrao de fatos j h muito
acontecidos tenha grande dose de subjetividade. A vida de cada um
de ns  ao mesmo tempo extremamente simples e complexa. Minha
vida  uma vida simples, semelhante
a tantas outras, que sofre a interferncia de aes e fatores
independentes da vontade. Entre bilhes de seres vivos, jamais
duas vidas podero ser perfeitamente iguais.
Este  o encanto mgico que nos concedeu a Providncia Divina e
que faz de cada vida um romance que no pode ser copiado, nem
modificado em sua essncia ou na sua grande realidade.

Nasci a 28 de maio de 1919 porque Dolores Panella e Manuel
Monteiro de Gouva encontraram-se, amaram-se e casaram-se no dia
27 de julho de 1918, em plena I Grande
Guerra de nosso sculo. Italiana ela, do sul da Itlia, de um
lugar pequenino chamado Santa Crocci. Ele portugus, nascido numa
aldeia chamada Penajla, no distrito
de Lamego,  beira do rio Douro. Por razes diversas, em pocas
diferentes, ambos vieram para o Brasil.

Os fatos contados por eles so verdicos, pois eu os ouvi repetir
sempre da mesma forma durante anos e anos. Segundo mame, meu av,
seu pai, Pepino Panella, era
descendente de uma famlia arruinada do sul da Itlia. Era
inteligente, anarquista na acepo da palavra, um msico inato
capaz de tocar qualquer instrumento.

Minha av materna, Maria Vittoria ao contrrio, era uma camponesa
simples, dedicada, apaixonada, que se casou aos 15 anos de idade.
No foi feliz. Meu av sempre dificultou
muito a educao de seus cinco filhos, principalmente a de mame,
a caula da famlia, que foi proibida de freqentar a escola da
aldeia porque a professora era
do partido contrrio ao de meu av e os dois se combatiam
permanentemente.

Meu av, obrigado a sair do pas por motivos polticos, imigrou
para Amrica do Sul, e posteriormente para a Amrica do Norte.
Minha av, para fugir do pai e do
marido inconstante, imigrou para o Brasil e Argentina junto com
trs filhos. Uma das filhas ficou morando na Itlia e tomou-se
freira. Por ser menor de idade, mame
permaneceu mais algum tempo na Itlia. Posteriormente ajudada por
amigos, conseguiu lugar num navio para viajar ao Brasil e meu av
s tomou conhecimento do fato tarde demais para impedi-la.

pag:XVIII

Assim, instalou-se com sua me e seus dois irmos na casa do tio
que aqui j estava, tendo tambm uma famlia numerosa em So
Paulo.

Mame era muito inteligente, bonita, muito viva e de invejvel
atividade. Desenvolveu tal habilidade manual que, apesar do
artritismo que distorceu suas
mos nos ltimos anos de vida, sempre conseguia fazer qualquer
trabalho por mais complicado que fosse, com uma percia de
artista. Costurando para fora,
ajudando seu irmo que trabalhava como alfaiate, seu convvio
maior era com os
primos. Mesmo sendo a mais moa de todos era respeitada devido s
caractersticas de indiscutvel liderana. Em suas conversas de
mocinha, mame afirmava que nunca se casaria com vivo ou
viajante. Num carnaval, quando assistia ao
corso e  folia na confeitaria de seu tio, em frente ao teatro
Municipal, exatamente onde hoje est a Casa Mappin, mame reviu um
rapaz portugus muito simptico
e charmoso que ela j havia conhecido quando casado. Nesse
carnaval mame soube que o Gouva, como ela o chamava, estava
vivo e sua funo era: viajante
de uma grande empresa atacadista de So Paulo, claro! Os encantos
de Gouva, porm venceram a ojeriza que mame tinha por vivos e
viajantes. E dessa maneira, em breve estavam noivos e,
posteriormente, casados. Papai tinha uma filha
Amlia, com dez anos nessa poca. Amlia sofrera muito desde a
morte de sua me, e encantou-se por mame. Mesmo antes que o
casamento se realizasse, foi morar com ela.

Meu pai, filho caula dos oito filhos de Dona Amlia de Moraes
Castro, havia sido destinado por ela ao sacerdcio. Esta foi a
razo pela qual aos 13 anos,
com a ajuda de parentes e de trs irmos que j estavam no Brasil,
conseguiu lugar num navio e viajou para c. Sei muito pouco sobre
meus avs paternos,
pois meu av faleceu quando papai, ao que parece, era ainda um
beb. Papai tinha uma diferena muito grande de seus sete irmos.
A independncia de meu
pai e a responsabilidade com que sempre assumiu todos os atos de
sua vida foram caractersticas que perduraram at seus ltimos
dias, quando morreu aos
91 anos. Procurou trabalhar por conta prpria a fim de se tornar
independente de seus irmos e, segundo ele, a desonestidade de um
scio f-lo deixar o comrcio
de caf e procurar emprego nas casas atacadistas de So Paulo que
naquela poca ofereciam morada e alimentao aos funcionrios.
Subiu na firma graas a seus
esforos sem obter, porm, grandes vantagens financeiras, que os
patres controlavam com mos frreas. Permaneceu no mesmo emprego
por 60 anos., sempre
na mesma posio de chefia e com poder de mando, embora usufrusse
muito pouco daquilo que realmente deveria ter recebido pelo seu
trabalho srio, honesto, impecvel. A imagem do trabalhador que
foi meu pai, sua forma de dirigir e
comandar e a impecabilidade, at no horrio, que manteve toda a
vida, ou seja, jamais chegar tarde ou sair cedo, sempre me
impressionaram. Penso que at me

pag:XIX

influenciaram. Ao contrrio de mame que era muito loquaz, papai
falava relativamente pouco. Tinha um verdadeiro culto pela palavra
dada e era irredutvel em suas determinaes,
conseguindo ser, ao mesmo tempo, bondoso, carinhoso, compreensivo
e profundamente discreto. Procurou sempre harmonizar sua famlia,
sem jamais se envolver em falatrios
que so comuns a todos os grupos, sem distino. Minha av
materna, a nica que conheci, sempre morou conosco, e mame jamais
a deixou sozinha. Vov adorava meu
pai e ele tinha por ela um grande respeito, misto de admirao,
algo que sempre me encantou.

pag:XX

DO SONHO  REALIDADE

MINHA INFNCIA

Fui batizada pelos filhos da madrinha de casamento da minha me,
D. Josefina, Viscondessa de Poyares. Era uma mulher muito bonita,
morava num palacete em
Higienpolis onde havia lindas festas. Lembro-me dos doces daquela
poca, verdadeiras obras de arte. Recordo-me de uma fotografia
dela usando um colar imenso de prolas com um n na altura do
seio. Ela era uma mulher imponente.

Tive uma infncia tranqila e feliz. Em casa sempre reinaram a
disciplina e a obedincia que, embora muito severas, no eram
propriamente impostas, fluam naturalmente.
Meu irmo e eu fomos criados com muito carinho por nossos pais.
Obedecer, quando eu era pequena, me parecia sempre uma coisa
natural como comer, beber, dormir, nada
que me causasse revolta ou frustrao.  claro que houve algumas
excees, principalmente depois que cresci, na adolescncia, mas
na infncia tudo era normal.

Na poca de meu nascimento, todos esperavam um menino, sobretudo
papai. Mame reagiu a essa atmosfera e ela prpria quis escolher
meu nome. Com o esprito muito
tradicional, papai queria que eu me chamasse Dolores, que era o
nome de mame, mas ela no aceitou porque Dolores - adolorata -
lembrava sempre um sentimento de
dor. Contava ela que havia assistido  opereta "A Casa das Trs
Meninas", Dora, Doreta e Dorina e ela preferiu Dorina. Meu nome
no foi muito aceito no incio e at hoje eu conheci apenas uma ou

pag:1

duas Dorinas. At mesmo meus padrinhos de batismo resistiram, pois
no calendrio dos Santos no consta Santa Dorina. Mas em minha
vida, cheia de coincidncias
(que prefiro chamar desgnios da Providncia), encontrei fatos
ligados a este nome que s me trouxeram satisfao e alegria.

Tenho muitas recordaes da infncia. Uma delas  a de ter tido
duas bonecas lindas: Carmencita e Lili, ambas de loua vindas da
Frana e que hoje pertencem s minhas
netas. Minha irm Amlia tinha uma professora de piano que me
trouxe um livro e foi me ensinando a ler. Eu tinha apenas quatro
anos, o livro chamava-se Eu Sei Ler;
recordo-me at hoje da figura da capa, que era um rosto
amarronzado e meio cor de ferrugem de um moleque com gorro.
Algumas das histrias permanecem vivas em minha
memria, principalmente pelas lies de vida que continham.

Um dos fatos que de certa forma modificou o comportamento da
famlia e abalou a minha infncia foi o nascimento de meu irmo.
Eu j estava com quatro anos e quando
me levaram para conhec-lo e perguntaram se eu havia gostado, o
que havia achado dele, mame contava que a minha explicao  que
ele era muito arrepiadinho; feio
e arrepiadinho. Acho que fiquei com cimes, sei l, fiquei
ressentida, mas por muito pouco tempo.

Nessa poca, morvamos na rua Matias Aires para onde mudou-se uma
famlia, os Paca Azevedo. Era uma grande famlia com dois casais,
um mais idoso e um outro mais
jovem com 3 filhos, Murilo, Marita e Caquinho. Marita tinha a
minha idade. Dona Durvalina, a dona da casa, abriu uma escolinha e
mame; imediatamente me matriculou.

O quarteiro onde morvamos, entre a rua Frei Caneca e a rua
Augusta;; tinha poucas casas. Do nosso lado havia uma casa trrea
com um enorme quintal na esquina da
rua Augusta, e do outro lado, na mesma calada, o muro enorme de
um armazm que ocupava uma extenso grande at a rua Frei Caneca.
Depois haviam outras duas casas.
Numa delas, para onde nos mudamos aps algum tempo, passei a maior
parte de minha infncia. Em frente mudou-se uma outra famlia, a
do Dr. Eduardo e Marina de Medeiros;
ela Lefevre quando solteira. Foram grandes amigos de papai e
mame, seu segundo filho nasceu exatamente no mesmo dia que meu
irmo Manuel.

Ao lado da casa de Dona Durvalina havia uma entrada para passagem
de carros que terminava em uma marcenaria e do outro lado uma
espcie de ptio descampado. L algum
depositara um pedao da carroceria de um Ford "cristaleira", onde
adorvamos brincar. Quando saamos, nossas mes tinham pavor da
brincadeira pois o carro velho
estava cheio de pulgas dos cachorros que andavam por l. Tio
Felipe era irmo de mame e durante muito tempo nossas

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duas famlias moraram juntas. Portanto, meu primo Mrio, mais
velho que eu, filho do tio Felipe e tia Carmelina, era meu
companheiro de infncia. De vez em
quando fazamos grandes lutas: o nosso partido contra o do Luiz,
filho do marceneiro. Nessa fase da vida, fiz minha primeira
comunho. Aprendi catecismo
com as crianas da parquia do Esprito Santo, da Bela Vista. Como
lembrana escrevemos com tinta nanquim, em uma folha dupla de
cartolina, oraes pedindo a Deus perseverana, caridade,
resignao e pacincia. Jamais em minha
vida comunguei sem me lembrar dessas quatro palavras. Acho que
elas exerceram uma profunda influncia em vrias fases quando tive
de enfrentar srios problemas.

A minha rua, a vizinhana, a Frei Caneca, o trio da igreja, a
Matias Aires, a rua Augusta, a prpria rua da Consolao, esto em
minha memria
a exatamente como eram naquela poca, pois no pude acompanhar
visualmente a transformao operada pelo tempo e pelo progresso.

ELVIRA BRANDO

Mame procurou uma boa escola para mim, ajudada por D. Durvalina
- escolheram o Stafford. O Des Oiseaux ficava mais longe, na Caio
Prado (incio da rua Augusta).
Era uma escola religiosa e mame gostaria muito de me colocar
num colgio de freiras. Mas finalmente meus pais se decidiram pelo
Elvira Brando onde fiz todo o curso primrio e o secundrio. Meu
irmo Man algum tempo depois, foi para l tambm. Fui matriculada
em 1927 e aos oito anos j ia e
e voltava da escola sozinha. O interessante naquela poca  que as
pequenas escolas particulares no desenvolviam um currculo
regular, embora trabalhassem com contedo curricular bastante
elaborado.

O Elvira Brando ficava na Alameda Santos com a rua Augusta. Dona
Ainda Caiuby, a proprietria, j estava construindo o prdio da
Alameda Ja. Em 1930
terminou a construo do prdio e o Elvira Brando passou a
funcionar na Alameda Ja, entre as ruas Padre Joo Manuel e
Augusta, onde permaneceu at 1974.

A minha escola ainda no adotava uniforme. Eu tinha grande
quantidade de vestidos, mame fazia toda a minha roupa. As vezes
escondida de mame eu ia para a escola
com um vestido de festa. Lembro-me de um, todo de renda.
Depois comecei a me sentir meio ridcula, e ento passei a mudar
minha indumentria. Essas experincias so muito boas pois nos
fazem aprender que a adequao
de roupa e hora so importantes fatores de elegncia.

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No curso primrio, entre os meus contemporneos havia Paulo Autran
e Clia Biar, hoje artistas. Madalena Nichois, que se tornou
artista de renome internacional, tambm fazia parte do nosso grupo
por ser prima de uma de nossas colegas de classe. Celina Coimbra
chegou mais tarde que as outras na nossa classe.
Era uma menina de tipo angelical, muito loura e com lindos olhos
claros. Sempre apreciei a beleza delicada de Celina. Era tima
aluna. Passamos muitas
tardes, s vezes dias inteiros estudando na casa de Dr. Horcio
Sabino, av de Celina e Mem. Elas ficaram com os avs quando Dr.
Cesrio Coimbra foi deportado
na revoluo de 1932. A casa deles, na Av. Paulista, ocupava todo
o quarteiro: Paulista, Augusta, Alameda Santos e Pe. Joo Manuel,
rea hoje ocupada pelo Conjunto Nacional. Quem diria que naquela
poca nos delicivamos com as jabuticabas do pomar.

O Externato Elvira Brando era uma escola essencialmente
particular, essa no oficializada, com curso organizado pelas
prprias diretoras e donas do colgio. No quinto ano ramos muitas
meninas e s dois meninos. Eu me lembro de Plnio e de Alusio.

Eu no era das mais estudiosas, mas estudava  claro, e fazia
minhas lies. J ambicionava ser uma aluna melhor e tirar
distino. Mesmo assim, fui tocando meus estudos. Na escola quando
se recebia o boletim, a partir da mdia dez todos batiam palmas.
As notas iam de 0 a 12. Quando se
ia mal em certas matrias levava-se uma enorme repreenso diante
de toda classe. Falta total de psicologia. Hoje, analisando esses
fatos, fico pensando se a condescendncia  mais benfica que a
exigncia.

Um dia houve um boato de que Guiomar e eu tnhamos levado para a
escola um livro de medicina de nossos pais. O tal livro de
medicina teria gravuras de anatomia masculina e feminina, e
naquela poca era proibido ser manuseado utilizado por meninas;
hoje minhas netas com 10 anos dariam risada se soubessem que
tiramos zero de comportamento por esse motivo. Palavra, eu jamais
vi esse livro. Nunca passou pela minha mo, mas eu e Guiomar
tivemos nota zero.

Um fato que est muito relacionado com o meu envolvimento em
atividades diversas aconteceu durante a Revoluo de 1932. Aps as
aulas, eu ia com mame s sesses de costura de roupas para os
soldados constitucionalistas. Estvamos no sexto ano do colgio, e
com um grupo de colegas me empenhei na organizao de coleta de
cigarros e sabonetes para os soldados. Fomos incorporadas  Rdio
Record para entregar o produto da campanha. Ajudei muito,
trabalhei e fui uma das lderes dessa campanha.

Um dia Dona Aida instituiu aulas de datilografia e eu fui uma das
primeiras a me matricular. Fiz um curso no muito perfeito de
datilografia, mas que

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me ajudou muito depois, porque eu aprendi a datilografar sem olhar
para o teclado, conforme a tcnica.

Eu me lembro que gostava muito de Histria. Uma das figuras que
mais me impressionou foi Napoleo. Engraado, nunca achei que ele
fosse um ditador. Via no corso outros
aspectos como a ambio pela conquista e a pertincia de
ferro. Napoleo impressionou-me tanto, que por ocasio da
exposio de trabalhos manuais do colgio, colocaram a esttua de
Napoleo segurando uma de
minhas toalhas bordadas. Sabia tudo sobre a histria de sua vida:
guerras, vitrias, derrotas.

Durante o curso secundrio, surgiu tambm uma professora francesa,
Rosette Vitale que dava aulas de religio. No  preciso dizer: eu
tambm entrei para essa aula,
que no era obrigatria. A aula de religio era em francs e me
levou a aprender muito. Essa professora nos fazia ler romances e
obras de Literatura Francesa. No
Elvira Brando tnhamos francs do 2 ao 9 ano e ingls
e somente do 3 ao 5 ano. Os currculos dessas escolas nessa
poca sofreram muito a influncia das escolas francesas Dona Maria
Corra, professora de Literatura,
decidiu criar uma biblioteca. Pronto, l estava eu tomando conta
da biblioteca. Cada aluna contribua com um dinheirinho. De vez em
quando principalmente Celina,
Bruna e eu amos s livrarias comprar as obras indicadas por nossa
professora. A compra acabava sempre num ch na Casa Alem ou na
Casa Mappin - o ch sempre foi por nossa conta.

Quando as alunas no entregavam os livros no prazo certo, havia
uma multa estipulada. Levei muito prejuzo pois poucas eram as que
pagavam a multa e eu completava
as diferenas. As mesadas daquele tempo eram menos generosas que
as de hoje. Dessa forma o produto das mensalidades e multas era
utilizado na compra de livros. Eram
feitos registros num livro-caixa para controle do crdito.

Nas aulas de Literatura quando se fazia leitura em voz alta de
trechos literrios, quase sempre me cabia essa tarefa. Foi um
treinamento para o meu futuro de palestras,
depoimentos e conferncias. Alis, mame contava que ela foi
surpreendida diversas vezes durante as festas de aniversrio em
famlia. Desde os cinco anos eu pedia
a palavra e fazia uma saudao "espontnea". Eu pedia para minha
professora, Dona Durvalina, escrever e ento decorava. Ningum me
mandava falar no, eu falava.
S espero no ter aborrecido demais os outros.

Sempre fui muito festeira, seguindo o exemplo de papai e mame,
que gostavam muito de danar. Papai era scio e muitas vezes foi
diretor do Clube Portugus, cuja
sede ficava na esquina da Av. So Joo com a Praa do Correio. Foi
l que aprendi a danar nas matins de domingo, quando pequena, e
mais

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tarde nas quartas-feiras  noite nos saraus danantes. Naquele
tempo minhas colegas do Elvira Brando freqentavam a madame Poas
Leito, ou o Paulistano e eu resistia muito a ter que ir ao Clube
Portugus e ao Crculo Italiano, acompanhando meus pais.

Nos saraus de quarta-feira, Mrio, meu primo e Laerte, primo de
mame, danavam muito comigo, mas eu no tinha grandes amizades
alm de Jacy Zuleika e Zalir. No Clube
Portugus havia uma biblioteca maravilhosa e quando
o sarau no me agradava, ia para a biblioteca e l ficava lendo,
apesar dos resmungos de mame.

Ao Crculo Italiano ns amos aos domingos e l eu encontrava
minha primas e tambm fazia novas amizades. Era um lugar belssimo
na rua So Luiz, um ambiente muito fino e onde se realizavam
tambm matins, saraus e festividades tpicas da Itlia, como a
Befana  - Dia de Reis  - com distribuio de presentes.

Nesses clubes os pais sentavam-se em volta do salo, enquanto as
filhas danavam e de vez em quando iam conversar com os namorados
no fundo do salo, sempre  vista dos pais...

MENINA COMPORTADA

Lembro bem das lindas festas caipiras de Maria Galvo, que morava
numa das esquinas da Alameda Santos com Pe. Joo Manuel. ramos
meninas.  claro que tive fs, de vez em quando eu at namorava. A
minha casa na rua Augusta tinha o ponto de nibus e do bonde bem
em frente, e muitas vezes via um f ou outro
postado no ponto de nibus sem tom-los e eu sabia porqu. Estavam
l olhando para minha janela. Mas eu s olhava por trs da
veneziana porque naquele tempo era assim, no se contava, como
meus filhos fizeram comigo, para o pai e para a me que algum
queria namorar conosco ou que gostvamos de algum. Quando
mudei para a rua Augusta, eu tinha 11 anos e logo depois conheci
uma famlia, a duas ou trs casas da minha, que tinha uma menina
da minha idade e dois meninos. Um deles foi um grande f que eu
tive; ele me escrevia cartas muito bonitas, poesias, e com o
primo, em muitas ocasies, fazia serenatas no meu porto. Parece
incrvel, mas isso ainda existia na rua Augusta em So Paulo.
Imaginem hoje uma serenata como seria difcil. Foi meu namorado
por algum tempo. Os meus namoros jamais passaram disso: cartas,
poesias, e a gente podia ficar na janela, no jardim e os fs
passavam, olhavam. Nunca passei desses limites

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porque realmente fui sempre muito protegida. No me esqueo que
uma vez eu chorei dois dias porque me convidaram para ir ao cinema
assistir Broadway Melody, um pouco
antes de eu perder a viso, em 1936, e papai no me deixou ir com
minhas amigas.

O fato de ter sido criada num ambiente de disciplina rgida  moda
portuguesa, como dizamos, condizia com a realidade de meu pai e
de minha me. Eu queria muito
ir ao baile de segunda-feira de carnaval do Clube Paulistano onde
fui posteriormente muitas vezes, com meus primos, quando j era
mais velha. Era um sonho o Baile
do Paulistano, ou do Harmonia, mas era impossvel, porque o do
Clube Portugus tambm era s segundas-feiras de carnaval e papai
no queria saber de histria. At
os 17 anos fui criada dessa maneira e aprendi a superar as
frustraes da vida.

MINHA F

Fui muito religiosa e sempre aceitei a minha religio e a minha f
em muitas discusses e sem problemas. Sou Catlica Apostlica
Romana, fui criada nessa religio, fiz Catecismo, Primeira
Comunho, aprendi que deveria ir  Missa, cumpria o preceito e
gostava de comungar. Isto nunca foi sacrifcio, nunca precisavam
me mandar ir  igreja. Minha me era religiosa, minha av era
religiosa. Cumprimos com o nosso dever sem problemas, sem dvidas,
e at hoje eu tenho f. Sinto a presena,
mais do que a presena, a manifestao de Deus. O que muitos
chamam de casualidade, eu chamo de Providncia Divina, de modo que
minha f  simples.

Chegou ento a nossa formatura. Foi todo um ano pensando no
acontecimento. O primeiro vestido comprido! O primeiro vestido de
baile! Foi um sonho! Mame tinha
uma costureira muito boa, Dona Helena. Era uma costureira fina que
uma amiga indicou, O vestido era cor-de-rosa, de tafet, com os
ombros  mostra. A volta do decote
havia uma barra feita de tafet desfiado que imitava plumas. A
saia era larga com aplicao em tafet desfiado formando
arabescos. Para a solenidade surgiu o problema
da escolha da oradora, havia uma parte da classe que torcia para
que eu fosse a oradora e a outra parte da classe torcia para a
Elay. Fizemos eleio e perdi por
um voto, eu mesma votei na Elay, minha primeira companheira de
estudos no Elvira Brando.

Com tudo isso a nossa festa foi muito bonita, dancei uma valsa com
meu pai e outra com um de meus primos, porque o Man era ainda
criana. Da em diante eu j podia
ir aos bailes a rigor. J tinha o meu vestido longo, sapato,
bolsa, tudo.

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Essa foi a poca da escolha de nossa futura profisso. Eu queria
estudar Medicina, no queria ser professora. Mame tambm no
gostava, porque para mame professora
era sinnimo de solteirona. Em todo caso, animada por Dayse,
fomos nos oferecer para uma vaga de professora no colgio Elvira
Brando. Muitas alunas depois
passavam a ensinar no colgio. No cheguei a me oferecer; fui at
a porta e voltei, Dayse entrou e acabou trabalhando como
professora. Eu me lembro muito
daquele dia. Eu queria estudar mais e talvez seguir uma outra
carreira qualquer e foi assim que terminou essa fase da minha vida
no Dr. Elvira Brando.

No dia 16 de agosto de 1936, ns fomos  missa das nove horas, do
Colgio So Luiz. Nessa manh, uma amiga de mame usava um chapu
grande
de feltro, de abas largas. Todo mundo usava chapu para ir 
missa. Quando nos despedimos ela foi me dar um beijo e a aba do
chapu bateu no meu olho direito.
Num momento desses, instintivamente se esfrega os olhos.
Verifiquei que ainda naquele dia estava vendo perfeitamente.

Era um domingo. No dia seguinte de manh, 17 de agosto,
ocasionalmente fechei o olho esquerdo e quando tentei ver com o
outro, percebi uma grande mancha
opaca bem no centro da viso. Depois que levantei, no dei muita
ateno ao fato, achei que era uma coisa banal mas falei com
mame. Mame disse: "Ah,
no, eu no vou levar voc de novo ao oftalmologista. Deve ser
bobagem e isso passa". Dizia isso porque quando estava no Elvira
Brando, meus olhos lacrimejavam muito e mame me levou a um
grande oftalmologista, Dr. Edmundo Carvalho, pois eu cismei que
tinha de usar culos. Quando chegamos ao consultrio
e eu me sentei para o exame, ele brincou muito: disse que eu
no tinha coisa alguma, achou que, de viso, eu no tinha problema
e que podia ter, no mximo, uma alergia. Portanto, naquela
segunda-feira, mame no deu muita importncia  minha queixa.

Alguns dias depois, olhando para um livro percebi que no
enxergava bem com o olho direito. No via o centro da frase, podia
at ler, tinha viso perifrica. Estvamos
s vsperas dos feriados de setembro e eu queria muito
viajar com minha irm, meu cunhado e as crianas para a praia.
Resolvi no me queixar mais e fomos para Santos.

Voltamos no dia 8 de setembro e quando cheguei em So Paulo, disse
para mame que eu achava que o meu problema de viso era srio,
porque eu realmente no
estava enxergando. Disse para mame: "Eu olho o seu rosto e se
tapar o olho esquerdo, no vejo o seu nariz. Vejo o contorno mas
no vejo um bom pedao
do seu rosto; isto , nariz, boca, no vejo". Nem de longe
imaginei a gravidade do que me acontecia. Mame telefonou para o
Dr. Edmundo Carvalho que estava em So Paulo e fui atendida
naquele mesmo dia. Quando chegamos

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ele me reconheceu logo e disse: "Como ? Outra vez a moa dos
olhos bonitos? O que  agora?" Sentou-me na cadeira, naquele
aparelho onde se encosta o queixo, e
me examinou. Mame disse que ele ficou plido e disse:
"Lamentavelmente ela tem razo.  grave o que ela tem. A mcula
foi afetada. O olho esquerdo est afetado
tambm, s que est afetado na rea perifrica e ela tem viso
perfeita no centro, ao passo que o direito est afetado na rea
central. Vamos providenciar uma srie
de exames porque  muito grave o que esta menina tem". Contei ao
Dr. Edmundo sobre o incidente do chapu e ele me explicou que a
causa do meu problema era clnica
e no traumtica. Essa foi a razo dos muitos exames por ele
solicitados: exames de urina e de sangue, e me mandou ficar em
repouso. Comeou a nossa Via Crucis.
Os amigos de papai aconselhavam que era preciso ir ao Penido
Burnier, o melhor centro oftalmolgico do Brasil naquela poca, j
que era um problema grave, conforme
o prprio Dr. Edmundo havia dito. Fomos a Campinas de trem e papai
prometeu que na volta iramos jantar no Hotel D'Oeste, comer
pombinho com cebolinha, nunca me
esqueo, perto da Estao da Luz. Fui a primeira a ser examinada
pelo Dr. Lecher. Mame relatou o que o Dr. Edmundo tinha dito e o
Dr. Lecher me examinou e passou
para o Dr. Burnier. Todos ficaram um pouco apreensivos; todos
mostravam surpresa pelo meu caso. Dr. Burnier disse que o olho
esquerdo estava bem, mas que o direito
estava muito afetado na mcula. Ele falou que parecia retinite
recidivante dos jovens e assim me mandaram fazer mais um exame de
sangue. Fiz exame de sinusite e
de dentes. Descobriu-se que eu tinha granuloma em dois dentes do
lado direito. Fui ao dentista e foi uma luta, pois os meus dentes
eram muito fortes e para arrancar
foi uma barbaridade, uma brutalidade.

Nessa poca Julinha, minha amiga, estava voltando da Europa depois
de uma linda viagem de navio e reuniu as amigas para um ch. Ela
era a mais velha e a maioria das amigas presentes era de uma
classe acima da minha, no Elvira Brando.

Era 14 de outubro de 1936, sempre me lembro desse dia...

Mame deixou que eu fosse sozinha, porque era s virar a esquina,
e eu fui a p. Cheguei ao ch, sentei conversando com as amigas e
Julinha estava passando fotografias
que ela havia tirado no navio. Em todas ela aparecia com as roupas
muito bonitas, muito chique. Ao tentar ver uma das fotografias, vi
diante de mim uma cortina de
sangue e nada mais distingui. Era como se eu estivesse vendo uma
vidraa com chuva escorrendo, em vez de gua era sangue. Pedi 
Marina que olhasse para meus olhos,
pois pensei que aquele sangue fosse visvel externamente. Marina
disse que meus olhos estavam limpos e que certamente era mera
impresso minha. "Eu no posso ver
voc Marina, est tudo embaado. Leve-me at Dona Aida, sem chamar
a ateno dos outros. Eu no posso ver e

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preciso que algum me acompanhe at em casa"  - falei com toda a
serenidade que me foi possvel naquele momento. Dona Aida pediu 
Olga Abrao, uma da nossas amigas,
que me acompanhasse. Muitas pessoas presentes no perceberam o que
tinha acontecido. Dona Aida ficou muito assustada com o fato, mas
o ch continuou.

Realmente, eu no podia andar sozinha. Quando cheguei ao nosso
porto toquei a campainha e ouvi a voz da mame: "Que foi?" disse
mame assustada. A voz perturbada
de mame se justificava: ela acabara de vestir um casaco para ir
me buscar dizendo a vov que pressentira que algo estava
acontecendo comigo... Quando entrei, disse:
"Mame, eu estou cega, no estou enxergando. Aconteceu alguma
coisa e eu estou vendo sangue na minha frente". Mame ficou
simplesmente desesperada. Porm eu estava
calma. Na casa de Jlia numa noite anterior, uma amiga de Dona
Aida falou que tinha tido um
talvez at parecido com o meu e recomendou o Dr. Ciro de Resende.

Quando cheguei em casa e mame no sabia o que fazer, peguei o
telefone e pedi  telefonista que conseguisse o nmero de Dr. Ciro
e obtive uma hora para o mesmo dia. Ento ligamos para papai e ele
veio correndo do trabalho, de txi, e nos levou ao consultrio de
Dr. Ciro. Havia centenas de pessoas, um colosso de
gente esperando, cada um com um caso. Dr. Ciro, tinha um atendente
que organizava os horrios de consulta, passava pessoas na frente
e acabava divertindo os pacientes. Dr. Ciro constatou a hemorragia
nos dois olhos e
que era um caso gravssimo, recomendando repouso absoluto. Alm de
repouso  prescreveu uma dieta muito especial e severa; eu s comia
carne e verdura e sal. No sei porque, mas desconfiavam muito de
problemas nos rins. Dr Ciro e Dr. Armando Galo, seu assistente,
confirmaram o diagnsticos anteriores. Era preciso descobrir a
causa.

De manh eu me levantava s para mudar de aposento  de meu quarto
passava para a sala e continuava deitada no sof. Dr Eduardo
Medeiros e sua esposa, Dona Marina, iam me ver todos os dias,
muito aflitos com o caso. Hoje posso imaginar o que foi tudo
aquilo, o que o problema representou para meus pais. Dr. Medeiros
ficou impressionado porque eu estava ficando muito plida com o
regime que estava fazendo, tomando injees de aceticoline. Minha
viso estava realmente melhorando um pouco, mas Dr. Medeiros
disse: "Gouva, acho um absurdo deixar esta menina assim numa
cama, ela est plida, inchada, vamos lev-la a um bom clnico!"
Fui levada a um dos melhores clnicos de So Paulo. Ao me examinar
ele verificou os exames de laboratrio e tentou sentir meu pulso,
no conseguiu, e ao medir a presso estava baixssima  a
diferena entre a mxima e a mnima era muito pequena, sendo que a
mxima no chegava a 7. O clnico mandou suspender o aceticoline,
pois estava me fazendo muito mal,

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causando problemas circulatrios. Continuei fazendo repouso
absoluto e dieta, das acompanhada pelo Dr. Ciro e seu assistente,
Dr. Galo. Nessa poca eu ficava horas num aparelho apropriado e
uma moa desenhava o meu fundo de olho, porque o Dr. Armando Galo
ia para um Congresso na Europa e ia levar o meu
caso para ser debatido, como realmente o foi. Comearam ento as
experincias.

Fizeram a reao de Mantu, deu positivo. Uma das hipteses era que
oito fosse tuberculose ocular. Resolveram que eu tinha de tomar
injeo de ouro: um pozinho
que custava, sei l, uma verdadeira fortuna  - e eu tinha de tomar
na veia. Por volta dessa poca se anunciou a vinda do Dr.
Ermenegildo Arruga, o maior
oftalmologista espanhol ento conhecido. Diziam que ele era uma
pessoa muito rude, muito grosseira e muito difcil e que daria
algumas consultas em So Paulo. Mame marcou uma hora. Papai tinha
uma pequena chcara no Carandiru ma que vendeu para pagar meus
tratamentos e principalmente essa consulta. Ontem,
como hoje, uma doena grave afeta o oramento da famlia.

O dia da consulta do Dr. Ermenegildo Arruga foi memorvel. Acho
que nunca mais vou esquecer aquela angstia, todo mundo na sala de
espera sabendo de que
o grande professor l estava. Havia muita gente que gostaria de
ser examinada por ele, mas apenas alguns poucos o foram. Eu me
lembro que estavam comigo Dr. Ciro e Dr. Armando Galo. Havia mais
oftalmologistas quando o Dr. Arruga me examinou. Ele disse que era
um caso rarssimo e muito grave, e na opinio
dele, eu no voltaria a ver. Quando ele comeou a expor, o Dr.
Ciro fez
sinal para que no falasse na minha frente. Mame percebeu o sinal
e disse: "O senhor pode falar quais so seus prognsticos, porque
quem est sem enxergar  e Dorina e eu acho que o senhor deve
dizer tudo na frente dela mesmo".

Dr. Arruga foi muito srio, correto e mostrou que a causa da minha
cegueira realmente no podia ser diagnosticada. Prognstico:
"Lamentavelmente na minha opinio ela nunca mais poder ver". Foi
um momento de grande emoo, frente  realidade dura e crua, e eu
pude sentir a consternao dos mdicos que me tratavam h algum
tempo. A realidade, porm,  muito melhor que a promessa de uma
iluso...

Continuei muito tempo em tratamento no consultrio do Dr. Ciro
Resende. As vezes era divertido porque os pacientes esperavam
bastante e conversavam com
as pessoas que estavam fazendo tratamento semelhante, em geral
pessoas mais idosas. Um belo dia Dr. Ciro Resende disse a papai e
mame que infelizmente
no poderia fazer mais nada e que papai procurasse um
oftalmologista que eu talvez pudesse fazer alguma coisa por mim na
Argentina  - Dr. Assuero.

Meu tio era muito amigo de um oftalmologista em So Paulo, Dr.
Rocco, que me aplicou vrias injees no olho e fez uma srie de
tratamentos, sem

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nenhum resultado. Comeamos a desanimar. Eu levava a minha vidinha
em casa e passei a sair um pouco. O velho professor Palmieri
voltou a me dar aulas de ingls
e francs, aulas de conversao. Comecei a fazer tric, eu gostava
muito de bordar, de fazer renda de Milo que tinha aprendido no
Elvira Brando. Minha amiga Jacy tinha um tio oftalmologista, Dr.
Francisco Amendola, tio Chiquinho, como eu o chamava, que tentou
outra experincia: uma ionizao no meu olho esquerdo  - o olho
direito estava demasiado afetado. Senti dores violentssimas
nesse olho, devido a um glaucoma secundrio.

Eu era medicada, mas sempre com uma ameaa, como uma espada, na
minha cabea. Se eu no agentasse era preciso retirar o globo
ocular e colocar uma
prtese. Assim passei anos agentando aquelas dores. Pingava
pilcarpina, nem sempre melhorava, mas agentei porque tinha pavor
e no queria fazer uma enucleao. No olho esquerdo eu tinha
percepo luminosa.

Um dia, durante uma das aplicaes, tio Chiquinho de repente me
perguntou se eu sabia o que era braille. Respondi que no. Ele
contou que Louis Braille, um jovem
cego francs, tinha inventado um alfabeto para pessoas cegas. Tio
Chiquinho foi a primeira pessoa que mencionou esse assunto. No
dei muita ateno, mas em
todo o caso o nome ficou e a lembrana tambm.

Mame comeou a ler italiano para mim e foi assim que aprendi esse
idioma. Vov falava o dialeto napolitano misturado com portugus e
minha me falava um italiano
correto. Lembro-me que nessa poca havia o jornal italiano
Fanfuila, mame lia para mim os romances em srie desse jornal.
Dona Carmen Santos Meira de Vasconcelos,
mais tarde minha madrinha de crisma, soube que eu estava cega e
decidiu visitar-me. Disse que soubera que eu tinha ficado cega. PC
e que gostaria muito de me conhecer melhor. Assim comeou uma
amizade maravilhosa.

Dona Carmen era uma senhora muito bonita, de cabelos brancos e seu
marido era um homem bem alto, moreno, do tipo bem brasileiro.
Desde quando mudei para a rua Augusta,
aos 11 anos de idade, Dona Carmen ficava me olhando enquanto eu
esperava o bonde, ou quando eu saa a p para o Elvira Brando.
Mais tarde ela contou que gostava
muito de me ver, porque eu devia ter a idade da filha que ela
havia perdido ao nascer. Apesar da grande diferena de idade Dona
Carmen achava que eu me parecia muito
com ela. Tanto era verdade que um dia ela pegou uma fotografia de
quando era moa, com uma roupa e um chapu do sculo passado e
mostrou a fotografia em minha casa.
Papai ento perguntou: "Onde tu arrumaste esta roupa, minha
filha?". Realmente, nos parecamos muito. Quando ela tirou essa
fotografia deveria ter minha idade,
uns 17-18 anos e era muito parecida comigo, a ponto de todos
perguntarem como  que eu havia me vestido daquela maneira.

pag:12

Quando me visitava, minha madrinha lia para mim todos os clssicos
franceses. Assim, melhorei muito o meu conhecimento de francs.
Ela lia muito Racine, Comeille, Daudet. Eu ouvia sempre duas
lnguas: francs e italiano. Tive de me acostumar a ouvir, pois,
antes, na escola, quem lia em voz alta era sempre eu.

As minhas amigas iam para o Paulistano, eu morava no caminho e
elas passavam em minha casa, paravam e me faziam companhia, e tudo
isso me ajudou muito. Tive muita sorte, s conheci pessoas
maravilhosas. Em todas as
fases da minha vida, mesmo no trabalho, sempre tive ao meu lado
pessoas com quem pude contar como amigos e colaboradores. H
pessoas que ficaram cegas e que lamentam muito que os outros as
tenham evitado, abandonando-as para sempre. De forma geral, muitas
pessoas tm dificuldade em se comunicar com
uma pessoa cega. H reaes tristes e outras cmicas. Depende
muito de como a prpria pessoa cega mantm a sua auto-estima,
procurando informar aos que a
rodeiam como se deve agir, e sobretudo no tendo susceptibilidades
excessivas e desnecessrias.

A msica tambm me distraa: eu ouvia rdio, tinha muitos discos
que muita eram emprestados ou comprados, ouvia muito msica
clssica. Naquela poca ouvia-se muito mais msica. Estavam apenas
comeando as novelas no rdio, de modo
que eu me lembro de ficar ouvindo msica por horas inteiras e
tambm ouvindo as leituras sobre literatura e religio. Assim,
mais de trs anos de minha vida foram preenchidos por essas
atividades.

Houve uma noite, porm, que, tenho a impresso, marcou uma etapa
em minha vida. Eu estava ouvindo pelo rdio a transmisso de uma
festa organizada por Alfredo
Mesquita no Municipal e minhas colegas do Elvira Brando estavam
participando da festa: Noite de So Paulo. Lembro-me que estava
ouvindo, sozinha sentada no hall,
quando percebi um nmero enorme de hemorragias. Senti que o
pouco de percepo que eu tinha de luz foi se tornando tnue, foi
desaparecendo. Continuei percebendo a luz, mas j no dava quase
projeo: era como se tivesse
uma tela cheia de pequeninos vagalumes, pontos luminosos e pontos
pretos que se mexiam na minha frente  - o que os mdicos chamam de
"exudato"  - eram os pontos de hemorragia, e o sangue que se
coagulava destrua a retina e dava
essas sensaes de luz, de luminosidade, e at hoje  isso o que
eu vejo. Todo mundo fala das trevas ligadas  cegueira. No so
trevas o que eu tenho na minha
frente,  um caleidoscpio com luminosidades, manchas escuras,
tudo sempre em movimento. Felizmente, s percebo essa cortina
movimentada quando penso nela
ou tento descrev-la. De resto, ela no me perturba e nem sequer
me lembro que ela existe.

Naquela noite eu vi as hemorragias se sucederem e a eu me lembro
- lembro perfeitamente  - disse a mim mesma: "Voc est cega". Foi
um vaticnio,

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uma afirmao que fiz a mim mesma e enfrentei a palavra "cega"
pela primeira vez. No enxergo. No posso ver. Todas as pessoas
que perdem a viso procuram de todas
as maneiras evitar as palavras "cega", "cegueira", porque  uma
dura realidade. A aceitao dessas palavras significa aceitao de
um estado definitivo, imutvel, porque
a cegueira, num caso como o meu,  imutvel. Conformar-se com uma
situao no  passividade que joga a pessoa na cama numa
inanio, absolutamente.  a aceitao de
um fato, de uma realidade. De acordo com a minha personalidade, a
minha forma de ser,  prefervel uma realidade dura a uma iluso.
A esperana verdadeira tem o
fundamento dentro de si, porm a iluso  infundada; de modo que
sempre me lembro daquela noite, daquele momento e o que ele
representou na minha vida. Ningum podia
me fazer compreender a nova situao. Foi a vida que me ensinou: o
meu esprito religioso e
o ambiente em que fui criada propiciaram minha aceitao. Mame
contava que ela se ajoelhou diante do altar do Corao de Jesus e
pediu a Deus um milagre "Se Dorina
no puder voltar a ver, que pelo menos se conforme, aceite e possa
assim viver".

Muitos anos depois, mame considerava ter obtido o milagre. Se no
o milagre da viso, mas o milagre da minha vida, o milagre da
aceitao.

O marido de minha madrinha, Dr. Meira, um homem muito sbio,
costumava dizer: "Pois  Dorina", com sua maneira pausada de
falar, no propriamente sarcstica,
talvez um pouco irnica: "as pessoas e os prprios pais na:
educao de seus filhos procuram educar apenas para a felicidade,
quando a vida oferece frustraes que precisam ser vencidas".

Este  um axioma no qual acredito plenamente. Devemos educar para
a vida, que no  feita de momentos felizes apenas. Precisamos
educar, fortalecer os seres humanos
para que tenham condies de aceitar frustraes, mesmo aquelas
que tenham a gravidade de uma deficincia, como  a cegueira.

Antes que esquea, ocorreu um fato muito engraado - o ltimo
retrato que tirei da janela do meu quarto. Era um quarto de
frente, na rua Augusta, foi quando chegou
aqui o Zepelin e eu estava com uma mquina fotogrfica. Isso
ocorreu quando eu j no estava enxergando muito bem. Consegui da
minha janela fotografar o Zepelin,
a ltima fotografia que eu mesma tirei. O Zepelin parecia estar em
cima dos fios dos bondes da rua Augusta.

Para minha me era muito difcil aceitar que eu tivesse que
aprender o sistema Braille. Um dia Dona Carmen tocou no assunto e
mame ficou muito triste, porque aquilo
significava a aceitao da cegueira definitiva. Quando minha
madrinha conversou com mame, resolvi que queria aprender braille.
 interessante que, at hoje, eu
tenha medo de errar. Sei que senti naquela hora medo de

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no ser capaz de aprender o sistema braille. Era uma novidade, no
sabia o que era nem me haviam dito como era. Um dia minha madrinha
me levou ao Instituto Padre Chico e no parlatrio a Irm Alves nos
recebeu. Ela era Superiora e chamou
uma irm de Caridade, moa encantadora, Irm Vicncia. Nessa
poca, em plena guerra, 1939, no havia livros em braille a no
ser os que tinham vindo da Europa.
As cartilhas que os alunos usavam eram feitas  mo no prprio
Instituto. Contaram-me que no Rio de Janeiro havia o Instituto
Benjamin Constant que
possua uma biblioteca onde se poderia pedir emprestados livros em
braille. Irm Vicncia me deu um papel e ensinou o alfabeto para
que eu treinasse em casa
com alguns exerccios. Eu lia mais ou menos, e para escrever, D.
Elza Paula Souza, amiga de minha madrinha e membro da Diretoria do
Instituto Padre Chico, deu-me uma reglete *, impossvel de ser
adquirida no Brasil naquele
momento, por causa da guerra. Escreve-se da direita para a
esquerda e l-se na posio inversa.

Irm Vicncia comentou que s tinha em braille o livro de Helen
Keller, em francs, Histoire de Ma Vie. Achei timo porque, nessa
poca, minha madrinha
lia muito em francs para mim e eu j havia estudado um pouco com
um professor particular e com Mademoiselle Vitale.

Em braille, cada vogal acentuada tem uma configurao diferente de
pontos em relevo. A lngua francesa tem muitas letras acentuadas e
isto me auxiliou muito na fixao de letras diferentes. Achei
excelente porque o problema era
decorar a posio das vogais acentuadas em francs. Eu conhecia
bem a acentuao,
ento peguei o livro de Helen Keller, e foi assim que li o meu
primeiro livro em braille.

Nessa poca Mrio, meu primo, estava namorando Olga, cuja irm
Helena era professora de piano e aluna do grande professor Klias.
Resolvemos fazer
uma experincia. Decorei o cdigo de musicografia braille e
recomecei a estudar
piano, tendo Helena como professora. Helena ditava as msicas e eu
transcrevia em braille. Primeiro a mo direita e depois a
esquerda. Decorei desta forma exerccios e msicas. Cheguei at a
tocar algumas peas de Chopin, Lizt e Bach.

Numa temporada em Lindia, com mame, Amlia e Afonso, conheci
um oftalmologista gacho, prof. Dr. Ivo Corra Meyer. Dr. Ivo me
viu e se inte-

NOTA DE RODAP:
* REGLETE  - Aparelho de origem francesa utilizado para a escrita
braille. Consiste em uma placa de metal com pontos correspondentes
ao sistema braille em baixo relevo, com uma moldura de
metal que fixa o papel. Nesta moldura move-se uma grade com celas
do sistema braille. Acompanha uma puno ou estilete, para que a
pessoa pressione o papel atravs da grade
produzindo os pontos em relevo correspondentes a cada letra.

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ressou pelo caso. No olho esquerdo eu tinha percepo luminosa e
tinha uma catarata. O olho direito j no tinha mais jeito. Dr.
Ivo me viu mergulhando na piscina e nadando. Pediu-me que no
mergulhasse mais e me perguntou se eu gostaria
de fazer um tratamento, seria uma cliente mesmo  distncia.

Quando chegamos a So Paulo ele me examinou em colaborao como
tio Chiquinho, Dr. Francisco Amendola, e props  mame e papai um
tratamento. Dr. Ivo informou
sobre o caso de uma moa, exatamente igual ao meu, e que depois de
um tratamento longo de um ano fazendo repouso absoluto em um lugar
de clima muito bom e alimentao
reforada, essa moa havia recuperado uma boa parcela da viso e
continuava vendo bem.

Para meu repouso procuramos um lugar de preo razovel, onde mame
e eu no ficssemos sozinhas, e prximo de So Paulo, para que
papai pudesse nos ver todo final
de semana. Encontrou-se uma fazenda em Valinhos, num lugar bem
alto e que se chamava Fazenda Hotel So Bento. Tnhamos um quarto
com todo conforto, e fiquei l praticamente um ano.

A comeou a minha vocao para a profisso que eu sempre havia
evitado  - ser professora. Comecei a me interessar pelas crianas
do lugar, crianas muito pobrezinhas.
Resolvi dar aulas de Catecismo para essas crianas. Elas vinham e
ficavam sentadas perto de minha cama e eu lhes dava aulas. Comecei
ensinar tudo, inclusive higiene.
Todos tinham de vir de rosto e mos lavados Pela manh cedinho
mame os ouvia lavando o rosto e as mos, numa bica que havia
perto do hotel.

Por acaso, um hspede do hotel lendo Selees Reader's Digest,
soube que havia a edio em braille nos Estados Unidos. Resolvemos
escrever pedindo informaes. Logo
depois recebi todas as informaes de como fazer a assinatura
mesmo durante a guerra. O preo era um dlar apenas, uma
subscrio especial para a edio braille.
Se a pessoa cega no pudesse pagar, havia pessoas que pagavam a
assinatura em favor dela, Era impossvel mandar dinheiro naquela
poca, devido  guerra, e graas a
essa subscrio eu pude receber a revista. A direo do Reader's
Digest informou tambm que eu precisava fazer um curso de
abreviaturas do sistema braille em ingls,
pois nos Estados Unidos, os livros revistas em braille eram
transcritos atravs de um cdigo de abreviaturas: Englis Braille
Grade 2.

Recebi junto o endereo da Hadley Correspondence School for the
Blin (que at hoje  a escola de correspondncia para cegos por
excelncia). Nos meses seguintes escrevi
pedindo o mtodo. Essa escola proporciona at hoje outros cursos
tambm, mas na ocasio o que me interessava era a aprendizagem do
braille

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a uma ingls abreviado. A Hadley School possui filiais em vrias
partes do mundo, ido na inclusive no Brasil. A filial brasileira
teve incio dentro da nossa Fundao.

Quando recebi as respostas j me encontrava em So Paulo, para ser
examinada pelo Dr. Ivo e ver se tinha condies de operar a
catarata do olho esquerdo. O professor Ciro de Resende no
aconselhava essa operao, porque trata- achava que o vtreo do
olho esquerdo iria projetar-se para a frente, que
o olho no tinha consistncia para agentar a operao. O
professor Ivo Corra Meyer insistiu em fazer mais essa tentativa.

De qualquer maneira eu tinha s um pouco de percepo luminosa:
sabia se era dia ou noite e via lmpada acesa. A viso era muito
restrita, muito truncada. O que eu tinha era percepo luminosa em
partes da retina. Aps o exame,
ficou marcada a minha cirurgia durante a permanncia de Dr. Ivo em
So Paulo.

Fui para o Hospital Santa Ceclia. Tio Chiquinho assistiu 
operao. Permitiram que mame assistisse tambm - alis, ela
nunca me deixou s em cirurgias ou tratamentos. Percebi quando Dr.
Ivo tirou a minha catarata  vi perfeitamente o vulto de sua mo
- fiquei muito contente. Essa operao requeria repouso absoluto.
Fiquei na cama sem poder me mexer e estava muito animada, porque
achei que tinha melhorado. Pelo menos eu poderia ver mais um
pouco. Nessa oportunidade chegou da Hadley School todo o material
para o estudo do cdigo de abreviatura do sistema braille ingls,
grau 2. Lembro-me que mame disse: "Mas que bobagem; agora que vai
enxergar, voc no vai precisar disso" e eu disse: "Bom, enquanto
estiver na cama, vou estudar este mtodo. Vou
aprender mais alguma coisa que poder ser til, se a viso que
resta no der para ler os caracteres comuns".

Estvamos em pleno carnaval. No sbado, outro oftalmologista
resolveu tirar os pontos para que eu pudesse voltar para casa.
Neste dia fomos todos infelizes.

Quando ele colocou o separador de plpebras para tirar os pontos,
a pea escapou-lhe da mo e feriu o olho operado. A enfermeira,
horrorizada, largou o recipiente que estava debaixo do meu rosto e
saiu do quarto. Mame desmaiou. Foi um choque terrvel para ela e
para todos. O oftalmologista ficou muito triste e muito magoado
com o sucedido. Sempre me tratou com muito carinho e eu
tenho pela memria dele um carinho todo especial tambm. Uma
amizade muito grande que no ficou abalada por este incidente
terrvel. Colocou um tampo sobre o olho e me deixou em repouso
absoluto at a volta do Dr. Ivo Corra Meyer. Eu no sabia se
havia piorado, no tive tempo nem de perceber e assim
fiquei no hospital tomando remdios por mais de um ms. Nesse ano
assisti ao carnaval acompanhando o rudo do corso na Av. So Joo.
Quando o prof. Ivo

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chegou, me examinou e ficou numa tristeza profunda porque
realmente o vtreo estava se desfazendo e eu estava perdendo cada
vez mais a viso.

Lembro-me bem do dia em que sai do hospital. Cheguei a ver um
tecido estampado de azul marinho e bord. Vi com muita nitidez
atravs do pedao de retina que me restou.
Nunca esqueci esta cena, ficou gravada em minha memria porque foi
a ltima imagem que tive. Logo depois fiquei completamente cega.

Dr. Ivo continuou se correspondendo conosco muito magoado, muito
triste pelo terrvel insucesso. Como aproveitei para estudar
durante os dias tristes no Hospital Santa
Ceclia, sa de l dominando o sistema braille ingls grau 2. A
coincidncia da chegada do mtodo de abreviaturas, justamente
naqueles dia, nada mais foi do que a Providncia
Divina para que eu acrescentasse mais um conhecimento til para os
dias que viriam.

Sr. Caldas era um amigo de papai; um senhor portugus de famlia e
esprita. Realizavam sesses e pediram licena para fazer uma em
minha casa Diziam que eu tinha
mediunidade, que precisava acreditar porque se acreditasse,
conseguiria voltar a ver. Era um problema de "encosto". Ficava nas
reunies que eles faziam em minha casa,
mas me recusei a ir a qualquer centro porque no sentia
necessidade. Receitaram uma srie de tratamentos, alguns trgicos:
eu me lembro que mandavam pr nas tmporas
 - eu tinha de dormir com isso  - um bife de fgado cru, preso por
uma atadura. Mame fazia tudo o que era possvel, ela esperava que
houvesse possibilidade atravs
desses tratamentos, porque a medicina j havia me abandonado.

Surgiu tambm uma moa que fazia milagres, conhecida como a Santa
de Bebedouro. Levaram a Santa at minha casa. Deu-me uma bno e
mando fazer um ch com folhas
diversas e lavar os olhos. Todos afirmavam que eu ia voltar a ver.

Apareceu ainda aqui em So Paulo um senhor esprita que, segundo
comentrios, curava mesmo. Esse dia foi muito interessante.
Arrumaram uma forma de ele me atender
e junto comigo uma afilhada de mame, Odete Barbosa, que tinha
sido minha companheira de infncia. Odete era quase totalmente
surda. Fomos com Amlia, minha irm, a
um local onde ele atendia. Quando chegamos na porta havia uma
multido enorme. Tnhamos uma carta para poder entrar, mas os
guardas no nos deram ateno e fizeram
um cordo de isolamento para fazer o povo arredar do porto. Era
uma multido: a maioria pessoas doentes, outros curiosos, outros
espritas que queriam chegar perto
desse homem. Ao tentarmos passar por baixo dos braos dos guardas,
Amlia ficou do outro lado. Eu no sei que fora imensa fui capaz
de ter, que levantei o brao do guarda para

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Amlia ficar perto de ns, nunca esqueo dessa cena. Entramos na
tal casa, eu e Odete. J que eu fui, tinha de entrar.

Assistimos todo o ritual da sesso esprita. Foi muito chocante:
pessoas que falavam com voz de outra, mulheres falando com voz de
homem, com espritos que baixavam,
gente que tinha verdadeiros acessos esquisitos: gritavam e
tremiam. Foi uma experincia impressionante e eu e Odete l dentro
da casa, s pudemos entrar sozinhas,
ns duas: ela via e eu ouvia. Assim fomos passando pelas salas e
ele deu mil passes em mim e em Odete, perguntando: "Voc est
enxergando?" e eu: "No!". "Est ouvindo?",
Odete dizia: "Eu no!" Nenhuma de ns duas obteve qualquer
melhora. Para dizer a verdade, ns ficamos muito emocionadas e eu
at fiz uma grande fora mental para
ver se alguma coisa acontecia, mas nada foi possvel. Na sada, no
fim do corredor, do alto de uma escada, algum dizia para o povo:
"Esta moa entrou cega e est
enxergando". No tive dvidas, berrei a plenos pulmes: "Eu no
estou enxergando coisa nenhuma, estou saindo como entrei". E
samos correndo, eu e Odete, ao encontro
de Amlia. Foi um dia terrvel! O mdium era famosssimo. Todas as
pessoas doentes iam consult-lo, mas as coisas eram muito mal
organizadas. Enfim, esses so os
fatos de que me lembro e que me aconteceram entre 1937 e 1943.

A mim, basta saber que h milagres, embora eu no tenha podido
receber o milagre que sempre pedi a Deus. Gostaria de ver, de ter
conhecido ainda mais jovem o rosto
de meu marido, de meus filhos, de ver outra vez os meus pais. No
foi possvel, mas tive outras alegrias.

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SABER RECOMEAR


CAETANO DE CAMPOS

Passava meus dias tranqilamente, quando um dia ao sair da missa
da Congregao Mariana do Colgio So Luiz, quiseram os fatos que
eu conhecesse Regina Piraj da
Silva. Algumas fases da minha vida, depois que perdi a viso,
foram marcadas pelo encontro com pessoas como Dona Carmen, o
embaixador Macedo Soares, que me ofertou
a primeira mquina de escrever em braille, mquina que me foi
muito til, e Regina Piraj da Silva.

Regina Piraj era filha do professor Manoel Piraj, um dos
cientistas pesquisadores de esquistossomose, que ficou famoso por
ter descoberto o esquistossoma.
Nessa poca j havia me mudado para a rua Joo Pinheiro. Regina
foi me visitar e mostrei-lhe que era importante que os livros
fossem copiados em braile padro para
que houvesse facilidade para as pessoas cegas. Ficamos muito
amigas. Um belo dia, Regina foi novamente me visitar e disse que
ia me fazer um convite para assistir
a instalao de uma biblioteca braille, que ela estava ajudando a
organizar. A instalao foi na escola Caetano de Campos, onde
Regina era inspetora de alunos.
Fui assistir  sesso inaugural, e tive a felicidade de conhecer
Dona Carolina Ribeiro, a diretora, que me perguntou se gostaria de
continuar meus estudos, freqentando
o curso Normal. Eu disse que sim, mas que era meio impossvel
porque eu no tinha carro e no teria quem me levasse  escola.
Eram muitas as dificuldades e Regina
e Dona Carolina pediram s inspetoras do

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Normal para verificar entre as alunas matriculadas naquele ano de
1943, se havia algum que morasse perto de minha casa. Neith Moura
morava realmente perto. Regina
e Dona Carolina achavam que era uma boa oportunidade para tentar
uma experincia com uma aluna cega.

A entrada para a escola Caetano de Campos foi um marco em minha
vida. Interessante lembrar que muitos diretores do Departamento de
Educao do Estado de So Paulo,
no acreditavam na possibilidade da minha participao como aluna
regular no curso Normal. Houve um diretor do Departamento de
Educao do Estado, segundo Dona Carolina
me contou, que afirmou; "Como  que uma moa, uma aluna to
diferente que no tem possibilidade de ver, de estudar, de
acompanhar a classe, poderia ser colocada
numa escola para dar aula!" Ele afirmava que eu me sentiria muito
infeliz e muito frustrada.., O cego pode ficar frustrado por
situaes ambientais pouco favorveis.
Quantos alunos videntes por razes outras no se sentem tambm
frustrados?

Foi nessa poca que se estabeleceram as bases de todo o trabalho
que eu viria a desenvolver. Foi nessa poca que tudo nasceu...

Assim comecei a freqentar o primeiro ano da Caetano. Dona
Carolina, propositadamente no me apresentou a nenhum professor,
simplesmente fui para
a classe em que Neith estava, a classe mais forte do primeiro ano.
Todos os
professores que se deparavam comigo ficavam preocupados sem saber
como tratar uma aluna cega.

A professora de Metodologia, Zuleika de Barros Martins Ferreira,
uma mulher brilhante, progressista, logo percebeu minha presena e
aceitou-a como que um
desafio. Incluiu-me em todas as atividades sem discriminao,
embora ningum pudesse imaginar qual seria o resultado.

A adaptao  Escola processou-se normalmente. Era uma classe
homognea, no me fizeram sentir que eu fosse diferente. Eu, pelo
menos, nunca me senti
diferente. A curiosidade a meu respeito era apenas normal, nunca
exagerada. Algumas alunas se aproximavam mais no incio, outras se
aproximavam normalmente
mesmo porque Neith j pertencia  classe. Eu era um pouco mais um
velha do que a maioria porque fiquei sem estudar durante oito
anos. Um fato que me impressionou:
lembro-me que uma vez eu tinha de fazer um programa na era rdio,
uma entrevista, e os professores dispensaram a classe mais cedo
naquele dia para quem quisesse
me acompanhar. Alm de Neith, a nica que foi comigo foi
Aparecida. Ainda h pouco, depois de muitos anos, nos encontramos
e eu jamais me esqueci do interesse que ela demonstrou.

Metodologia foi a matria na qual me apoiei muito e da qual tirei
inspirao para comear um trabalho novo. Dona Zuleika dava muito
pouca teoria,

pag:21

eram sempre aulas prticas. A classe era dividida em grupos que
deveriam fazer trabalhos e estgios. Lembro que me entusiasmei
pelos mtodos de ensino e pedi a Dona
Zuleika para fazer uma visita ao Instituto Padre Chico. No
terceiro ano Normal propus a Dona Zuleika que nosso grupo de
Metodologia fizesse um estudo sobre educao
de cegos. No havia bibliografia referente ao tema Havamos feito
um estgio de observao no Instituto Padre Chico e outros no
Instituto de Cegos da Moca, que
era dirigido por Gilda Pires. Visitamos tambm o Instituto da Rua
Carandiru que havia sido criado por um cego que ficou famoso: o
professor Mamede Freire. Eu disse
a Dona Zuleika que no queria esperar minha formatura para iniciar
o trabalho com educao de alunos cegos. Nosso grupo de
Metodologia, formado por oito alunas,
era assim composto: Cecilia Ticcianelli, Dayse Malpighi, Teresinha
Fleury de Oliveira, Neith Moura, Anita Amoroso Lopes de Barros,
Layrsis Bittencourt de Carvalho,
Teresa Lopes Ablas e eu. Dona .Zuleika disse que no tinha nenhuma
informao cientfica para poder nos orientar.

O trabalho foi realizado a ttulo experimental, uma experincia
pedaggica que deu excelentes resultados. Esse grupo foi
extraordinrio, fez os estgios regulares
da cadeira de Metodologia e outros com crianas cegas. O grupo se
entusiasmou e o Instituto Padre Chico permitiu que essa
experincia pedaggica fosse realizada
l. Eu procurava orientar de acordo com a minha experincia de
pessoa cega; at certo ponto isso poderia ser contestado, Todo o
grupo aprendeu o sistema braille,
criou cartilhas, livros de leitura intermediria. Quanto 
alfabetizao, aplicamos o mtodo analtico sinttico  - mtodo
adotado por nossa professora de Metodologia.
Partamos da frase para a palavra e da palavra para a slaba.
Muitos duvidavam da possibilidade de se usar esse mtodo na
alfabetizao de crianas cegas. Mais tarde,
durante um curso nos Estados Unidos, observei que em vrias
escolas de diversos estados esse mtodo era aplicado da mesma
forma que fizemos no Brasil.

Nenhuma de ns, nem mesmo eu, podia imaginar at onde esse
trabalho iria, at onde isso alcanaria, o que me fez lembrar
Elisabeth Leseur: "Quando se faz o mal no
se sabe quanto mal est se fazendo e quando se faz o bem, tambm
no se sabe quanto bem se faz".

Cada estgio da cadeira de Metodologia abria novos caminhos para o
grupo, que buscava integrar os educandos cegos na vida escolar da
comunidade. Um desses estgios
se transformou numa realizao prtica que contribuiu para o
programa de educao e cultura para as crianas cegas e para todas
as outras que utilizavam a Biblioteca
Infantil Monteiro Lobato. Felizmente, a ento Diretora da
Biblioteca era tambm uma educadora aberta, procurando a melhor
utilizao dos recursos que uma biblioteca
pode oferecer  comunidade  - Lenira Fracarolli.

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Imediatamente o grupo imaginou quantas possibilidades as crianas
cegas teriam se pudessem participar das atividades da biblioteca.
O grupo apresentou sugestes  Dona Zuleika e falamos com Dona
Lenira que se prontificou a criar um setor com livros em braille.
O setor logo se transformou em sala e conseguimos
que os alunos do Instituto Padre Chico passassem a freqent-la.
Com a orientao de Dona Lenira, a equipe da biblioteca se
interessou e estava assim criado o primeiro servio para cegos
numa Biblioteca Pblica do Brasil.

Para dar nome  sala, os leitores cegos foram consultados.
Escolheram meu nome. Quando se discutiu se seria Dorina Monteiro
de Gouva ou Dorina Gouva,
as crianas responderam que bastava o nome Dorina. Uma das nossas
companheiras de grupo, Anita Amoroso Lopes de Barros, foi
contratada pela Prefeitura
como responsvel pelo funcionamento da sala. Com o crescimento da
Biblioteca Infantil, a salinha se transformou na Diviso de
Biblioteca Seo Braille do Centro Cultural de So Paulo. Grande
nmero de bibliotecas, em todo o Brasil, possuem hoje um setor de
livro braille.

Um outro fato ocorrido na Caetano de Campos foi a viagem do grupo
a Minas Gerais. Foi muito importante porque na Caetano de Campos
no havia excurses de alunos da escola Normal para estudos.
Atravs de uma amiga comum eu havia conhecido um jovem cego,
Geraldo Sandoval de Andrade, que estudava no Instituto de Cegos
So Rafael em Belo Horizonte, Minas Gerais. Passei a me
corresponder com ele. Numa de suas vindas a So Paulo, apresentei
Geraldo ao grupo e ele sugeriu que visitssemos o Instituto So
Rafael que era, de acordo com os padres da poca, uma boa escola.

Conseguimos passes de trem da Central do Brasil no carro leito e o
apoio do Secretrio da Educao e Reitor da Universidade de So
Paulo, Professor Jorge Americano. Organizamos o grupo. Era agosto
de 1945. Fomos hspedes do Governo de Minas Gerais, e ficamos
hospedados no Grande Hotel de Belo Horizonte. Alm disso foi-nos
dada a possibilidade de conhecer as cidades histricas de
Sabar e Ouro Preto e tambm a Gruta da Lapinha.

Os professores cegos do Instituto eram formados no prprio
Instituto sem cursar uma escola Normal regular. Um dos aspectos
muito interessantes foi
conhecer rapazes que formavam um conjunto musical e que tocaram em
nossa homenagem. Cada membro do grupo tinha como apelido um ttulo
de nobreza: rei, marqus, prncipe etc. E o nome do conjunto era
Titulares do Ritmo. Tocavam muito bem e fizeram um show. Ficamos
entusiasmadas com o show e prometemos que iramos estudar a
possibilidade deles serem mais aproveitados do que estavam sendo
l, embora j fossem conhecidos em Minas Gerais. Esse grupo
veio depois para So Paulo e foi muito bem-sucedido. Foram
organizados shows e mais tarde eles prprios tornaram-se
conhecidos e ficaram famosos.

pag:23

Nas visitas oficiais Geraldo e mais um ou dois alunos nos
acompanhavam. Foi-nos proporcionada uma belssima viagem a Ouro
Preto, suas igrejas e museus. A excurso foi muito instrutiva,
interessante e importante para o nosso trabalho de equipe.
Deixamos e trouxemos muitas saudades daqueles dias.

O GRUPO DE ESPECIALIZAO

Chegamos ao terceiro ano do curso Normal. O trabalho do grupo de
especializao progrediu, desenvolveu-se e tive a sensao de que
era preciso que alguma providncia
fosse tomada para que o mesmo fosse reconhecido pelo Departamento
de Educao da Secretaria de Educao do Estado de So Paulo, Fui
a Dona Carolina e perguntei o
que era preciso fazer para que a nossa experincia na educao de
cegos fosse oficializada. Ela prontamente me respondeu que era
preciso uma solicitao ao Departamento
de Educao do Estado, para saber se nossa experincia tinha os
requisitos necessrios. Perguntei-lhe se eu poderia buscar essa
soluo. Para minha surpresa ela respondeu:
"Voc  suficientemente doida para fazer isso, mas v com Deus e
com a minha bno".

Conseguimos, foi feito um relatrio para o Departamento e marcadas
as provas prticas exigidas. Foi designada uma banca composta por
um professor - do Instituto
Padre Chico, a professora de Metodologia da Caetano, sempre a
querida Dona Zuleika e um representante do Departamento de
Educao do Estado, professor Elisirio
Rodrigues de Souza. Pesquisei - este foi o primeiro curso, na
Amrica Latina, especializado na Educao de Cegos, realizado
dentro de uma escola de Formao de Professores
e que se transformou num curso regular.

Essa nossa experincia de um grupo de oito alunas da Escola
Normal, da professora de Metodologia com apoio da Diretora, e
outros que tambm nos deram a sua colaborao,
foi o incio das especializaes que depois foram criadas com base
neste primeiro trabalho simples, mas realizado com muito interesse
e entusiasmo, vontade e criatividade.

Ao mesmo tempo, a Cruz Vermelha Brasileira, presidida por Dona
Izabel Gomm, encerrava seus trabalhos de cantina e costura para os
pracinhas. Mame e eu havamos
trabalhado durante o perodo da guerra e conhecamos Dona Izabel e
uma diretora, Dona Firmiana Arajo, que se interessaram pelo
problema de transcrio para o braille.
Dona Carolina entrou em contato com a Cruz Ver-

pag:24

melha e Dona Izabel, uma pessoa extraordinria, conhecedora de
trabalhos sociais no mundo todo, se entusiasmou e cedeu uma
salinha onde, com a pauta braille de Regina e algumas regletes
pudemos iniciar um trabalho de copistas
braille para comear a formar uma biblioteca. Ensinava-se braille
s voluntrias, dirigidas principalmente por Dona Firmiana, e elas
transcreviam os livros. Nessa
ocasio voltei a falar com o embaixador Macedo Soares, para
conseguir que a Companhia Paulista de Estrada de Ferro fabricasse
regletes. Foram feitas as primeiras regletes do modelo francs,
que alis ficaram muito boas, para usar no trabalho
com as crianas e para a transcrio de livros, antes mesmo do
trmino da II Grande Guerra.

Dessa forma iniciou-se um Servio Voluntrio de transcrio de
livros em hraille, contando com as alunas da Caetano de Campos e
voluntrias da Cruz Vermelha.

Todos esses esforos foram inspirados pela minha freqncia no
curso Normal e despertou o interesse de professores e alunos.
Posteriormente, as bibliotecas de livros em braille produzidos com
trabalho voluntrio tiveram inicio, com base em nossa experincia
em So Paulo.

FUNDAO PARA O LIVRO DO CEGO NO BRASIL

Tudo na vida tem sua razo de ser. Eu j afirmei que acredito na
Providncia.

A existncia de minha madrinha de crisma, o seu interesse por mim
quando soube que eu havia ficado cega, e o fato dela ter tido
contato com as e experincias de outras
pessoas cegas no Rio de Janeiro, vieram de encontro as
necessidades daquela poca em que todo um trabalho estava
nascendo. As experincias estavam se reproduzindo
e estavam dando certo. Na Cruz Vermelha j funcionava uma sala
onde copistas aprendiam o braille, mas todas sentamos a
necessidade de que era imprescindvel que
o trabalho fosse reunido em una organizao que pudesse propiciar
a criao de uma estrutura com recursos financeiros prprios para
dar continuidade a um trabalho
que certamente ultrapassa ao trmino do nosso curso Normal.

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Antes do trmino do curso ocorreram os seguintes fatos: de um
lado, Conchita Carvalho trazendo notcias dos Estado Unidos, e do
outro lado, minha madrinha que, vendo
o progresso de nosso trabalho, e conversando com uma de suas
primas - Dona Alfrida Meira Bastos, em So Paulo, lembrou-se de
uma jovem amiga de ambas, Adelaide
Reis de Magalhes, que talvez pudesse se interessar pelo trabalho.

Dona Alfrida era proprietria do Externato Meira, em So Paulo,
sogra de um irmo de Adelaide, Paulo Reis de Magalhes. Adelaide
era uma moa muito inteligente,
muito capaz, que possua recursos financeiros prprios. Minha
madrinha planejou um ch em sua casa onde eu seria apresentada 
Adelaide para ver se ela se interessaria
pelo nosso trabalho. Ela realmente interessou-se muito e disse que
gostaria de aprender o sistema braille. Foi  Cruz Vermelha,
aprendeu o sistema braille e passou
a ensinar pessoas em suas casas usando a pauta braille de Regina
Piraj. Este trabalho, acrescido ao da Cruz Vermelha, fez crescer
o nmero de livros em braille
motivando Adelaide para novas iniciativas.

Certo dia, quando eu j estava em contato com os Estados Unidos
para obteno de nossa bolsa de estudos, Adelaide disse-me ao
telefone: "Dorina, vamos fazer um
clube de livros para cegos, transformar essa biblioteca em
clube?". Em seguida tivemos uma reunio e conversamos a respeito
da importncia de que se criasse uma
Organizao, no apenas um clube. Essa Organizao deveria ter
como objetivo primordial a produo de livros, mas era preciso
prever a possibilidade de atividades
relacionadas com a Educao. Informei-a que estvamos pleiteando
uma bolsa de estudos para os Estados Unidos da Amrica do Norte, a
fim de que pudssemos obter
maiores conhecimentos. Adelaide rapidamente incorporou nossas
idias e procurou um advogado. Pediu-lhe que elaborasse o primeiro
estatuto, e sugeriu que fosse
uma Fundao, para a produo e distribuio de livros para cegos.
O nome sugerido foi Fundao para o Livro do Cego no Brasil  -
FLCB. Seu objetivo continua at
hoje o mesmo, mas deixando possibilidades para o desenvolvimento
de outras atividades.

Ao se estudar a futura diretoria da Fundao, ficou estabelecido
que a instituidora e doadora do primeiro fundo, Adelaide Reis de
Magalhes, seria a Presidente e
Ernestina Magalhes ficaria na Vice-Presidncia, j que eu deveria
partir para os Estados Unidos e l permanecer por um ano ou mais,
como realmente aconteceu. Dona
Alfrida Meira Bastos ficou como Tesoureira; Teresa Lopes Ablas,
Primeira Secretria e Teresinha Fleury de Oliveira, Segunda
Secretria. A Fundao realmente se concretizou
em 11 de maro de 1946, quando foi registrado em cartrio o
primeiro estatuto. Fiquei muito triste por no assinar a ata de
constituio. Mas era mais importante
que uma diretoria instituda ficasse em So

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Paulo para iniciar e dar continuidade ao trabalho. Recebi uma
procurao como representante da FLCB, nos Estados Unidos, a fim
de poder assinar documentos, solicitar doaes etc.

Em 1947, quando a Escola Normal se transformou em Instituto de
Educao Caetano de Campos, o curso foi integrado na sua estrutura
e abrangeu
tambm outros cursos para educao de deficientes mentais e
surdos, mas o que funcionou regularmente foi o nosso curso de
especializao em ensino de cegos. Este
 um captulo que precisa ser bem explicado porque tem uma
importncia muito grande na histria da educao. Foi o passo
inicial, real, concreto e objetivo para
que a educao de cegos se integrasse como um processo dentro da
prpria educao brasileira.

FORMATURA DA CAETANO DE CAMPOS

Os meus exames durante os trs anos foram realizados sempre com
provas escritas, Uma prova prtica porm me assustava um pouco:
era o exame prtico de concluso
do curso. Todas as alunas o temiam. A prova consistia numa aula
prtica para uma classe do curso primrio. O assunto era sorteado
com 24 horas de antecedncia para
que as alunas pudessem preparar a aula. Havia uma banca
examinadora composta de trs professoras: Dona Zuleika, professora
de Metodologia, a professora da classe
e uma professora de outra classe.

No sorteio saiu o terceiro ano primrio para mim e a matria
Religio. Era uma classe comum da Caetano de Campos.

Imediatamente pensei em dar uma aula sobre milagres. Escolhi o
milagre de Lourdes. Fui com Neith  biblioteca da escola, retirei
um livro precioso e muito antigo,
escrito uma dcada depois do milagre e fomos para casa ler.
Justamente no trecho em que Nossa Senhora pede  Bernadete que
coma as flores douradas que cresciam ao
Lado da fonte no local do milagre, Neith parou. A emoo no a
deixava continuar. Ela continuou lentamente. "Essas flores tm o
nome de dorinas, as flores eram
douradas". A fiquei sabendo qual a origem do meu nome; vem do
grego e quer dizer "de ouro". Nem  preciso contar com que emoo
eu preparei uma aula que era o passo
conclusivo de todo o esforo realizado, mas que se me afigurava
bastante difcil. Resolvi dar a aula usando o mtodo de auto
governo e utilizar os prprios alunos
para todas as atividades de demonstrao que se fizessem
necessrias.

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Dividi a classe em grupos. De um grupo escolheria um aluno para
escrever no quadro negro as palavras e frases que eu achasse
importante. O outra grupo corrigiria
os possveis erros. O mais difcil era superar essa atividade,
pois escrever no quadro negro de forma legvel com letra boa, era
uma tarefa difcil para mim. Corrigir
o que as crianas escreviam, era outra dificuldade. Tentei o
mtodo que tinha em mente e deu certo.

 preciso dizer que o assunto era Religio, mas eu precisava dar a
matria de forma globalizada, incluindo Portugus, Histria,
Geografia e Aritmtica. A Providncia
Divina cuidou de todos os resultados, desde a coincidncia do nome
at ao sucesso de minha aula. Fui auto-suficiente, s trabalhei
com os prprios alunos do terceiro
ano primrio, O assunto em si no era fcil, tive nota mxima 10
unnime. Uma das professoras no percebeu que eu era cega, deu
nota 10 pelo mtodo usado e s depois   que soube.

Depois de todos os exames prticos e escritos, ns tivemos a nossa
formatura.

A sesso solene da formatura no Teatro Municipal constou de
abertura com o Hino Nacional pelo coral de alunos, regido pelo
maestro De Chiara, a entrega dos diplomas
e os discursos. Foram escolhidas duas oradoras, Neith Moura e eu.
Fiquei aflita para preparar o meu discurso, mesmo que pequeno. Foi
convidado o embaixador Jos
Carlos de Macedo Soares, ento Interventor no Estado de So Paulo.
Dona Carolina fez com que o embaixador me entregasse o diploma,
porque ele tinha sido o doador
da mquina braille que me permitiu estudar e transcrever todos os
meus pontos. Enfim, a festa contou com a presena de muitas
autoridades civis, militares, eclesisticas.
Entre elas o Secretrio da Educao, Dr. Almeida Jnior, que falou
em nome do Governo de So Paulo.

Nessa cerimnia deu-se o incio do meu treinamento para falar em
pblico, pois haviam aproximadamente 2.000 pessoas que lotavam o
Teatro Municipal. O teatro estava
repleto e a emoo de falar diante de tantas autoridades,
Secretrio de Educao, Interventor, diretores, foi muito grande,
principalmente porque ouvir o silncio
de duas mil pessoas realmente assusta. Lembro-me de que no
princpio me senti apavorada. A emoo de todos foi to grande que
Dona Carolina esqueceu-se de prestar
uma homenagem especial ao ex-pracinha Rubens, nosso colega.

De acordo com a tradio da Caetano de Campos, todos os anos era
entregue  primeira aluna do terceiro ano Normal uma cadeira-
prmio. A diretoria da Escola e a
Secretaria de Educao resolveram designar trs cadeiras-

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prmio, duas para lecionar no ensino especializado e uma no ensino
comum, para as alunas de notas mais altas durante o curso. Minha
mdia foi 99. Neith e eu fomos lotadas no Instituto Padre Chico.

O INCIO DAS ATIVIDADES COMO PROFESSORA

Por incrvel que parea foram inmeros os problemas encontrados
quando comeamos a trabalhar no Instituto Padre Chico. Houve uma
verdadeira barreira por parte de
algumas Irms que se preocupavam muito com a nossa presena, minha
e da Neith. ramos professoras novas, no escolhidas por elas, com
idias novas, completamente
fora da rotina com que as atividades eram diariamente realizadas.
Escolhi uma classe de segundo ano e Neith uma de primeiro ano.
Resolvi no assumir classe de primeiro
ano, porque apesar da formao que havamos recebido na Escola
Normal, muita coisa ainda era resolvida empiricamente.

Lembro-me de uma aula em que eu tinha de demonstrar o rio e a
ponte. Dramatizamos a aula fazendo fila, passando embaixo da mesa
que se transformou em ponte, isso porque eu percebi que os meninos
tinham dificuldade para entender as coisas em movimento. Coisas em
movimento no so to perceptveis ao tato.

No meu primeiro dia de aula, a sensao foi arrasadora, atrs de
uma mesa, diante de uma classe embora com poucos alunos, uma
sensao inesquecvel. De incio 
um vazio, uma sensao de impotncia, at que se inicie o
relacionamento. O encontro com alunos cegos  muito mais difcil
para um professor cego. Inmeros problemas
surgiam e no momento era preciso ter iniciativa e criatividade
para resolv-los, O professor cego precisa ter muita capacidade
imaginativa para criar solues no
momento certo, solues que ele no aprendeu na escola.

As solues que nos so dadas nos cursos de formao so as que os
nossos professores nos transmitem com a sua prpria experincia.

O curto espao de tempo que lecionei no Instituto Padre Chico, de
fevereiro a abril, permitiu o conhecimento das necessidades dos
educandos cegos, e foi depois
de grande valor durante o curso de especializao e o treinamento
prtico em escolas e em classes nos Estados Unidos. Nesses
primeiros meses,

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alm dessa experincia com os alunos, enfrentamos o problema de
transporte devido  distncia de minha casa ao Instituto Padre
Chico.

Tnhamos alguma noo das necessidades para especializar
professores em padres mais modernos e mais atualizados, mas
faltava-nos o embasamento
terico e mesmo a prtica para o ensino dos cegos.

 importante esclarecer como obtivemos nossa bolsa de estudos,
pois ela foi fundamental para minha formao profissional e para o
desenvolvimento da Fundao. A
bolsa foi fruto do tal acaso que eu chamo de Providncia Divina.
Certo dia, esperando com Neith um bonde no Largo So Francisco, na
volta da Caetano de Campos como
de costume, algum desceu do bonde e me chamou. Era Conchita
Carvalho, conhecida nossa. Conchita me deu um carto com o nome e
endereo do Dr. Robert B. Irwin e
me disse: "Escreva para ele, porque eu j deixei o seu nome nos
EUA para voc obter uma bolsa de estudos". E assim foi.

Escrevemos para Dr. Irwin na American Foundation for the Blind,
explicando o que estvamos fazendo no Brasil e que ramos um
grupo, Regina, Neith e eu. Dr. Irwin
era um homem muito influente, conhecido e respeitado, e nos
escreveu, pedindo uma carta incluindo as recomendaes de
autoridades brasileiras que se faziam necessrias.
Imediatamente pensei em Dr. Jorge Americano, reitor da
Universidade de So Paulo. A sua resposta: "Menina, vou fazer a
carta de recomendao porque sempre acreditei nos jovens".

Conseguimos as trs bolsas. At meu pai se espantou, porque ele
costumava dizer que ns podamos solicitar, tnhamos toda a
aprovao dele, alis, dos trs pais
e mes, mas provavelmente, amos acabar recebendo uma bolsa de
crocodilo: trs bolsas para trs ilustres desconhecidas, ele
achava que seria um pouco difcil.

Nossa bolsa inclua trs passagens de So Paulo a Miami, de onde
seguiramos de trem para Washington e depois Nova Iorque. O
programa trazia todo o nosso roteiro,
inclusive os cursos que deveramos fazer: cursos de orientao da
vida americana em Washington, cursos de vero de junho at agosto
em Ypsilanti, na Michigan State
Normal School, perto de Detroit. E posteriormente, as sesses de
inverno e primavera no Teachers Coilege da Columbia University em
Nova Iorque.

Estvamos perto de nossa formatura e a notcia da concesso da
bolsa foi uma coisa estupenda. Foi como se um novo mundo se
abrisse. Um novo mundo
de ansiedade, um pouco de medo, esperana, novidades e desafio.

Nossa partida para os EUA foi marcada para o dia 03 de maio. Hoje
lembrando, costumo dizer que Regina, Neith e eu fomos de lambreta
para os

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EUA, na verdade, um DC3. Samos daqui em uma tarde pela Pan Air -
o vo vinha de Buenos Aires e atrasou. No avio haviam muitos
exilados argentinos por causa de
Pern. Haviam mdicos e intelectuais, que cantavam o tempo todo a
bordo; alguns cantavam peras. O vo demorado e as muitas paradas
facilitavam o relacionamento
entre os passageiros. Como atrasou muito a viagem, levamos trs
dias, no dois. Em vez de chegarmos de manh a Miami, chegamos na
madrugada do outro dia. No dia
seguinte, fomos colocadas num trem que atravessou o pas da
Flrida para Washington D.C. Foi uma viagem longa, mas estvamos
no pullman, muito bem acomodadas, comendo
sanduche, ouvindo o nome de todas as estaes. Chegamos a
Washington onde o Dr. Fales, do Instituto Internacional de
Educao, estava  nossa espera.  interessante
lembrar que tnhamos lido muito sobre o Arlington Cemetery, e foi
a primeira coisa que Regina viu do trem. Fomos para o Flawthorne
Hotel, onde por US$ 2,00 por dia
ficamos hospedadas num quarto para trs.

No dia seguinte  nossa chegada a Washington D.C. fomos ao Wilson
Teacher's Coliege Orientation Center. Mrs. Emmons, diretora do
Centro, teve uma atitude muito positiva
em relao  minha cegueira. Realizou meus testes sem pedir a
colaborao de nenhuma outra pessoa, nem mesmo de minhas
companheiras. Ela havia morado 26 anos no
Brasil. Era um encanto de pessoa com quem imediatamente nos
relacionamos. Recebamos todas as instrues de sobre vivncia:
como comprar comida, como ir e voltar
usando o trolleybus etc. Trs dias aps a nossa chegada, deixamos
o hotel e mudamos para o Kilbourne l'lace, onde alugamos um
apartamento pequeno no terceiro andar
de um prdio, compreendendo dois quartos e um banheiro privativo.

Em Washington, muitas foram as gafes que cometemos, por isso mesmo
havia esse processo de ajustamento  vida americana que era
proporcionado pelo centro de orientao
onde passvamos o dia, tnhamos aulas, estudvamos e depois
voltvamos para casa

Acontece que durante o percurso entre a nossa casa e o centro de
orientao, Neith e Regina iam contando tudo o que viam, lendo os
letreiros e um dia elas leram
"White Venetian Blinds Corporation" e discutimos: isso deve ser
uma organizao de cegos e como havia a separao de raas,
imaginamos que fosse uma organizao
de cegos venezianos brancos. Durante a aula, Mrs. Emonns sempre
perguntava o que a gente via ou fazia. Eu mesma levantei nesse dia
e disse o que a gente havia encontrado:
uma organizao de cegos a "White Vene tian Blinds Corporation", e
que gostaramos de visit-la. A professora caiu na gargalhada, 
claro, e a nos explicou que
"White Venetian Blinds Corporation", era uma empresa que vendia
venezianas, porque venetian blinds em ingls, significa
"venezianas" ou "persianas".

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As ruas de Washington eram uma maravilha, visitamos o cemitrio,
assistimos em 30 de maio ao "Memorial Day", uma cerimnia
belssima que se realiza no Arlington Cemetery, no tmulo do
soldado desconhecido. L no se comemora o Dia de Finados, em 02
de novembro, mas sim o dia 30 de maio. So convidadas todas as
Embaixadas e cada uma se apresenta com uma coroa de flores, no
horrio marcado. Ficamos a uma certa distncia, mas o suficiente
para Neith e Regina descreverem todo o cerimonial. Alis, os
guardas eram impressionantes.

Uma coisa que chamava ateno nas ruas de Washington era a
limpeza. Ningum jogava papel na rua porque as multas naquela
poca eram de 10 e 20 dlares. As caixas de lixo funcionavam
perfeitamente bem. Nossa adaptao foi muito agradvel,
principalmente porque ocorreu nas primeiras cinco semanas antes de
iniciarmos o primeiro curso de Ypsilanti na Normal School no
Estado de Michigan pertinho de Detroit, departamento de uma das
universidades locais. Fizemos l um
curso de frias de seis semanas. O curso era para preparao de
Home Teachers, professores domiciliares para pessoas cegas.
Recebemos as passagens e fomos de trem
para Ypsilanti, que era praticamente uma cidade universitria
muito pequena, junto ao imenso campus onde ficava a Escola Normal.

Estvamos em pleno vero, que em Michigan no  muito intenso.
Miss: Evelyn Mackay era nossa professora de Histria e Filosofia
de Trabalho com Cegos. Comeamos ento o contato com a American
Foundation for the Blind (AFB), para a
qual Miss Mackay trabalhava. O curso era organizado pela prpria
AFB. Tnhamos uma professora de Servio Social, uma das matrias
mais importantes desse curso.
Eram fundamentos de Servio Social de Casos, e a professora, Miss
Pauline Goflup, era uma catedrtica da Universidade de Michigan.
Tnhamos a matria Problemas
Correntes Relacionados com as Pessoas Cegas, uma srie de temas
dados por diversos professores, em forma de palestras. Fundamentos
de Psicologia Educacional, dada
por Berthold Lowenfeld. Montanhas de livros para ler. As outras
estudantes americanas, quase todas cegas, tinham mais facilidade
para ler em braille. Eu lia mais
lentamente o braille em ingls. Havia voluntrias que liam para as
pessoas cegas. Foi muito bom porque quando Neith e Regina liam, a
pronncia era de brasileiras
lendo ingls, ao passo que a da voluntria era excelente e em sua
prpria lngua, o que me facilitou o melhor conhecimento do
idioma.

J havia nessa poca nos EUA uma lei para pagamento de ledores
para estudantes cegos. No era para o meu caso, pois eu era
estrangeira. Com essas leituras, pude
estudar melhor. Graas a uma concesso especial feita s pessoas
cegas, consegui comprar a minha mquina de datilografia que havia
numa determinada loja de Washington.
O mesmo passou-se com a minha mquina braille,

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s consegui uma de segunda mo foi cedida por uma freira cega:
Sister de Salles do Convento  Mary Knoll, do Estado de Nova
Iorque. Eu tomava nota das aulas, e com as duas mquinas podia
preparar meus trabalhos. No precisei usar reglete, aparelho mais
lento e para mim mais cansativo. Minhas provas e relatrios eram
datilografados.

No curso de Home Teacher, todas as moas eram maiores de trinta
anos, com algumas excees; algumas tinham o curso de Assistente
Social. Mas no era compulsrio ser assistente social. Depois dos
avanos das tcnicas de reabilitao, essa funo sofreu
transformaes.

Gostei muito dos professores. Mais uma vez quero me referir ao Dr.
Berthold Lowenfeld, nosso supervisor, que acima de tudo foi um
mestre do maior gabarito e por inesquecvel.

Em julho terminamos o curso de frias e antes de iniciarmos a
sesso de inverno da Columbia University, na American Fundation
for the Blind, como os superiores no soubessem o que fazer
conosco durante algumas semanas, planejaram uma estada nos que
eles chamavam Colnia de Frias, em Rest Haven, Monroe Orange
Country. Ficamos dois ou trs dias em Chicago, e da fomos para
Rest Haven. As pessoas cegas que l estavam eram quase todas
idosas, ou artistas e pessoas que no tinham oportunidade de ter
frias. Essa casa havia pertencido a uma famlia que doou esse
imvel a American Foundation com a finalidade de transforma-la em
uma casa de repouso (colnia de frias) pra pessoas idosas. Cada
pessoas cega tinha direito a um acompanhante vidente que tambm
tinha as frias de graa, mas tinha por obrigao atender s
pessoas cegas, que as tratavam como verdadeiros vassalos.

Houve um fato terrvel para mim, nessa ocasio, Era um dia em que
todos tinham de se fantasiar como no carnaval e ir de Rest Haven
at a cidade. Eu j tinha estudado um pouco de histria e
filosofia de educao dos cegos e tinha visto a histria do
prprio Valentin Hauy, que se impressionou com os cegos mascarados
trabalhando numa feira nos jardins de Paris. Ento aquilo me deu
um verdadeiro pnico. Recusei-me, mas tive que acabar
participando, no podamos ser insubordinados. Tenho a impresso
de que eu no me fantasiei, apenas me vesti com uma saia longa.

Se fosse uma festa de gente de nossa idade seria muito divertido,
mas ver aquelas pessoas cegas, j idosas, fantasiadas. Elas
gostaram, para elas aquilo era um divertimento. Para mim um
verdadeiro ultraje.

Teramos de permanecer mais tempo em Rest Haven, at o inicio do
curso na Columbia University em Nova Iorque. Escrevemos a American
Foundation, pedindo para ir um pouco antes para Nova Iorque, a fim
de nos

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adaptarmos. Conseguimos! Enquanto aguardvamos o incio dos cursos
de outono/inverno, o Doutor Lowenfeld providenciou para que
fizssemos um estudo sobre legislao
com superviso de Mrs. Helga Lende, bibliotecria da AFB. Nessa
oportunidade presenciamos a gravao de um livro falado e
escrevemos um relatrio que foi publicado
no Brasil. Mesmo antes do trmino dos cursos de vero, fomos
acomodadas na Casa Internacional.

NOVA IORQUE E OS CURSOS

Tnhamos ouvido falar bastante da Casa Internacional quando
estvamos no Brasil, mas ela ultrapassou qualquer expectativa. O
prdio  uma construo de tijolo aparente,
tendo  frente o rio Hudson. A construo  em forma de "H", com
duas torres de 10 andares. De um lado as acomodaes femininas, e
do outro, os rapazes. No jardim
h a esttua do General Grant com bancos onde sentvamos para
conversar. A Casa Internacional fica na rua 125 do lado Oeste.

A vida l era muito interessante devido  diversidade de
habitantes, costumes, idias, profisses, aspiraes. Eram pessoas
relativamente jovens, alguns profissionais,
outros em incio de carreira, como era o nosso caso. Um grupo
muito heterogneo onde praticamente todos eram estudantes.

ramos apenas quatro ou cinco brasileiros. Os outros brasileiros
que moravam em Nova Iorque iam freqentemente  Casa Internacional
e acabamos formando um grupinho.
A ignorncia dos americanos sobre os pases da Amrica do Sul
irritava um pouco a juventude brasileira que l estava.

No incio, o meu relacionamento com os residentes da Casa
Internacional no foi muito fcil. Houve dias em que me deu muita
tristeza, eu me sentia muito sozinha,
embora Regina e Neith fossem timas companheiras, mas faltava
comunicao com as outras pessoas que viviam na Casa
Internacional.

Um dia, conversando na sala de caf com um rapaz do Canad, e
perguntou como eu me sentia. Respondi que achava tudo timo, mas
mesmo assim me sentia isolada, sentia
falta de contato com outras pessoas. Ele retrucou:
"Ns todos dizemos al para vocs". Eu expliquei que no tinha
maneira de saber se o cumprimento era tambm para mim, porque alm
do "Al" ou "Al Brasil", havia
um gesto, uma troca de olhar, que eu no podia captar atravs de
Neith e Regina.  a tal histria, muito verdadeira: a grande
maioria das pessoas tem dificuldade
de se aproximar, de se relacionar, de se dirigir s pessoas cegas.

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A partir desse dia eu ouvia de longe "Al Dorina". Da comeou um
relacionamento maior com todos os freqentadores da Casa.

Matriculamo-nos no Teachers Coliege da Universidade de Columbia.
As taxas de matrcula eram bem caras, mas eram pagas pela American
Foundation for the Blind, pelo
Departamento de Estado dos EUA e pelo Instituto Internacional de
Educao. Uma das matrias abrangia todos os tipos de
deficincias, desde problemas de conduta
at delinqncia juvenil. Uma das palestrantes que muito me
impressionou foi a especialista em delinqncia juvenil. Era
brilhante e apresentou a matria de uma
forma que nos colocou a par desse srio problema.

O conhecimento dos problemas de outras deficincias, como os
portadores de retardamento mental, paralisia cerebral, problemas
do aparelho locomotor e outros, enriqueceram
muito o nosso conhecimento e permitiram uma abertura muito grande
quanto  educao especial. No tnhamos tido experincia nas
outras reas, mesmo porque as associaes
de assistncia a criana defeituosa  - AACD, APAE, foram
organizaes que surgiram na dcada de 50, ao passo que nos EUA j
havia classes especiais nas escolas comuns
para os diferentes tipos de deficincias e at integrao no
sistema escolar comum.

Resolvi fazer um curso optativo de cermica que foi muito
interessante. Regina tambm gostava muito da matria, e at
compramos um livro sobre cermica para cegos,
escrito por um irmo do Dr. Lowenfeld, e que era bem didtico.
Alm de encarar a cermica como uma forma de expresso para as
crianas cegas, procurvamos verificar
como se formavam as imagens das coisas que as crianas podiam
tocar e manusear.

Fazamos estgios nos servios de educao do governo.
Observvamos o que se chamava Classes Braille, hoje Salas de
Recursos. Conhecemos todo o trabalho dos professores
itinerantes e visitamos escolas pblicas onde haviam crianas
cegas integradas. Fizemos estgios tambm com os professores
domiciliares. Orientao e Mobilidade,
que se denominava Locomoo, comeou a surgir nessa poca e se
desenvolveu na sua forma presente com a criao e desenvolvimento
dos processos de reabilitao.

Muitas pessoas naquela poca tinham sido educadas e escolas para
cegos e quando terminavam os estudos trabalhavam em oficinas
protegidas. O ingresso das pessoas
cegas no mercado comum de trabalho j havia surgido integrado nas
fbricas e no comrcio. As atividades comerciais j eram
desenvolvidas; entre elas o programa
de "Vending Stands"  - balces de venda. Nestes balces as pessoas
cegas vendiam cigarros, isqueiros, balas etc. Era uma forma de
comrcio j bastante disseminada,
financiada pelo Office Vocation on Rehabilitation, um departamento
do Governo Federal, com um fundo especfico para essa

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finalidade. Tentamos desenvolver esse programa no Brasil, mas no
tivemos o mesmo sucesso porque no conseguimos um fundo que o
financiasse.

Considero-me uma pessoa feliz por ter tido a chance de estudar, de
conhecer como uma profissional da rea de educao, o que existia
provavelmente de melhor no mundo naquela oportunidade. Penso que
esta foi a razo pela qual a nossa Fundao se tornou no s uma
pioneira, mas uma entidade a qual
se deve o incio de toda uma nova era de possibilidades de
educao para a criana cega e reabilitao e profissionalizao
do adulto cego.

A Fundao vem desempenhando um papel de significativa importncia
inclusive estimulando o governo e a sociedade a assumirem suas
responsabilidades em relao s reais necessidades das pessoas
cegas e sua integrao na comunidade.

Alm dos cursos, os estgios que tnhamos de fazer eram muito
interessantes. amos muito s organizaes de Nova Iorque, como ao
State Comission for the Blind
de New Jersey, onde tivemos oportunidade de ver crianas com
paralisia cerebral na escola pblica. Outro estgio foi feito no
Perkins Institute for the Blind, Watertown, Boston - Massachusets.

Foi uma experincia maravilhosa, porque pudemos observar na
prtica o que tnhamos aprendido sobre Helen Keller e sobre a
educao do cego-surdo. Nas salas de aula
tudo era especial, inclusive o cho, para que elas pudessem sentir
as vibraes necessrias. Percebiam pelo tato as vibraes das
cordas vocais, colocando o polegar
sobre os lbios e a mo sobre a face com o dedo mdio apontando
para o lbulo da orelha e os dedos anular e mnimo sobre as cordas
vocais debaixo do maxilar inferior
do interlocutor. Desta forma conversvamos com as meninas cego-
surdas.

Nesta poca estava comeando a ser produzida a mquina braille, a
bendita Perkins Brailler que ainda hoje prevalece. Conheci o
tcnico que a inventou, chamava-se Abraham.

Um dia fomos visitar o New York Institute for the Blind. Foi uma
experincia desagradvel, mas divertida. Dr. Frampton, o diretor,
contestava a American Foundation
for the Blind. Ele nos recebeu, disse que ia nos deixar visitar o
Instituto. Segundo ele, ns ramos "os babies da American
Foundation"  - ele via com muita reserva
essa nossa visita ao New York Institute. Era uma boa escola, mas
totalmente segregada. Nessa poca havia muita disputa entre os
integradonistas e pessoas como Frampton,
que achavam que a soluo do problema era atravs das escolas
residenciais s para cegos.

Depois fomos  Philadelfia visitar a Overbrook School for the
Blind, que era a menor das trs grandes: Perkins, New York
Institute e Overbrook. Diziam

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que talvez desapareceria. Era uma escola que mantinha um bom
padro, sem se prender a uma excepcional segregao dos alunos.

Ainda durante a sesso de outono/inverno, fomos passar um fim de
semana em Toronto para conhecer o Canadian Institute for the
Blind. Esse Instituto j era uma organizao modelo, e at hoje
ocupa lugar de destaque no trabalho
para cegos no mundo. Nossa viagem foi patrocinada pela Cruz
Vermelha.

Resolvemos voltar para Nova Iorque via Niagara Falls. Tomamos um
nibus e aportamos em um hotel. Tentamos primeiro uma penso, mas
as acomodaes no eram boas. Optamos por um hotel de cujo
restaurante podia-se avistar as cataratas iluminadas  noite.
Fizemos todas as excurses locais do lado
Canadense, que dizem ser o mais bonito. Depois resolvemos voltar
para os EUA, atravessando a ponte internacional a p. ramos trs
figuras impressionantes - estvamos com uma maleta e acompanhadas
do meu violo. Cada uma de ns
com havia comprado pequenos objetos de porcelana e como no havia
lugar na mala, Regina lembrou de fazer com lenos trs trouxinhas
amarradas com nozinhos,  moda dos caipiras brasileiros.., nessa
hora me lembrei de um filme de Charles
Chaplin, que havia assistido quando era vidente. A travessia
passou-se sem incidentes. De repente estvamos frente  policia de
fronteira e a alfndega americana.
Aprendemos uma lio: entrar no Canad via EUA  uma coisa; entrar
nos EUA  outra coisa bem diferente. Mostramos nossos passaportes.
O guarda da fronteira folheou-os atentamente e disse
peremptoriamente: "No! Sem visto de
estudantes as senhoras no podem entrar nos EUA". Cada uma de ns
tinha uma carta que era o visto de estudante, mas que havia ficado
na Casa Internacional
amos como precauo por ser um documento muito importante... Era
quase noite e no tnhamos mais dinheiro para pagar um hotel e
fazer vir as cartas de Nova Iorque.
Comeamos devagarinho, no melhor do nosso ingls, porm no to
perfeito, a contar a histria da bolsa de estudos. Eles fizeram
muitas perguntas, que respondemos calmamente, Depois de algum
tempo, os guardas confabularam,
certamente ficaram com pena, perceberam que ramos mesmo
estudantes e resolveram - "Vocs tm de dar uma prova de que so
realmente brasileiras. Vocs sabem tocar 'Tico-Tico no Fub'?" No
tivemos dvida. Formamos um trio
completo. Sentamos l mesmo no balco, eu com o violo e Regina
com papel de seda e pente, imitando a gaita. Cantamos as trs e
demos um concerto completo: Tico
tico no Fub, Aquarela do Brasil e outras mais de lambuja...

pag:37

OS DIVERSOS CAMINHOS DA VIDA


DUAS GRANDES PERSONALIDADES:
HELEN KELLER E ROBERT B. IRWIN


O mais importante de nossas atividades em Nova Iorque foi o
contato com Dr. Robert B. Irwin, Diretor Executivo da AFB e AFOB.
Outro fato importante foi o nosso encontro com Helen Keller, cega
e surda, durante o Seminrio de Home Teachers realizado no St.
George Hotel, personalidade marcante na educao e
reabilitao de deficientes.

Helen Keller fez uma palestra brilhante. Todos os profissionais
presentes, muitos que j a conheciam h muito tempo, emocionaram-
se como se a ouvissem pela primeira vez.

Helen era uma personalidade eletrizante, apesar da voz montona,
conseguia prender a ateno do auditrio. Helen Keller era e
continua sendo um smbolo nos EUA.
Segundo Mark Twain,  uma das personalidades mais marcantes do
sculo XX. Ao fim da palestra fomos procur-la e para minha imensa
emoo eu lhe fui apresentada.
Ela colocou o dedo sobre os meus lbios para perceber o meu nome e
de onde eu era. Repetiu com clareza: "Brasil", e acrescentou: -
"Tenho um sonho: visitar o Brasil
e a Amrica do Sul". Essa frase ficou-me gravada, e eu senti nesse
momento que tudo faria para que ela realizasse esse sonho.
Consegui, anos mais tarde, mas consegui.

pag:38

Tudo ia muito bem, mas estvamos muito intrigadas, porque no
conhecamos ainda o Dr Irwin pessoalmente. Afinal de contas, ele
nos tinha proporcionado a bolsa de
estudos e tudo o que j havamos visto no primeiro semestre de
aulas - e j era a sesso de inverno.

Numa das aulas das matrias dadas por Dr. Lowenfeld, Dr. Irwin foi
fazer uma palestra. No final da aula Lowenfeld nos apresentou ao
Dr. Irwin. Ele marcou uma entrevista
conosco na American Foundation. Foi um alivio. At que enfim
seramos entrevistadas por ele.

Ficamos sabendo depois o porque daquela indiferena, e o fato do
Dr. Irwin no ter se encontrado conosco at aquele dia. Quando
estivemos em Chicago e conhecemos
Mr. R. Dickenson e fomos para Rest Haven, a colnia de frias onde
havia todas aquelas velhas.., eu escrevi uma carta para Mr.
Dickenson fazendo uma caricatura daquele
lugar e das atividades em Rest Haven. Acontece que Mr. Dickenson
teve o mau gosto de ler essa carta criticando aquela atividade da
American Foundation, durante
um Congresso onde estava presente o Dr. Irwin. No tnhamos nem
conhecido o Dr. Irwin e ele j tinha tomado conhecimento de uma
critica nossa a respeito de uma atividade
da American Foundation. Aborreceu-se com o fato.

Em nossa entrevista explicamos todas as nossas aspiraes. Falei
com muito entusiasmo sobre a integrao, os ensinamentos de
Berthold Lowenfeld, e as entrevistas
e visitas que estvamos fazendo, principalmente sobre a integrao
das crianas no sistema escolar comum. Isto foi prximo do Natal,
e como estvamos sozinhas,
Dr. Irwin nos convidou para irmos passar a vspera e o dia de
Natal em sua casa de campo - "Bonshow", Pompton Lakes no Estado de
New Jersey. Ficamos radiantes, porque
alm de conhecer o lugar, passar o Natal com uma famlia americana
era alguma coisa muito simptica.

Mrs. Irwin guiava. Eles foram nos buscar de carro na Casa
Internacional. Mr. Irwin tinha PHD em Filosofia; foi um dos cegos
mais famosos dos EUA na sua poca, talvez o mais proeminente. Foi
o grande diretor da American Foundation for
the Blind, e contribuiu muito para a criao da American
Foundation for Overseas Blind, que hoje se chama Helen Keller
International.

Chegamos a Pompton Lakes e acomodamo-nos em nossas camas muito
altas com edredons fofos. Era uma cidadezinha do interior
americano, com casas muito bonitas no centro
de enormes gramados. Os Irwins, muito simpticos, se ofereceram
para nos levar  missa. Depois da missa, Mrs. Tehune, uma vizinha
dos Irwin, entrou na sala  noite.
Ns estvamos todas arrumadas para a ceia, Regina e Neith ficaram
de olhos esbugalhados, era uma viso! Uma senhora

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idosa, muito branca, com muito p de arroz no rosto, cabelos
brancos, sapatos e meias brancas, toda vestida de branco, com
mangas imensas com panos esvoaantes.

Enfim, ela era uma viso em si. Conversou muito conosco, contando
a vida do marido, e que ela mesma tinha tido tuberculose. Imagine!
Ela abraava, beijava a gente,
isso no tempo em que ningum chegava perto de uma pessoal com
tuberculose! No fim do jantar Mrs. Tehune me disse "Dorina, fao
questo de lhe dar de presente uma das peas de recordao do
museu de meu marido, Amanh vo tomar ch comigo".

No dia seguinte fomos todos para a casa de Mrs. Tehune. Era uma
casa muito interessante. Para espanto de Dr. Irwin, Mrs. Tehune
deu-me nessa tarde um esquilo talhado numa ametista. Guardo-o at
hoje.

Voltamos para a casa dos Irwin, e ele nos chamou para conversar
sobre o nosso programa da em diante e disse: "Dorina, se voc
causou uma impresso to forte em Mrs. Tehune, decidi que vou
enviar vocs trs para a Kellog Foun dation em Battle Creek - onde
tero oportunidade de expor  diretoria o problema da
imprensa braille. A Kellog faz grandes doaes atualmente", e
repetiu: "Se voc foi capaz de impressionar Mrs. Tehune para tirar
uma pea do museu, acredito que sero muito bem-sucedidas. Quero
ainda dizer, que, de qualquer maneira,
vocs tero de pensar em se separar de agora em diante. Se vocs
conseguirem a imprensa braille, uma de vocs ter de se
especializar para faz-la produzir. Dorina
e Neith devem ficar no Teachers College fazendo agora o perodo da
primavera de 1947. Vocs vo comear a estudar e Regina tem de ir
passar uns meses em Louisville  - Kentucky, onde far todo o
treinamento para tomar conta da imprensa braille. Eu acredito que
ela  a pessoa talhada para isso". Dissemos que sim, pois as
palavras de Dr. Irwin embora suaves, eram uma ordem.

Durante os nossos preparativos, numa tarde no fim de janeiro de
1947, Regina entrou no meu quarto e contou que havia recebido um
telefonema de um rapaz brasileiro
que estava trabalhando nos EUA, e que gostaria de nos conhecer.
Regina me disse: - "Dorina, eu dei o nmero de seu quarto para que
ele telefone a voc. Voc bem
pode imaginar que eu no estou absolutamente interessada em
conhecer rapazes brasileiros". Regina era uns treze anos mais
velha do que eu e bem mais velha do que
Neith. Ns iramos naquele mesmo dia a Connecticut.

O nosso planejamento incluiu uma visita a Connecticut onde se
iniciou o processo de reabilitao. Dentro de poucos meses
voltaramos para o Brasil, mas era importante
que entrssemos em contato com as novas tcnicas e novos
processos. Este trabalho naquela poca era realizado em centros
para os veteranos

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de guerra. Fomos de trem. Havia um regulamento nos EUA, de que as
pessoas cegas podiam viajar em primeira classe, quando
acompanhadas, pagando apenas meia passagem
para si prpria e para o acompanhante.

Ao descermos do trem, o indefectvel watch your step - olhe o seu
passo. Os funcionrios da estrada de ferro ficavam na plataforma
ao lado das sadas orientando
a descida dos passageiros a fim de evitar quedas que pudessem
causar srias indenizaes  companhia. Eu descia segurando
tranqilamente no corrimo da escadinha
e apenas me avisavam se a plataforma era mais ou menos distante.
Nessa hora de repente eu me sinto iada para o alto, O responsvel
pelo vago no teve dvidas:
pegou-me por debaixo dos braos, levantou-me e pousou-me na
plataforma. Eu no sabia se ria ou se chorava. Ele olhou bem para
mim, eu tinha apenas 20 e poucos anos
e me disse em ingls bem caracterstico dos negros americanos: Bad
to be old tnam, isn't?: Como  triste a gente ser velho, no 
minha senhora? Claro que eu achei
muita graa, agradeci, mas s gostaria que ele tivesse prestado
ateno que eu no era velha, acontece que ele no teve coragem de
se referir  minha cegueira e
preferiu achar que eu era uma senhora idosa que ele precisava
ajudar. Situaes como essas, as pessoas cegam encontram muitas
vezes.

Ficamos encantadas com o que vimos no Rehabilitation Center em
Connecticut. Era um trabalho realizado por profissionais de alto
nvel e mantido pelas foras armadas - um trabalho de primeira
linha para cegos, veteranos de guerra. A estatstica dizia que
naquela poca havia 1.500 veteranos nessas condies. Este foi o
primeiro centro piloto nos EUA. Muitos outros foram criados
posteriormente beneficiando centenas de outras pessoas cegas.

Na volta  Casa Internacional, nesse mesmo dia eu estava no meu
quarto quando fui chamada ao telefone. Atendi e era um dos
brasileiros que havia conversado com Regina.
Era Alex. Naquele tempo havia muita precauo em relao aos
brasileiros que estavam estudando ou trabalhando em Nova Iorque,
fomos prevenidas de todas as maneiras.
Alex tinha alguma coisa que convenceu Regina, talvez mais uma
daquelas Providncias Divinas. Combinamos que ele e seus amigos
iriam nos conhecer em uma determinada
noite. Era um inverno terrvel e eu expliquei que s poderia ser
aps s 9:30 horas da noite porque tnhamos aulas at esse
horrio, s vezes at as 10:00 horas
no Teachers College da Columbia University. Ao terminar, Alex
disse que ia de terno bege, ou palet bege. Acrescentou depois: "E
voc, como vou reconhec-la? Sou
bem feio..." Sem pensar, respondi: "No faz a menor diferena,
porque eu sou cega mesmo". Ele levou um susto. Ele no confessa
at hoje, mas eu senti que levou "o
susto"! Ao sair do telefone fui desabafar com Neith: "Estou me
preparando, estou estudando Psicologia e sei o quanto  importante
que a pessoa cega ao ser abordada

pag:41

saiba como se comunicar sem causar problemas para os outros,
acabei de fazer uma verdadeira barbaridade! Esse rapaz que
telefonou, no sei se realmente vir.

Quando chegou a noite acertada, dia 12 de fevereiro, voltamos da
faculdade sob uma tremenda nevasca. Regina ainda no havia ido
para Kentucky, ns estvamos com
casacos de pele, lenos, botas e luvas, fazia um frio terrvel.
Estvamos no vestbulo da Casa Internacional e segundo Alex eles
olharam pela porta e um de seus
amigos, Walter, viu Regina, confirmou que j a conhecia de So
Paulo. Ela havia sido Inspetora quando ele era aluno na Caetano de
Campos. E foi assim que nessa noite eu conheci Alex...

Vimos que tnhamos amigos comuns, que ele havia morado na rua
Augusta, que eu havia passado centenas de vezes na frente de sua
casa quando vinha do colgio, enfim
ele conhecia nos EUA alguns brasileiros que ns conhecamos. A
surgiu uma amizade muito boa, tranqila. Regina estava quase para
ir para Louisville, a data estava
se aproximando. Contei para Alex os meus problemas para estudar, e
ele me respondeu que era bilnge e poderia me ajudai nos
trabalhos e leituras se eu precisasse. Aceitei.

Alex marcou sesses de leitura algumas noites por semana. Eu
estava comeando a preparar o meu trabalho de fim de curso. Junho
seria o fim da sesso da primavera
e o trmino de minha bolsa nos EUA, no Teachers College. Ele
passou a ir todas as noites ler para mim. Comecei a escrever o meu
relatrio final e Alex me ajudou
muito, tanto na redao como na correo.

Papai me escreveu para que eu comprasse um carro. Qualquer
brasileiro que permanecesse nos EUA por mais de um ano poderia
trazer um carro. Havia poucos carros 
venda nos EUA, por causa da guerra. Alex conseguiu um com
dificuldade, com o representante de uma loja cujo diretor ele
conhecia. Conseguiu um Ford cinza V8 com
forro bord. Foi o primeiro carro que eu tive. Alex conseguiu um
preo muito bom, providenciou todo o despacho para que o carro
chegasse ao Brasil depois de mim.

Houve um fato no nosso relacionamento que eu no posso esquecer.
Logo depois que nos conhecemos em fevereiro, chegou o Valentine's
Day e Alex me levou um porta-nquel
muito bonitinho. Levou tambm um disco do Ali Johnson "Aniversary
Song", que ficou sendo nossa msica predileta. Fizemos lindos
passeios, fomos ao Chloister's, um
parque ao norte da ilha de Manhattan onde h um mosteiro. L havia
uma lanchonete onde se fazia um almoo rpido. Alex me deu um
brochinho que era uma colherzinha
de prata. Essa colherzinha foi o incio de uma coleo. Hoje eu
tenho aproximadamente 200 colheres de caf de prata. Ganhei muitas
de presente de amigos.

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Lembro-me de que fomos ao Parque de Diverses de Koney Island e
andamos na montanha russa, e na roda-gigante. Naquele dia a roda-
gigante parou por muito tempo,
quando estvamos l em cima. Havia vento e o banquinho balanava.
Ficamos no alto um tempo. Nada disso nunca me afligiu eu sempre
gostei dessas sensaes. Certamente
eu no podia apreciar as paisagens apenas por descries, mas at
as descries me interessavam. Formo a imagem daquilo que me
descrevem. Essas sensaes relacionadas
com os lugares, com as coisas, com algum acontecimento, tudo isso
contribui para a imagem que formo dos lugares que conheci e isso 
absolutamente satisfatrio.
Claro que no compensam o que a viso pode dar. Aprendi, porm, a
aceitar, e aproveitar e gozar ao mximo aquilo que esteve e est
ao meu alcance. E assim consegui
construir as minhas imagens e construir a minha vida. Com
alegrias, com conhecimento que
adquiri atravs de outros canais que no a viso.

Um dia Alex me convidou para ir ao cinema. Ningum vai acreditar
que em 1947 eu fui pela primeira vez sozinha ao cinema com o
namorado. Fomos ao Radio City Music
Hall no Rockfeller Center e assistimos a um filme com Gary Cooper:
P Ghost and Mrs. Muir. Os shows que antecediam os filmes eram
maravilhosos. Depois do cinema
fomos jantar no Tavern on the Green. Era um restaurante muito
agradvel e foi um jantar delicioso. Anos depois voltei ao lavem
on the Green, mas j no era a mesma
coisa. As nossas emoes enfeitam, decoram e at transformam os
ambientes, - este era realmente um lugar muito simptico que se
tornou maravilhoso naquela poca.
Nesse dia Alex me levou um coursage:
um raminho de flores que se usava no vestido quando se tinha um
date - um encontro de namorados. E tive o meu date, com o ramo de
niuget para pr no vestido. Foi nossa
despedida, porque Alex embarcaria logo depois para uma viagem s
Antilhas e ao Mxico. Ele prometeu me escrever e eu tambm
escreveria a ele, principalmente quando
voltasse ao Brasil. Nosso namoro passou a ser por correspondncia.

IMPRENSA BRAILLE
KELLOG FOUNDATION

Entre as atividades do segundo semestre, com certeza nossa
entrevista na KelIog Foundation em Battle Creek - Michigan, foi um
dos pontos altos de nossa estada nos EUA.

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Segundo o Dr. Irwin, ns seramos entrevistadas por uma diretoria
onde talvez houvesse alguma pessoa isolacionista. Dr. Irwin
acrescentou tambm que haveria uma
professora cega: Miss Janet Marris, professora de classe braille:
A opinio dessa professora seria muito importante para que o nosso
pedido pudesse ser atendido. Ela porm, no acreditava muito na
eficincia de doaes feitas a
pases latino-americanos. Assim foi. Viajamos a Batt Creek e fomos
recebidos imediatamente pelo Dr. Benjamin Hornning.

No sabamos o que eles nos perguntariam. A entrevista foi toda
sobres as necessidades das pessoas cegas no Brasil. Miss Marris
fez muitas perguntas e disse ter
tido uma experincia muito desagradvel no Peru. O equipamento
doado no havia sido utilizado, no daria voto favorvel  doao
em dinheiro ou equipamentos para
a instalao de uma imprensa braille em outro pas da Amrica do
Sul. Segundo Miss Marris, os livros gravados estavam entrando
muito em funcionamento e certamente
substituiriam os livros em braille.

Realmente, o Livro Falado era um excelente equipamento, mas que
dependia de eletricidade. Talvez ela no soubesse que no interior
dos estados brasileiros viviam muitas pessoas cegas em cidades ou
vilas onde no havia luz: eltrica em suas casas. Era preciso
pensar na grande maioria de pessoas cegas e no apenas naquelas
que moravam nas grandes cidades.

Por outro lado, muitas pessoas como eu mesma, tinham necessidade
do livro em braille para estudar.

Enfim, foi uma reunio muito difcil, samos de l muito
preocupadas, sem saber exatamente a soluo, desde que Miss Marris
era uma personalidade muita conceituada
na comunidade. Apesar dos receios, samos muito esperanosas. Logo
depois Dr. Hornning informou-nos de que a Kellog doaria os dez mil
dlares para a compra dos
equipamentos, desde que a manuteno fosse garantida pelo governo
brasileiro.

Voltamos para Nova Iorque. Regina foi em maro para Kentucky.
Neith e eu continuamos nossos estudos no Teachers Coliege at
concluir o semestre da primavera.

Nesse perodo de tempo, mais uma vez tive a felicidade de
encontrar a grande Helen Keller num ch do clube Cosmopolitan em
Nova Iorque. Falei com Helen e ainda posso
ouvir sua voz dizendo: "1 shall put South America among my dreams"
- Certamente eu terei a Amrica do Sul entre os meus sonhos.

A presena de Helen Keller me emocionou tanto, que mesmo tendo
aprendido o alfabeto manual para a comunicao com os surdos, eu
no teria condies de us-lo naquele momento.

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Visitamos uma outra boa organizao, com excelentes recursos para
atender pessoas cegas: a New York Guild for Jewish Blind.

Na nsia de fazer com que o Brasil fosse representado nas inmeras
conferncias que se realizavam j naquela poca nos EUA, eu e
Neith fomos a Ottawa no Canad para participar do Congresso do
Conselho Internacional de Crianas Excepcionais - Convention of
the Internationa Council of Exceptional Children. Alm do
Congresso que foi excelente, gostei muito de conhecer Ottawa,
uma cidade canadense bem inglesa.

FINAL DO SEMESTRE
PRIMAVERA & VERO

O semestre primavera/vero do Teachers Coilege da Columbia foi
bastante movimentado. E j nos encontrvamos mais adaptadas ao
ritmo de vida americano, inclusive ao prprio clima.

Na entrada do outono tivemos mais problemas de sade como gripes e
resfriados. S no sabamos que a "flue"  praticamente uma
epidemia que precisa ser tratada
com os devidos cuidados. Tive uma experincia na entrada do
outono, quando quase todos os alunos do Teachers College apanharam
a "flue". Muitos ficaram acamados. Ns resistimos bem, mas ficamos
muito resfriadas e
fomos obrigadas a passar por um exame com uma enfermeira. Como de
costume, a enfermeira resolveu me dar as instrues atravs de
Neith e Regina. Tive
de protestar dizendo que eu s era cega e estava com gripe. O fato
de eu falar e tomar conta do dilogo fez com que ela me
despachasse rapidamente. Sempre me diverti com essas situaes.

Nossos estudos acadmicos estavam chegando ao fim. A hora
assustadora das avaliaes estava chegando. Mas, na grande maioria
das matrias, apresentamos trabalhos. Anatomofisiopatologia do
globo ocular - uma prova que eu gostaria de ter esquecido para
sempre. Responder questes na mquina de datilografia comum numa
lngua estrangeira sem poder ler foi muito difcil. Numa
das matrias houve teste daqueles com inmeras questes, sim ou
no, escolha mltipla etc. Nada em braille, nem gravado. Perguntei
 professora onde e com quem eu deveria responder as questes. Ela
sorriu: "Sente onde puder e pea a sua colega que leia o teste e
voc indica as respostas. Faa fora da sala para no
atrapalhar os outros colegas". S encontramos lugar numa
escadaria. Foi nesses

pag:45

degraus que eu respondi aos testes, rindo muito dos tempos em que
eu ditava as minhas provas para uma pessoa desconhecida sob o
olhar vigilante de uma inspetora da Caetano de Campos.

Alguns professores marcaram muito. Foram importantes para a nossa
formao, como o caso de Dr. Berthold Lowenfeld, que merece
referncia especial. Lowenfeld enfocava
constantemente a posio do professor na educao como um
centralizador das influncias sobre o aluno. Ainda no se ensinava
propriamente orientao e mobilidade,
mas cuidava-se do esquema corporal e da orientao espacial dos
alunos atravs de todo material e de todos os tipos de atividades
que eram dadas pelo professor especializado
quer nas escolas, quer nas salas de recursos. Mas dizia Lowenfeld:
"A figura importante  a do professor. Ns no podemos dividir
nossos alunos (isto jamais esqueci).
As crianas. tm no professor o elemento canalizador; embora
outros profissionais trabalhem conjuntamente, temos de educar
observando a capacidade de cada aluno,
procurar o desenvolvimento de cada um e nos satisfazer com aquilo
que o aluno alcana". Penso que no fundo a Educao Especial
muitas vezes  bastante frustrante,
porque realmente nem sempre o aluno atinge o mximo daquilo que
esperamos dele, mas atinge o mximo de sua capacidade. Este
aspecto  fundamental para todo o seu
planejamento de vida e toda seqncia do que ele vai enfrentar,
tanto numa escola para cegos como no sistema regular de ensino. A
competio que enfrenta numa sala
de aula junto com alunos de viso normal, mostrava Lowenfeld,  de
uma importncia capital. Ele tem na vida escolar o que vai
encontrar na sociedade. Quando ele
se forma num ambiente protegido com todas as condies materiais,
com todos os requisitos adequados ao deficiente de viso, ele
poder atingir um grau maior de
escolaridade, mas na hora da competio na vida e em sociedade,
enfrentar dificuldades para as quais no foi preparado.

L'co pour la pie par la vie Decroly. A falta de experincia com a
realidade da vida pode prejudicar, em parte, o desenvolvimento do
aluno. Por sso a melhor escola  a que prepara o indivduo "para a
vida atravs da vida".

Naquela poca havia quase uma guerra: de um lado aqueles que s
acreditavam na eficincia do ensino atravs das escolas
residenciais para cegos, mesmo de alto nvel
como o Perkins Institute; de outro os educadores que nas dcadas
de 30 e 40, estudaram a fundo a insero dos alunos cegos no
sistema escolar comum. Os grandes educadores
norte-americanos recomendavam prudncia e equilbrio entre as duas
tendncias e mostravam que os dois tipos de educao precisavam
coexistir para uma slida estrutura
de ensino especial. O importante  que cada criana seja educada
no sistema mais adaptado s suas caractersticas fsicas,
psicolgicas, mentais, condies familiares
e sua prpria localizao geogrfica.

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Observamos tambm classes de conservao da vista, Muito ricas em
matria e equipamentos para crianas portadoras de viso
subnormal. Carteiras cujos tampos eram ajustveis, quadros negros
sem brilho, evitando ofuscamento,
livros em tipos ampliados, iluminao adequada.

Em 1946 no havia ainda sido iniciada e difundida toda a nova
filosofia relacionada com os portadores de viso subnormal que
hoje faz parte de todos os
currculos e est sendo adotada mesmo nos pases em
desenvolvimento. Naquela poca eram usados livros em tipos
ampliados e as crianas de viso subnormal
eram atendidas em classes de conservao da vista. Essas classes
existiam tanto nas escolas para cegos como no sistema escolar
comum. Hoje praticamente no mais existem. Os auxlios pticos,
lentes de todos os tipos e formatos para perto e
para longe, circuitos fechados de televiso para ampliao de
textos e outros recursos tecnolgicos permitem a permanncia dos
portadores de viso subnormal a maior
parte do tempo na classe comum, desde que tenham tido treinamento
na utilizao desses auxlios. J nessa poca, em nossos grupos de
discusso e estudos na rea
de efeitos psicolgicos da cegueira, salientava-se muito a
importncia do oftalmologista na educao e no ajustamento da
pessoa cega. Senti profundamente este problema
em mim mesma e atravs do estudo de caso de adultos e crianas
cegas, durante o meu trabalho. O mdico para o doente  alguma
coisa assim como um Mestre. Suas palavras,
suas atitudes, tm um valor inestimvel. Em muitos de meus
trabalhos sempre afirmei que a atitude do oftalmologista era e 
fundamental para a pessoa cega e para orientao dos
familiares.

A discusso era principalmente sobre a necessidade de que o
oftalmologista fosse sincero e no procurasse manter no paciente
irremediavelmente cego uma iluso de cura.


RETORNO AO BRASIL

Nossa despedida dos EUA foi triste para mim. Quem poderia
adivinhar o que o futuro nos reservava? Ser que Alex me
procuraria na sua volta ao Brasil? Alguma coisa
me dizia que sim.

Regina voltou no ltimo ms a Nova Iorque e de l cumprimos um
programa de visitas a organizaes em diferentes cidades dos EUA.
Fizemos estgios muito interessantes,
estgios de observao etc. Preparamos nosso relatrio final e nos
despedimos dos EUA.

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Nossa volta j foi feita em um D.C4, que em 1947 j era um grande
progresso da aviao comercial. O D.C4 levava 30 horas e fazia uma
ou duas paradas. Veio conosco
no mesmo avio um grande intelectual brasileiro, professor Ernesto
Leme. Contamos a ele sobre a nossa bolsa, a aquisio da imprensa
braille e nossos projetos para
o desenvolvimento da Fundao. Foi mais uma Providncia Divina,
pois mais tarde solicitamos recursos financeiros  Fundao
Calouste Gulbekian para a produo de
livros em braille e o parecer favorvel do prof. Ernesto Leme foi
um dos pontos-chave para a aprovao da nossa solicitao.

A Fundao Calouste Gulbekian foi constituda por um dos grandes
magnatas do petrleo e seus objetivos so essencialmente
culturais. A sede  em Lisboa onde, alm
das salas de exposio de arte, existe um preciosismo museu das
obras de arte do prprio colecionador Gulbekian e uma magnfica
sala de concertos.

Quando voltamos ao Brasil, a primeira pessoa que me visitou, para
grande surpresa minha, foi a me de Alex, Mrs. Nowill. Entrou em
minha casa uma senhora muito bonita,
elegante, fina. Abraou-me e me entregou um ramo de rosas
vermelhas, as minhas preferidas - rosas "prncipe negro". Contou-
me que Alex havia escrito a meu respeito,
no entrou em pormenores, mas disse-lhe que eu gostava muito de
rosas vermelhas. Da nasceu uma grande amizade para o resto da
vida.

NOVOS RUMOS

Acho que levei dias contando todas as novidades, todas as pequenas
histrias que formaram os nossos dias de bolsa de estudos nos EUA.
Descrevendo amigos, lugares
e a maneira diferente da vida do povo americano, as facilidades de
trans porte e as facilidades que eu como uma pessoa cega aprendi a
usar. O livro falado foi uma
delas. Quando cheguei dos EUA recebi por emprstimo o toca-disco
da biblioteca braille local. Recebia pelo correio da Library of
Congrcss os discos d livros falado
que escolhia romances, literatura, principalmente literatura
atualizada e tambm revista.

Ns havamos vencido. Nossa inteno ao partir era aprender e
trazer conhecimentos suficientes para apoiar o desenvolvimento dos
nossos trabalho: no importando as dificuldades encontradas.
Havamos conseguido para o Brasil

pag:48

a imprensa braille, que um ano depois estaria em So Paulo, para
que inicissemos o nosso trabalho.

H muitos pensamentos lindos sobre o livro, mas penso que Martins
Fontes o interpretou como eu o faria. "O livro  o cofre do Sol, e
o condensador da Luz para o cego" claro que o poeta se refere 
luz interior e no  luz material que o cego no pode ver.

Assumimos, eu e Neith as nossas cadeiras de professoras no curso
primrio do Instituto Padre Chico, no Ipiranga, em So Paulo, e
Regina na Caetano de Campos no seu lugar de inspetora. Havamos
feito um plano, imediatamente procuramos agir nas duas reas.
Primeiro a Fundao, e dentro da Fundao
implantar a imprensa braille. Posteriormente, iniciar as outras
atividades necessrias ao desenvolvimento do trabalho no Brasil.
Procuramos modificar, transformar todo o currculo do Curso de
Especializao em Ensino de Cegos do Instituto de Educao da
Caetano de Campos.

Penso que de certa forma, as dificuldades sentidas para aplicao
de novos mtodos principalmente no Instituto Padre Chico, foram
devidas ao ambiente que se criava  volta dos profissionais que
iam especializar-se fora do pas e que
eram considerados "pessoas diferenciadas".

Mais tarde fiquei sabendo pela superiora que aps a nossa chegada
uma pessoa (graas a Deus ignoro quem), dizendo ser para o bem do
Instituto Padre Chico, foi  irm diretora para relatar um caso
muito esquisito. A referida pessoa havia recebido na portaria do
Padre Chico um senhor que mostrara a ela o distintivo da polcia,
dizendo que era preciso afastar as duas professoras - Dorina
e Neith, que haviam chegado dos EUA, pedir-lhes que desistissem de
lecionar no Padre Chico, que elas no eram pessoas para freqentar
uma escola catlica como o Padre Chico Dizia ele que a conduta
dessas moas no era boa e que seria
importante que elas fossem exoneradas do cargo. Felizmente a
prpria superiora, pessoa muito equilibrada, desconfiou da
histria e ignorou o fato.

No incio a Fundao funcionou em uma sala cedida pela Cruz
Vermelha Brasileira, mas depois Adelaide conseguiu, no prdio
Itaquer localizado  rua da Quitanda 94, duas salas onde passaram
a funcionar a biblioteca e o nosso escritrio. Nessa poca havia
apenas uma funcionria, Maria da Penha Marques. Todo servio de
contabilidade era voluntrio, feito pelo irmo de Adelaide,
Oswaldo Reis de Magalhes.

A biblioteca porm, ainda era feita com livros transcritos por
voluntrios. Agora j havia um pouco mais de regletes e algumas
poucas mquinas de datilografia braille. Durante a guerra essas
mquinas no foram produzidas, ento
levou algum tempo para que pudessem chegar at ns.

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Aguardando a imprensa braille, procuramos na comunidade todas as
pessoas que pudessem ajudar, quando ela chegasse ao Brasil. Eu
havia conhecido uma pessoa
maravilhosa que se chamava Prola Byington. Disse-lhe que
precisava falar com o Interventor de So Paulo, Adhemar de Barros.
No era fcil uma hora com o Interventor.
Ela nos conseguiu uma entrevista e fomos falar sobre a necessidade
de um local para a imprensa braille. Nossa entrevista foi muito
interessante. Ele tinha muito respeito por
dona Prola. Ouviu tudo sobre os equipamentos para a imprensa
Braille, e que ns estvamos l para conseguir um lugar para
colocar esta imprensa. Parou para pensar e depois
disse que era um pouco difcil, que no era to fcil como parecia
ser, que havia muitas dificuldades, mas que talvez ele pudesse
tentar.

O local foi providenciado. Tenho at hoje uma salvinha de prata
que Adhemar de Barros me presenteou. Ele sabia tambm que eu havia
sido colega no Elvira Brando, de
Maria Ins, sua sobrinha, filha de uma irm de Dona Leonor. E da
por diante, Dona Leonor sempre procurou dar apoio aos nossos
programas. O local da imprensa braille
saiu. Porm sua primeira sala era ao lado do depsito de lixo da
Prefeitura na rua Prates n 1021.

Quando lecionava no Instituto Padre Chico, um dos fatos que me
chocou foi o acontecido com meus alunos no Clube do Cuidado. O
Clube que fundei para permitir que
as crianas pudessem ficar com as regletes permanentemente,
aparelhos de escrita, que eram obrigados a devolver no fim do dia.
Quando eu reclamava que eles no
haviam feito os exerccios, diziam que toda a tarde eles tinham de
devolver porque era proibido o aluno guardar consigo a reglete.
Solicitei  Irm Superiora uma autorizao para a mudana dessa
rotina.

Resolvi fazer uma eleio para a Presidncia do Clube do Cuidado.
O Brasil ia ter eleio e expliquei a eles que queria que eles
vivessem uma experincia de eleio.
Expliquei como se elegia um presidente, como se elegiam os
deputados, falei sobre o poder Executivo e o poder Legislativo.
Anunciei que iria levar um deputado, o
Padre Carvalho, para eles conhecerem.

O Padre Carvalho discutiu muito com os alunos, contou muita coisa,
ficaram interessadssimos. Passamos s eleies do presidente do
clube. Todos tinham ttulo de
eleitor. Da aula de portugus constava um trabalho escrito: cada
um deles devia fazer o seu prprio ttulo de eleitor em braille.
Tivemos mesrio, presidente de
mesa e antes disso, tivemos a propaganda eleitoral. Em outra aula
de escrita, cada candidato tinha de apresentar sua plataforma por
escrito. Ento foi uma chuva
de papis de propaganda no recreio. A Irm Superiora e a irm
encarregada da limpeza no gostaram nem um pouco da idia. As
crianas em-

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cheram o ptio de cdulas, de plataforma poltica, faziam
discurso. Tudo organizado atravs da globalizao de ensino. Era
um assunto globalizado onde entrava
leitura, escrita, clculo, histria, enfim um pouco de tudo.

Um dia, uma mdica do Hospital das Clnicas, que se chamava
Dorina, mandou perguntar se eu conseguiria internar um menino que
estava no Hospital das Clnicas: uma
criana cega, de quatro anos, que no andava, quase no falava e
no se mexia. A me, que era do Nordeste, no sabia o que fazer,
criou este menino numa rede, nunca
o estimulou para que ele aprendesse a andar e parecia at ter os
membros atrofiados. Como j tnhamos tido experincia com crianas
multideficientes e conhecamos
os efeitos da fisioterapia, comeamos a tratar do menino. Pedi
para a Irm Superiora que o aceitasse no Instituto. Atravs de
exerccios fsicos esse menino depois
andou, desenvolveu-se normalmente, tanto no andar quanto na
linguagem. Era um caso de cegueira incurvel. Incrvel a alegria
que tivemos quando esta criana comeou
a progredir -  uma sensao que dificilmente a gente esquece.
Logo depois de nossa volta dos EUA, no fim da dcada de 40,
reorganizamos o curso de especializao na Caetano de Campos com
um programa muito parecido com o curso
que havamos feito na Columbia University. Das minhas colegas,
Teresinha Fleury fez o curso de especializao outra vez. Vrias
alunas novas se inscreveram no curso.

Lembro-me que alguns dos meus alunos daquela poca eram mais
velhos do que eu. Muitos trabalharam durante toda a sua carreira,
como aconteceu com Nice Saraiva,
que depois se dedicou a cegos-surdos.

Um dos grandes problemas era a arregimentao de professores para
o curso, Fui ao Conselho Brasileiro de Oftalmologia, onde j havia
tido a oportunidade de trabalhar
com o professor Moacir Alvaro e outros. Fui orientada a entrar em
contato com dois professores, Jos Mendona de Barros e Renato
Toledo. No foi fcil conseguir
que eles se prontificassem a dar aula no Curso de Especializao,
mas acabaram aceitando.

Nossos alunos eram todos professores formados e o curso tinha um
ano de durao. Funcionava das 16:00 s 21:00 horas, quando havia
aulas de Anato mofisiopatologia
dos olhos. Para as primeiras aulas havia problemas de espao na
Caetano de Campos, ento nos colocaram no poro, numa sala sem
janelas com uma lmpada que iluminava
parcamente o ambiente aonde se dava noes de iluminao e o curso
de preveno da cegueira. Mas logo depois passamos para o terceiro
andar. Muitas vezes isso aconteceu
em minha vida; sempre aceitei a situao que se apresentava, mas
logo depois conseguia melhorar as condies.

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Durante muitos anos trabalhamos para que este curso fosse
implantado na USP, o que finalmente aconteceu na dcada de 80.
Alm da USP h tambm em funcionamento um curso de especializao
na Universidade do Estado de so Paulo - UNESP, Campus de Marlia,
e na Faculdade de Estudos Superiores do Carmo, em Santos.

Os alunos do curso da Caetano tinham de aprender a escrever com
reglete e puno. Alm de dominar o alfabeto, eram obrigados a
transcrever um
livro, faziam provas e realmente dominavam o sistema braille.

Desenvolvendo meu trabalho na Fundao, comecei a procurar pessoas
cegas que precisassem de atendimento. Foi um trabalho difcil
convenc-las de que elas poderiam ambicionar ou se preparar para
um emprego remunerado. Na sada da Fundao ou da Caetano por
volta das 8:00 da noite, pegvamos papai
na esquina da Praa do Patriarca, Papai costumava, ao sair da Casa
Barros, ir at o bar Duchen na rua So Bento, onde se encontrava
com amigos, quase todos comerciantes das grandes lojas
atacadistas. Com grande desapontamento de mame,
papai l ficava com seus amigos jogando bid. O jornalista Assis
Chateaubriand muitas vezes fazia parte do grupo.

Uma das realizaes ainda em 1947 foi a campanha de preveno da
cegueira, batizada por Adelaide como "Salve um Brasileiro da
Cegueira". Foi um trabalho muito bem feito, com uma exposio na
Galeria Prestes Maia.

Uma das coisas que me havia impressionado muito nos EUA foi o
trabalho de pessoas cegas no mercado comum. Minha primeira
experincia no Brasil foi com um massagista
cego. Havia no Instituto Padre Chico um aluno que havia terminado
o curso de massagista. Seu nome era Ramon Hamud. Um dia me
procurou dizendo que precisava de
emprego. Eu morava na rua Joo Pinheiro e na mesma rua morava o
ento presidente do So Paulo Futebol Clube, Ccero Pompeu de
Toledo. Ele estava fazendo um tratamento
de sade, em repouso em casa. No tive dvidas - falei com a
senhora dele e Dr. Ccero Pompeu de Toledo me recebeu. Contei-lhe
o que se fazia nos EUA, a importncia
desse trabalho de colocao das pessoas cegas no mercado comum e
pedi-lhe que, havendo uma vaga de massagista, fosse contratado um
massagista cego. Era uma novidade. Dr. Ccero disse que iria
pensar. Depois de algum tempo, Ramon foi contratado pelo So Paulo
Futebol Clube e l ficou at que depois de muitos anos se
aposentou como massagista. Foi uma vitria. Empregar uma pessoa
cega num clube de futebol era uma novidade, era o princpio de
todo um trabalho de abertura de mercado para
os trabalhadores cegos, seja na indstria, no comrcio ou nas
profisses liberais.

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No Congresso das Associaes Particulares de Ensino apresentei o
meu primeiro trabalho sobre classes braille e a integrao das
crianas cegas no Sistema Regular
de Ensino do Estado e nas escolas particulares, sempre que fosse
possveL Dr. Carlos Pasquale era o presidente dessa Associao. A
apresentao desse trabalho constituiu-se
para mim num grande evento. Apresentar uma idia nova, uma
realizao educacional desconhecida da maioria dos professores
presentes, foi uma ousadia da minha parte.

Quando especializei-me nos EUA, observei a integrao das crianas
cegas no sistema escolar comum e abracei a idia com fervor e, por
que no dizer, com muita garra. No Brasil, nesses primeiros anos,
lutamos arduamente para que
estas novas idias pudessem ser aceitas, principalmente pelas
escolas onde as crianas deveriam ser matriculadas. Realmente s
em 1950  que conseguimos
criar no Instituto de Educao Caetano de Campos, a primeira
classe braille. Hoje essas classes se chamam Salas de Recursos e
h toda uma nova legislao para a existncia das mesmas.

No princpio da luta as pessoas se tomam radicais. Eu mesma acho
que fui muito radical a principio, mas depois, compreendendo
melhor o problema da educao, modifiquei minha forma de agir.
Cheguei  concluso de que os dois
tipos de educao, tanto a escola residencial como a sala de
recursos so igualmente importantes, devem coexistir e s assim 
que democraticamente os educandos cegos podem ser atendidos.

Em 1953 conseguimos o encaminhamento de um projeto de lei para
garantir a matrcula das crianas cegas nas escolas do Sistema
Regular de Ensino do Estado. Esta lei foi analisada e houve um
fato muito interessante: tnhamos redigido esta proposta de lei
que foi para a Assemblia, e fui chamada na Assistncia
Tcnico-Legislativa do Estado, para dar um parecer sobre a lei que
ns mesmo tnhamos proposto. Eu j era tcnica de educao e
estava encarregada da orientao do Curso de Especializao da
Caetano de Campos e o desenvolvimento do trabalho da classe
braille.

O preconceito em relao s pessoas cegas era, e talvez ainda
seja, muito arraigado. Naquela poca era muito mais. Quando fui
nomeada para o cargo de Tcnico de Educao do Instituto Caetano
de Campos, para tomar posse fui fazer
o exame no Servio Mdico do Estado e assim obter o laudo mdico.
No havia meio de conseguir. Eu tinha uma nomeao do Governo do
Estado de So Paulo, mas no conseguia tomar posse porque o laudo
mdico no saa. Fui ao diretor
do Servio Mdico do Estado. Era uma pessoa muito amvel e muito
gentil. Eu j havia lutado com mdicos e eles diziam que no
podiam ultrapassar a lei, pois

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uma pessoa cega no podia lecionar, no podia ser funcionria
pblica e eu no podia assumir o cargo porque a cegueira era um
empecilho legal.

Todavia, ele me recebeu muito bem. Expus o meu caso, ele j estava
a par do problema, mas de qualquer maneira me disse: "Mas a
senhora est me dizendo que tem uma
nomeao, que seu cargo existe j criado por decreto, e que a
senhora tem o decreto de nomeao! Ento a senhora aguarde um
pouco, vou mandar buscar na biblioteca
o Dirio Oficial". Esperei vir o Dirio Oficial. Ele leu. o jornal
e no achou o decreto de minha nomeao, e disse: "Acho que
informaram mal a senhora porque
o decreto no existe". Retruquei: "No  possvel doutor, pois eu
tenho certeza que o decreto foi publicado, que existe o cargo, eu
sou uma pessoa especializada".
De repente tive uma idia. Perguntei qual era ai data do Dirio
Oficial e senti que ele ficou parado, no conseguia falar. Estava
com o Dirio Oficial do ano anterior.
Verificado o engano, disse-me depois A senhora est nomeada, o seu
laudo vai sair. Pode trabalhar a partir de amanh e pode tomar
posse".

Situaes como esta eram muito comuns naquela poca. Hoje j so
mais raras pois as leis a esto e tudo evoluiu.

Quando dei minha primeira entrevista para o Dirio da Noite como
aluna da Caetano de Campos, o jornalista Flvio Abramo pediu para
apresentar-me a um de seus amigos
que estava com um problema para fazer mestrado na Faculdade de
Cincias Sociais da USP. O amigo era Aziz Simo, uma pessoa
brilhante, com grande inteligncia.
Ele tinha feito um exame no curso da Faculdade, numa mquina de
datilografia. Ele sabia muito bem datilografia pois enxergou
durante muitos anos. Fez o exame durante
trs horas numa sala, sozinho. Ningum se lembrou de colocar
debaixo de cada folha um carbono. A fita da mquina de
datilografia falhou e ele fez trs horas de prova
em branco. Ficou to desanimado que resolveu no continuar, ou
seja, queria desistir do curso. Conversamos com ele, Neith e eu,
todos tentamos encoraj-lo e acho
que depois ele refletiu bem e refez as provas. Ele tambm
encontrou dificuldade para ser nomeado professor de Sociologia na
USP. Lutamos, mandamos cartas ao governador
do estado, indagando de que valia permitir a uma pessoa cega
estudar, tornar-se um professor do gabarito do Simo, se depois
no tinha sequer o direito de prestar
concurso porque era cego. Simo tambm conseguiu vencer os
obstculos e chegou a diretor do Departamento de Sociologia da
USP. Foi tambm um dos diretores da Fundao por um certo tempo.

No dia 3 de setembro de 1953 a lei que institua as Classes
Braille e o Ensino Intinerante foi aprovada no Estado de So
Paulo. Posteriormente, uma das meninas que
freqentava a Classe Braille do Instituto de Educao Caetano de
Campos, terminou o curso primrio e precisava passar para o
ginsio. Era neces-

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sria uma legislao adequada. Conseguimos a primeira portaria do
Governo Federal, do Ministrio da Educao, que autorizava a
menina a ser matriculada como aluna
regular no curso ginasial no Instituto de Educao Caetano de
Campos. S em 1961 a Lei de Diretrizes e Bases da Educao
abrangeu todo o territrio nacional no
seu pargrafo 10, artigos 88 e 89 e veio regulamentar esse direito
em todo o Brasil.

Certa vez fui convidada para visitar na Espanha a grande
Organizao Nacional de Cegos da Espanha (ONCE). J conhecia
muitos de seus diretores, presidentes etc...
Mas recebi especificamente um convite de Pedro Zurita, que era o
responsvel pela rea internacional da ONCE. Ele me pediu que
fizesse uma palestra na escola de moas cegas da Organizao.

Fiz a palestra e procurei discutir com as meninas e moas cegas o
problema da integrao social. No fim da palestra, as moas
fizeram perguntas e procurei discutir
exatamente esse problema, que  at hoje muito srio na vida das
mulheres cegas - a oportunidade de conviver com jovens no cegos
da mesma idade, estudar, ter a
sua hora de lazer, freqentar clubes conforme o nvel scio-
econmico, e outras atividades de participao social.

Minha primeira palestra tcnica foi em So Paulo na Escola de
Servio Social, na Rua Sabar. Eu j havia tido a oportunidade de
conhecer Helena Junqueira, Nadir Kifuri, todas as lderes daquela
poca e que dirigiam a Escola de Servio
Social de So Paulo. Uma assistente, Marta Cardoso Aranha,
procurou-me para que eu fizesse uma palestra para a sua classe.
Foi sensacional. Falar numa escola do
gabarito da Escola de Servio Social foi um desafio, uma sensao
indescritvel. Ter um desafio como este, preparar-se para poder
enfrent-lo  sensacional. Sempre senti muito fortemente a emoo
de enfrentar o pblico e no tive medo.

Esses fatos no so exatamente cronolgicos, mas pertencem a um
determinado espao de tempo, a partir de 1947, e que ocuparam o
meu tempo, a minha atividade, o meu pensamento e o meu esforo.

Isso no impedia de continuar a minha vida social, indo ao cinema,
teatro, reunies, festas e, porque no dizer, esperando as cartas
de Alex. Ele no
escrevia muito, mas nunca parou de faz-lo. Um belo dia ele
voltou. Na espera,
quanta apreenso! Quantas dvidas! Como ser que ele voltaria?
Ser que ele me procuraria de fato outra vez? Estou convencida de
que esses momentos de transio
fazem parte e so prembulo das grandes sensaes da vida.

Um dia ele voltou mesmo e me procurou. A primeira coisa que disse
 que havia voltado por causa de sua me. Passou a me visitar e
voltamos a sair juntos e muitas vezes com uma grande amiga,
Ceclia Macedo. Ceclia tambm

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havia estudado no Elvira Brando, mas em poca diferente da minha.
Nos encontramos em Lindia numa das temporadas. Ceclia estava
namorando e depois ficou noiva de
Alceu Maynard de Araujo, que mais tarde me entrevistou e escreveu
sobre meu trabalho. Era um grande escritor e um dos maiores
folcloristas brasileiros. Ns saamos
juntos os quatro, amos ao cinema, comer pizza ou comer sanduche
naqueles barzinhos da rua Augusta. Ela morava perto da Av.
Paulista e Alceu e Alex se tornaram grandes amigos.

Para meus pais, sempre muito rgidos em relao ao namoro, e
principalmente, com uma certa superproteo a meu respeito, a
situao s vezes era um pouco complicada.
Papai reclamava para mame, e ela comigo. Exatamente o que
acontece com todo mundo, como acontecia naquela poca, quando no
se namorava muito em casa e no se tinha a mesma liberdade de
hoje.

A me de Alex fazia-me freqentes visitas, jamais se ops  idia
do nosso namoro e sempre foi muito carinhosa comigo. O mesmo
aconteceu com a irm de Alex, Dollie, que se tornou uma grande
amiga.

Amigos e parentes se movimentaram sobre o assunto. Em uma vspera
de Santo Antonio, Alex resolveu conversar sobre o nosso casamento.
Estvamos passeando em frente
 minha casa, na Joo Pinheiro, uma tarde muito bonita, bastante
quente para o ms de junho, ou melhor, acho que eu senti calor.
Dai comeamos a namorar seriamente.
Alex estava estudando e trabalhava com representaes. Era muito
interessante: Man, meu irmo, estava noivo de Ivone e eles, assim
como ns, faziam todas as sries
de clculos para ver quanto se precisava ganhar para poder casar.

Durante o meu noivado mame ficou muito doente, teve uma crise de
angina e ficou em repouso absoluto, exatamente na poca em que
estvamos fazendo o meu enxoval.
Felizmente, fui ajudada por uma amiga recente que havia entrado
para a Fundao, Maria Marta Whitaker Ribeiro, uma das pessoas
incrveis que conheci. Era muito
dedicada, tornou-se uma grande amiga e nessa poca da doena de
mame, ela ajudou-me a terminar o enxoval. a comigo s
bordadeiras, me ajudava a escolher as roupas,
a parte de lingerie, toalhas de mesa, enfim, boa parte do enxoval.
Maria Marta me acompanhava s compras que submetamos  mame, que
nos orientava nas decises.

No meio de todo esse perodo de enxoval, resolvemos procurar uma
casa para morar. Papai tinha uma ao lado da que ns morvamos e
conforme o que havia feito pelo
meu irmo, ele a desalugou para que ns pudssemos l morar. Era
uma casa geminada na Rua Joo Pinheiro, 522. Tnhamos trs quartos
e banheiro em cima; embaixo
uma sala pequena, um hall com escada, uma cozinha

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razovel e uma boa sala de jantar. A garagem era embutida no corpo
da casa e dava para o terrao da frente onde havia um jardinzinho.
Os trs quartos eram
bons e no fundo, havia uma edcula razovel.

RECURSOS HUMANOS

No meio de todo este burburinho, a Fundao continuou crescendo,
sempre entrelaada com a minha vida particular.

A diretoria da Fundao mudou quando cheguei dos Estados Unidos.
Assumi a vice-presidncia. Ernestina havia ficado no meu lugar.
Ela era uma pessoa muito competente, dedicada, mas de acordo com
que ns havamos combinado, Adelaide continuou na presidncia e eu
na vice-presidncia, Neith na secretaria e Azis Simo como segundo
secretrio. Outros diretores tambm passaram a compor o quadro da
Fundao.

Um grupo de bandeirantes visitou a Fundao e entre elas havia uma
jovem muito viva, altamente inteligente e que tinha muito
interesse em se doar em todos os aspectos de sua vida, Maria Marta
Whitacker Ribeiro tornou-se mais
tarde Diretora. Contribuiu muitssimo atravs do seu trabalho e do
trabalho de seu pai, Dr. No Ribeiro.

A Fundao cresceu e fez-se necessrio uma organizao contbil de
acordo com as normas exigidas para obteno de isenes fiscais,
solicitao de verbas governamentais e declarao de utilidade
pblica (Municipal, Estadual e Federal). Foi indicado o Sr, Lando
Accorsi, que promoveu a reestruturao contbil e sugeriu a
admisso de um contador, Sr. Rafael Valentini, que trabalhou
conosco durante muitos anos.

Quanto a recursos humanos, pensando em voluntrios, dirigi-me 
Escola de Servio Social. Sempre admirei muito Helena Junqueira,
que na ocasio era diretora dessa escola. Helena me disse que
tinha uma ex-aluna que no havia terminado o curso mas que tinha
muitas qualidades para um trabalho semelhante ao que ns estvamos
iniciando. Era nem mais nem menos uma das grandes
companheiras de todos esses anos, Olimpia Ana Sant'Ana Sawaya. Foi
assim que Olimpia, "Bimba" como Dorininha, minha filha apelidou-a,
entrou como voluntria para a Fundao e depois se tornou
diretora, onde permanece at hoje.

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Uma outra voluntria da Fundao que depois se tornou diretora,
fez um trabalho magnfico nesta poca - Syomara Cajado. Para a
formao do frade Iray Fracasso, hoje
Frei Anselmo, foi Syomara quem transcreveu em braille quase todos
os livros que ele precisou para estudar, desde o segundo ano do
seminrio, A primeira missa de Frei
Anselmo foi uma das coisas mais lindas, celebrada na Fundao.
Todos os livros para Frei Anselmo foram feitos por voluntrias.

O fim da dcada de 40 foi memorvel para mim. Foi toda uma luta
para conseguir a estabilidade da Fundao, busca de colaboradores
e a deciso da minha vida pessoal,
quando Alex e eu ficamos noivos Tive um problema bem srio. Alex
era protestante. Batizado na igreja protestante, assim como seus
pais. No conheci meu sogro, pois ele faleceu quando Alex era
menino.

Maria Marta, minha sogra, era presbiteriana. Meu sogro, Hubert
Jessop Nowill, era da High Church of England. Segundo alguns,  a
mais prxima da igreja catlica,
tanto assim que meu sogro, quando teve que pr Dollie, minha
cunhada, num colgio interno no Brasil, colocou-a no colgio Sion
em Petrpolis.

 bem fcil se imaginar a delicadeza da situao para que eu
pudesse casar na igreja Catlica. Minha sogra no fez qualquer
oposio. Mas Alex era bastante ligado s tradies de sua
famlia. A famlia de meu sogro era tradicional em Shefield na
rea de cutelaria  - John Nowill and Sons, J.N.S.

A famlia de Alex veio para So Paulo depois que meu sogro
faleceu. Quando chegou em So Paulo, minha sogra se hospedou na
casa dos Grellet at achar uma casa e
se acomodar. Minha cunhada saiu do colgio Sion, veio para So
Paulo e teve de procurar um emprego. Isso foi h 60 e vrios anos
atrs. Para Dollie foi um choque.
Ela era uma menina muito bonita, muito viva e voluntariosa. Foi
trabalhar. Norman, o irmo mais velho de Alex, tinha tido a
oportunidade de estudar na Irlanda,
junto aos familiares de sua me. Ele deveria estudar Medicina, mas
resolveu que no era bem isso que queria, arrumou um emprego,
muito a contragosto dos pais. A conheceu uma moa chamada Ins,
filha de italianos com quem se casou, teve dois filhos e tem
alguns netos. Os filhos so Hubert e Roberto.

Hubert, filho de Norman,  um homem muito inteligente, jurista
famoso, foi o Secretrio de Administrao mais jovem da Prefeitura
de Santos. Roberto foi
um estudante brilhante e  um bom advogado.

Prximo ao nosso casamento, Alex estava se preparando para fazer
exames para a Faculdade de Direito. Ele foi se inscrever para
fazer o vestibular e acabou se inscrevendo tambm na Faculdade de
Direito no Rio de Janeiro. No era fcil estudar e trabalhar, como
ainda hoje, mas Alex resolveu enfrentar o

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problema e fazer os exames. Assim, no meio de toda a confuso, ele
ainda terminava o colegial, que era noturno, e se preparava para
fazer o vestibular.

No meio de tudo isso, meu irmo casou-se.

Quando a minha sogra foi fazer o pedido, (no meu tempo de namoro
era assim que se fazia) todos ns tivemos uma grande emoo e
neste dia eu fiquei noiva. Papai sempre
temeu pela minha felicidade. No fundo, ele achava muito difcil
que uma pessoa cega pudesse enfrentar toda uma vida de casado.
Mame j pensava diferente, ela tinha
muito mais confiana em mim. Papai era mais superprotetor.

Dessa maneira, com uma poro de perturbaes e confuses,
passamos o nosso tempo de noivado e a nossa preparao para o
casamento. Alex estudando e trabalhando
na Sears. Eu tinha o meu cargo de professora e orientadora na
Caetano de Campos. A minha vida profissional ficava entre a
Fundao e o Curso de Especializao da Caetano de Campos.

Nossa costureira naquela poca era Dona Zulmira e morava na Rua
Heitor Penteado. Era engraado que onde mame ia, minha tia
Carmelina e algumas das outras primas
iam tambm, principalmente Ldia, que era afilhada e muito chegada
a mame. ramos todas freguesas de Dona Zulmira. Foi ela quem fez
os meus vestidos do enxoval.
No eram muitos. Naquela poca, as minhas colegas
tinham enxovais imensos, muita roupa, muitos sapatos. O meu foi
suficiente, no
faltou nada, mas mame era uma pessoa comedida, papai tambm. O
vestido do casamento civil era verde, de uma seda pesada e que eu
achava muito bonito, O vestido de noiva era de cetim branco de
seda pura, todo abotoado na frente, longo, manga presunto, com um
ligeiro decote, e a saia tinha um pouco de franzido
de onde saia uma cauda. O vu e a grinalda eram muito ricos.

NOSSO FUTURO LAR

Mame comeou a procurar uma empregada para mim. Eu ia morar ao
lado da casa de meus pais, mas teramos nossa casa independente.

Finalmente, marcamos a data do casamento religioso para o dia l de
fevereiro de 1950  - ano santo, bem no meio do sculo. Teramos de
casar no civil, pelo menos dois
dias antes, para depois irmos para Aparecida. Reservamos hotel, e
marcamos o casamento na Baslica de Nossa Senhora Aparecida.

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O casamento civil realizou-se no dia 30 de janeiro em So Paulo.
Fomos ao cartrio do Jardim Paulista, na rua Pamplona. Casamos em
comunho de bens, e eu adorei o nome de Dorina de Gouva Nowill.
No tirei o sobrenome de papai, mas achei que ficava muito
comprido: Monteiro de Gouva Nowill. Ento eu adotei Dorina de
Gouva Nowill. Mame deu um jantar muito farto e gostoso, todo
feito por ela mesma l em casa.

Em Aparecida haviam apenas vinte pessoas. Poucas pessoas puderam
ir e Adelaide estava entre elas. Os nossos padrinhos, minha irm,
meu cunhado, Sr. Cao e Dona Jandira e os padrinhos de Alex,
Jessy Rinehart e Madelene, e Mr. Hime e Dona Iva. Acho que Ivone
no foi porque Jos Manoel nasceu cinco dias depois e ela
realmente no podia fazer uma viagem, nem de automvel nem de trem
at Aparecida.

Alm da aliana comprada por Alex, o meu anel de noivado era de
pedra verde que tinha um significado muito importante. Minha sogra
havia ganho esse anel do marido no dia em que Alex nasceu.

Papai emprestou o carro. Adelaide nos ofereceu a Fazenda Santa
Adelaide onde no tinha ningum naquela poca. Era um lugar muito
bonito, uma casa de fazenda simples,
mas com todo o conforto, em Campos do Jordo. Passamos uns dias
muito tranqilos, passeamos bastante e iniciamos a nossa vida de
casados. No pudemos ficar muito
tempo porque Alex tinha que fazer os exames vestibulares.

Os padrinhos de Alex, Mr. Hime e Dona Iva nos deram duas lindas
bandejas de prata. Ganhei presentes dos amigos de Alex e de minhas
amigas e at de meus alunos do
curso de especializao da Caetano de Campos, inclusive de Olenka,
que est me ajudando nestas memrias.

Assim comeamos. No princpio consegui uma empregada. Lembro-me
que no primeiro dia que Alex foi trabalhar, resolveu fazer compras
e encheu a geladeira. Era tanto
ovo e salsicha que minha sogra abriu a geladeira e riu bastante
porque aos invs de ter coisas essenciais, o que tinha era mais
gulodice que ele mesmo gostava, mas no fim nada se perdeu.

Comearam logo os meus problemas com empregada. A primeira
empregada que eu tive, ficou uns dias e num belo dia fugiu.
Lembro-me de que eu tinha de arrumar a casa,
porque ao meio-dia ia trabalhar Tinha de ir  Fundao e depois
para a Caetano de Campos e voltava mais tarde. Sei que chorei para
varrer a casa, havia muito tempo
que eu no fazia este servio. O pior  que eu estava com o meu
lindo robe de cetim e a camisola comprida e tive de tirar tudo e
botar um vestidinho, uma sandalhinha
e comear a limpar a casa e arrumar porque no tinha empregada
para fazer coisa alguma.

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Com uma de minhas primeiras empregadas dei muita risada porque ela
um dia falou: "Ser que a senhora poderia fazer o favor de no
passar a mo nas coisas?" Perguntei
o porqu. Ela disse: "Porque esses dedos da senhora vem muito
melhor do que os olhos e a senhora sempre encontra defeito, eu
morro de medo dessa sua mo".

Minha sogra e Maria Bab de vez enquando davam um toque ingls.
Maria Bab sempre gostou muito de Alex - ela o criou desde que ele
nasceu. Maria Bab ficou com minha sogra at Alex completar 18
anos.

Uma vez resolvi fazer um doce que minha sogra fazia quando sobrava
bolo, muito gostoso; depois ela usava um pozinho para pudim que
comprava na loja Mappin e ela me deu. Com esse p se fazia um
creme, misturava nas sobras do po
de l e ia ao forno. Que decepo! Alex achou horrvel no se
conteve e disse:  - "Mas que coisa horrorosa, parece coc de
canrio amarelo". Nunca esqueci disso e
nunca mais fiz o bendito do prato. A gente tem tanta decepo,
prepara as coisas to bonitinho e de repente

Eu no tive tempo de fazer curso de culinria como as minhas
amigas, porque j estava trabalhando. A aparncia da comida  to
importante quanto o sabor.

Logo depois de casada, uns dois ou trs meses, eu fiquei grvida.
 aquela sensao linda, maravilhosa, nada substitui a sensao de
que se vai ter um filho, principalmente quando se casa por amor,
quando o casal se quer bem.
 uma coisa quase divina. Fui consultar um mdico que minha sogra
indicou, e s e ele me disse tudo o que deveria fazer. Eu j estava
com quase dois meses e pouco
de gravidez, quando passei mal e tive um princpio de hemorragia.
Fui logo para
o hospital, o mdico me internou, disse que havia perigo de
hemorragia interna e que infelizmente eu j havia perdido o beb.

Fui muito bem tratada, nenhuma seqela ficou, mas desde a primeira
vez que eu consultei esse mdico, na opinio dele, uma mulher de
29, 30 anos, no podia ter filhos a no ser com cesariana. Ele
achava que nunca seria um parto normal. Isso me assustou um pouco.
Hoje se faz muita cesariana, pelo menos aqui
em casa, a maioria das minhas filhas e noras, quase todos os
nascimentos foram cesariana, mas naquela poca a coisa era
diferente e todo mundo preferia ter um
parto normal. O mdico me disse que era muito importante que
aguardasse alguns meses antes de tentar uma nova gravidez porque
ele desconfiava de uma gravidez extra-uterina.

Alguns meses depois de ter perdido o primeiro beb engravidei
novamente e consultei o Dr. Sylia Mattos. Minha cunhada tinha se
consultado com ele e tinha sido muito bem atendida.

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No parei de trabalhar por muito tempo. Fiz todo o repouso
necessrio e continuei meu trabalho na Fundao e na Caetano de
Campos. O curso de especializao j tinha um maior nmero de
alunos e assim continuei sem pr procurando resolver
todos os problemas da nova vida.

No sofri demais na gravidez, apenas o que normalmente as pessoas
passam. Estava sempre muito ocupada, por causa do trabalho, acho
que isso ajudou a enfrentar os
problemas de mal-estar. Eu no tinha realmente tempo para sentir e
continuei muito normalmente a minha vida, a gravidez no me
impediu de forma alguma realizar tudo
aquilo que era preciso naquele incio da Fundao e no
desenvolvimento do prprio curso.

Eu sabia fazer muito bem tric e fiz muitos casaquinhos e
sapatinhos para o primeiro enxoval dos meus filhos, porque gostava
de fazer, eu mesma, determinadas coisas.
Mame tambm, muito caprichosa, fez todas as camisinhas de
cambraia pele de ovo, com rendinhas muito delicadas e bonitas
Mame sempre me ajudava muito porque ela
gostava bastante de costurar e tinha uma habilidade
extraordinria. Todo o enxoval foi feito em casa por ns em tric.

 interessante que meu trabalho jamais me impediu de ter tempo
para fazer essas coisas. Quando perguntam como, no sei, mas acho
que  uma questo de organizao pessoal. Para mim nunca foi um
feito extraordinrio, mas apenas um fato da vida normal.

Para o primeiro enxoval do beb, no se podia fazer tudo azul ou
tudo cor-de-rosa. A cor rosa, principalmente, quase no entrava no
enxoval, s depois
porque no se sabia se era menino ou menina.

Graas a Deus, Alexandre nasceu com 3.960kg; para o primeiro filho
foi uma criana de bom tamanho e eu estava realmente bem grande.
Procurei fazer regime, mas sempre
sem prejudicar o tipo de alimentao da criana s pelo fato de
no querer engordar. Mas que foi desconfortvel, foi.

Alexandre nasceu no dia 27 de julho de 1951, as 23h3Omin. Nessa
noite houve um fato muito interessante. Alex e mame estavam
comigo no quarto e, de repente, ele olhou
pela janela e viu um movimento no estacionamento perto do nosso
carro. Ele desceu e encontrou um rapaz tentando roubar o carro.
Uma verdadeira loucura, porque ele
desceu correndo e foi para perto do carro mas quando o ladro, que
era de uma famlia bastante conhecida, veio para cima de Alex para
dar um murro, Alex desviou-se
e nesse momento um detetive, uma espcie de segurana que estava
l, foi quem levou o soco. Ento a coisa piorou

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muito para o ladro. Ele no chegou a roubar nosso carro, mas
depois foi identificado e preso. So fatos at muito engraados.

Como eu tive um trabalho de parto de muitas horas at que
Alexandre nascesse, foi muito bom poder ficar mais tempo na
maternidade. A criana era muito
bem cuidada. A primeira pergunta da gente  sempre a mesma: se a
criana  perfeita, se respira bem, se chorou bem, enfim, eu acho
que isso  uma coisa to
banal, mas aconteceu, acontece e acontecer todas as vezes que
nascer uma criana.

Mil visitas, presentes,  uma festa! Claro que os problemas de
amamentao, tudo isso me preocupava, mas realmente no tinha
receio. Nunca duvidei que fosse capaz
de tomar conta de meu filho. Chegou a hora de voltar para casa,
recomear a vida, a rotina. Mame procurou me ajudar, mas lembro
que veio uma amiga minha me visitar
e ela j tinha tido dois filhos. Eu estava trocando o Alexandre,
meio atrapalhada,  verdade e ela, Odete O'Leary Sampaio, que
tinha sido minha colega no Elvira Brando, deu umas dicas timas.

Ah, o primeiro banho! Mame veio para dar o primeiro banho. Alex
no tinha coragem, mas mame era muito decidida e para ela no
havia problema algum. Ento ela me
mostrou como fazer. Tambm ela s deu um, porque eu assumi e no
deixava ningum me substituir pois tinha confiana no meu brao.

 noite, o que acontecia com os meus filhos era muito
interessante. Quando fui para a maternidade, para dar a luz ao
Cristiano, mame ficou tomando conta do Alexandre,
ele estranhou, porque mame, quando ia trocar e dar a mamadeira,
acendia a luz. As crianas, quando acontecia que eu estivesse
doente, mal disposta ou precisando
de uma aluda, estranhavam porque nunca precisei acender a luz. Eu
tratava da criana no escuro e isso era um bom calmante. Mame e
meu cunhado Afonso foram escolhidos
como padrinhos de Alexandre Eduardo. Mame mandou fazer uma
camisola linda, com um saio todo plissado e renda na barra. Era
de cambraia irlandesa e a parte de cima
com aplicaes de rendas muito finas. Essa camisola serviu para
todos os meus filhos e netos. Todos foram batizados com ela,
exceto o Andr, que foi batizado em Portugal. Para
o Tiago, meu ltimo neto, a camisola j foi para Portugal. Mando
bordar o nome de todos na saia plissada.

Depois de nosso casamento, Alex continuou seus estudos na
faculdade de Direito. J no podia sair muito, mas como Alex
tambm trabalhava de dia e tinha que estudar  noite, eu lhe fazia
companhia enquanto estudava. Muitas
vezes ele lia alto enquanto eu fazia tric e assim fui tomando
conhecimento de algumas matrias de Direito, principalmente o
Romano, que sempre me encantou.

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HISTRIAS QUE A HISTRIA NO CONTA

'Um dia Adelaide me procurou e disse que conforme havia imaginado,
ela instituiu a Fundao conosco, mas se props a um prazo de
cinco anos de trabalho e que o prazo
terminaria em maro. De acordo com os estatutos, deveria escolher
o seu substituto, e, portanto, eu assumiria em maro a presidncia
 Fundao.

Eu j estava trabalhando intensamente desde que havia chegado dos
EUA, mas no esperava que Adelaide sasse to rapidamente. Neith
j havia deixado a Fundao e no trabalho
para cegos restvamos eu e Regina. Estvamos procurando outras
pessoas para assumir a diretoria.

No foi fcil, alm da estruturao dos servios da Fundao que
esta no incio, a responsabilidade das despesas. Contribuintes,
ainda eram muito poucos. Lembro-me
que havia dado o meu primeiro salrio de professora integralmente
como donativo para a Fundao, mas isso no podia se repetir
sempre pois as despesas que eu tinha de enfrentar eram muitas.

Foram anos difceis. O incio foi de grandes dificuldades,
principalmente financeiras, e posteriormente, de pessoal
especializado. Cada uma das atividades que
comevamos a implantar, somava nas nossas despesas e era preciso
conseguir muito mais contribuintes e colaboradores. Uma Fundao
no tem scios e as pessoas no
incio, para fazer suas doaes, gostariam de ser scios, e ns
tnhamos de explicar que a estrutura de uma Fundao  diferente
da estrutura de uma associao semelhante
a muitas associaes filantrpicas em So Paulo.

Quando sa da maternidade, depois do nascimento de Alexandre e fui
ao Trianon, soube de uma notcia desastrosa. Toda a rea onde
funcionava a imprensa braille
havia sido atingida pela construo feita no Trianon para abrigar
a Primeira Bienal de So Paulo em 1951. Regina no permitiu que me
contassem na maternidade, mas
ao chegar, o choque e a surpresa foram tremendos. Imediatamente
buscamos uma soluo. Fomos ao Prefeito de So Paulo, Dr. Armando
de Arruda Pereira e entregamos-lhe
um ofcio mostrando o que havia acontecido, Para construir no
Trianon um prdio provisrio para a Bienal de So Paulo, os
engenheiros da Prefeitura, que visitaram
a imprensa que ficava embaixo do Trianon, acharam que as colunas
fictcias na imprensa eram colunas de sustentao. Eram apenas uns
canos muito feios que Regina
de forma criativa havia no s revestido, mas colocado uma coluna
de papelo em volta, forrada com papel, para dar idia de colunas
e no de canos. Eles no procuraram ver se aquela parte do

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Trianon tinha capacidade de sustentao e desta forma construram
um prdio com peso sobre canos de gua que eram colunas fictcias.

O Prefeito foi ver a imprensa quase nas vsperas da inaugurao da
Bienal. Ameaamos publicar e alertar as pessoas que fossem 
Bienal que estava em perigo o piso
do prdio. Na nossa imprensa caram o relgio e outros materiais.
Graas a Deus que as mquinas no ficaram muito danificadas, mas
foi uma verdadeira destruio.
O Prefeito visitou a imprensa e ficou muito impressionado com o
que viu e prometeu-nos dar uma verba para ampliarmos o nosso
trabalho, o que nos deixou bastante
satisfeitos. Dr. Nlson Marcondes do Amaral, Secretrio de
Educao de grande tirocnio, uma pessoa que tinha conhecimento
muito grande dos problemas das pessoas deficientes, procurou nos
ajudar de forma extraordinria. Ele foi, mais tarde, o autor do
comodato de cesso do prdio onde estamos hoje.

No podamos permitir porm que os funcionrios da imprensa
corressem riscos e pouca gente sabe que no dia da inaugurao da
Primeira Bienal de So Paulo foram
espalhadas pessoas, em determinados pontos do prdio, para
distribuir o peso por causa do volume de pessoas que deveria
assistir  Bienal, embora eles j estivessem
procurando reforar as colunas e tomar as medidas necessrias para
que toda aquela construo no russe. So histrias que a
histria no conta.

No  preciso dizer que no dia em que assinamos o convnio no
valor de 1.200,00 cruzeiros, que nos parecia uma verdadeira
fortuna, eu disse ao Senhor Prefeito que
estvamos contentes, que ele havia cumprido a palavra mas que
ainda precisvamos de um novo prdio. Foi a partir desse dia que o
novo prdio foi idealizado. Ele
mandou fazer um estudo no Patrimnio da Prefeitura, selecionou
alguns terrenos e o que nos pareceu melhor foi o da rua Dr. Diogo
de Faria. Nesta rea esto situadas a APAF, a Associao da
Criana Defeituosa, a Cruz
Verde, muitas organizaes das pessoas deficientes e a prpria
Faculdade Paulista de Medicina, hoje Universidade Federal de So
Paulo e o Hospital So Paulo.

Iniciou-se a construo do novo prdio. Estudamos este prdio com
os arquitetos da Prefeitura. Um deles, Dr. Fernando, insistiu
muito no tipo de fachada que
o prdio deveria ter. Ele queria uma coisa alegre e bonita e ns
ficamos muito satisfeitas. Mas a razo de querer uma fachada muito
bonita e agradvel, ele nos explicou mais tarde, era porque tinha
um filho que nascera cego. Disse-nos que se sentiria muito triste
se tivesse de procurar uma Fundao de cegos, e
esta Organizao fosse um lugar triste, com aparncia pouco
agradvel, e que isto o prejudicaria o prprio menino e os pais
das pessoas cegas.

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Houve um fato muito importante no Brasil por volta do ano em que
me casei, em 1950, a instalao da primeira televiso, por Assis
Chateaubriand - TV Tupy. Fomos
convidados por Dr. No Ribeiro, que morava na rua Cuba, e
assistimos o primeiro programa, quando apareceu a imagem do ndio
(smbolo da TV Tupy). Todos se esforaram
para me explicar esse primeiro programa. Foi uma alegria geral.

Em 1949 Dr. Irwin, que sempre continuou se correspondendo comigo,
me convidou para ir a Oxford onde se discutiu e se preparou uma
carta de princpio para a criao
do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos. Em 1949 havia
dificuldade para conseguir recursos para uma viagem  Inglaterra,
tudo era um pouco complicado nessa
poca e alm disso eu estava noiva. No fui!

A American Foundation e o Dr. Irwin estavam sempre envolvidos em
todos os programas internacionais, seminrios, reunies e
certamente o meu nome foi dado a Sir Clutha
Mackenzie, outra pessoa cega famosa. Sir Clutha era da Nova
Zelndia e foi um grande lder, principalmente para a unificao
das abreviaturas braille em todos os
pases e em vrias partes do mundo e era presidente do Conselho
Braille da UNESCO.

A UNESCO patrocinou um congresso em Montevidu para que se
estudasse a unificao da abreviatura braille para as lnguas
espanhola e portuguesa, Recebi uma carta
de Sir. Clutha, informando que iria ser realizado este Congresso e
que seria importante que eu fosse, O Brasil ia ser convidado para
uma reunio patrocinada pela UNESCO - o convite em geral vai
sempre para o governo dos pases membros. Aguardei e o convite no
chegou. Bem perto da realizao do Congresso, recebi outra carta
de Sir Clutha me perguntando se o convite havia chegado em minhas
mos. Logo imaginei que certamente, sendo o convite para o governo
e eu estando numa organizao particular como a Fundao,
dificilmente ele viria at mim. Naquela poca o Instituto Benjamin
Constant era o nico organismo de projeo do governo brasileiro.
Fiquei sabendo que o convite chegou com a recomendao para que eu
fosse, mas o convite foi para o Instituto Benjamin Constant e o
diretor resolveu ir ele mesmo.

Escrevi dizendo a Sir Clutha que quem iria representar o Brasil
seria o diretor do Benjamin Constant. Qual no foi minha surpresa
ao receber um convite, com todas as despesas pagas pela UNESCO.
Eles faziam questo de que houvesse um representante de
organizao particular de imprensa Braille, uma pessoa que j
fosse conhecida, que poderia trabalhar com conhecimento do
assunto. Alexandre tinha quatro meses e eu ainda estava
amamentando. Tive srias dvidas se deveria ir ou no, porque ele
era muito pequeno, mas era

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apenas por alguns dias. Alex tirou alguns dias de frias tambm e
resolvemos ir. Olmpia se prontificou imediatamente a ir comigo.
Alex seguiria depois.

O diretor do Instituto Benjamin Constant no conhecia o sistema
braille. Quando chegou e viu que eu tambm era representante do
Brasil, falou: "A senhora certamente vai participar. Deixo aqui o
documento preparado pelos professores do Benjamin Constant. Eu no
sei bem o que ele contm. Fica a para a
senhora ver o que  possvel fazer". Estava l presente para a
lngua portuguesa um grande fillogo cego, Albuquerque e Castro. O
professor Albuquerque Castro tinha seu prprio sistema de
abreviaturas e eu desconhecia o trabalho dos professores do
Benjamin Constant, porque a imprensa braille da Fundao
no havia recebido qualquer comunicao a respeito.

No tive possibilidade de discutir o documento dos professores do
Benjamin Constant. Fiz um trabalho com Albuquerque e Castro pelo
que eu conhecia de abreviaturas. Eu j as conhecia no ingls.
Desta forma organizamos o sistema de abreviaturas o mais
aproximado das abreviaturas da lngua espanhola.

Depois de terminado o seminrio, Alex chegou e ento fizemos com
Olimpia uma viagem muito simptica para a Argentina.

Foi uma bela estria de participao num congresso, j com a
competio instalada. E isso no me aconteceu uma s vez, esse
fato de o governo brasileiro
ter recebido um convite, e por se tratar de uma reunio de rgo
internacional, o convite no chegar em minhas mos, mas outras
pessoas do governo serem indicadas.

Em 1952, houve um fato muito desagradvel. Um rapaz cego foi fazer
uma denncia ao deputado Pinheiro Junior, na Assemblia
Legislativa do Estado de So Paulo, dizendo que a diretoria da
Fundao e principalmente eu vivamos
s custas da Fundao e usvamos o dinheiro para o nosso prprio
bem. O fato me revoltou. Foi em setembro de 1952. Cristiano
deveria nascer na ltima semana de setembro. Eu estava enorme,
Alexandre Eduardo pequeno, eu quase no podia
sair de casa, mas o abalo que senti foi imenso. Como sempre, pus
mos  obra. Chamei uma secretria, e ditei minha defesa pessoal,
colocando todos os livros da Fundao  disposio da Assemblia
Legislativa, historiando que esses livros eram verificados pelos
auditores da Prefeitura. Contei toda a histria da
Fundao como a diretoria voluntria trabalhava, que jamais
havamos recebido qualquer ordenado da Fundao. Mostrei tambm os
servios que prestvamos  comunidade.

Conseguimos que um deputado ilustre e que estava acima de qualquer
suspeita, o padre Calasans, fizesse a defesa. Ele foi brilhante.
Baseou-se no meu documento. Eu, que fugia de publicidade, acabei
me defrontando com ela em

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cheio. Os deputados depois de ouvirem a defesa do Pe. Calasans na
Assemblia apoiaram-no e por unanimidade fizeram constar em ata um
voto de louvor para a Fundao.

No dia sete de outubro, eu estava dando banho em Alexandre Eduardo
quando a bolsa estourou e eu fui para a maternidade. Nasceu
Cristiano, um menino grande, robusto,
acho at que o rostinho dele j trazia os traos de alegria,
porque apesar de todos os tormentos que eu passei anteriormente,
ele tem um temperamento muito alegre e muitas vezes jocoso. Nasceu
com 4,250kg, comprido e graas a Deus, com boa sade.

Eu cuidava dos dois e ainda tinha possibilidade de acomod-los
cada um em seu quarto para que tivessem um sono tranqilo. Foi
minha preocupao constante que meus
filhos tivessem condies de dormir tranqilamente. Sempre fui
contra acordar criana para qualquer coisa e muitas vezes dei
mamadeira para eles dormindo. Lembro que uma
vez eu estava com tanto sono que coloquei mamadeira na minha
penteadeira. Acontece que a empregada no tinha tirado a mamadeira
do dia anterior, ento eu fui buscar
Cristiano e dei a mamadeira; de repente quando ele fez um
movimento de estmago, percebi um cheiro azedo. Tirei a mamadeira,
experimentei e vi que o leite estava um pouco
azedo. Em vez de pegar a mamadeira nova, eu estava dando a
anterior, que estava na minha penteadeira. Coisas que acontecem,
principalmente para quem no pode ver. Mas no
prejudicou a sade, tudo acabou bem e no houve razo para que eu
ficasse mais preocupada ou frustrada.

Nesses momentos as pessoas cegas precisam reconhecer suas
limitaes; sem deixar se abater pelo fato de cometer um erro que
no teve condies de controlar, e que seria evitado atravs da
viso.

Quando Cristiano nasceu, e eu ainda estava na maternidade, minha
sogra, Mrs. Nowill, teve uma embolia e foi hospitalizada. No dia
seguinte  minha sada do hospital,
levei Cristiano para que ela o conhecesse, com a autorizao tanto
do mdico de minha sogra, como do pediatra. Havia pouca esperana
de que ela ultrapassasse a crise. Ela me reconheceu, ficou muito
emocionada por ver Cristiano, mas infelizmente no conseguia mais
falar, nem ingls e nem em portugus.
Ficou muito tempo, quase um ms no Hospital Samaritano.
Felizmente, Maria Bab no abandonava minha sogra nessas horas.

Reformamos a parte detrs da nossa casa, onde havia um quarto.
Fechamos como um pequeno apartamento para ela com todo o conforto.
As minhas empregadas passaram a dormir na edcula da casa de
mame. Abrimos uma comunicao pelo quintal, porque a minha casa
era geminada com a casa de meus pais, assim, tnhamos passagem
interna de uma casa para outra. As empregadas

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ficaram acomodadas e minha sogra ficou com o seu pequeno
apartamento. Sua
enfermeira fazia -lhe massagem e ela estava comeando a se
recuperar, mas no falava.

Aos poucos, mesmo ajudada pelas enfermeiras, ela comeou a fazer o
chazinho, o 'five o'clock tea". Ela, Maria Bab e a enfermeira
preparavam uns sanduichinhos deliciosos,
torradas maravilhosas e as crianas aprenderam a gostar de ch.
Com isso ela mantinha as crianas no apartamento dela muitas vezes
por dia.

Nessa ocasio, Cristiano ainda no tinha nascido e Alexandre
estava brincando com uma bola dentro do quadrado. Eu estava
sentada no cho, empurrando a bola para
brincar com ele. Eu tinha perdido a bola, e, de repente ele pegou
a minha mo e colocou-a sobre a bola. Ele tinha 11 meses e
estabeleceu comunicao comigo.

A comunicao foi mais fcil com os outros filhos depois porque
eles j observava o comportamento de Alexandre, que logo aprendeu
a me dar a mo. Ele era estimulado
a me levar de um lado a outro, mesmo que eu no necessitasse. Isso
depois funcionou normalmente com todos. Mas foi excelente que to
cedo ele pudesse estabelecer comunicao comigo e pudesse
compreender a situao. Foi uma configurao, uma "gestalt", deu
um estalo e a coisa funcionou.

Com to pouca diferena de idade, os dois meninos Alexandre e
Cristiano, cresceram e se desenvolveram juntos. Alexandre era
claro, de olhos castanhos, sempre muito meigo. Olhos cor de mel,
da cor dos meus e que mudavam bastante de cor conforme a cor de
roupa que pusesse. Cristiano era bem parecido com
Alex e com o pai de Alex. Pele bem clara, olhos azuis, grandes
olhos cor do cu.

Durante minha bolsa de estudos nos EUA, tinha conhecido Helen
Keller e ela me disse que queria muito vir para a Amrica do Sul.
O grupo de ralaes publicas de Helen Keller entrou em contato
conosco e ento formulamos ao Presidente da Repblica um pedido
para que ela fosse convidada como Hspede Oficial.
Ela visitava os pases, mas sempre na qualidade de hspede Oficial
do governo. Desde este dia, comeamos a preparar sua vinda. Ela
visitaria So Paulo e Rio de Janeiro. Era preciso a preparao de
um programa muito cuidadoso, porque ela seria submetido tanto ao
governo brasileiro como ao grupo de relaes pblicas de Hlen
Keller, para apreciao.

H dois dias da chegada de Helen Keller, Cristiano, que tinha uns
oito ou nove meses resolveu ter uma intoxicao com uma
desidratao violentssima. Alex e eu levamos Cristiano ao Dr.
Pedro de Alcantara, pediatra que atendia os meninos.

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Dr. Alcntara disse que o caso era srio. Expliquei a minha
situao e ele disse: - No h problema, ns vamos coloc-lo num
banco de soro e a senhora pode ficar
certa de que ele vai melhorar. No se aflija porque isso acontece,
 muito normal, foi alguma coisa que provocou esta intoxicao,
mas o menino vai sarar e a senhora
tambm vai poder realizar o seu trabalho.

Cristiano se recuperou e de manh bem cedo j teve alta, foi para
casa. Mame ficou com ele e eu pude ento ir me arrumar, ir ao
cabeleireiro, nessa poca o Gaeta, na
Rua Augusta. Nessa tarde Helen Keller chegou a So Paulo e eu l
estava pronta para receb-la e dar incio  programao.

A preparao do programa de Helen Keller em So Paulo, inclua
planejamento de entrevistas com autoridades, preparao de "press
release", organizao de reunies
e visitas. Contando com voluntrios, procurvamos fazer uma boa
divulgao. Tudo era feito com muito cuidado. ramos relativamente
poucos. J havamos criado, alm do servio social, um servio de
emprego para cegos.

Geraldo Sandoval, que havamos conhecido em Belo Horizonte foi
contratado para trabalhar conosco. Ns estvamos muito
interessadas no programa de empregos para
pessoas cegas. Procurvamos intensificar a colocao na indstria.
Mandamos vir dos EUA testes de avaliao muito utilizados na
orientao profissional.

Nosso maior interesse no momento era a indstria e por isso
inclumos no programa de Helen Keller uma mesa redonda na
Federao das Indstrias de So Paulo, coordenada
por Dr. Antnio Devisate, presidente, e Dr. Roger Mange, diretor
do SENAI. Helen Keller ficou alguns dias em So Paulo.

A visita de Helen Keller foi um sucesso. Nunca me esquecerei das
lindas frases que me disse e o quanto ela estimulou o povo de So
Paulo para que nos ajudasse, para
que a Fundao pudesse progredir. A mesa redonda na Federao das
Indstrias foi um sucesso maravilhoso. Dr. Mange se prontificou a
abrir o servio de colocao de cegos
no SENAI, que funcionou muitos anos e se expandiu por vrios
Estados. Tudo resultado da visita de Helen Keller.

Helen deixou frases memorveis. No posso deixar de mencionar a
frase que j foi usada a meu respeito como ttulo de um artigo
publicado no Readers Digest e lembrada
por Cristiano, meu filho, num programa de televiso a pouco tempo:
- Where Derma is thert' is no darkness, "Onde Dorina est, no h
escurido". Continuamos a nos
corresponder e suas cartas so para mim uma relquia.

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Houve uma controvrsia a respeito de Helen Keller nos EUA. Alguns
tentaram diminuir-lhe o brilho e a importncia que teve. Na
realidade, ela procurou, fora do EUA, sentir a situao das
pessoas cegas e levou para todas as partes do mundo a sua mensagem
de otimismo, de f, principalmente nas possibilidades das pessoas
cegas. Inmeros servios no mundo foram por ela estimulados.
Graas a Deus que pudemos traze-la ao Brasil e fazer com que os
brasileiros conhecessem essa mulher extraordinria.

Ainda em 1953, a 3 de setembro, saiu o decreto criando as Classes
Braille, hoje Sala de Recursos. Essa lei tambm foi um marco muito
importante na educao de cegos no Brasil.  o reconhecimento dos
legisladores brasileiros de que o educando cego tem o mesmo
direito que os  educao, sempre que possvel nas mesmas escolas,
com os mesmos recursos educacionais. Foi uma grande vitria para a
Fundao.

Hoje, que o mundo se volta para a integrao, depois que os meios
de informao e comunicao tornou os homens mais prximos, essa
lei parece apenas um fato normal. Em 1953 bem poucos pases tinham
chegado a essa deciso e ainda se duvidava sobre a validade da
integrao.

DORININHA E O I CONGRESSO PANAMERICANO DE ASSISTNCIA AOS CEGOS E
PREVENO DA CEGUEIRA.

Mais uma vez fiquei grvida. Eram inmeros os preparativos para a
mudana da Fundao para o novo prdio que j vinha sendo
construdo. Jnio Quadros assume a Prefeitura de So Paulo,
cancela todas as subvenes, convnios e contratos. Foi o que se
pode dizer, um rebu na rea da assistncia social e educacional,
por parte das entidades particulares. Marcamos uma hora com o
Prefeito Jnio Quadros e nesta entrevista fomos eu e a Syomara
Cajado, diretora da Fundao.

A imagem de Jnio Quadros, da vassoura, da sobriedade, das
exigncias, assombrava todo mundo. Confesso que nem tive medo nem
receio. Fomos muito bem recebidas, expus tudo a respeito da
Fundao, mostrei que se ele no renovasse os convnios, teramos
de fechar, porque naquela poca 90% das verbas que sustentavam a
Fundao eram verbas do Estado e da Prefeitura de So Paulo.
Haviam doaes, mas as verbas governamentais eram a nossa
garantia, nos

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davam solidez e possibilidade de trabalhar. Jnio muito sisudo,
ouviu atentamente. Depois levantou - e veio perto de mim, ps a
mo no meu ombro e disse:"Minha senhora, por causa dessa Fundao,
eu vou criar uma nova legislao para o Municpio de So Paulo a
fim de garantir os convnios e os contratos de
subvenes. Dessa forma haver verbas includas no oramento e as
senhoras tero uma garantia de poder continuar o seu trabalho".
Dito e feito: a lei foi feita, publicada e passamos a ter outra
vez convnio com as Secretarias da Educao e
posteriormente da Cultura. Alis, dona Elo tambm interessou-se e
procurou dar ateno a obras sociais em So Paulo.

Nessa dcada outras diretoras tambm ocuparam cargos na Fundao
como Dina Carvalho e Geralda do Amaral que havia sido minha aluna
no Curso de Especializao na Caetano de Campos.

Tomei conhecimento atravs dos oftalmologistas do Conselho
Brasileiro de Oftalmologia e do Comit Panamericano de
Oftalmologia, por ocasio das celebraes programadas para o IV
Centenrio da Cidade, que se realizaria em
So Paulo um seminrio da Associao Sulamericana de Oftalmologia
e Preveno da Cegueira. Nessa poca eu era Co-Presidente com
Helen Keller desse Comit.

Discuti com a diretoria da Fundao e com os profissionais que
trabalhavam conosco e resolvi escrever ao Conselho Mundial para o
Bem-Estar dos Cegos, para ver a possibilidade do Conselho Mundial
reunir-se no Brasil.

O Conselho programava suas reunies com vrios anos de
antecedncia e j tinha escolhido o pas para a reunio de 1954.
No fiquei decepcionada, pois Eric Boulter sugeriu que
organizssemos um Congresso e Assemblia do Comit Panamericano do
Conselho Mundial.

Nessa poca, o coronel Edwin A. Backer era o presidente e Eric
Boult secretrio geral. Eric Boulter sempre se interessou pelo
assunto e ns comeamos a planejar a reunio desse comit aqui no
Brasil, com o patrocnio da American Foudation for Overseas Blind.

Participaram representantes de todos os paises da Amrica do Sul,
da Amrica Central e dos Estados Unidos.

Foi um Congresso maravilhoso. Contratamos intrpretes. Conseguimos
que o Congresso se realizasse no antigo Esplanada Hotel, na Praa
Ramos de Azevedo em So Paulo. O Congresso realizou-se de 11 a 17
de junho, alguns dias antes do nascimento de Dorininha. Mais
tarde, Eric Boulter e todos os outros

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membros do Mundial que aqui estiveram, contaram que eles tremiam,
porque a toda hora imaginavam que eu, de repente, teria que ir
para a maternidade. Fui Presidente da Comisso Organizadora,
agentei o Congresso inteiro, apesar de
todos os problemas polticos que normalmente surgem em eventos
desse gnero. Eric foi um dos maiores lderes que ns tivemos e um
continuador do movimento de Helen Keller junto a todos os pases
do mundo a fim de congreg-los na
ande Organizao Mundial que era o Conselho Mundial para o Bem-
Estar dos Cegos. Eric interessou-se pela realizao do Congresso
no Brasil, porque ele sabia da minha bolsa de estudos, do meu
trabalho nos EUA atravs do Dr. Irwin.
 interessante que s anos mais tarde ele me contou como Dr. Irwin
havia se referido a mim logo depois de meu retomo dos EUA, em
1947. Foi quando Eric Boulter foi para a American Foundation e Dr.
Irwin lhe disse: "Que pena voc no ter conhecido as brasileiras
que aqui estiveram.  um grupo que vai dar
muito resultado no trabalho na Amrica Latina, e uma delas  cega.
Voc pode ter certeza de que um dia o destino das pessoas cegas no
mundo ser conduzido por ela". Eu s soube disso em 1978, no
Japo, quando se planejava a possibilidade da minha eleio para
presidente do Conselho Mundial.

A verdadeira finalidade da reunio do Comit Panamericano em So
Paulo era obter a unificao de esforos de todas as entidades das
Amricas junto ao Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos. Eu
sempre me mantive fiel a esse objetivo durante todos os anos que
trabalhei e ainda trabalho para o nosso organismo internacional.

Sempre acreditei na unidade, na cooperao e no na diviso. Nessa
reunio senti bem de perto as tendncias entre rgos
internacionais, as reivindicaes e pude
observar a linha de conduta dos que j faziam parte dessa
organizao. Foi uma experincia indita e inesquecvel

Lamentavelmente algum tempo depois, um grupo latino-americano
prosseguiu as atividades do Consejo Panamericano pro Ciegos que de
certa forma, fazia oposio ao trabalho do Conselho Mundial para o
Bem-Estar dos Cegos.

Em 1966 eu j era vice-presidente do Conselho Mundial e Eric
Boulter designou-me para representar a nossa Organizao num
Congresso Braille em Buenos Aires, Argentina,
organizado pela imprensa braille, cujo chefe era Davi Lopez.
Coube-me a tarefa de reiniciar o nosso contato com os organismos
latino-americanos. Graas a Deus, fui bem-sucedida.

A princpio senti a resistncia, diziam que eu era muito
"americanizada". Tive a felicidade de mostrar que eu era bem
brasileira, conhecia o trabalho
realizado nos EUA, sabia do seu valor, conhecia j nessa poca, na
dcada de 1960, o trabalho realizado na Europa, mas tinha o maior
interesse pela Amrica Latina.

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Este foi um primeiro passo para que, bem ainda de longe, o Consejo
Panamericano pro Cegos e o Conselho Mundial comeassem a trabalhar
juntos.

Em resumo, depois de terminado todo o movimento do Congresso de
1954, bastante agitado politicamente, Dorininha nasceu, no dia 5
de julho, foi uma festa! Eu j tinha dois meninos e meu irmo,
trs. Foi a primeira neta. Uma
criana grande, Dorininha nasceu com 4,300kg. Rosada, clarinha, j
desde pequenininha, tipo irlandesa. Como mame e papai estavam na
Europa, Amlia, minha irm, ficou comigo na maternidade.

Alex sempre quis que tivssemos uma menina. Ele achava muito
importante e dizia: "Gostaria que ns tivssemos uma menina. Acho
que ela seria sua companheira".

Desde 1950 j funcionava a Classe Braille da Caetano de Campos. O
nmero de alunos das classes braille j havia aumentado e a
dificuldade para as famlias aceitassem levar as crianas para a
escola era muito grande, ento compramos um micronibus. .

Comeou a trabalhar conosco uma pessoa que foi durante muitos anos
o nosso motorista e que acompanhou todo o desenvolvimento da
Fundao. Era uma figura popular e muito querida por todos - "seu"
Waldomiro. Era um guarda civil. Conseguimos seu comissionamento e
ele pde trabalhar em tempo integral na Fundao at se aposentar.

No fim desse ano Alex se formou. Fui assistir  formatura de Alex
e recebi um convite do Instituto Benjamin Constant e de outras
organizaes do Rio de Janeiro,
para uma reunio a fim de discutirmos o problema de sempre:
unificao das organizaes. O diretor do Benjamin Constant, nessa
ocasio, era Dr. Rogrio Vieira com quem depois eu vim a trabalhar
no Ministrio da Educao. Logo nos simpatizamos. Apreciei muito
Dr. Rogrio e a maneira sem agressividade com que ele
discutia o problema das organizaes. Pude falar sobre a
necessidade de nos unirmos para obter do governo maiores medidas e
recursos. De nada valia querermos nos combater.

Diante dos aspectos levantados por todos os participantes desta
pr-reunio resolvemos em assemblia criar uma organizao: o
Conselho Brasileiro para o Bem-Estar dos Cegos. Como eu conhecia
bem toda a estrutura da Organizao Mundial, falei sobre o
assunto. Presidi a comisso para estudar os estatutos em dois
dias, auxiliada por Dr. Rogerio que tinha muita experincia, e por
Espinola Veiga, pessoas do Benjamin Constant e de outras
organizaes do Rio de Janeiro que eram muitas,
criamos a primeira grande organizao de cegos no Brasil. Fui
eleita a primeira presidente do Conselho Brasileiro para o Bem-
Estar dos Cegos. Na constituio desse
Conselho, havia uma clusula que no permitia a reeleio do
presidente para o binio prximo. Quando terminei o binio, todos
propuse-

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ram modificar os estatutos para que eu pudesse continuar. Nossa
proposta era ter uma presidncia rotativa e assim foi. No aceitei
porque sempre tive idias bem-definidas sobre esse particular.
Achei que seria ultrapassar tudo aquilo que tnhamos combinado.

O Conselho ficou no Rio durante muitos anos e o que eu no quis
fazer os outros fizeram. Ele se perpetuou no Rio de Janeiro e
inclusive conseguiram salas etc., o
que no era propriamente a finalidade dessa organizao, que
deveria ter uma diretoria rotativa dando chances a pessoas cegas
de todo o pas, de uma forma bem democrtica.
Este Conselho subsiste at hoje e tem realizado excelentes
programas. A Fundao sempre deu amparo, sempre colaborou com
todos os presidentes, sempre manteve uma
representao, embora eu no tivesse aceito nenhum outro cargo.
Quando o Conselho fez 25 anos me foi concedido o ttulo de
Presidente Honorrio.

Seria impossvel deixar de assinalar tudo o que se passou no ano
de 1954 na minha vida. Era uma manh, eu estava dando banho em
Dorininha e ouvindo o rdio. De repente ouo o anncio da morte de
Getlio Vargas. Era 25 de agosto.

Nunca deixei de acompanhar com interesse todos os movimentos
polticos de meu pas. Sempre procurei e at hoje procuro estar a
par do noticirio.

Sempre acreditei na democracia. Acompanhei e me entusiasmei muito,
quando menina, pela revoluo de 1932.

Meu av materno foi um poltico militante. Anarquista. esteve no
Brasil, nos EUA e no fundo ele prejudicou at a prpria educao
dos filhos por causa
do seu envolvimento poltico na aldeia onde moravam na Itlia.

Certa vez fui consultada se eu queria me candidatar a deputada.
Respondi que a minha campanha poltica era na rea da cegueira
para a qual eu havia dedicado todo o meu trabalho. Agradeci, mas
no tive sequer a tentao de entrar na poltica.

A poltica pode tornar-se um elemento muito til para as
reivindicaes das pessoas deficientes na legislao, na obteno
da conscincia do poder pblico sobre
as necessidades das pessoas deficientes, mas no era a minha
tendncia nem meu desejo faz-lo atravs de qualquer cargo
poltico.

BATIZADOS

Quanto aos meus filhos, Alexandre e Cristiano foram batizados na
igreja de judas Tadeu. Os padrinhos de Cristiano foram Dr. No
Ribeiro e sua filha Maria

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Marta. Cristiano tambm tinha dois nomes, Cristiano Humberto.
Cristiano, porque Alex gostava do nome Cristopher, mas Cristopher
em portugus era muito complicado
e ele queria que o nome fosse em portugus e no em ingls, ento
optamos por Cristiano. Humberto que era a traduo de Hubert, o
nome do pai de Alex. Dorininha foi
batizada por Dollie e meu irmo Man na Catedral da S:
1954 foi o ano do IV Centenrio da Fundao de So Paulo.
Inaugurou-se a Catedral da S, e ns resolvemos ento que seria
muito bom se ela fosse batiza na Catedral.
A roupa do batizado continuava a mesma, usada por Alexandre,
Cristiano e Dorininha e eu sempre mandando bordar os nomes. Ficou
uma tradio e eu adoro as tradies,
gosto das histrias das coisas. Elas me fazem sentir viva e
tradio lembra vivncias, lembra seres humanos, lembra
realizaes, lembra preferncias, gostos, fatos
que originam essas tradies. Por isso estabeleci a minha
tradio, que foi a camisola de batismo das crianas.

Os netos continuam a ser batizados com esta camisola. Interessante
foi que aconteceu no batizado de minha neta Marta. A famlia do
pai da minha nora, os Vicente de
Azevedo, tambm tm uma camisola, que se chama "camisola do V
Baro". Todas as crianas da famlia so batizadas com ela. Ento
Marta, minha nora, no teve dvida,
vestiu as duas camisolas, tanto na Marta como Marininha.

Em 1954, comeou a freqentar a nossa casa um padre da Igreja de
Nossa Senhora Me dos Homens, dos Padres Americanos Oblatas, na
Alameda Franca, o Padre Suple. Ele
ia visitar minha sogra, conversar, procurar espiritualmente fazer
com que ela encarasse os problemas que enfrentava, j na sua idade
avanada, com aproximadamente
70 anos, depois de ter tido uma embolia. Mrs. Nowill resolveu,
para nossa surpresa, tornar-se catlica, reconfirmou o batismo e
recebeu a primeira comunho, preparada
por Pe. Suple. Depois ele ia
freqentemente levar-lhe a Eucaristia. Foi uma amizade muito
agradvel e muito boa, no s para mim mas para Alex, tornamo-nos
muito amigos do padres dessa Igreja.

PRDIO NOVO - ATIVIDADES NOVAS

Depois que a Fundao passou para a rua Dr. Diogo de Faria, surgiu
o problema da necessidade de mobilirio adequado. Tudo parecia to
grande, o bloco da frente
e a imprensa braille no fundo. Eu havia pedido para ter elevador
no prdio da frente e que as fundaes fossem preparadas para um
terceiro andar. A empre-

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as construtora no atendeu as solicitaes - deixou o poo do
elevador, mas no preparou as fundaes para a construo de um
terceiro andar, que seria
hoje da maior utilidade, o que resolveria nosso problema de
espao. Depois foi construdo mais um bloco entre o da frente a
imprensa braille. Assim
mesmo, apesar de trs blocos de dois andares, a Fundao ficou
muito pequena para as
necessidades e para o volume de trabalho que ali era realizado.

Nessa poca, a Fundao j tinha diretoras muito atuantes como
Rosinha Belfort Matos e Maria Marta que ocuparam diversos postos
na Diretoria.

Em 1955 entrou tambm para a Diretoria Lourdes Itapema Alves, que
foi uma tima copista, uma voluntria muito discreta e ativa na
colaborao que procurava dar aos nossos trabalhos.

Teresinha Rossi, professora especializada que havia participado da
criao da Fundao e era nessa ocasio professora da classe
braille da Caetano de Campos, foi comissionada para trabalhar na
Fundao.

Era preciso criar uma estrutura de apoio a todo o movimento para
integrao das crianas cegas no Sistema Regular de Ensino do
Estado. O assunto foi proposto  Secretaria de Educao atravs do
Chefe do Departamento de Relaes Pblicas, Professor Paulo
Lencastre. Foi ento assinado um importante convnio entre a
Fundao e a Secretaria de Educao do Estado, criando-se na
Fundao um Departamento de Educao Especial.

O Departamento de Servio Social da Fundao j funcionava, havia
assistentes sociais e Geraldo Sandoval foi contratado para
trabalhar na rea de colocao profissional.

Depois da visita de Helen Keller a So Paulo, a Fundao cedeu
Geraldo Sandoval para ser efetivamente contratado pelo SENAI.

Pensou-se tambm em transferir este Departamento para a prpria
Secretaria de Educao. Dr. Paulo Lencastre lembrou que eu deveria
ser indicada para dirigi-lo.
A Diretoria da Fundao achou que a poca no era propcia e que
um trabalho to importante necessitava de muito apoio e recurso
que a Fundao podia oferecer mas
que a Secretaria no possua naquele momento. Pessoalmente
jamais me interessei por este tipo de cargo no governo, cargo de
dedicao plena, que me impedisse de continuar meu trabalho na
Fundao.

Ns todos, porm, sabamos que no fundo esse Departamento deveria
passar para a estrutura da Secretaria de Educao do Estado.

Trabalhamos muito para que o Departamento de Educao fosse um
sucesso.

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Fizemos uma grande pesquisa de acuidade visual atravs da
preparao das alunas da Escola Normal, em colaborao com o
Servio de Sade Escolar. Foi um grande trabalho,
treinando professores e alunas da Escola Normal para a aplicao
de testes para a medida da acuidade visual atravs da carta de
Snellen.

Nessa poca tivemos alunas muito boas e depois timas professoras,
muitas delas lderes. Entre estas professoras  preciso destacar
principalmente Jurema Venturini,
que depois tornou-se assistente de Teresinha no Departamento de
Educao.

Minha famlia continuou crescendo. Era dia 12 de maro de 1956.
Fui de manh para a Escola de Servio Social. A pessoa que veio me
buscar, estava acompanhada por
uma empregada antiga da famlia, uma preta velha muito sabida.
Quando eu apareci na porta ela olhou para mim e disse: - "Dona
Dorina a senhora sabe que olhando para a
sua barriga, eu acho que essa criana vai nascer j? Logo, logo".
Achei graa e realmente estava para nascer, mas fui a Escola de
Servio Social para participar de
uma banca examinadora. Mame dizia que um dos meus filhos iria
nascer no carro da Fundao.

Cheguei  Escola de Servio Social, Helena Junqueira olhou para
mim e disse: "Dorina, para quando ?" Eu respondi, quase repetindo
o vaticnio daquela senhora: "Acho
que  para j". Ela achou que era brincadeira e eu fui para a sala
onde se iniciavam os trabalhos, argir a tese. No meio da argio
estourou a bolsa e eu no tinha
coragem de interromper a exposio da tese. Terminada parte da
argio a pessoa responsvel pela Escola de Servio Social
indagou: "Os senhores querem permanecer aqui
ou ir para outra sala para dar a nota?" Eu a chamei e disse: "Eu
no posso me levantar porque tenho de ir direto para a maternidade
pois estourou a minha bolsa.
Preciso dar a nota aqui". Acrescentei "Fique calma, porque no
estou sentindo dor nenhuma, j estou acostumada com isso e d
tempo". Dei a nota, tranqilamente. O
que aconteceu  que reguei a Escola de Servio Social entre a sala
onde eu estava e a conduo. Passei em casa peguei mame no carro
da Fundao mesmo, mandei avisar
Alex, peguei minha malinha e fui para a maternidade do Sylla
Mattos.

Mame, assustadssima! Alex veio correndo, mas eu estava muito bem
a ltima coisa que lembro foi que s 6h00, no rdio, ouvi a Ave-
Maria e rezei.
Depois fui para a sala de parto e Denise nasceu. Denise Maria.

Fia era uma criana muito bonita, gordinha, com grandes olhos
azuis e sempre foi, como diziam, uma bonequinha francesa.
Dorininha uma irlandesa e Denise parecia mais
uma francesinha. Foi tambm um parto normal. Nessa poca no se
ficava tanto tempo na maternidade e eu j tinha em casa toda
infra-estru-

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tura para cuidar de uma criana recm-nascida. J tinha prtica e
sempre procurei amamentar todo o tempo que fosse possvel.

Denise era tambm uma criana calma, como a Dorininha. No tive
grandes novidades a no ser que da eu podia fazer mil roupinhas
de menina, cor de rosa, os trics, os vestidinhos e era um
entusiasmo poder vestir as duas, porque menina d muito mais
chance da gente poder fazer umas roupinhas diferentes.

Denise foi batizada na Igreja Nossa Senhora Me dos Homens na
Alameda Franca. Muito importante, no batizado de Denise, foi a
grande emoo que tive, quando logo depois do batismo Alex me
disse: "Eu quero ser catlico como
vocs. Hoje eu senti que meus filhos recebem um sacramento que eu
no recebi. Gostaria de ter o mesmo sacramento que voc e nossos
filhos receberam, por isso, gostaria de ser catlico tambm".
Durante muito tempo ele resistiu e essa deciso
foi de uma sinceridade muito grande.

Com a mesma liberalidade, sentindo a necessidade de ter uma unio
espiritual na famlia, Alex resolveu tornar-se catlico. No o fez
sem uma preparao. Foi um sacerdote jovem da igreja da alameda
Franca, Pe. Sheen, que o orientou.

TV  MESA REDONDA

Em 1956, surgiu em So Paulo um movimento feito por uma
organizao para cegos, cuja presidente se dizia cega. Ela
solicitou ao Exrcito uma grande colaborao para produzir uma
mquina que ela havia inventado. No programa
Edio Extra da Tupi, Maurcio Loureiro Gama e Tico-Tico, Jos
Carlos de Moraes, ficaram empolgados com a histria e nos
consultaram sobre o assunto. Essa mquina era nada mais, nada
menos do que uma mquina de tipografia antiga com os tipos em
braille. Isso existiu no sculo passado, quando se iniciou a
impresso em braille, e a pessoa em questo afianava que a
inveno era sua.

Quando os jornalistas nos consultaram, mostramos como funcionava
uma imprensa braille, o que eram os esteretipos, como se
transcrevia. O processo que nos foi apresentado por eles j estava
ultrapassado, em desuso. Era muito lento, no imprimia dos dois
lados, enfim, tinha uma srie de problemas e
j era uma coisa antiga e desgastada. Os jornalistas resolveram
decidir o proble-

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ma numa mesa redonda de televiso. Quando o Dr. No Ribeiro soube
que eu havia sido convidada para uma mesa redonda, procurou-me na
Fundao como Dr. Abro Ribeiro
que era uma pessoa da nossa comunidade muito respeitado, ponderado
e razovel. Dr. Abro quis convencer-me a no participar da tal
mesa redonda. Eu havia consultado
meu marido, a Diretoria da Fundao e acharam que eu podia ir,
porque eu tinha todo o conhecimento do assunto. Dr. No e Dr.Abro
diziam que s o conhecimento
no era suficiente porque a maneira das
pessoas que pretendem fazer crer que alguma coisa  boa, quando
no ,  muito perigosa, mesmo que o antagonista tenha um grande
conhecimento do assunto. Mas eu
estava determinada a participar dessa mesa.

Tranqilizei-os e agradeci o carinho e o interesse demonstrado por
ambos e, diante disso, eles me aconselharam a fazer um treinamento
para essa participao e se
prontificaram a me ajudar indicando, imediatamente, o nome de um
especialista, Sr. Carlos Benko, que trabalhava na Companhia
Paulista de Papis. Benko era um executivo de altssimo nvel, com
grande experincia em debates desse gnero.

Foi maravilhoso. Carlos Benko me preparou para a mesa redonda.
Ningum sabia o que a outra senhora ia dizer, mas eu fui preparada
para no me deixar vencer pela
irritao, sempre ponderada, insistindo nos meus princpios, nos
meus conhecimentos.

Foi um curso "sui generis". Carlos Benko, que depois se tornou um
grande amigo nosso, participando de um dos Conselhos da Fundao,
jamais poderia avaliar o quanto
ele me preparou para uma vida futura de grandes discusses em
plano internacional, mesmo na Organizao das Naes Unidas,
frente a especialistas em direitos
do autor, a grandes autoridades da educao, com profissionais da
OIT, enfim, esse foi um curso de debates que eu tive. Devo muito a
Carlos Benko e,  claro, a Dr. No e Dr. Abro que me
aconselharam. Alm disso, o Instituto Benjamin Constant, que
estava a par do assunto, contribuiu de forma conclusiva. Spinola
Veiga, um professor
cego do Instituto, escritor, mas muito mais do que isso, uma das
grandes inteligncias que surgiram no plano da educao para
cegos, me mandou um livro transcrito
em braille atravs do equipamento em discusso, no Instituto
Benjamin Constant, no sculo XIX. Alm do livro, ele me mandou os
tipos em braille que serviram para sua
impresso. Ento, no auge da discusso, durante a mesa redonda, eu
simplesmente mostrei o livro, depois de expor serenamente os
antecedentes do assunto. Fui muito
calma e tive a oportunidade de mostrar ao pblico um livro
impresso h um sculo atrs no Instituto Benjamin Constant. O
livro era autntico e pde ser visto por
todos os espectadores, assim como os tipos em braille.

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UMA LONGA VIAGEM

A educao de cegos e portadores de viso subnormal  realmente
uma funo do Governo. Os educandos cegos no podem ficar isolados
do direito da educao, que so direitos assegurados pela
Constituio. Sempre tive muito presente
este princpio de enquadrar o educando cego na educao do pas.
At hoje mantenho o meu ponto de vista. No compreendo que a
educao de cegos esteja colocada, ou subordinada a um outro
Ministrio ou Departamento que no seja o
da Educao. Houve uma tendncia tambm, na rea de reabilitao
de se colocar a evoluo dos problemas das pessoas deficientes no
mbito da Secretaria da Sade.

No Estado de So Paulo, com a colaborao da Secretaria da
Educao e dos diretores do IBGE, fizemos um levantamento para
saber quantos cegos e
quantos portadores de viso subnormal tnhamos em So Paulo. O
nmero foi pequeno, mas demonstrou que havia muito mais portadores
de viso subnormal, do que cegueira propriamente dita. Essa
concluso  verdadeira.

Foi feito um grande trabalho. Conseguimos, ento, um convnio com
a Secretaria da Educao, criando o Servio de Sade Ocular e
Preveno da cegueira na prpria Fundao e atravs do qual o
convnio colocava  disposio da Fundao um oftalmologista.

Entrou tambm nessa poca uma diretora nova, minha colega de
colgio e de turma, Clotilde Meinberg, cujo marido Iris Meinberg
foi um dos grandes
colaboradores de Juscelino Kubitschek na construo de Braslia.

Fiquei esperando o meu quinto filho. Eu estava esperando o Kiko
quando se realizou na Noruega o Segundo Grande Congresso
Internacional da Assodao Internacional de Educadores de Jovens
Cegos, em agosto de 1957. Desta vez resolvi que era preciso ir.
Precisvamos,  claro, de recursos para participar
do Congresso. Procuramos o Governo. Felizmente para mim, era
Ministro das Relaes Exteriores algum que j havia me ajudado
desde o incio da minha carreira, o Embaixador Jos Carlos de
Macedo Soares.

Fui falar com o Ministro das Relaes Exteriores para que ele me
orientasse. Foi uma delcia conhecer o Itamaraty, no Rio de
Janeiro. O lago com os cisnes e todo aquele prdio antigo,
belssimo. Quando entrei na sala de espera,
um salo imenso, o salo de espelhos do Itamaraty, o servente que
nos recebeu, foi muito simptico; ele j tinha sido avisado pelo
chefe de gabinete que eu seria
recebida. Tomou o meu nome e soube que eu era uma pessoa cega. A
se passou um fato pitoresco. O servente muito amvel me disse:
"Minha senhora, eu acendi

pag:81

as luzes porque o salo fica to bonito com todas as luzes acesas,
quem sabe a senhora tambm sente a beleza deste salo". A inteno
dele foi to bonita que nesta
hora em vez de ficar triste pelo fato de no estar vendo, acho que
eu senti a beleza do salo. Ele tinha razo, foi a generosidade
com que ele procurou me dar uma
idia da beleza do salo que me tocou profundamente.

Fomos atendidas pelo Embaixador e ele se prontificou a dar
passagens para duas pessoas e dirias que permitissem ficar
participando tranqilamente do Congresso na
Noruega durante 12 dias. Uma viagem longa de So Paulo a Oslo, em
1957. Eu j estava grandinha esperando o Kiko, que nasceu depois
em novembro.

Alex ficou muito entusiasmado. Pensamos em, quem sabe, conhecer um
pouco dos outros pases porque era uma oportunidade extraordinria
ter duas passagens para a Europa.
Como  bom ser jovem, como  bom ter confiana no futuro. Fizemos,
nada mais, nada menos, do que vender o nosso carro. Alex tirou uma
licena-prmio de trs meses
a que ele j tinha direito, para podermos viajar e conhecer outros
pases. Meu sonho sempre foi ir  Roma e conhecer o Papa. Tnhamos
uma carta do Cardeal de So
Paulo, porque eu tinha muito interesse em obter uma audincia
privativa; infelizmente no foi possvel. Alex e eu recebemos um
convite para estarmos na primeira
fila de So Pedro, num dia em que ele concede audincia a todos os
peregrinos. Foi inesquecvel. Os grupos de peregrinos cantando,
rezando dentro daquela imensa
Catedral, antecipando a entrada do Papa  uma coisa linda! Mais
ainda, a nossa entrada foi emocionante. Fomos recebidos na porta
por dois membros da guarda especial
do Papa em uniforme de gala que nos conduziram pelo centro da nave
at os nossos lugares na primeira fila.

Muitos eclesisticos, bispos, grandes pregadores, sacerdotes de
todo o mundo, ficavam na primeira fila e tinham oportunidade de
receber a bno do Papa. Eu fiquei
perto de um sacerdote francs que conversou conosco o tempo todo e
se encarregou de me descrever com muita emoo toda a cerimnia. O
Papa era nada mais nada menos
que o grande intelectual espiritual, Pio XII.

O Congresso de Oslo foi um sucesso. Eu tive a oportunidade de
conhecer grandes educadores europeus. A minha formao
especializada foi realizada principalmente nos
EUA embora o meu orientador e supervisor fosse austraco. Nesse
Congresso havia americanos, canadenses, pessoas de todos os pases
da Europa e da ndia. Tive uma
viso global desse mundo to diversificado de tipos de educao de
cegos, de formas de resolver o problema da educao de cego com o
qual eu conviveria da por diante com muito mais freqncia,
durante todo

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o perodo em que trabalhei no Conselho Mundial para o Bem-Estar
dos Cegos, que os seus Comits, a Associao Internacional de
Educadores de Jovens Cegos a qual fiquei pertencendo, e em cuja
comisso executiva permaneci por um grande espao de tempo.
Naquela poca fui a nica representante para a Amrica Latina
no Congresso do Conselho Internacional de Educadores de Jovens
Cegos, posteriormente Associao Internacional para a Educao de
Deficientes Visuais (ICVH). H quatro ou cinco dcadas atrs a
expresso " Visually handicapped" (deficientes visuais) era muito
usada nos tratados e compndios. Nesse mesmo
tempo a expresso "exceptional children" (crianas excepcionais)
abarcando todos os tipos de deficincia, foi largamente utilizada.
A partir do Ano Internacional da Pessoa Deficiente, 1981, passou-
se a utilizar deficiente visual, auditivo etc. Hoje j se utiliza
muito "crianas ou pessoas com necessidades especiais."

No Congresso falaram grandes educadores. Havia grandes
controvrsias sobre o melhor tipo de educao para cegos: escola
residencial ou integrao no sistema escolar comum. Na Europa era
predominante a escola residencial, como a do Royal National
Institute for Blind, Bristol, Inglaterra. So escolas s
para cegos, maravilhosas, bem equipadas, com professores
especializados. O presidente do Congresso era Mr. Getliff,
superintendente do Royal National
Institute for the Blind um grande educador ingls, um esprito
muito aberto, um homem de extensa cultura pedaggica e com quem eu
muito aprendi. Conheci
muitos outros educadores de outros pases e pude seguir as
discusses dos problemas do momento, quando se falava muito mais
da educao de cegos e
apenas se comeava a falar da educao dos portadores de viso
subnormal. Naquela poca havia em outros pases classes de
conservao da vista. Tanto assim
que o Lions Club International tem como uma de suas finalidades a
ajuda s classes de conservao da vista - expresso que hoje j
no se usa.

Esta viagem foi a maior que fiz at hoje. Foi um captulo da nossa
vida que realmente valeu a pena. Conhecemos pases pelos quais
tnhamos atrao, pude participar de um Congresso que me
interessava, o primeiro de muitos e muitos outros de minha vida.

No fim da gravidez, estava muito inchada e tive de fazer repouso.
Um dia, estava trabalhando com uma secretria, Diva Fraga. Ela
estava lendo umas cartas para eu responder, quando de repente
"Puft" ela tambm viu a minha barriga pular. Foi um pulo, estourou
a bolsa e fui desta vez para a Beneficncia Portuguesa, onde o Dr.
Sylla Mattos estava atendendo. Depois de algumas horas
o Kiko nasceu com 4,440 kg no dia 26 de novembro de 1957. Sempre
uma surpresa, mas tambm foi um parto normal.

Eu nunca fui para a sala de parto sem que a minha me entrasse.
Ela punha avental, mscara, prometia ficar quieta e ficava. O
medido no tinha

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queixa porque sabia que ela era uma mulher forte e no
atrapalharia o parto. O
nosso caula Kiko nasceu uma criana muito bonita. Olhos azuis,
loiro, bem o tipo anglo-saxnico.

Kiko foi batizado antes do Natal, na Igreja dos Padres Oblatas, na
Alameda Franca, por Father Sheen. Eu no deixava passar um ms
para que as crianas
fossem batizadas. O nome do Kiko  Marcio Manoel.

Nesta poca em So Paulo, nos rgos especializados comeou a
divulgao sobre o processo de reabilitao de pessoas
deficientes. A Fundao j tinha recebido documentao
a respeito. Conseguimos trazer um tcnico para o que se chamava
ento locomoo, isto , a tcnica da bengala longa para que as
pessoas cegas pudessem andar independentes.
Hoje, a denominao exata  Orientao e Mobilidade, porque no 
apenas o fato do cego aprender a andar de um lado ao outro, mas 
adquirir uma mobilidade e, principalmente,
ter uma orientao e saber controlar o ambiente, saber para onde
vai, ter na cabea o mapa dos lugares onde vai. A tcnica da
bengala longa  toda uma outra noo
de como o cego pode se tornar independente. Realmente, a bengala 
fundamental para a pessoa cega poder andar sozinha e isso lhe d
muito mais independncia. Eu sei o que  o significado disso.
Muitos anos mais tarde eu aprendi esta tcnica, embora nunca a
tenha utilizado em toda a sua extenso.

Durante um ano as despesa com o tcnico de locomoo foram pagas
pela OIT. Ele comeou o trabalho no Hospital das Clnicas. Por
isso, o nosso primeiro trabalho de
reabilitao foi integrar os cegos que precisavam de reabilitao
no Centro de Reabilitao do Hospital das Clnicas, porque foi l
que Mr. Albert Asenjo treinou
os primeiros instrutores para o processo de reabilitao.

Havia bastante enfoque na reabilitao profissional. O aspecto
profissional da reabilitao visa a colocao numa atividade
remunerada, que garanta
o ganha po da pessoa cega. A reabilitao visa dar ao individuo
condies de uma vida normal, apesar de cego. Deve conhecer suas
limitaes, o seu potencial.
 um processo, um treinamento que deve lhe dar possibilidades de
atingir o mximo de suas capacidades.

Em maio de 1957 passou-se tambm um fato muito importante na
histria da Fundao: sua primeira reforma estatutria. Passamos
ento a ter a colaborao de outras
diretoras, como Elza Comes de Souza e Tarcylla Andrade Novais,
duas excelentes voluntrias. Tarcylla permanece at hoje.

Entre os primeiros membros do Conselho Fiscal, no posso deixar de
me lembrar de Dcio Fernandes Vasconcelos, que ficamos conhecendo
pelo seu grande interesse por
lentes e por todo o trabalho que sua prpria firma D.F.
Vasconcelos depois realizou conosco em relao a lentes para
portadores de viso

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subnormal. Francisco Mazza, tambm conselheiro, foi uma das
pessoas que colaborou muitssimo com a campanha que vinha se
realizando para a produo do braille. Era
dono da Cartogrfica Mazza. A Cartogrfica prestou-nos uma
contribuio muito grande em matria de orientao e doao de
matria-prima, quando desejamos fazer a revista
Lente impressa em tinta. A Cartogrfica imprimiu durante bastante
tempo vrios nmeros da revista pedaggica Lente, de distribuio
gratuita, para profissionais em exerccio no campo da educao e
reabilitao de deficientes da viso.

A revista Lente, para mim, foi uma grande realizao. Uma revista
profissional, a maioria dos artigos eram tradues autorizadas da
revista americana The Jew Outlook.
Depois a Pie New Outlook passou a se chamar Journal of Visual
Impairment and Blindness.

Para todos os nmeros da revista Lente eu sempre fiz o artigo de
abertura. Esse artigo era uma obrigao minha - mas confesso que
gostei.

Durante muito tempo, imprimamos e mandvamos 1.000 exemplares
para professores, oftalmologistas e outros profissionais da rea.
Certa ocasio fui ouvir a palestra
de uma professora especializada e tive uma sensao esquisita,
fiquei contente, surpresa e achei um pouco estranho quando ela,
referindo-se  educaO especial, disse:
"Segundo Dorina Nowill citando um artigo publicado em Lente.

MESTRA DO ANO

Em 1961 recebi o ttulo de Mestra do Ano. Foi uma belssima festa,
no dia 14 de outubro. H datas que parecem marcadas na vida da
gente. Foi exatamente em 14 de
outubro, mas em 1936, o dia em que perdi completamente a viso, O
prmio foi uma surpresa enorme para mim. Na Fundao souberam
antes de mim, pois ligaram pedindo
o meu currculo. Kiko, meu filho, que estava l por acaso, soube
da premiao, mas guardou segredo. Um dia estava entrando em casa,
e j ia para o apartamento dos
fundos onde, com minha sogra, sempre tomava o ch da tarde, quando
ouo o telefone tocar. Resolvi atender e qual no foi minha
surpresa quando o Sr. Paulo Lencastre,
da Secretaria da Educao, me dava a notcia de que eu recebera o
prmio Mestra do Ano. Levei um susto porque foi uma surpresa
mesmo. Eu desconhecia a existncia
desse prmio que era concedido por Decreto do Governo do Estado de
So Paulo. O prmio permitiu que o trabalho da educao de cegos
fosse divulgado em todas as escolas
da rede escolar comum. Minha vida foi relatada aos alunos pelas
professoras e eles tiveram que

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fazer um trabalho de redao sobre o assunto. A premiao saiu no
Dirio O do Estado e at hoje encontro ex-alunos que lembram do
evento. Foi maravilhoso para a educao de cegos porque abrangeu
toda a rede escolar e foi muito importante para a integrao das
crianas cegas no sistema escolar comum. Para mim, uma
grande honra. Fiquei muito emocionada.

J no telefone soube que teria que ir a entrevistas,  televiso
etc. Alex acompanhou-me na primeira entrevista na televiso
naquele mesmo dia. As crianas ficaram
em casa com minha sogra e uma empregada mocinha. J estvamos
morando no nmero 530 da Rua Joo Pinheiro, embora a reforma no
estivesse pronta. Havia carpete
enrolado, fios de luz sem lustres, e a pintura j pronta aguardava
a decorao. Quando voltamos para casa, j bem tarde, Alex
percebeu um fio de gua que corria
pela sala, vindo de uma lmpada. Corremos para cima e encontramos
todos dormindo. Quase houve um curto-circuito. Aconteceu que
quando samos, a reinao foi imensa.
Encheram uma banheira de gua e jogando a gua para o alto
gritavam: "Minha me  Mestra do Ano. Viva a Mestra do Ano". Meu
Deus do Cu, quase que a Mestra teve
sua casa incendiada. Foi uma peraltice das maiores, mais foi tanta
a alegria das crianas, o entusiasmo era tanto, que ns nem
pudemos agir severamente.

Alis, por muito tempo, ficou a histria da Mestra do Ano, O Kiko,
com trs anos e pouco, estava to encantado com o assunto que no
dia seguinte sentou-se ao meu
lado, e ficava passando a mo no meu brao. Eu nunca me esqueo
desse dia. Ele olhava para mim e dizia: - "Como  linda a Mestra
do Ano!". Ser que dava para ele
entender o que era aquele prmio, o que significava tudo aquilo?
Foi um perodo de festa. Recebia flores, havia entrevistas de
rdio, jornais, televiso! Eu at
ficava meio aturdida. Estava sem cozinheira na ocasio e tinha que
tomar conta de tudo e tratar das crianas. Mame me ajudava muito.
Um dia as crianas brincavam
e gritavam muito. Abri a porta do quarto e fiquei muito brava pois
eles estavam simplesmente pulando do maleiro do armrio sobre as
camas. Quem disse que as camas,
novinhas, iam agentar? Fora o perigo de quebrarem o pescoo.
Disseram que era ginstica, pulavam como se fosse para uma
piscina. Coloquei todos de castigo e dei uns berros. Um deles
disse: - "Que linda  a voz da Mestra do Ano".

AULAS DE INGLS

Um episdio muito pitoresco em nossa casa eram as aulas de ingls,
quando os meninos eram pequenos. Minha sogra tinha uma amiga que
era um encanto, Mrs. Nora Turnbull,
professora de ingls, alis, uma tima professora. H filhos de

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amigas minhas que tiveram aulas com ela e hoje reconhecem o quanto
aprenderam. Em casa, ela comeou a dar aulas bem cedo para os
meninos.

Minha sogra falava ingls praticamente o tempo todo. Devido 
embolia, falava um pouco atrapalhado e misturava um pouco com o
portugus. Ns queramos
que os meninos aprendessem bem o ingls, ento, desde
pequenininhos eles tinham aula com Mrs. Turnbull.

Mal ela apontava, cada um se escondia num lugar. Eu soube que um
dia em que eu no estava, papai foi tirar o Kiko com um cabo de
vassoura debaixo
da minha cama, onde estava escondido para no ir  aula de ingls.

REAVALIANDO

Foi com Teresinha, a convite do Governo Americano, a um seminrio
de servio de educao nos Estados Unidos que inclua visitas a
departamentos de educao estaduais, ao Servio de Biblioteca para
Deficientes Fsicos e Cegos da Biblioteca
do Congresso em Washington D.C., escolas especiais e a imprensa
braille dos EUA em Louisville, Ky. Em Boston participamos do
grande congresso da Associao de Educadores de Jovens Cegos
celebrando o aniversrio de fundao do
Perkins Institute for the Blind.

Durante o Congresso, recebi da American Foudation for Overseas
Blind o ttulo "International Service Award", por servios
prestados aos cegos de alm mar.
Em 1958 fui convidada para um trabalho muito importante no
Ministrio da Educao. Estava tranqilamente em casa quando
ligou-me, em uma noite, o professor Spnola Veiga do Instituto
Benjamin Constant do Rio de Janeiro.

Ele disse que queria conversar com Alex. Pediu a Alex que me
permitisse ir uma vez por semana ao Rio de Janeiro para fazer
parte de uma comisso que os professores cegos do Instituto
Benjamin Constant estavam formando, a fim de
criar uma campanha, a Campanha Nacional de Educao e Reabilitao
dos Deficitrios Visuais.. Essa Campanha tinha uma comisso que
discutiria os problemas de educao e reabilitao e faria
sugestes ao Governo Brasileiro sobre esses
aspectos. Alex, claro, disse que no teria nada a opor. Eu
receberia as passagens de avio e passaria um dia por semana no
Rio de Janeiro indo pela manh, e 
noite j estaria de volta em casa. Fiz isso durante mais de um
ano. O presidente da Comisso era sempre o diretor do Instituto
Benjamin Constant que muitas vezes era quem menos entendia do
assunto. Tivemos, porm, Dr. Rogrio Vieira,

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que foi um diretor do Instituto e presidente da Comisso. Ele
trabalhou sempre para o Ministrio da Educao e era uma pessoa
interessada, com grande conhecimento
parlamentar, porque tinha sido Prefeito e Deputado. Esta comisso
funcionou e comeou a elaborar os projetos de educao e de
reabilitao. Durou dois anos. Quando
o Ministro Clovis Salgado assumiu o Ministrio da Educao,
resolveu agradecer a todos os membros da comisso e esse corpo
deliberativo foi dispensado. A coisa
muito interessante  que ns no podamos trabalhar de graa para
o Governo, ento ganhamos 1 cruzeiro por sesso. Era o nosso
grande "jetton".

Sempre acreditei que a educao dos cegos deve adaptar-se  vida.
Vivemos num mundo de pessoas videntes, no vivemos num mundo de
pessoas cegas. E temos de nos
adaptar desde o nascimento ao mundo em que vamos viver. De
qualquer maneira, comecei a entender melhor o prprio Instituto
Benjamin Constant, seus professores, e da por diante tivemos
melhores oportunidades de trabalhar em conjunto.

Mais ou menos nessa poca pedi a vinda de um professor ingls,
especialista em educao de cegos, Mr. Harold Getliff, para que
ele estudasse a situao do Instituto
Benjamin Constant. Ele permaneceu no Instituto para fazer
sugestes ao Governo Brasileiro e no foi esta a nica vez que
pedi tcnicos de fora para estudar e melhorar
as condies das escolas de cegos do Brasil. Meu desejo era que o
Instituto Benjamin Constant, a primeira escola para cegos da
Amrica Latina, se adaptasse aos tempos modernos.

Mr. Getliff trabalhou conosco durante algum tempo na Fundao, e
pudemos discutir com ele os problemas de educao. Ele no
trabalhava com a integrao de cegos
no sistema escolar comum, mas era um grande pedagogo. Mr. Getliff
me disse: "Dorina, o Benjamin Constant e a Fundao representam as
diferentes etapas da educao de cegos".

Nossa filosofia de trabalho era bem mais de acordo com as
tendncias dos anos 50, 60. Os profissionais da Fundao que
haviam passado pelo curso de especializao
e que estavam fazendo cursos, mestrados, doutorados, muitos foram
com bolsa de estudos para os EUA, comearam a participar de
congressos no exterior. A educao
tomou realmente um novo rumo, conforme as novas tendncias.

A criao da imprensa braille da ento Fundao para o Livro do
Cego no Brasil foi um marco da maior importncia. Realmente, neste
aspecto a dcada de 40 foi muito
rica, apesar de todas as dificuldades que encontramos. Uma vez
doada a imprensa braille pelos EUA, tivemos dificuldade de receb-
la como doao no Brasil. Foi um
problema muito grande conseguir liberar na alfndega esse
equipamento que veio como doao. Trabalhamos aqui em So Paulo,
lutamos para conseguir um lugar para comear
o trabalho na Prefeitura de So Paulo, e

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Adelaide no Rio de Janeiro s conseguiu realmente liberar as
mquinas quando fez um pedido ao Ministro Horcio Laffer.

Horcio Laffer, alm da liberao da imprensa braille, foi com
quem eu consegui anos mais tarde uma verba no oramento do
Ministrio das Relaes Exteriores,
cuja finalidade primordial era pagar as taxas para que o Brasil se
tornasse membro do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos.
Nesse Conselho cada pas paga
uma taxa que varia de quando em vez e corresponde no caso do
Brasil, a seis delegados.

Contamos com pessoas extraordinrias no incio da imprensa
braillee, como Augusto Gonalves, da COPAG, que nos deu uma ajuda
extraordinria no que mais precisvamos:
papel e toda a montagem da imprensa. De outro lado, no posso
esquecer de Baby Pignatari, que no incio da imprensa fez uma
doao fundamental para o nosso trabalho.

At agora procurei mostrar toda a evoluo da Fundao e como a
minha vida se desenvolveu. No estou descrevendo, em toda a sua
grandeza e pormenores a evoluo
da Fundao, mas o lugar que ocupa em todas as fases da minha
vida, as responsabilidades que tive e pude dividir com aqueles que
participaram das diversas Diretorias
da Fundao. Pessoas da comunidade passaram a nos ajudar na
avaliao dos resultados e na verificao desse grande compromisso
que tem a diretoria de administrar
verbas que no so suas, estruturar servios que no lhes
pertence, porque as obras no so nossas, elas pertecem 
comunidade e principalmente queles que utilizam
seus servios e que so membros dessa mesma comunidade. Dcio
Vasconcelos e Helena Vasconcelos, Carlos Benko e Jos Ulpiano de
Almeida Prado, e outros que j mencionei
foram inestimveis colaboradores nessa tarefa. Os membros da
diretoria e os Conselhos foram e so grandes colaboradores, Eles
sero sempre lembrados pela sua atuao e dedicao.

As chefias dos departamentos desde o inicio estiveram sempre a
cargo de profissionais especficos de cada rea. A qualificao
desses profissionais se deve grandemente
 eficincia dos servios prestados aos cegos e ao crdito que a
Fundao tem na comunidade.

Uma obra social, para atingir os objetivos a que se prope,
precisa contar com profissionais qualificados e voluntrios
dispostos a colaborar tanto nas Diretorias
e Conselhos, como nas diversas reas de servios, O meu trabalho
desenvolveu-se mais a partir de 1946, quando comecei a participar
de convenes e congressos internacionais
ainda como estudante nos EUA.

Nos anos 50 fui includa no Comit de Assuntos Urbanos do Conselho
Mundial para o Bem-Estar dos Cegos. Gostei muito de participar
desse trabalho internacional, ao qual dediquei muitos e muitos
anos. Foi e  um trabalho intensivo para algum num pas em
desenvolvimento, com tantas dificuldades de

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verbas, que deseja colocar uma organizao brasileira no mesmo
plano que as organizaes dos pases industrializados.

Por muitos e muitos anos, fui a nica representante da Amrica
Latina em rgos internacionais, O Conselho Mundial para o Bem-
Estar dos Cegos foi criado em 1951
e desde 1952 a Fundao tornou-se membro desse Conselho, que era o
rgo internacional mais importante na rea das deficincias,
mantinha relaes com a UNESCO,
OIT e outras agncias especializadas das Naes Unidas.

Reavaliando os doze ou quinze primeiros anos do nosso trabalho,
sinto que fomos realmente felizes nas diversas iniciativas:
criao na esfera privada de um servio
slido, motivando o Governo para a concesso de recursos e fazendo
com que as necessidades especiais das pessoas cegas,
principalmente dos educandos, entrassem
nas consideraes e no planejamento do Governo. Nossa orientao
foi sadia nesse ponto, incluindo a preocupao com a obteno de
legislao adequada.

A vida  algo que escapa a qualquer processo de mensurao.
Infncia  um tempo indefinido, a criana custa um pouco a se
localizar no tempo. Ela usa "ontem" e "amanh"
indistintamente, o passado e o futuro se confundem. Na
adolescncia e na juventude, como custam a chegar os grandes
momentos da vida! O adolescente aumenta a idade,
o jovem, pela sua ansiedade normal, acha que o tempo no passa
quando ele espera um momento, uma deciso, O adolescente quer
crescer, o jovem quer que as coisas
aconteam logo. Ser curiosidade a indefinio do futuro? Ser
esperana do sonho a se realizar? O jovem, principalmente bem
jovem, no esconde a idade, no aumenta
e nem diminui, ele ainda tem pouco passado e quer viver o presente
sem antecipar o futuro.

Hoje para mim, as dcadas passadas parecem que ocorreram ontem
mesmo, to rpido sinto que a vida passou. Tambm raramente senti
que o tempo custasse a passar. Amanh,
ah, sim, o amanh. Apesar dos meus 76 anos transcorridos, tenho
sonhos e esperanas para o amanh. No tenho pressa nem medo da
rapidez com que a vida possa passar
de agora em diante. Vivo o dia de hoje sem me preocupar que o
tempo que me resta possa ser curto demais, ou teimosamente longo.
"A cada dia basta sua pena"  uma frase do evangelho. No sei onde
ela est escrita, mas  muito sbia.

CONTINUANDO

H pocas em nossa vida em que as realizaes se avolumam e
inmeros acontecimentos parecem se produzir todos de repente. Isto
se passou comigo quando atingi os
meus 40 anos. Em 1958, quando Spinola Veiga ligou para minha

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casa pedindo minha participao no movimento que levou  criao
da Campanha Nacional de Educao e Reabilitao dos Deficientes
Visuais, comeava para mim uma nova rea de atividades, desta vez
relacionada ao governo federal. Esse novo trabalho permitiu 
Fundao uma integrao num grande plano nacional de educao para
deficientes visuais e, ao mesmo tempo, tornou-se
um impulso para um grande desenvolvimento da prpria Fundao.

O primeiro movimento transformou-se em 1960 na Campanha Nacional
de Educao de Cegos do Ministrio da Educao e Cultura,
fornecendo diretrizes para todas as Unidades
da Federao, abrangendo todo o territrio Nacional. No Ministrio
da Educao, criaram-se vrias campanhas, principalmente naquelas
reas em que havia menos ao
do governo e que aos poucos o poder executivo e o poder
legislativo sentiram que alguma coisa precisava ser feita.

Assim, no Ministrio da Educao foram criadas as campanhas, em
1958. Mas em 60, como eu j relatei, o Ministro Clvis Salgado
dissolveu-as. Houve a eleio e o
Presidente da Repblica eleito por 6 milhes de brasileiros foi
Jnio Quadros. Algumas pessoas sabiam que durante dois anos eu
havia tomado parte na campanha criada
no Ministrio da Educao.

Um belo dia de manh Alex l na Folha de So Paulo que Jnio
Quadros havia indicado o meu nome para dirigir a Campanha Nacional
de Educao de Cegos do Ministrio da Educao. A pessoa que levou
o maior susto fui eu mesma.

Muitas pessoas aqui em So Paulo, principalmente aquelas mais
ligadas  Fundao, sabiam que eu havia trabalhado durante dois
anos indo e vindo todas as semanas
do Rio de Janeiro, para estruturar a Campanha de Educao de
Cegos. Fui designada por Jnio Quadros para dirigir uma Campanha e
fiquei muito preocupada, porque sua sede era no Rio e deveria ter
tambm um escritrio em Braslia. Todos os rgos do Ministrio da
Educao porm, estavam no Rio de Janeiro. A Campanha tinha uma
sala no prdio do Ministrio da Educao. A nova estrutura contava
apenas com um diretor executivo que podia escolher a equipe de
assessores. O diretor executivo
podia fazer convnios com as organizaes de cegos do Brasil, com
secretarias de educao e bibliotecas para implementao de
servios em geral. O cargo era muito
cobiado. Houve um fato muito engraado quando fui ao Rio para
tomar conhecimento de tudo e saber se poderia ter tambm um
escritrio em So Paulo - desde que a
capital do Brasil estava em Braslia e havia servios no Rio,
podia haver tambm em outros Estados. Disseram-me que eu poderia
manter o escritrio do Rio e montar
um escritrio tambm em So Paulo. Soube que deveria tomar posse
num determinado dia de maro de 1961. Soube tambm que havia um
movimento por parte, principalmente,
de ex-dirigentes, que queriam impugnar minha posse pelo fato de eu
ser cega. A histria  que dirigir as verbas do governo parecia
muito interessante

pag:91

para muitas pessoas. Para mim, assustou-me a responsabilidade, mas
eu tinha certeza de que seria capaz de fazer um trabalho que
realmente beneficiasse as pessoas
cegas. Pretendiam na hora da assinatura, impugnar minha posse
quando eu pedisse a outra pessoa que assinasse por mim, ou
colocasse a minha impresso digital.

Acontece que se enganaram profundamente porque eu jamais deixei de
assinar. Eu tinha o meu guia de assinatura e carregava sempre a
minha caneta.

Na data marcada para a posse, apresentei-me ao setor indicado para
me identificar. Notei que as pessoas mostraram uma certa reserva:
"Ah! a senhora veio! A posse ser no gabinete do Ministro".
Pediram os meus documentos, entreguei-os e fui com minha
secretria para o gabinete do Ministro.

Havia muita gente para assistir  solenidade de posse, muitos
polticos, pessoas do ministrio, inclusive Dr. Cavalcanti,
Governador de Alagoas. Muito simptico,
me procurou e conversou muito comigo. Na hora de tomar posse,
disseram-me: "A senhora tem de assinar aqui no livro de posse". Eu
disse: "Pois no,  s os senhores
colocarem o meu guia de assinatura que eu assino". Foi um
suspense, porque havia muita gente interessada em que eu no
pudesse assinar. Eu me diverti muitssimo
naquele dia. As pessoas que no queriam que eu tomasse posse
depois colocaram na minha sala uma cesta de flores muito bonita
congratulando-se comigo, oferecendo para colaborar etc...

Foi um dia inesquecvel em minha vida, sentindo a tenso do
momento em que eu estava assinando a minha posse no Ministrio da
Educao, e por ser um cargo muito
importante, talvez o maior que uma pessoa cega tivesse assumido no
servio pblico no Brasil, porque a campanha era diretamente
ligada ao Gabinete do Ministro,
e o diretor executivo despachava com o Ministro. O presidente da
Campanha era o prprio Ministro da Educao.

Era uma posio realmente invejvel para quem tivesse desejo de
galgar posies. Para mim representou uma grande vitria, porque
nenhuma pessoa cega naquela poca havia assumido um posto de to
grande importncia.

Apesar de todas as manobras feitas para que eu no tomasse posse,
eu havia conseguido naquele dia lavrar um tento, sem agredir quem
quer que fosse. Tomei posse serenamente e dirigi esta campanha
durante 13 anos, de 1961 at 1973.

Passei por inmeros Ministros. Todas as vezes que um Ministro saa
do cargo e outro Ministro era nomeado, eu a  Braslia entregar o
meu cargo para o
novo Ministro e voltava para So Paulo confirmada no posto.

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Alex ia me encontrar no aeroporto na volta de Braslia e me levava
uma colherzinha de prata, sempre com um desenho na ponta, ou uma
figura brasileira. Eu fiz uma coleo enorme de colherzinhas.

A Campanha foi um trabalho maravilhoso porque eu pude agir no
Brasil de norte a sul, na grande maioria das secretarias de
educao e pude realizar um trabalho no sentido de preparar
professores para todos os estados do Brasil. A
campanha dava bolsas de estudos para professores formados virem 
So Paulo, fazer o curso de especializao no Instituto Caetano de
Campos. Ao mesmo tempo, selecionvamos alunos, jovens e pessoas
cegas competentes que pudessem se reabilitar
em So Paulo e depois ajudar os professores e os outros
profissionais que treinvamos atravs de bolsas de estudos e
voltavam com um programa para seus estados.
Como a campanha tinha verbas razoveis, elas foram sempre
aplicadas impecavelmente em todos os estados do Brasil durante
todos os anos em que eu estive na direo.
Os cegos eram chamados "os primos ricos dos deficientes" nas
secretarias de educao.

Procurei com os recursos colocar o mximo de material
especializado possvel nas secretarias de educao, nas
instituies e nas organizaes de cegos, de norte
a sul, alm dos servios de reabilitao que criamos atravs da
Campanha e do nmero de profissionais preparados para este Brasil
inteiro. Todos assumiram depois
seus lugares nas secretarias de estado da educao. Conseguimos
assim criar os servios de educao de cegos do Amazonas ao Rio
Grande do Sul. Esses servios foram
o incio dos Departamentos de Educao Especial, mais tarde
institudos nas secretarias estaduais de educao.

Com o escritrio da Campanha funcionando na Fundao, a prpria
Fundao se desenvolveu bastante. Tive oportunidade de realizar
muitos seminrios, congressos, cursos,
reunies regionais, participar de congressos no Brasil e no
prprio exterior.

Alguns congressos foram muito importantes e mostraram a evoluo
que a educao de cegos tomou em nosso pas nessa poca, como os
Primeiro e Segundo Congressos de
Educao de Cegos, reunies e seminrios regionais, a formao de
profissionais e a Assemblia Geral de criao da Associao
Brasileira de Educadores de Deficientes
Visuais (ABEDEV), em 1969 em So Paulo. Trabalhei muito para a
criao dessa Associao e a sua instituio em So Paulo me deu
uma grande satisfao e estmulo
para continuar na luta to prpria daqueles dias.

Quando iniciei meu trabalho na Campanha Nacional de Educao de
Deficientes Visuais, houve muita divergncia em relao 
filosofia da educao
especial. A tendncia da Fundao sempre foi renovadora e de
integrao.

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Recentemente, recebi uma medalha de fundadora da ABEDEV e uma
homenagem muito comovente, em 1993, em Campo Grande, Mato Grosso
do Sul. Durante todos estes anos,
muitos de meus ex-alunos e bolsistas j assumiram a Presidncia, a
Secretaria Geral dessa organizao, que tem mantido a tradio de
realizar congressos nacionais, seminrios e procurar discutir os
problemas magnos da educao especial.

A Campanha Nacional de Educao de Cegos do MEC (CNEC) em 1963
organizou um Seminrio de Educao Especial em Braslia,
abrangendo vrios.
tipos de deficincias e suas respectivas organizaes.

O Ministrio da Educao na rea da deficincia havia institudo
trs campanhas: Campanha Nacional de Educao de Cegos, Campanha
Nacional de Educao de Surdos, e Campanha Nacional de Educao de
Deficientes Mentais.

A CNEC funcionou desde a sua instalao e desenvolveu programas em
todo o territrio nacional, as outras duas estavam ainda
inicipientes por volta de 1963. Os profissionais
ligados a CNEC j sentiam a necessidade da criao de um rgo
permanente na estrutura do Ministrio de Educao e Cultura.

A equipe da CNEC estudou a realizao de um seminrio em Braslia
para reunir os dirigentes das organizaes, associaes - tipo
APAE, Pestalozzi e AACD e profissionais
da rea, para se discutir o assunto como um todo. O mais
interessante dessa reunio  que pedimos ao professor Ansio
Teixeira que abrisse o seminrio e ele fez
uma abertura muito bonita na Universidade de Braslia, onde
mostrou que a verdadeira educao  a educao especial, porque 
a educao que observa o comportamento
de pessoas com deficincia e principalmente o comportamento da
criana com retardamento mental, que foi realmente onde a grande
educadora Maria Montessori se inspirou na
estruturao de seu mtodo educacional.

Fomos  Guatemala Alex e eu. Foi durante este Congresso que o
Comit Panamericano do Conselho Mundial mudou de nome. Tornou-se
Comit Inter-Americano do Conselho
Mundial para o Bem-Estar dos Cegos. Fiz parte desse comit, tive a
oportunidade de assumir muitos cargos.

Em Guatemala City realizou-se de 16 a 22 de maro de 1961 a
Primeira Conferncia Interamericana para o Bem-Estar dos Cegos -
organizada pela Fundao Americana para Cegos de Ultra Mar e pelo
Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos.

Foi nessa poca que eu conheci algum que afinal tornou-se uma
grande amiga, a presidente do Comit Pro-Ciegos de Guatemala,
Elisa Molina de Sthall.

pag:94

Elisa tinha sido uma das primeiras mulheres na Guatemala a fazer o
curso de Servio Social que foi dado pela famosa assistente social
brasileira  - Helena Junqueira. O marido de Elisa tinha uma das
grandes fazendas da Guatemala, e era
o produtor de uma semente cardamono, muito vendida para os pases
rabes.

Um dos fatos mais importantes desse perodo foi a Quarta
Assemblia Geral do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos
que se realizou em Nova Iorque - o tema
central foi "The Problems of the Blind in a Changing World". Nessa
Assemblia Geral eu fui com Alex. Sempre gostei que Alex fosse a
estes congressos e assemblias
onde se discutiam muito a poltica de ao.

Nas assemblias eram eleitos os membros da Diretoria para o
prximo qinqnio. Como acontece com muitos rgos
internacionais, no inicio das Assemblias elege-se
uma Comisso de Nomeaes que sugere ao plenrio uma chapa ou os
nomes para os diferentes cargos. Meu nome foi sugerido entre
outros e fui eleita vice-presidente
para o qinqnio 1964/69. Minha eleio foi um dos grandes
impulsos para o meu trabalho e para minha carreira no plano
internacional. Eu j havia participado de
outras comisses internacionais, dirigia a Campanha Nacional de
Educao de Cegos e a minha vida e meu lar, continuavam sem
prejuzos. No posso deixar de mencionar
um dos fatos que me impressionou naquela Assemblia de Nova
Iorque. Foi o documento de Preveno da Cegueira, apresentado por
John Wilson. Nessa ocasio conheci
melhor John e Jean Wilson, hoje Sir John e Lady Wilson. John  um
advogado cego formado em Oxford.  um homem brilhante, ativo e
competente. A John se deve muito
do esforo universal e o prprio trabalho realizado pela
Organizao Mundial da Sade na rea de Preveno da Cegueira.

John apresentou um trabalho impressionante sobre o fato de que
possivelmente haveria um nmero de 15 milhes de pessoas cegas no
mundo por volta do ano 2000, se esforos no fossem feitos para
evitar a cegueira. Hoje h estimativas de 48 milhes de
deficientes visuais no mundo e ainda no se pode prever quais
sero as cifras no ano 2000.

O Programa e as Campanhas inspiradas no Programa de Sade Ocular e
Preveno da Cegueira, baseado na comunidade, j tem dado muitos
frutos. Graas a este trabalho,
na frica, em aldeias inteiras onde havia grande nmero de pessoas
cegas, praticamente desapareceu a cegueira porque se aboliu a
grande causa da cegueira, a oncocircose.

Na direo da Fundao sempre me preocupei com a preveno da
cegueira e a participao no Conselho Mundial para o Bem-Estar dos
Cegos forneceu elementos para que
eu pudesse estimular no Brasil esse importante programa que tantos
benefcios traz para toda a comunidade.

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OS LIVROS E A LITERATURA EM MINHA VIDA

Sempre estive ligada a livros,  literatura e a escrever artigos.
Promover a divulgao do livro e da literatura sempre me
interessou. Eu lia muito antes de perder a viso. Depois, atravs
do sistema braille, voltei a ler e continuei a estudar.

Porm o livro falado permitiu maior acesso aos "best-sellers" e s
publicaes em geral. Ainda  muito pouco o que se pode produzir
em livro falado devido s dificuldades
financeiras da Fundao. O incio desse programa foi com
voluntrias que, como Syomara Cajado, gravavam livros e revistas.

Sempre foi um dos objetivos da Fundao a produo de revistas em
Braille. Comeamos com um boletim chamado Relevo. Porque Relevo? O
sistema braille  um cdigo em
relevo, mas no foi s por isso que as nossas duas primeiras
revistas chamaram-se Relevo e Relevinho, esta ltima para
crianas. Uma grande parte de publicaes
para cegos tinham nomes que lembravam luz: Faro Luzeiro etc. e
muitas ainda tm. Luz  o que ns cegos no podemos ver e relevo 
o que podemos perceber. A denominao
das revistas foi um reflexo da filosofia de trabalho adotada, com
a preocupao de trazer para a realidade as solues para os
problemas enfrentados pelas pessoas cegas.

A revista Relevo sempre teve em seu contedo artigos de revistas e
jornais nacionais e internacionais, alm do noticirio da
Fundao. Mais tarde os leitores sugeriram
mudanas na revista, que foram de encontro aos nossos ideais. Foi
feita uma pesquisa para verificar qual a revista de mbito
nacional mais lida naquela poca. Realidade
venceu. Os tipos de artigos publicados por Realidade condiziam com
o interesse dos leitores de Relevo. Durante muito tempo os
prprios editores de Realidade selecionavam
artigos que compunham a revista mensal Relevo. Exatamente o que os
outros brasileiros liam na revista Realidade.

Relevinho foi orientada pela Companhia Editora Melhoramentos com a
colaborao do escritor Francisco Marins. Para surpresa minha,
fiquei sabendo que Relevinho era ansiosamente esperada pelos
adultos. Tive a grande satisfao e a honra de ser diretora dessas
publicaes. Lamentavelmente, ambas foram suspensas por falta de
recursos financeiros.

Entre nossas publicaes surgiu a revista Lente, uma edio
especializada, destinada aos profissionais de preveno,
reabilitao, educao etc. Essa
revista foi, durante vrios anos, tambm transcrita em braille.

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Os anos 60 foram anos de ouro para o nosso trabalho. No incio dos
anos 60 vrias organizaes surgiram em So Paulo, de origem
internacional, algumas femininas,
como o Comit de Correspondncia ao qual me filiei.

Uma dessas organizaes solicitou nomes e biografias de
voluntrias que estivessem realizando um trabalho proeminente no
Brasil. Meu nome foi sugerido entre outros
da Amrica do Sul, para premiao - um grande prmio, o Lane
Bryant International Volunteer Award. Lane Bryant  o nome de uma
empresa nos EUA que distribue prmios
para pessoas que se dedicam a servios voluntrios e  comunidade.

O meu nome foi indicado para 1964, pelo fato de que nesse ano o
prmio era destinado a uma pessoa das Amricas. Mandei o meu
currculo e continuei todo o meu trabalho tranqilamente.

Um dia eu estava chegando em casa e, ao abrir a porta do living,
Alex, que havia chegado um pouco antes de mim, veio me receber com
um lindo buqu de rosas vermelhas
e leu a carta que havia chegado dos EUA, comunicando que o meu
nome havia sido aprovado e que em 3 de dezembro de 1964 eu
receberia o Lane Bryant International
Volunteer Award. Foi brbaro, a emoo foi tremenda.

Eu tinha direito a uma passagem de primeira classe pela
Panamerican Airways e a ficar os dias que fossem necessrios num
dos principais hotis de Nova Iorque na
Fifth Avenue, o Plaza. O prmio era de mil dlares e eu deveria
receb1o num almoo, na presena de quinhentas pessoas, quase
todos reitores de universidades, literatos,
altas personalidades, e, pelo Brasil, a nossa Cnsul Dora
Vasconcelos. Fui sozinha porque se Alex fosse comigo ficaria mais
caro do que o prprio prmio. Fiz um
treinamento de bengala longa para poder ter mais segurana. At
ento eu usava pouco a bengala na rua. Foi um treinamento rpido,
mas assim mesmo sa, andei pelas
ruas em volta da Fundao, descendo e subindo caladas. Entrei em
lata de lixo como acontece com todas as pessoas cegas que fazem
esse treinamento. Esbarrei em trepadeiras,
me assustei com latido de cachorros. Era to grande a emoo e o
interesse em poder ir sozinha para Nova Iorque que os obstculos
no treinamento no me abalaram,
adquiri confiana de que usaria a bengala na hora certa e a
certeza que nada me aconteceria.

Meu marido sempre foi formidvel, confia muito em mim, no se
ops, achando muito natural a minha viagem.
No dia marcado, l fui eu. Fiz uma viagem magnfica, de primeira
classe, super bem atendida e mimada pela tripulao. Na hora em
que o avio ia descendo no Kennedy
Airport, recebi uma linda caixa de orqudeas da empresa

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area. Quando sai do avio, fui acompanhada pela recepcionista e
havia uma limousine luxuosa para me levar ao Plaza Hotel.

Na portaria do Plaza todos estavam avisados, uma pessoa da
gerncia me acompanhou at o quarto. O hotel era chiqurrimo, como
diriam as minhas netas, o meu quarto,
muito bonito. Logo aps fui avisada de que havia algum da
comisso do prmio que estava me aguardando na recepo. Era um
representante da comisso do prmio que
viera me informar sobre toda a programao.

Na cerimnia recebi uma placa comemorativa em forma de pergaminho,
que guardo com carinho. Recebi tambm um cheque de mil dlares.
Nancy Lyon, minha grande amiga americana, foi a Nova Iorque
participar do almoo.

Fiquei mais uns dois dias em Nova Iorque. Fui  American
Foundation for the Blind onde me reuni com os Diretores. Visitei
vrios setores, principalmente o de gravao do livro falado.

Durante muitos anos, mesmo depois de minha bolsa de estudos,
continuei mantendo relacionamento com todos os diretores
executivos e profissionais da American Foundation
for the Blind e da American Foundation for Overseas Blind. Eles
tambm ficaram muito orgulhosos e felizes pelo prmio que eu havia
recebido.

Essas homenagens repercutiam em benefcio da divulgao das
atividades da Fundao e da Campanha de Educao de Cegos, atravs
da ampla publicidade que se fazia.

OS ANOS SESSENTA

A nos 60 que fase conturbada para a vida brasileira. Eu estava
dirigindo a Campanha Nacional de Educao de Cegos quando o
Presidente Jnio Quadros renunciou ao mandato.
Alguns dias antes da renncia, o Presidente Jnio Quadros lanou a
Campanha Nacional de Alfabetizao.

Recebi o convite para participar da solenidade no Planalto. Fui a
Braslia, foi uma cerimnia impressionante, presentes todas as
grandes autoridades do pas, Ministros,
Deputados, Senadores, grandes empresrios, dirigentes dos
Ministrios, Secretrios de Estados, Clero e outros. O discurso de
Jnio foi realmente

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empolgante, ningum poderia imaginar ou perceber que aquele homem
deixaria o poder algumas horas depois.

Logo que se restabeleceu a ordem depois da renncia, voltei a
Braslia para colocar meu cargo  disposio. O Ministro em
exerccio era o Dr. Jlio Sambaqui, um
dos Diretores do quadro do Ministrio, tido como pessoa super
rgida, mas que acreditou nos nossos projetos. Dr. Sambaqui j
conhecia o nosso trabalho, a correo
de atitude de todo o grupo e as nossas propostas de realizao.
Convidou-me para continuar dirigindo a Campanha.

Passaram-se fatos muito interessantes no Ministrio da Educao
neste perodo ps-renncia. Eu tinha de despachar com o Ministro
da Educao em Braslia, como Diretora
de uma Campanha da qual o Ministro era Presidente. Como Diretora
eu tinha delegao de poderes e administrava os recursos
financeiros e tcnicos de acordo com os
projetos elaborados pelos assessores da Campanha, mas havia sempre
assuntos que exigiam a aprovao e autorizao do prprio
Ministro.

Nos despachos com o Ministro, era preciso esperar muito tempo e s
conseguia entrar no gabinete do Ministro mais rapidamente quando o
Chefe de Gabinete me fazia
entrar junto com o Presidente da UNE. Naquele perodo, a UNE e
algumas associaes populares tinham prioridade absoluta no
Ministrio. A prioridade para os polticos
era muito grande. Fui reintegrada ao meu cargo de diretora e
continuei o trabalho durante todo o tempo que antecedeu a
revoluo. Consegui preparar um projeto para
o novo Ministro da Educao Darci Ribeiro, com distribuio de
verbas para todas as associaes do Estado de So Paulo ligadas a
vrias deficincias, como: APAE,
Pestalozzi, Associao de Assistncia  Criana Defeituosa, todas
de mbito nacional.

Visitei as organizaes de Alagoas e encontrei no Governador e
Secretrio da Educao muita receptividade e desejo de realizar um
trabalho de continuidade na educao
de cegos. Nessa visita tive a oportunidade de ver algo que me
impressionou muito: havia naquela poca em Macei um lugar onde
estava armazenada uma quantidade enorme
de equipamentos para uma escola profissional, doao da Aliana
para o Progresso. Mas a prpria Secretaria no tinha tido ainda
condies de preparar o pessoal
necessrio para a utilizao dos mesmos. Naquela cidade, onde
muito de perto se via tanta pobreza, tanta necessidade de recursos
educacionais para melhorar o nvel
e a qualidade de vida daquele povo, ficamos estarrecidos
verificando o desperdcio de elementos e mquinas preciosas para a
educao. Necessitvamos muito de equipamentos
para os servios educacionais para cegos. Conversei com o
Secretrio e com o Governador e eles me explicaram que estavam
preparando pessoal e local para utilizar todo

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aquele material. Era uma realizao a longo prazo, devido s
condies locais, Nunca soube se isso realmente se realizou.

O meu trabalho foi de incio destinado ao Nordeste do pas devido
 ausncia de servios adequados nessa regio. As crianas cegas
iam para o Benjamin Constant
no Rio de Janeiro, para o Instituto Padre Chico em So Paulo ou
para o So Rafael em Minas Gerais. Nosso programa na Campanha foi
promover a instalao de recursos
educacionais, estimulando o desenvolvimento de algumas escolas,
criando os recursos nas Secretarias de Educao, para que pelo
menos nas capitais se pudesse
prestar atendimento s crianas cegas sem que elas tivessem de se
deslocar para outros estados do Brasil, aumentando os prob1ema das
escolas das capitais. O programa
no tinha em vista apenas as capitais. Era preciso, porm, ter
pelo menos um centro em cada estado e alguns recursos mais amplos
em cada regio. O programa inclua
o levantamento do nmero de crianas cegas no interior de cada
estado. Conhecamos estimativas internacionais que acusavam uma
porcentagem de 80% das pessoas cegas
na zona rural dos pases em desenvolvimento.

Tnhamos um projeto de interiorizao que procuramos de aiguma
forma desenvolver durante a nossa gesto na CENEC/MEC. Este
programa propiciou pelo menos a criao
de recursos educacionais nas regies e a modernizao de escolas
residenciais, entre elas a do Instituto de Cegos da Bahia, em
Salvador. Conheci dila de Lima,
Presidente do Instituto. Era uma mulher maravilhosa, voluntria
dedicada, tinha um grande entusiasmo, um grande amor pelos alunos
da escola.

Atravs da Campanha Nacional de Educao de Cegos fizemos uma
experincia muito interessante com a escola da Bahia, porque
havia, alm das crianas cegas da capital,
muitos alunos do interior. Comeamos um sistema que, quando
estudei nos EUA, chamava-se "Oregon Plan", o Plano de Oregon:
compreendia uma escola-residncia na capital
que recebia as crianas cegas do interior. Todos os alunos eram
matriculados nas escolas da rede de ensino do Estado, integrados
nas classes comuns e recebiam orientao
especial na instituio de cegos.

Na Bahia, o Instituto de Cegos adotou o mesmo sistema. As crianas
tinham professores que orientavam na preparao dos estudos,
faziam trabalhos manuais e durante
o perodo escolar, moravam no Instituto. O nosso trabalho na Bahia
incluiu tambm um servio de colocao de cegos na Indstria, 
semelhana do que era realizado no SENAI de So Paulo.

Chegou 1964 e Nancy, minha amiga americana, estava em So Paulo.
Ela chegou antes de maro, e Scott, seu marido, j era Ministro no
Consulado Ameri-

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cano em So Paulo. Nosso reencontro foi muito engraado, bem de
acordo com o gnero divertido de Nancy. Eles haviam alugado uma
casa tima onde estavam morando,
s que quando havia inundao o jardim ficava cheio de ossos do
cemitrio do Ara. Tinha de ser com a Nancy...

Em So Paulo, estvamos numa poca de grande agitao, muitos
movimentos polticos e muito desassossego. Foi quando houve a
"Marcha da Famlia com Deus pela Ptria"
no dia 19 de maro. Dessa vez eu participei, marchei, rezei com
entusiasmo e f, pelo bem da minha ptria.

Poucas vezes eu me envolvi em poltica e sabia, como sei at hoje,
que sou capaz de me empolgar. Tudo o que se refere a defesa de
ideais, principalmente de ideais
para a melhoria da qualidade de vida do povo, de tradio e de
civismo, me empolga. Raramente me envolvi em poltica que no seja
poltica da rea de Educao e
de Reabilitao de Cegos. Nessa rea tenho agido calmamente, mas
com persistncia. Aconteceu - 31 de maro  - a Revoluo. Foi um
momento muito crtico em que precisei
aguardar at que tudo voltasse ao normal. Quando foi nomeado o
Ministro da Educao, mais uma vez me preparei para ir  Braslia
para entregar o meu cargo. Mas ainda no foi dessa vez...

Estvamos em pleno Governo Militar e, nessa poca, Nancy me
apresentou a todo o pessoal do Consulado Americano, fez um grande
movimento no consulado para que houvesse
doaes para a Fundao. Antes de sair do Brasil para uma outra
misso, ela chamou Alex e eu e nos apresentou o novo Cnsul
Comercial dos EUA e sua esposa, Bina,
que tinham filhos da mesma idade dos nossos. Alugaram uma casa na
rua paralela  nossa e se tornaram grandes amigos nossos e at
companheiros de viagem, durante muito tempo.

Numa noite, muitos anos depois, no teatro Maria de La Costa,
algum de nossas amizades me encontrou na rampa do teatro e contou
que o nosso amigo Cnsul Comercial,
ento j falecido, tinha sido membro da CIA. A notcia havia sido
publicada num jornal norte-americano. No sei, mas seja l como
for, Joe e Bina eram duas pessoas muito interessantes; gostaram
muito do Brasil e tiveram um filho brasileiro.

Os anos 60 marcaram bastante.

Foi tambm em 1963 que perdi minha sogra. No dia em que minha
sogra passou mal, ns estvamos nos feriados de setembro, havamos
alugado uma casa na praia da Cigarra.
Ela estava internada num hospital do Rio de Janeiro quando
faleceu. Havia se convertido por desejo prprio ao catolicismo e
morreu com todo o conforto da religio,
assistida pelos padres da Igreja Catlica.

Fui surpreendida um dia com uma notcia e um convite. A notcia
anunciava que eu havia sido eleita "Mulher do Ano" pelo Clube
Paulistano de

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Senhoras (Woman's Club). O convite era para o almoo do dia 19 de
abril de 1966,:
no Esporte Clube Pinheiros onde me seria entregue o prmio.

Minha apresentadora foi a grande atriz Sonia Ribeiro, mulher
voltada para os problemas enfrentados pelas organizaes das
pessoas deficientes. O Clube Paulistano
de Senhoras  uma Associao que tem grande aceitao na
comunidade paulistana e realiza tambm uma obra social de grande
mrito para as crianas carentes.

O prmio me trouxe imensa alegria, principalmente pelo que as
scias desse clube representam no mbito de aes comunitrias em
So Paulo.

MINHA ME

Mame ficou muito doente. Minha grande companheira, aquela que
confiou sempre em mim, que acreditou na minha capacidade e que
tinha um grande entusiasmo por tudo o que
eu fizesse. Inclusive um grande entusiasmo pela Fundao. Mame
era uma mulher barbaramente inteligente. Ela ficou muito doente em
1968, quando completava 50 anos
de casada, bodas de ouro. E sempre contava que havia feito um
trato com Deus: no se importava de morrer, era uma pessoa muito
religiosa e gostaria muito de estar
preparada, mas s queria uma coisa, que Deus permitisse que ela
fizesse bodas de ouro.

Um dia mame foi  pedicure e deu um talho no p. Depois do
enfado, ela manifestou ter um problema circulatrio e por isso
tinha muita dificuldade de cicatrizao.
Mame estava com algumas feridinhas no p; no era diabtica, mas:
havia o problema circulatrio.

Ia fazer 80 anos em outubro. Lembro-me de que experimentando o
vestido, olhou para a costureira e disse: "Ah! no, dona Zulmira,
com este vestido eu at pareo
uma mulher velha". Ns todos contratamos o Buffet Torres, fizemos
uma missa linda no colgio So Luiz, com as duas cadeiras para os
noivos que entraram de braos dados pela nave central. Os filhos,
nora, genro, netos, todos no
altar ladeando o casal. Foi uma festa inesquecvel.

S eu sabia que mame no estava agentando o sapato. Ela tinha
dores terrveis no p, tomou bastante remdio, mas atravessou a
nave at o altar ida e volta, sorrindo,
no deu a menor demonstrao de sofrimento fsico pelo qual estava
passando. Desfilamos atrs do casal, tudo como ela havia
planejado. O jantar foi lindo, os presentes
maravilhosos, compareceram todos os nossos ami-

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gos, os amigos de papai e mame, amigos de meu irmo, de Alex,
enfim, de toda a famlia, de Amlia, de Afonso. Quando mame
chegou em casa, no agentava mais. Tirou
o sapato antes de entrar em casa e foi para a cama imediatamente.
Piorou terrivelmente nessa noite e no dia seguinte foi para a
Beneficncia Portuguesa de onde s saiu para o cemitrio.

Nesse tempo eu estava continuando meus trabalhos, enfrentando
problemas para novas realizaes. Em Braslia, o Congresso
Nacional de 1968 estudava uma Legislao
muito importante para a criao de um Organismo e uma Lei
Especial, que naquela poca se chamava Lei do Excepcional. Eu
tinha muito interesse como Diretora Executiva
da Campanha, que essa Legislao fosse adequada, ns j estvamos
trabalhando praticamente a sete anos e tnhamos grande
conhecimento das necessidades no Brasil. Fui chamada para depor
numa das Comisses na Cmara Federal. Meu dilema - eu praticamente
ia todos os dias  Beneficncia Portuguesa.

Eu tinha de ir para Braslia. Minha irm me chamou e disse: "Se
voc tiver de ir, v, eu no saio daqui. Eu no abandono Dona
Dolores". Mame j havia perdido a
conscincia. Amlia acrescentou: "Se sua me estivesse consciente
ela no deixaria que voc faltasse ao cumprimento de seu dever".

Eu fui. Prestei todas as informaes, respondi a todas as
perguntas com muita serenidade. Acho que o exemplo de mame, sua
vivacidade, sua fortaleza me ajudaram
nesse momento. Por ordem do Presidente do Congresso o avio que me
traria de volta aguardou para que eu pudesse voltar para So Paulo
na mesma noite a tempo de ir
para o hospital. Logo depois que cheguei mame faleceu.

Tenho muita saudade de mame.

Depois de 50 anos de casado, papai ficou s. Quando mame faleceu,
coube-me a tarefa mais difcil: dar a notcia a papai, que estava
em sua casa. Abri a porta e disse: " Papai ele me interrompeu: "Eu
j sei. No precisa dizer nada, ela j se foi".

FRIAS E MAR

A praia das Cigarras foi a descoberta do paraso. Frias so um
eterno problema para qualquer famlia, principalmente quando se
tem cinco filhos. Alex sempre gostou
de mar e resolvemos que era preciso ter um lugar em uma praia para
que as crianas pudessem passar a maior parte do tempo de suas
frias. O stio de

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minha cunhada Doille ficava em So Pedro da Aldeia sobre a lagoa
de Araruama em Cabo Frio. L ficamos vrias vezes levando amigos
que tinham filhos da idade dos nossos, como Flvia e Gilbert Hime,
o grande amigo de infncia de Alex.

Experimentamos Perube na casa de Man, ao lado do Cibratel, e o
apartamento que Tarcylla alugou em So Vicente. A dificuldade de
acesso, sempre a mesma: trnsito
na serra. Por volta daquele tempo, mesmo para atingir Perube
ainda era preciso esperar a descida da mar dentro de uma perua
Kombi com malas, crianas, banheiras,
mantimentos etc. Um grande amigo de Tarcylla teve a idia genial
de convidar o casal Novaes para um fim de semana na Praia das
Cigarras, So Sebastio. A casa era
grande e Tarcylla nos convidou para o fim de semana. Foi, de fato,
a descoberta do Paraso, uma praia soberba entre So Sebastio e
Caraguatatuba. Poucas casas, pouca gente, nenhuma barraca, apenas
as rvores frondosas e um hotel no topo da montanha de pedra.

Compramos um terreno em janeiro de 1964, inauguramos a casa em
novembro, nossos hspedes: Tarcylla, marido e filhos. Nem podia
deixar de ser. Os nossos companheiros
de praia tinham filhos no colgio So Luiz onde estudavam
Alexandre e Cristiano. Eram quase todos da mesma idade. Na mesma
rua da praia, Pedro Gereto e Marice
acabavam de construir sua casa e logo depois conhecemos os Pedrosa
que l estavam entre os primeiros habitantes desse privilegiado
recanto beira-mar.

Foi quando conheci Diva, que tambm havia estudado no Elvira
Brando e tinha sete filhos. Amizades comeadas na praia, mas
fadadas a durar toda a vida.

Nossos filhos passaram a ter um lugar ideal para suas frias,
lugar que reunia tambm a predileo dos pais. Pedro, Pedrosa e
Alex pescavam quase todos os dias.
Tnhamos peixes excelentes para as refeies, embora os maiores
deles fossem pescados nos grandes barcos pesqueiros bem fora da
barra. Fingamos acreditar que eles prprios haviam pescado...

Minhas filhas tiveram como companheiras de frias suas colegas de
colgio, como as filhas de Fausto e Cecilia Figueira de Melo.
Todos os nossos filhos praticavam
esqui aqutico sob o controle dos pais. As amigas das meninas -
Adriana amiga de Denise, e Elaine, amiga de Dorininha, preferiam
ficar conosco que era mais divertido
do que em outras praias do litoral paulista.

Muitas vezes nas frias bastante longas, eu voltava para So Paulo
com Alex durante a semana, e meus pais ficavam com as crianas e
Luzia.

Luzia  uma personagem que tem um papel importante na minha vida
familiar. Luzia entrou para minha casa mocinha, com mais ou menos
20 anos,

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atravs de uma agncia, para ser arrumadeira. Ela  um misto de
caboclo com ndio, sempre um pouco fechada e arredia. Ficou
conosco, foi arrumadeira, depois aos
poucos foi se tornando cozinheira. Pude ensinar muita coisa a
Luzia, mas ela tambm tinha uma grande capacidade para se tornar o
que  hoje: uma cozinheira de
forno e fogo. Ela costumava pedir que eu ficasse a seu lado,
sempre que eu trazia as receitas para experimentarmos e assim
evolumos durante os anos, desde 1965
ou 1966, quando ela entrou na minha casa. Seu amor pelas crianas,
depois que os meus filhos estavam criados e casados, transferiu-se
para os meus netos e at hoje est com Denise cuidando de Fernanda
e Ricardo, desde que nasceram.

Temos um grupo muito grande de amigos que perduram at hoje.
Tereza Kortaz, irm de Pedro,  uma excelente voluntria da
Fundao, trabalhando com Tarcylla para
o sucesso do nosso bazar anual. Os amigos da praia nos
proporcionaram ainda um relacionamento com Ibitinga e So Jos dos
Campos. Em So Jos passamos, ultimamente,
nossos reveillons, no apartamento do Brigadeiro Hugo Piva e
Lucila, uma grande e duradoura amizade.

Tenho um carinho todo especial pela praia das Cigarras. Os nossos
filhos cresceram, tiveram amigos permanentemente e minha casa era
uma casa muito alegre, com muita gente. Nos primeiros anos o nosso
terrao era ponto de encontro. Quantas histrias maravilhosas
ouvimos, quantas discusses, filosofia de vida, enfim, d muita
saudade lembrar da praia das Cigarras.

TAPETES

Bendito seja o tapete
Que, como uma sombra
Se estende aos ps do rei
Durante o festim.
Perto dele a roseira
 apenas um punhado de espinhos,
Pois ele  uma imagem sem defeito,
Um jardim por onde jamais
O vento do outono passar.

(Versos de Tej-El-Mehal - tapeceiro mouro, viveu no final do
Sculo XV)

Um dia Diva Pedrosa levou para a praia das Cigarras o trabalho
manual que estava fazendo - um tapete em ponto smirna feito em
tela larga. Ela fazia os pontos dando
uma laada e media a laada com uma medida em papel. Ento,

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pedi  Diva para experimentar, porque eu estava muito cansada de
fazer tric. O mdico ortopedista, que estava me tratando de uma
bursite, havia avisado que o tric,
pela posio do brao direito parada e ao mesmo tempo contrado
para segurar e fazer o ponto, talvez estivesse me prejudicando. Eu
gostaria de fazer outro trabalho
manual, possivelmente tapete. Aprender o ponto arraiolo foi muito
fcil, numa tela larga, mas no seria possvel fazer da mesma
maneira que os outros fazem. Eu
dependia tambm de outra pessoa para fazer os contornos das
figuras e flores. Conhecendo o ponto, eu poderia preencher os
centros. Conhecendo o ponto eu poderia usar
uma tela mais larga do que o tipo de pano que  normalmente usado
para o verdadeiro arraiolo.

Diva me entusiasmou e me fez trabalhar um pouco com a agulha
fazendo o ponto smirna. De volta a So Paulo fui com Diva a uma
loja de material pan tapetes na rua
Augusta. A dona da loja mostrou-me outra maneira de fazer o ponto
smirna, com uma agulha com o formato de ponta de agulha de croch,
tendo uma mola para prender, a l.

O importante, porm,  que o smirna normalmente  feito com a tela
colocada sobre a mesa e a pessoa com a agulha vai enfiando em cada
buraco da tela mais larga o
fio de l num tamanho j cortado adequadamente e puxando em forma
de n. Eu fiz um pouco sobre a mesa, mas levei o material para
casa porque eu precisava trabalhar
com as duas mos. Sobre a mesa era muito mais difcil localizar os
furos da tela, embora fosse uma tela de furos largos e l bem
grossa. Teria que seguir o esquema
contando os pontos, mas isso no era problema. O esquema  todo em
smbolos, cada cor tem um smbolo, uma meia lua, uma lua, um V,
enfim vrios smbolos e esses
smbolos correspondem a cores. Logo imaginei que no seria difcil
transcrever o esquema em braille, sendo que em vez dos smbolos
desenhados, cada cor teria um smbolo que lembrasse a cor:
V, vermelho, A, amarelo, da por diante, Como eu vi como se faziam
os desenhos, imediatamente descobri como transcrever, O esquema
teria de ser feito com os smbolos
das cores e depois transcrito numa pgina em braille, carreira por
carreira: um vermelho, dois amarelos, trs verdes, de acordo com o
nmero de pontos de cada carreira. O problema era como trabalhar
na mesa. Trabalhar com o corpo meio dobrado para frente, tambm
no  uma posio adequada para a postura.

Alex ia fazer uma pescaria. Fiquei em casa com os meninos num fim-
de-semana. Sentei no living e durante 48 horas virei aquela tela
de todas as maneiras, procurando
a melhor forma para trabalhar. Analisei a tela e de repente houve
um estalo! Percebi que dobrando na linha que separa as carreiras
de orifcios da tela, acompanharia
com a mo esquerda e colocaria com a direita os fiozinhos de l,

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cada um no seu lugar. Foi muito simples e da por diante fazer
tapetes persas se tornou um hobby, um prazer, uma alegria. Sinto
prazer realmente fazendo esses tapetes,
tendo de lidar com cores que eu no estou vendo. Este exerccio me
estimulou bastante para no esquecer as cores. Ao fazer o tapete
analiso o desenho e pela anlise posso ver que cor devo colocar
naquela carreira, que depois me permita preencher as cores do
meio.

Quando eu termino os tapetes  preciso corrigi-los para serem
montados. Tive algumas assessoras para esse trabalho, uma de
minhas noras e posteriormente Joana,
cozinheira, meio secretria, atendente de enfermagem, bab de
minha neta Renata e que finalmente aprendeu o ponto smirna e me
ajuda na correo final dos tapetes.
Alis, apesar das dificuldades que enfrentaram e enfrentam as
donas de casa do meu tempo, tenho encontrado algumas auxiliares de
valor como Joana e Maria Jos, minha arrumadeira h 20 anos.

Os esquemas de mais de trinta tapetes que j fiz, foram
transcritos por Regina Ftima Caldeira, consultora braille -
talvez a melhor brailista do Brasil.
Hoje esse trabalho  realizado por copistas voluntrias.

Para mim  um hobby e ao mesmo tempo fiquei conhecendo os desenhos
de tapetes antigos. Quando nos mudamos, em 1969, para o Alto de
Pinheiros, descobri Mansa da Veiga.
A comeou verdadeiramente toda uma histria de tapetes. Mansa
escolhe os desenhos. Conhece a histria de cada um. Foi acar no
mel. Adoro tudo que tem histria,
gosto de conhecer a origem das coisas e ela me mostra os desenhos,
me explica, conta a histria de cada tapete. Fiz um medalho
turco, que  um desenho muito bonito
de flores que lembram os jardins franceses.

Um dia, muitos anos mais tarde, fui  Arbia Saudita e qual no
foi a minha surpresa quando ns, membros do Conselho Mundial para
o Bem-Estar dos Cegos, fomos recebidos
pelo rei Farredes, no palcio real. Nessa poca eu j era
Presidente do Conselho Mundial. Quando entramos com todas as
cerimnias, Alex me disse: "Dorina, este cho
 coberto pelo seu tapete". E a histria desse tapete  que um
prncipe da Arbia Saudita, foi educado na Frana. Ele gostava
muito dos jardins franceses e na Arbia,
 claro, regio desrtica, h poucas flores.
o prncipe mandou fazer um jardim perto de sua sala de trabalho.
Esse jardim era cpia dos jardins franceses. Ele trouxe as plantas
e terra. Mas as flores duravam muito pouco por causa do clima,
ento ele chamou um pintor quando o jardim floriu e mandou
desenhar com as cores autnticas, depois mandou passar o desenho
para o tapete.

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Visitando uma escola para moas cegas em Bangcok, mostrei como
fazer os tapetes. Os professores se interessaram em ensinar as
moas cegas. Mostrei tambm no Instituto
Padre Chico em So Paulo e soube que as crianas cegas aprenderam
facilmente a fazer o smirna. Tenho ensinado tambm pessoas com
viso normal a fazer tapetes pelo sistema que criei.

Alm dos tapetes, continuo ampliando minha coleo de colherzinhas
de caf que iniciei em 1946. As impresses que colhi nas minhas
participaes em reunies nas
cinco partes do mundo no so visuais, mas tm um valor
inestimvel. Procurei algo de concreto que me trouxesse 
lembrana um pouco da vida das pessoas e das
coisas que caracterizam a cultura de cada povo.

Colecionei tambm caixinhas de todos os tamanhos, desde as de
"cloison" da China e "papier mach" da ndia, at as de pedra-
sabo do Brasil. Os bules de cobre e
lato da Jordnia, Arbia Saudita, Balbec no Lbano, adornam minha
lareira; os pratos de parede, calendrio asteca e escudos de
diferentes pases da Amrica Latina vestem as minhas paredes.

Em 1969 eu devia participar de um Congresso e Assemblia Geral do
Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos em Nova Delhi. Mame
havia falecido uns meses antes
e eu ainda no havia reorganizado as coisas de forma a deixar as
crianas em segurana para uma viagem longa. Alex ia me
acompanhar pois era uma Assemblia Geral
e eu sempre me senti mais segura em sua companhia, nessas
reunies. Eram reunies polticas e Alex com seu insight e seu
conhecimento da lngua inglesa facilitavam o meu trabalho.

Infelizmente no me foi possvel ir. Geraldo Sandoval e Teresa
representaram o Brasil nesse Congresso. Quando Geraldo voltou da
ndia me disse: "Durina, se voc estivesse em Nova Delhi, tenho
certeza de que seria eleita Presidente do Conselho". Havia j um
princpio de movimento para a minha eleio.

PROMOES

Foi sempre necessrio realizar promoes para obter recursos
financeiros para manuteno da Fundao.

Numa dessas promoes organizadas por Titina Crespi, Cecilia Moura
Leme, Graziela de Barros e outras senhoras, durante uma reunio
levantou-se uma jovem senhora e deu uma sugesto. Gostei do jeito
dela e perguntei logo

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quem era, sabia que era uma de nossas voluntrias - Maria Carolina
Pinto Coelho de Carvalho. Imediatamente procurei conhec-la mais
de perto porque senti que Carolina
tinha todas as condies de personalidade, de firmeza, de
segurana para realizar um trabalho eficiente. Ela era muito
segura de si para fazer parte da diretoria
da Fundao. E assim foi.

A Fundao enriqueceu-se nessa poca com a participao de uma
personalidade muito marcante o Padre Lionel Corbeil, fundador do
Colgio Santa Cruz em So Paulo,
que passou a fazer parte de nosso Conselho Fiscal.

Meu irmo Man tambm permaneceu alguns anos na Diretoria da
Fundao.Man  uma pessoa muito bem relacionada, foi diretor do
Clube Atltico Paulistano e do jockey Clube de So Paulo. Todas as
vezes que solicitamos a sua colaborao, ele sempre est presente.

Participaram ainda da diretoria da Fundao voluntrias que se
destacavam pelas suas grandes contribuies, como Helena Vasone.
Helena organizou bazares excelentes, deu continuidade aos
primeiros bazares que eram realizados na casa de Dona Clotilde de
Mello, me de Tildinha. Helena continuou quando Dona
Clotilde no podia mais realiz-los.

Todos trabalhavam e faziam muitas peas de artesanato que eram
vendidas, contribuam minto na captao de recursos. Esses bazares
existem at hoje, agora com grande
nmero de voluntrios que trabalham trs vezes por semana na
Fundao, preparando o bazar de fim de ano, que est agora sob a
direo de  Tarcylla com ajuda e colaborao de Teresa Kortas.
Houve outras voluntrias que se destacaram e que certamente
merecem toda a nossa gratido, como por exemplo Alice Franco do
Amaral Tormim, j falecida.

Esses bazares foram o incio de uma srie de promoes que hoje
so parte dos recursos que garantem a manuteno da Fundao.
Muitos voluntrios adotam a Fundao
em suas vidas. Foi o caso de Maria Helena Adams, que me acompanhou
em viagens  Braslia. Era uma diretora ponderada e a sua grande
contribuio foi fazer com que Dona Adlia Dumond Adams, sua mem
se interessasse pela Fundao. Foi graas  influncia de Maria
Helena que no testamento de Dona Adlia a Fundao foi includa.
Ns recebemos desse esplio uma doao que se constituiu no Fundo
Adlia Adams. Hoje a Fundao tem esse fundo que  realmente
consistente e que  o principio de um estabilidade que nos cabe
aumentar.

A Fundao teve no seu Conselho Fiscal e Consultivo homens como
Antnio Ermrio de Moraes Roberto de Abreu Sodr, mai tarde

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Rcio Castro Prado, Anibal de Farias, Marx Feffer, Fbio Monteiro
de Barros, Horcio Charlascki e Oswaldo Campiglia. Alguns
permanecem at hoje. No posso deixar
de consignar pessoas que estiveram ligadas e que contriburam para
o desenvolvimento da Fundao.

MULHER - FAMLIA - TRABALHO

Parece divagao toda essa preocupao sobre o meu trabalho, o meu
relacinamento com meus filhos e os meus deveres de me e esposa.
Na realidade; muitas vezes algumas
pessoas procuravam de uma certa forma dissuadir-me do meu
trabalho, por causa dos meus filhos ou de minha casa. Eu no sou
to influencivel assim, ouvia as ponderaes
dos outros, mas fazia aquilo que eu achava estar certo e com o que
meu marido concordava.

Quero dizer que minha me e meu pai sempre estiveram do meu lado e
nunca acharam que eu estivesse abandonando o lar por trabalhar
numa obra social, ou na minha carreira
como professora, ou diretora da Campanha Nacional do Ministrio da
Educao. So pontos de vista. Meu pai e minha me eram pessoas
tradicionais. Minha me passou toda
a vida dentro de casa, sempre fazendo trabalhos como uma dona de
casa, me de famlia  moda antiga. Meu pai nunca achou que eu
estivesse transgredindo qualquer
uma das regras sublimes de ser me e esposa pelo fato de
trabalhar. Tive o apoio deles e o apoio de Ales que tambm jamais
achou que eu estivesse prejudicando alguma coisa por causa do meu
trabalho.

Alex sempre me estimulou a trabalhar, a participar de reunies, de
congressos e apreciou minha carreira internacional. Sempre me
apoiou e nunca deixou de exigir
tudo aquilo que normalmente o marido deve esperar de sua mulher,
da dona de casa e da me de seus filhos. Eu no tinha privilgios.
Ele me apoiava, mas a minha tarefa
de me de famlia tinha de ser cumprida tambm.

Este  o problema da mulher que trabalha fora de casa, a nossa
tarefa  dupla. Ns aceitamos a situao sem queixas, a no ser as
queixas normais de mulher que trabalha,
pela remunerao que ela recebe. Por outro lado, h a mulher que
no tem o reconhecimento do valor de seu trabalho no lar, no
entanto,  uma contribuio financeira
tambm para a economia do casal e da sociedade. Este  um aspecto
que eu sempre levanto. A injustia de que o trabalho da dona de
casa no seja considerado em termos financeiros.

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Observei este fato freqentemente em entrevistas com senhoras
idosas, No quando eu tive a clnica de viso subnormal na
Beneficncia Portuguesa. As senhoras que haviam sido mes de
famlia e que na velhice dependiam de seus
filhos no tinham uma penso para serem independentes. Essas
mulheres so dependentes de seus filhos, filhos que elas criaram,
que elas e seus maridos educaram,
e que agora cresceram e tm uma profisso. Muitas vezes so
internadas em asilos ou em casas de pessoas idosas. Algumas dessas
casas so excelentes quando h recursos
para pagar por esse conforto. Essas casas podem ser at uma forma
de independncia, mas tambm de solido, e a solido  muito
triste em qualquer fase da vida.

s vezes reclamamos do trabalho e preocupao que os filhos nos
do. Mas, no fundo, esse trabalho  uma satisfao,  um prazer. A
sociedade talvez um dia tenha soluo para esse problema.

Mais do que nunca, as pessoas idosas precisam ser independentes
para serem amadas, queridas, de maneira que os jovens que nos
fazem tanta falta nesta fase da vida e que so a nossa alegria, o
nosso contentamento e a nossa razo de
viver, possam ficar perto de ns sem que sejamos um peso para
eles. Este  o meu conceito sobre a idade avanada. Eu tenho um
problema a mais, preciso muitas vezes da ajuda dos que me cercam
para sair, para que as coisas sejam lidas, para que os filmes na
televiso sejam descritos.

Nem sempre obtive aquilo que desejava, mas aprendi que o que eu
posso obter j  alguma coisa. De vez em quando me queixo mesmo.
Peo ajuda quando ela  necessria, no tenho nenhum problema em
relao a isso, porque eu tambm ajudo e ajudei os meus filhos,
toda a minha famlia e todos os que me
cercam.  preciso que ns, cegos, tenhamos essa confiana na nossa
capacidade de dar, para receber com dignidade aquilo que
precisamos e que, s vezes, em razo da prpria cegueira,
dependemos, ainda que momentaneamente, dos outros.

REABILITAO

Voltando ao crescimento da Fundao, depois de muito esforo,
conseguimos criar o Centro de Reabilitao de Cegos. Foi uma
vitria. Foi inaugurado em 1962, numa casa alugada, perto da
Fundao, porque no havia espao no prdio. Este primeiro Centro
de Reabilitao de Cegos, pioneiro no Brasil, foi
instalado depois de muito estudo, depois de prepararmos uma equipe
e conseguirmos recursos
para alugar o local. No era um centro residencial.

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Os Centros de Reabilitao Residenciais, quando bem organizados,
tanto nos EUA como na Europa, valem a pena, at certo ponto:
porque o indivduo que mora numa penso
e tem de ir ao Centro, tem uma convivncia mais integrada nas
horas em que ele no est se submetendo ao treinamento. O assunto
tem sido exaustivamente discutido
e chegamos  concluso de que ainda que um dia haja dinheiro para
se ter um lugar mais amplo para o Centro de Reabilitao, no
faramos um Centro Residencial. Acho que nas condies scio-
econmicas do Brasil, a nossa soluo foi acertada.

Mais tarde tivemos de desistir da casa porque o aluguel ficou
muito elevado, e o Centro passou a funcionar em algumas salas da
Fundao. Mas subsistiu. Houve um
problema, um problema muito interessante quando o Centro se tornou
muito dispendioso. Havia uma proposta na Fundao para que
eliminssemos alguns servios. No
era uma tendncia da Diretoria, a Diretoria procurou
contemporizar, mas eu mesma cheguei  concluso de que algum
servio teria de ser fechado.

Alguns profissionais, principalmente a coordenadora do Centro na
poca, sugeriram que ns poderamos tornar o Centro de
Reabilitao independente da Fundao,
ainda que eu mesma estivesse na Diretoria Administrativa, O mesmo
aconteceu anos antes com a imprensa braille. Mantivemos o Centro
na estrutura global da Fundao - no aceitei a idia e a
Diretoria concordou plenamente. Ser que erramos? Ser que errei?
O futuro respondeu. A reabilitao continua, continuamos atendendo
at hoje as pessoas cegas que nos procuram para o processo de
reabilitao. So todas pessoas com mais de 18 anos de idade.

Hoje em dia fala-se em reabilitao de deficientes e, por causa da
reabilitao fsica dos portadores de deficincia do aparelho
locomotor, fala-se principalmente
em reabilitao da criana. Ns continuamos firmes no nosso ponto
de vista: a criana  habilitada nas escolas para cegos, ou nas
escolas comuns junto com as
crianas videntes. O adulto, sim, passa por um processo de
reabilitao porque ele foi habilitado, perdeu a viso, ou a sua
habilitao no lhe deu condies para
trabalhar e viver independentemente. Ele vai ao Centro de
Reabilitao reformular o seu comportamento e as suas habilidades
para tornar-se independente e continuar normalmente a vida.

Reabilitao , portanto, o processo atravs do qual o indivduo
utiliza todo o seu potencial e desenvolve suas capacidades,
enfrenta suas deficincias e os aspectos
que no podem ser mudados. Enfrenta a realidade da cegueira, mas
aprende a encarar a vida contando com suas capacidades e
reconhecendo suas limitaes.

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O grau de independncia que a pessoa cega pode alcanar depende de
suas aptides, de sua capacidade fsica, mental e intelectual.  o
grau que cada um tem condies
de atingir nas atividades da vida cotidiana, comeando pelas mais
rudimentares: saber fazer sua prpria higiene, vestir-se, barbear-
se, pentear se, cortar unhas,
combinar cores de roupas etc. Quando vivem sozinhos, preparar seus
alimentos, cuidar da prpria roupa, andar independentemente dentro
de casa ou na rua. Mesmo uma
pessoa idosa que more com sua famlia pode aprender a ir at a
padaria ou fazer pequenas compras nas redondezas. Nem todas as
pessoas idosas podem aprender a tcnica
da bengala longa e andar independentemente. No  fcil utilizar o
metr, tomar nibus, principalmente nestas cidades selvagens que
so as nossas grandes metrpoles.

A Orientao e Mobilidade so aspectos fundamentais na educao e
reabilitao das pessoas cegas. A sua introduo no Brasil deve-se
 Fundao que tem estado sempre
na vanguarda dos processos de integrao dos cegos na comunidade.

O princpio de normalizao da vida para as pessoas deficientes
norteia a educao e a reabilitao no pode prescindir de uma
tcnica que permita  pessoa cega uma independncia completa e ao
mesmo tempo segura.

Os cegos adultos, desde 1958 na Fundao para o Livro do Cego no
Brasil, aprenderam a fazer uso da bengala longa. As crianas
utilizaram-se deste mtodo aps preparo
dos professores especializados quando as novas tcnicas de
Orientao e Mobilidade foram introduzidas na FLCB. Duas
professoras brasileiras que se especializaram nos EUA introduziram
esses ensinamentos nos cursos de especializao de professores:
Jurema Venturini e Marialva F. Frazo.

Todos os cursos de especializao na rea da cegueira a partir
dessa poca passaram a incluir a matria Orientao e Mobilidade
no currculo,visando o desenvolvimento de habilidades para a pr
mobilidade para as crianas cegas.

Procuramos obter cada vez maiores informaes atravs de contatos
com a American Foundation for the Blind. Consegui novas
possibilidades de assistncia tcnica.

Pudemos trazer para o Brasil grandes especialistas. Mr. Richard
Welsh, Universidade de Cleaveland e posteriormente Mr. Stanley
Suterko que participou inclusive do
grande e jamais esquecido SEMICOM  - Seminrio de Orientao,
Mobilidade e Comunicao  -1972, muito bem-sucedido, realizado em
So Paulo e planejado pela Fundao.

O Seminrio foi ibero-americano. Pode-se dizer que a partir desse
seminrio se expandiu a Orientao e Mobilidade em seus
fundamentos e programas para a evoluo pedaggica e cientfica
por toda a Amrica Latina. Atravs da

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Campanha Nacional de Educao de Cegos, tive a oportunidade de
trazer como bolsista professores especializados e profissionais de
reabilitao do Brasil para freqentarem
cursos em So Paulo. Por outro lado, atravs do convnio com
Universidades de outros Estados o CENESP - Centro Nacional de
Educao Especial do MEC e a FLCB - Fundao
para o Livro do Cego no Brasil organizaram cursos regionais para a
preparao de tcnicos de Orientao e Mobilidade.

O primeiro curso de Orientao e Mobilidade em So Paulo foi
organizado em convnio com a Escola Paulista de Medicina do MEC,
FLCB, CENESP, American Foundation for the Blind, Western Michigan
University.

Esse primeiro curso foi parte de um projeto da FLCB que incluiu a
concesso de uma bolsa de estudos para a formao de um
peripatologista na Western Michigan University.
A Fundao selecionou o fisioterapeuta Gracimar Alvares Bueno, o
primeiro peripatologista do Brasil, hoje com doutorado pela USP.

A maioria das pessoas cegas, sejam jovens ou estejam na idade
madura e at pessoas de mais idade, que aprendem a tcnica da
bengala longa, na escola, no Centro de
Reabilitao, conseguem movimentar-se independentemente. Essas
pessoas, em sua grande maioria, utilizam a bengala longa e no
necessitam de guia vidente.

A postura da pessoa cega fica prejudicada, quando no anda com a
bengala longa e s se utiliza de guias videntes. Senti muito isso
em mim mesma, que no ando com
a bengala nas ruas, meu tipo de vida no me permite, meus horrios
etc... Eu sempre ando de carro, mas dentro de casa ando sozinha.
Fiz o treinamento de mobilidade.
Quando necessrio posso usar a bengala longa que trago
permanentemente na bolsa. Mesmo assim a postura fica prejudicada.

O cego que utiliza bem a bengala longa mantm a postura mais
adequada do que as pessoas que tm de dar o brao para algum. Os
ombros se projetam mais para frente,
porque  um tipo de defesa em relao aos obstculos do ambiente,
ao passo que a bengala permite ao indivduo orientar-se para poder
andar. H tambm os ces-guia,
que permitem mobilidade independente das pessoas cegas. Quando as
escolas so boas, a pessoa faz um treinamento bem feito, os ces
so excelentes. Acontece, porm,
que para um profissional que tem de manter o co perto de si, 
mais um que tem de ir para a fbrica ou escritrio.

Entre os dois recursos, a bengala longa  mais prtica e
acessvel. Alm da bengala longa comum, j existe a bengala-laser
e outros tipos de equipamentos como os
culos sonoros e, mais recentemente, a mochila computadorizada que
 colocada sobre o peito da pessoa cega. Esses equipamentos
eletrnicos do pistas sonoras sobre
os obstculos existentes no caminho a percorrer.

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Quem sabe no futuro teremos algo menos complicado, menos pesado. A
tendncia  que esses equipamentos diminuam cada vez mais de
tamanho, sejam de utilizao mais fcil e de menor custo.

O sistema braille ainda  um dos maiores e melhores recursos para
ler e escrever, principalmente para o estudante, para a preparao
de trabalhos, leituras, estudos
e para fazer clculos.  bem verdade que temos hoje a calculadora
que fala. J existe em portugus, espanhol, ingls, francs,
rabe, em quase todas as lnguas do mundo.

Ainda em 1967 houve um programa para lderes de educadores de
cegos patrocinado pelo governo americano, imediatamente anterior
ao Congresso promovido pelo Conselho
Internacional de Educadores de Jovens Cegos. Fui com Teresinha
para Kentucky, onde visitei a imprensa braille, conhecendo todos
os novos recursos. Nessa poca a
IBM j havia iniciado um trabalho com a imprensa norte-americana
para informatizao da transcrio dos livros em braille. Visita
mos vrias unidades, no s Kentucky,
estivemos observando outros servios dos EUA e depois fomos ao
Congresso no Perkins School. Houve uma grande Conferncia e nessa
oportunidade eu recebi o prmio
por Servios Prestados a Cegos de Alm Mar, um titulo da American
Foundation For the Blind.

Nesse Congresso de Boston estvamos eu, Teresinha, Jurema,
Marialva, e outras pessoas da Amrica Latina; tivemos o primeiro
contato com um jovem da Arbia Saudita,
Abdulah M-Al Chanim. Mais tarde eu trabalhei bastante com Abdulah
no Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos e nos tornamos
grandes amigos. Ahduiah j era uma
personalidade "sui-generis", sobrinho de Ministro, mostrando
sinais de poder poltico e econmico. Ele tornou-se grande lder
nos pases rabes, no s na rea de
educao e de reabilitao, de atendimento s pessoas cegas, mas
tambm na preveno da cegueira.

Durante muitos anos tive uma resistncia muito grande para aceitar
a participao em programas de televiso e de rdio, evitava mesmo
aparecer em
muitas entrevistas dos jornais. Mas o trabalho cresceu e as
exigncias foram se avolumando. Em 68 eu recebi uma homenagem
muito grande no programa Esta  a sua Vida
da ento TV Tupi, Canal 3. Esses programas todos traziam muita
angstia, embora eu sentisse que era minha obrigao. J que eu
tinha assumido a funo de Presidente
da Fundao, estava liderando um trabalho do qual se beneficiariam
tantas pessoas, tinha a obrigao de iniciar, ou de incrementar a
publicidade em volta desse objetivo.
Todas as gravaes at hoje so complicadas. No incio a angstia
era imensa, no  fcil falar com o tempo limitado dos programas
de televiso. Quando esses programas
contam a nossa vida, em geral h muita coisa que no corresponde
totalmente  realidade e somos pegos de surpresa.

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No incio os programas eram ao vivo, no se podia evitar algum
sensacionalismo. Fui muito feliz e raramente a maneira de relatar
minha vida, ou a forma de ser encarado
o problema da cegueira, desviou-se muito da realidade ou
demonstrou uma idia errnea, como acontece muitas vezes sobre o
prprio problema da cegueira e sobre o que  uma pessoa cega.

Nos anos 60 participei de inmeros congressos, apresentei vrios
trabalhos, sempre sobre a educao de cegos. Na Assemblia Geral
do Conselho Mundial para o
Bem-Estar dos Cegos, em Nova Delhi, que no pude ir, mandei um
trabalho sobre braille, sua produo e distribuio. Nessa poca
eu era Presidente do Comit Interamericano
do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos. O nome completo do
trabalho foi "Braille, seu uso, produo e distribuio". Lembro-
me que li muito, mandei vir material dos EUA, de alguns pases da
Europa e foi um trabalho que me custou muitas horas de estudo, mas
me deu muita satisfao t-lo completado.

Em 1969, apresentei num Congresso da APAE um trabalho sobre a
criana cega com deficincias adicionais. Foram anos bem
produtivos na elaborao de documentos. Apresentei
trabalhos e coordenei simpsios e grupos de trabalho relacionados
com a educao de deficientes visuais no Brasil. Tenho uma coleo
razovel desses trabalhos. Foi
tambm em 1969, em comemorao ao aniversrio da morte de Olavo
Bilac, que recebi do governo de Belm do Par a medalha Olavo
Bilac. Foi uma grande deferncia,
eu havia trabalhado bastante com o governo do Par, na Secretaria
da Educao, na preparao de professores especializados, na
reformulao dos servios que o governo
mantinha, assim como com as organizaes particulares que se
dedicavam ao atendimento de crianas e de adultos cegos.

Foi com imensa alegria que em 1969 participei do XV Congresso de
Oftalmologia, realizado em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, onde
apresentei um trabalho sobre a
situao da educao de cegos no Brasil. Este congresso prestou
homenagem a um oftalmologista que me tratou quando eu perdi a
viso e que procurou por todas as formas
recuper-la, o Prof. Ivo Corra Mayer. O Prof. Ivo j estava muito
adoentado nesta poca e veio a falecer algum tempo depois. Foi uma
grande honra para mim participar
desse congresso apresentando um trabalho e sobretudo homenagear
algum por quem eu tinha uma profunda admirao e respeito.

Quando eu tinha de preparar os trabalhos, precisava consultar
muito material. Essa era uma das grandes dificuldades na ocasio.
Posteriormente, nas dcadas de
1970 e de 1980, elaborei tambm trabalhos, fiz muitas
conferncias, falei muito em aberturas de congressos, porque
presidindo comisses, reunies, eu sempre tinha
de fazer a abertura dos mesmos. Fazia a apreciao sobre o
assunto, procurando estimular os participantes para que
trabalhassem com entusiasmo.

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Perteno  Associao Internacional de Educadores de Jovens Cegos
e fiz parte da Comisso Executiva durante muitos anos. Participei
de muitos congressos, coordenei
grupos de discusso. Em 1968 foi criada a Associao Brasileira de
Educadores de Deficientes Visuais (ABDEV)  semelhana da
Associao Internacional de Educadores de Jovens Cegos. Foi um
trabalho intenso que absorveu o grupo de professores identificados
com essa idia. Presidi todas as reunies.

Para os meus trabalhos, as muitas secretrias que tive - muitas
mesmo: Diva Fraga, Dlia, uma portuguesa que falava muito bem
ingls e francs e gostava de filosofia e de literatura; Roxana,
todas elas procuraram me ajudar muito nessa
poca. Contei sempre com a colaborao constante de professoras
especializadas como Teresinha, Olenka, Jurema, Ana Amlia, que
entre outras, ajudaram na seleo
e leitura de material. De fato, funcionrios de todos os escales
participaram de meus trabalhos e imagine hoje quanto a eterna
Helena Yamaoka teve que lutar com
o teclado da mquina de datilografar para cumprir os prazos que eu
estabelecia. No posso me esquecer das inmeras voluntrias.
Sempre havia um grupo de voluntrias para ler, um grupo que lia em
ingls, outras em francs, outras em portugus.

Nos congressos, para a composio das mesas, muitas vezes eu tinha
de contar com a minha memria e com o auxlio que essas pessoas me
davam. Progredi nesse aspecto
quando Maria Cristina Godoy Felipe passou a ser o meu "ponto".
Essa pedagoga comeou a trabalhar na FLCB com 16 anos de idade
permanecendo at hoje. Algumas vezes
eu cometi enganos, mas no foram to srios assim. Quando percebia
o engano, eu mesma corrigia e fazia "blague" sobre os meus erros.
Nunca tive medo de reconhecer
meus erros, nem em pblico nem particularmente, Deus permitiu que
eu tivesse a alma limpa nesse sentido. A verdade  que todos ns
tendemos a diminuir os prprios
erros e enfatizar os erros dos outros;  uma realidade que ningum
pode negar, e eu tambm no fugi a essa realidade, sempre procurei
algumas justificativas. Mas, apesar disso, reconheo e volto
atrs.

CONSELHO MUNDIAL PARA O BEM-ESTAR DOS CEGOS

Em 1967 a reunio da Comisso Executiva do Conselho Mundial para o
Bem-Estar dos Cegos foi na Iugoslvia. Essa foi a primeira vez que
entramos em um pas da Cortina
de Ferro, comunista. Gostei muito de Belgrado. Tudo era menos

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complicado do que se falava naquela poca sobre os problemas para
entrar no pas, inclusive sobre as declaraes que deviam ser
feitas na alfndega. Fomos recebidos
por altas autoridades que cuidavam da educao de cegos. Muitos
cegos eram veteranos de guerra, alguns at companheiros do
Marechal Tito, presidente da Iugoslvia naquela poca.

Entre as visitas que fizemos, muito me impressionou o museu dos
presentes que o Marechal Tito recebeu de todos os pases que
visitou. Esse museu era enorme e contava
toda a histria da revoluo, e sua participao. A Iugoslvia no
me pareceu um pas fechado, como eram a Rssia e a prpria
Alemanha Comunista naquela poca.
Eric Boulter foi um dos lderes que procurou obter a filiao dos
pases da Cortina de Ferro ao Conselho Mundial para o Bem-Estar
dos Cegos. Tornou-se grande amigo
do Presidente da Associao Iugoslava para Cegos. Eric Boulter deu
um grande impulso para que todo o Leste Europeu participasse do
Conselho, e por essa razo tivemos essa reunio na Iugoslvia.

Na qualidade de Vice-Presidente do Conselho Mundial, muitas vezes
nas recepes eu tinha de substituir ou ficar ao lado do
Presidente recepcionando os convidados
para coquetis ou jantares. Aprendi j nessa poca que era muito
importante ter um sapato bem confortvel e um salto que no fosse
to alto, Ns ficvamos em fila,
eu com meu marido, o Presidente com sua esposa e assim recebamos
os convidados. Muitas vezes tnhamos terminado a reunio tcnica
uma hora antes, mas na hora da
entrada para as recepes, para os programas sociais,
cumprimentvamos outra vez todas as pessoas. Alm disso, havia as
autoridades que a Diretoria tinha de ir buscar
desde a porta e acompanhar at o lugar na mesa, ou ficar fazendo
sala at o momento do jantar ou durante uma parte do coquetel.

Aprendi muitas regras de protocolo. Os ingleses eram muito
protocolares nesse aspecto e seguiam as regras com muita
seriedade. No Conselho Mundial aprendi no s
essas regras, mas tambm normas parlamentares de discusso durante
as reunies. Aprendi tambm como atuar politicamente para obter os
resultados desejados sem provocar
discusses desnecessrias. Muito assunto era discutido, muito
lobby era feito na hora do caf da manh, nos intervalos do caf
depois que terminavam as sesses.
Assim fui me ambientando em toda essa poltica internacional, o
que me permitiu agir com serenidade e diplomacia, pois lidvamos
com representantes de diferentes
pases, diversas lnguas, costumes e culturas, sempre sem
interferir na poltica de cada pas, fosse ela qual fosse.

O Conselho Mundial foi uma grande escola, que me permitiu realizar
longo trabalho de nvel internacional e que mais tarde me abriu
muitos caminhos para o desenvolvimento, da Fundao. Ainda nos
anos 60, Dr. Irwing Miller veio ao Brasil como Consultor de
Reabilitao e colaborou na instalao do Centro de

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Reabilitao da FLCB. Dr. Miller veio graas  colaborao da
American Foundation For Overseas Blind. Foi selecionado pela
prpria American Foundation e era professor
catedrtico de Servio Social na New York School of Social Work,
da qual depois foi reitor. Era uma personalidade muito
interessante, estava perdendo a viso e
depois, que eu saiba, perdeu tambm a audio. Sua orientao em
relao ao centro de reabilitao foi sbia. Aconselhou-nos a
organizar os servios de acordo com
as condies do Brasil. Se no podamos ter um centro residencial,
no importava. Ns estvamos muito preocupados por no poder
instalar o Centro nos moldes dos EUA. Dr. Miller nos fez pr os
ps no cho e aceitar aquilo que podamos realizar.

Com a colaborao do Dr. Miller procuramos tambm, mais uma vez,
realizar um trabalho para reorganizar o Instituto Benjamin
Constant. Uma escola de grande porte,
que precisava modernizar-se e preencher algumas lacunas que
existiam no campo da educao especial. Fizemos novos projetos de
alcance nacional para o Instituto Benjamin Constant.

As oportunidades de trazer para o Brasil especialistas como o Dr.
Miller, Mr. Asenjo, Mr. Suterko e outros foram excelentes, para a
atualizao dos profissionais em exerccio, para reciclagem de um
grupo grande que j trabalhava conosco.

Muitas pessoas colaboraram grandemente com a Fundao, no s na
Diretoria mas tambm nos Conselhos. Tivemos uma tristeza muito
grande quando uma das nossas Diretoras, Helena Vasone,
repentinamente faleceu. Sua contribuio foi inestimvel.

Nessa mesma poca um dos amigos de meu irmo, Paulo Mariano
Ferraz, fazia parte do Conselho Consultivo. Paulo nos prestou uma
excelente colaborao. Em uma ocasio,
no governo do Dr. Roberto Abreu Sodr, em pleno regime militar, um
general que era membro do SNI, altamente colocado, veio a So
Paulo para uma visita, O general,
ao se dirigir para a sala do Governador, teve a oportunidade de
fazer um comentrio sobre as organizaes sociais de So Paulo com
um funcionrio do Palcio. Esse
funcionrio conhecia a FLCB e j havia causado problemas  nossa
organizao. Disse ao general que a Fundao
para o Livro do Cego no Brasil era muito mal dirigida e fez srias
e infundadas crticas, pondo em dvida a honestidade da Presidente
e dos membros da Diretoria. Logo depois esse general saiu com
Paulo Mariano Ferraz para visitas e
pediu informaes a respeito da Fundao. Paulo deu as informaes
e disse: "Eu tenho muita satisfao e muita honra de ser
Conselheiro dessa
organizao". O general disse-lhe que era suficiente. Paulo
perguntou qual era a razo da indagao e ele contou o fato.

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Esse acontecimento me foi relatado depois, no pelo prprio Paulo,
mas por outras pessoas do Palcio dos Bandeirantes. Nesse mundo
uns constrem e outros procuram destruir.

Vale a pena ter colaboradores dignos, respeitveis e que acreditam
em nosso trabalho. Apesar de todos os esforos que fazemos num
trabalho social, e todas as Diretorias
o fazem, em muitas circunstncias somos vtimas da maldade e da
inveja. Custei a acreditar que esses dois sentimentos existiam,
mas os encontrei vrias vezes na
vida. Isto, porm, nunca abalou a minha crena no bem, na verdade,
na bondade e na solidariedade, que sempre prevalecem.

CRIANAS-ADOLESCENTES

Quando algum fato importante no trabalho exigia a minha presena,
paralelamente, algo se passava em minha casa necessitando minha
ateno e providncias especiais
tambm. Em 1962, a Fundao transcreveu o primeiro dicionrio da
lngua portuguesa: Pequeno Dicionrio Brasileiro da Lngua
Portuguesa, de Hildebrando de Lima e Gustavo
Barroso. Foi marcada no MEC, no Rio de Janeiro, uma reunio para o
lanamento desse dicionrio. Estvamos no auge da preparao para
o grande evento quando Alexandre
fica com caxumba e logo depois Cristiano. Foi uma luta para manter
esses dois meninos na cama.

A produo do primeiro dicionrio em braille no Brasil era fruto
de um rduo trabalho do qual, posso confessar, senti um pouco de
merecido orgulho. Eu precisava,
porm, baixar  terra e a caxumba encarregou-se disso. Mais uma
vez, na hora de uma vitria, de alguma realizao ou de ttulo
recebido, sempre havia alguma coisa
dentro da minha casa que me fazia lembrar que acima de tudo eu era
me de famlia, esposa, e que a minha principal responsabilidade
a estava.

Uma vez me perguntaram o que era mais difcil: educar filhos ou
dirigir uma Fundao? Eu preciso dizer que a Fundao sempre teve
problemas muito grandes, financeiros,
tcnicos, administrativos. Entretanto, numa Fundao como a FLCB,
administramos um patrimnio que no nos pertence. Pertence 
comunidade. Com relao, por exemplo,
a manter em dia o pagamento do quadro de funcionrios, quando a
organizao no tem fins lucrativos, depende de contratos com o
governo e de verbas que nem sempre
so liberadas a tempo, sofremos constante preocupao e ansiedade.
Modernamente, a tendncia de adminis-

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trao dessas organizaes volta-se para a implementao de
servios e atividades para a ampliao da receita financeira, com
o objetivo de garantir auto-suficincia.

Mas, sinceramente, com todo o meu corao criar filhos  mais
difcil. Ambas as tarefas, tanto criar filhos como dirigir uma
obra social, pequena ou grande, so muito compensadoras, mas h as
dificuldades. Pelo menos eu penso
assim. Por que ser que as nossas aspiraes em relao aos nossos
filhos so to a grandes? Aprendi muito cedo que  preciso aceitar
a auto realizao dos filhos
conforme suas vocaes, interesses e desejos, muito embora essas
realizaes nem sempre correspondam s expectativas dos pais.

Dr. Joo Meira, marido de minha madrinha, me ensinou o que mais
tarde eu ouvi de um grande pregador num sermo: "Ns no podemos
ser triunfalistas nas nossas expectativas
de educao". Acho isso maravilhoso como lio para os pais.
Ficamos aturdidos quando os nossos filhos atuam bem diferente do
que espervamos. Algumas vezes pensamos:
"Eu deveria ter ensinado melhor".

Isso faz com que a nossa conduta, daquele momento em diante, se
torne mais adequada s necessidades de nossos filhos. Dr. Miller
tambm dizia que ns queremos que
eles sejam o mximo e que s atinjam aquilo que gostaramos que
eles atingissem. Nossos pais fizeram o mesmo conosco. Esses dois
exemplos me calaram muito na vida,
analisando tudo o que se passou com a educao dos meus cinco
filhos e que se reflete hoje na vida de meus netos.

A adolescncia dos nossos filhos  uma fase que eu diria,
indefinvel, aquele brotinho encantador, que surge e que comea a
crescer, torna-se boto e o jovem cheio
de sonhos, com indecises e necessidades de auto-afirmao. Se nos
lembrssemos dessa imagem entre o pequeno botozinho e a quase
flor, talvez no nos preocupssemos
tanto com os problemas da adolescncia. Quem cuida da flor sabe
que esta  uma fase que precisa de muita pacincia, de muitos
cuidados, e assim  que acontece com
os nossos filhos. Quando temos vrios  preciso ter um colosso de
pacincia e um sem nmero de cuidados, porque muitos ao mesmo
tempo tm as mesmas manifestaes,
porm cada um a seu modo, de acordo com as suas caractersticas.
Os impulsos do crescimento so os mesmos, a nsia do crescimento 
a mesma, cada indivduo manifesta
de uma forma, mas ns, pais, sempre temos de amparar, guiar, sem
forar ou cercear. Tarefa difcil, no?

Aconteceu com os nossos antepassados, aconteceu com os nossos
filhos e est acontecendo com os nossos netos.

pag:121

Essa fase do crescimento, por ser complexa,  mais encantadora.
Mas s depois que ela passou eu pude pensar assim. Na poca no
tive tempo para refletir dessa maneira.

Todos os nossos filhos conversavam conosco sobre suas dvidas,
Alexandre muitas vezes me procurava, batia no meu quarto  noite e
dizia: "Mame vem c, vamos conversar? Eu estou lendo um livro que
me causou dvida, estou preocupado com o que estou pensando
Naquele tempo eu ficava preocupada, mas hoje
acho que foi bom poder conversar com eles nessas horas. Acredito
que pelo menos esses problemas, quando surgem na vida das
crianas, dos adolescentes, exigem que
os pais estejam perto para atend-los.

Depois da morte de mame, comeamos a pensar em mudar de casa. Se
tentssemos comprar a casa de papai, que era de um andar s, e
aument-la, causaria uma complicao
com meu irmo que tambm tinha direito a uma parte da casa. Ento
resolvemos procurar uma casa maior, que no fosse muito longe dos
bairros a que estvamos acostumados.
Alex e eu, mesmo quando criana moramos na Zona Sul, nas
imediaes da Augusta, perto da Av. Brasil e da Iguatemi. Variamos
entre Jardim Paulista e Jardim Europa.

Enquanto Alexandre, atravs de uma "Fellowship", foi para os
Estados Unidos no fim de 1968, continuamos a procurar uma nova
casa. Alex torceu o p e ficou engessado,
ento ele sentava no cho, espalhava o jornal e escolhia as casas
que pareciam melhores. Pela descrio do anncio ns dizamos:
"Peru num pires". "Soleiras de mrmore
no atraem muito, porque j sabemos que tem em quase todas as
casas. Isto  um pouco de enfeite de anncio".

Um dia encontramos anncio de uma casa no Alto de Pinheiros.
Dollie, minha cunhada, estava conosco e se prontificou a ver a
casa comigo e com o rapaz da imobiliria.
Fiquei radiante. A casa tinha ainda lage onde poderamos fazer uma
extenso e construir um apartamento timo para papai. Disse para o
Alex: "Achei a casa que eu gostaria de ter".

Enfim mudamos. No princpio no foi muito fcil, tivemos de fazer
alteraes. Havia poucas casas e vrias construes no local,
muitos operrios, brigas dos guardas
das obras. Levamos alguns sustos, mas como a casa tinha telefone
eu me animei. Mudamos no dia 14 de fevereiro de 1969.

Ao trmino do primeiro grau de meus filhos mais velhos surgiu o
problema da escolha do curso de segundo grau. Cristiano escolheu o
Colgio Bandeirantes e Alexandre
foi para o Colgio Santa Cruz. Alexandre estava fazendo o segundo
ano colegial e entrosou-se muito bem no colgio. Ele sempre gostou
muito de arte, ilustrao, alm
de leitura, sempre foi dado  abstrao. Gostou muito do colgio e
a Orientadora ficou muito satisfeita com ele.

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Kiko nesse tempo estava numa escola onde havia se dado muito bem,
havia muito trabalho prtico - coisas que ele gostava - ia de
nibus da Estrada da Boiada at a
av. Brigadeiro Luis Antnio. Ficou bastante tempo nessa escola
fazendo o caminho de ida e volta, de nibus. As meninas estudavam
no Colgio Nossa Senhora do Morumbi.

Durante certo tempo fomos scios de dois restaurantes. No incio
foi uma lanchonete e depois dois restaurantes, um deles O Forno,
da rua Joaquim Floriano. A montagem
do Forno foi muito trabalhosa. Tanto os nossos scios como ns
tivemos muito interesse, lutamos com muita alegria. Lembro-me de
uma pizza que se via muito na Europa,
com champignon, e Alex batizou-a de "pizza de nvel
universitrio". Tinha um forno bem no meio do salo, onde eram
feitas as pizzas  vista de todos os fregueses.
O Forno posteriormente foi vendido e existe at hoje. Resolvemos
depois construir um outro restaurante que se chamou O Fogo. Foi
uma poca muito boa. Mais tarde vendemos tambm O Fogo.

Nunca dependi financeiramente do meu trabalho, mas sempre
trabalhei. Como j relatei, era professora, responsvel pelo Curso
de Especializao em Ensino de Cegos
do Instituto de Educao Caetano de Campos e dirigi a Campanha
Nacional de Educao de Cegos do MEC. De acordo com o estatuto, o
presidente, bem como todos os
diretores da Fundao, so voluntrios.

Consegui conciliar os meus horrios na famlia e trabalhar naquilo
que sempre gostei - a educao. Mas naquela poca no era fcil
ter cinco filhos em colgio particular. Hoje
todos os pais se queixam do preo das escolas, ns tambm o
fazamos. Sempre tive muita pena dos professores, porque eu era
professora e sabia que infelizmente a remunerao no condizia com
a tarefa.

Ns estvamos tentando nos acostumar ao novo bairro, procurando os
recursos nele existentes.

Comearam os primeiros anos de juventude de meus filhos, todos os
namoricos. Uma vez Dorininha teve um problema muito srio de
sade, j era moa. Alex e eu nos
preparvamos para ir  Austrlia. O mdico achou que Dorininha
estava com princpio de hemorragia cerebral, era uma dor violenta
no alto da cabea. Depois de feitos
todos os exames, verificou-se que o caso no era to grave. Apesar
das preocupaes houve algumas situaes que se tornaram at
cmicas, como no caso do exame de
liquor solicitado pelo neurologista. As 4:30 da manh chegou um
mdico muito gentil; depois ns soubemos que tinha sido
seminarista, tinha um ar muito bondoso. Ao
entrar no meu quarto ele disse:
"Agora mame vai sentar l fora e papai vai ajudar a segurar a
moa aqui, embora no v doer" Eu disse: "Agora papai vai ficar
sentado l fora e quem vai

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ajudar a segurar a moa  mame, porque papai no tem coragem de
ver um filho tomar injeo". Alex nunca pde ver a aplicao de
uma injeo num filho, ou - em mim,
ou nos netos. Ele no agenta, tem pnico de injeo. Depois
contei para Dorininha que nessa noite em que ela estava com uma
suspeita de hemorragia cerebral eu havia
passado a noite inteira rezando a orao que minha madrinha me
ensinou. Rezei o "Lembrai-vos" de So Bernardo a Nossa Senhora.
Rezei tantos "Lembrai-vos" que perdi
a conta, passei a noite com um tero na mo e rezando. Eu no
ficava nervosa, no demonstrava aflio mas rezava o tempo todo.

Quando foi concludo o diagnstico final, Dorininha no tinha
hemorragia cerebral, no tinha meningite, era apenas uma dor
oriunda de um problema muscular que partiu da coluna. Desde ento,
os filhos passaram a me pedir, sempre que a coisa est muito
difcil, para eu rezar o "Lembrai-vos".

MINHAS AMIGAS DO ALTO DE PINHEIROS

Quando mudei para o Alto de Pinheiros, para a rua Joo Batista
Cardoso, entre os amigos de Alexandre e Cristiano inclusive
Neldson e Ruy Reis, hoje dentista da famlia,
estava Ricardo Carvalho. Ricardo foi algum que me trouxe uma
oportunidade nica - conhecer uma grande amiga, Glauce, sua me.
Logo que nos conhecemos tenho a impresso
que houve uma simpatia mtua e Glauce se tornou uma amiga de todas
as horas, que procurou me ajudar de todas as formas possveis,
quer na decorao de minha casa,
quer me ajudando a escolher modelos de roupas.

Quando eu precisava de uma roupa, ligava: "Glauce, eu preciso de
um vestido". No telefone mesmo ela criava dois ou trs modelos.
Dizia "Para que?", mas os meus vestidos
nunca so s "para que", eles tm de ser "para tudo', Minha roupa
 clssica, dentro da moda. Glauce tem uma imaginao frtil, era
s estimular que ela j imaginava e at desenhava os modelos.

Mais tarde, Henriette Mansour, estilista e dona de confeco, que
conheci como voluntria da Fundao, tambm adivinha minhas
preferncias e o tipo de roupa que eu necessito para determinadas
ocasies

pag:124

A casa de Eva Ceneviva, a minha vizinha do lado, foi a primeira a
ser construda depois que nos mudamos. Lembro-me de uma celebrao
proposta por Eva no dia em que
a minha lareira ficou pronta. Esfriou bastante e Eva veio estrear
a lareira: trouxe uma garrafa de Drambuie e ficamos com a lareira
acesa tomando licor. Foi o batizado
da minha lareira. Isso foi inventado por ela e eu nunca me
esqueci. Maria Jos Scarpa, outra vizinha: a casa da Eva era a
primeira e depois a da Maria Jos. Maria
Jos chegou a trabalhar como minha secretria durante dois anos na
preparao da V Assemblia Geral do Conselho Mundial para o Bem-
Estar dos Cegos que realizamos em So Paulo, em 1974.

A filha de Maria Jos, Patrcia,  amiga das meninas. Praticamente
cresceram juntas, porque Patrcia e Mnica, outra vizinha, eram
pequenas ainda, meninotas, quando nos mudamos.

Minha casa estava sempre cheia de amigos e amigas dos meninos e
meninas e o indefectvel aparelho de som sempre ligado no mximo.
De qualquer maneira, essa juventude
era sempre bem recebida e muitas dessas amizades subsistem.

SANAE

Sanae Nagahashi  uma amiga toda especial com quem me encontro s
quartas feiras, 6:50 da manh.  um pessoa de horrio impecvel.
Conheci Sanae quando Denise
nasceu. Sua irm trabalhava com um professor da Escola Paulista de
Medicina que me atendeu para aulas de ginstica e relaxamento.
Nessa poca eu estava em meio a
uma crise de stress por excesso de trabalho. No podendo continuar
a me dar aulas, recomendou-me Sanae, que continuou o trabalho
iniciado, incluindo "escovao".

"Escovao"  o ato de escovar a pele no sentido adequado, da
ponta do p at o queixo, braos, pernas, o corpo inteiro. Passa-
se depois um creme leve. Fiz e fao escovao com Sanae desde
1956,  um excelente tratamento para a circulao.

Conversar com Sanae  uma delcia. Ela  uma pessoa
excepcionalmente sbia. Tem o dom de fazer com que a gente relaxe
sem nenhum exerccio, a no ser a escovao.

pag:125

Segundo Alex escovao  tratamento para plo de cavalo. No faz
mal que ele pense assim. Eu j recomendei Sanae a muitas pessoas
em So Paulo. Ela  uma mulher
extraordinria, que criou dois filhos: uma filha neurologista -
que inclusive fez especializao no Japo, e um filho que tem uma
deficincia visual grave e  hoje
o engenheiro eletrnico da Fundao, mas concluiu tambm o curso
de Administrao pelo Mackenzie.

Neste momento em que estou procurando reunir todas estas
recordaes, encontrei muito carinho e disponibilidade de pessoas
como Teresinha Fleury de Oliveira Rossi
e Olenka Reda Macedo Pio. Teresinha podia ficar tranqilamente em
casa descansando, pois est aposentada, mas resolveu dedicar-se 
reviso e s pesquisas do meu
livro. Olenka, minha assessora, est para se aposentar, ou j
poderia t-lo feito, mas continuou firme no trabalho relativo a
este livro me atendendo de todas as
maneiras possveis, para que eu pudesse ter mais horas para
trabalhar no registro das minhas recordaes.

VOLUNTRIOS E COLABORADORES

Na dcada de 70, Mary de Almeida Meirelles, que eu conhecia h
tantos anos, voltou a trabalhar mais de perto na Fundao. Seus
filhos tambm j estavam crescidos,
a vida j estava tomando outros rumos e ela permanece at hoje
conosco. Tarcylia descobriu uma outra voluntria - Maria Alice
Sampaio Rezende - que alm de prestar
servios voluntrios, assumiu um cargo na diretoria, segundo ela,
muito a contragosto. Maria Alice sempre me disse que preferia
trabalhar apenas como voluntria.
 uma pessoa muito alegre, muito cheia de vida e dentro de suas
possibilidades contribuiu muito, alm de ter me acompanhado em
muitas audincias, visitas...

Mame morreu, minhas filhas estudaram e mais tarde comearam a
trabalhar. Minha irm tambm ficou doente e veio a falecer, eu no
tinha muita companhia, porque
s tive uma irm, Amlia. Maria Alice realmente me acompanhou
muitas vezes, assim como a minha prima Olga. No s as diretoras
mas tambm as minhas secretrias
e as professoras Jurema, Teresinha e Regina. Todas que trabalharam
comigo sempre procuraram me auxiliar para que eu tivesse mais
tempo para dedicar  Fundao,
alm da minha famlia. Sou imensamente grata a todas elas.

pag:126

Tivemos tambm alm dos Conselheiros Fiscais a que eu j me
referi, outros membros do Conselho Consultivo, como Horcio
Coimbra, meu amigo de infncia, e Max Feffer,
que foi colega do Alex. Parece que Deus colocou Max Feffer na
Secretaria da Indstria, Comrcio, Cincia e Tecnologia numa poca
em que a Fundao estava iniciando
um convnio com a Secretaria e, graas ao seu interesse pela
cultura e pelo desenvolvimento cientfico, conseguiu recursos para
a Fundao e para que eu pudesse
participar de congressos tcnicos e reunies de professores
especialistas. O meu grande amigo Horcio Coimbra, irmo de
Celina, foi tambm muito atuante. Tinha, atravs
dele, toda a colaborao possvel, desde mala direta para Braslia
at contatos com o Itamaraty e vrios outros ministrios.

Assinamos contratos importantes com a Secretaria do Planejamento
quando o Ministro Delfim Neto ocupava esta pasta. Mais tarde, como
Embaixador em Paris, deu extraordinrio apoio  minha participao
em programas internacionais.

Horcio, pessoalmente, colaborou muito com a Fundao, sempre
fazendo doaes e dando  Fundao uma srie de servios que
facilitava muito a minha participao no plano internacional,
porque nos anos 60, 70 e mesmo 80,
foram praticamente 30 anos de intensiva participao minha, tanto
em organizaes brasileiras, como em organizaes latino-
americanas, internacionais e agncias especializadas da ONU.

Nessa poca, no governo de Abreu Sodr no estado de So Paulo, a
primeira dama Maria do Carmo de Abreu Sodr iniciou o Servio
Social do Palcio. Foi a primeira
vez que esse servio, iniciado com profissionais, elaborou
projetos para atendimento s pessoas carentes. O trabalho do
Servio Social do Palcio estendeu-se s
pessoas deficientes visuais. Mais tarde, outras primeiras- damas
ampliaram o trabalho desse setor. Lila Byington Egydio Martins
destacou-se muito, especialmente
por um movimento que realizou, reunindo todas as principais
organizaes sociais de So Paulo num Seminrio de Estudos.

A Fundao foi solicitada vrias vezes para colaborar nos
programas. Um dia recebi o chamado de Maria Sodr para acompanhar
um ilustre visitante
dos EUA, Dr. Edward Waterbouse, diretor do Instituto Perkins.

Eu conhecia Dr. Waterhouse de longa data e foi um prazer
acompanh-lo nas visitas  instituio de cego-surdos. Foi com
Maria Sodr que se criou a primeira classe
para as crianas cego-surdas no Instituto Padre Chico.
Posteriormente criou-se em So Caetano a escola para educao de
cego-surdos que hoje tem o nome de Anne Sullivan. Uma de minhas
ex-alunas e colaboradoras, Nice Tonhosi Saraiva, especializou-se
nos EUA em educao de cego-surdos, com bolsa obtida pelos
esforos da Fundao. Nice foi a grande e dedicada incentivadora
da Escola Anne Sullivan de So Caetano.

pag:127

POLTICAS E RELACIONAMENTOS INTERNACIONAIS

Mais ou menos em 1970 eu comecei a participar das atividades da
organizao Companheiros das Amricas. Illinnois, um estado
americano era estado-irmo de um estado brasileiro - So Paulo.
Foi um trabalho muito interessante porque o grupo discutiu
reabilitao. Fizemos vrias propostas, conseguimos bolsas de
estudos para brasileiros nos EUA, recebemos colaborao, como a
vinda de tcnicos americanos para fazer palestras. Tudo
patrocinado pelos Companheiros das Amricas. At hoje sou ligada a
essa organizao, embora nem sempre possa participar
integralmente. Nos anos 60 e 70, eu pude realizar um trabalho mais
intensivo.

O Comit Interamericano do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos
Cegos, passou por transformaes e mudou trs vezes de nome:
Comit Panamericano, Comit Interamericano,
abrangendo os pases da Amrica Latina e Canad. A partir de 1974
passou a denominar-se Comit Latino-Americano, abrangendo apenas
os pases da Amrica Latina, por
deciso expressa dos representantes de pases da Amrica Latina.
Nesse comit ocupei vrios cargos, inclusive o de presidente.

Outro trabalho realizado nesse perodo foi com a Associao
libero. Americana de Imprensas Braille. Fizemos vrias reunies
aqui em So Paulo e na Colmbia. Em Bogot conheci o Instituto
Nacional de Cegos da Colmbia, uma
excelente escola, ento dirigida pelo psiclogo Dr. Hernando
Pradilia Cobos. O Instituto possua tambm uma imprensa braille de
pequeno porte.

Na viagem a Bogot em 1971 com Teresinha, Jurema e Ana Amlia,
fomos primeiro ao Peru. Visitamos as organizaes peruanas. No
Centro de Reabilitao de Lima conhecemos
seu diretor, o mdico Dr. Calderon Vafle, que pertencia a uma
famlia tradicional e sua senhora, uma habilidosa parteira. Como
seu hspedes pudemos ver os efeitos
do grande terremoto que abalou toda cidade de Lima.

Em 1971, na Colmbia, conseguimos finalmente constituir
oficialmente Associao de Editoras de Ibero-Amrica e eu fui
eleita presidente, e reeleita eu 1973.

No incio tivemos muito apoio financeiro da American Foundation
for Overseas Blind, apoio que depois deixou de existir. Por essa
razo, s o Brasil a Colmbia tinham condies de fazer reunies.
Este trabalho ficou suspenso

pag:128

mas agora ter continuidade com a criao da nova Comisso Ibero-
Americana de Braille.

No incio, os tcnicos da imprensa braille da Organizao Nacional
de Cegos da Espanha tambm deram uma excelente contribuio. Ns
estvamos preparando o catlogo central de obras em braille, em
lngua portuguesa e espanhola. Lamentavelmente vimos o nosso
trabalho cerceado por falta de recursos.
Mais tarde, estive outra vez no Peru, onde participei de uma
reunio de preveno da cegueira da Organizao Panamericana de
Sade. Ficamos trs dias trabalhando;
conheci vrias pessoas, entre elas um senador cego, que era
responsvel pelo Centro de Reabilitao, um personagem muito
interessante.

Em 1972, fui pela primeira vez a uma reunio onde se discutiu o
problema dos cegos com formao universitria, na Repblica
Democrtica, Alemanha Oriental. Tive uma experincia muito
chocante nessa viagem. Eu havia conhecido
os professores especializados das duas Alemanhas em Congressos
Europeus. Trocamos correspondncia e eles se interessaram pelo
Brasil, sua histria e cultura.
amos a essas reunies com todas as garantias que facilitassem
nossa entrada nos pases da cortina de ferro. Eu e Alex fomos com
passaportes de servio do Ministrio das Relaes Exteriores.
Nessas minhas participaes recebi todo o apoio e ajuda do
Itamaraty, junto aos embaixadores brasileiros nos respectivos
pases. Levamos uma revista lindssima colorida, uma edio
especial, e livros em ingls sobre o Brasil. Tencionvamos d-los
aos professores alemes. Quando cruzamos
o muro de Berlim, no "Check Point Charly", para passar  Alemanha
Oriental, apesar de estarmos com o visto concedido pela Repblica
Democrtica Alem, tivemos de esperar uma poro de tempo.
Perguntaram o que trazamos na bagagem. Mostramos nossas malas,
falamos que trazamos livros sobre o Brasil para professores.
Levvamos trabalhos de artesanato em pedras brasileiras, que os
estrangeiros gostavam, eram peas pequenas. Sempre fiz propaganda
do Brasil em todas as viagens que realizei.
Levvamos tambm caf e pinga, que eles adoravam.

Naquele dia confiscaram todos os meus livros sobre o Brasil e as
minhas lindas revistas. No consegui dar presentes aos nossos
colegas alemes. Porm, fomos muito
bem recebidos pelos organizadores do Congresso, muito bem
planejado. Foram apresentados documentos de valor, por
profissionais competentes. Helmut Pilash era um
grande lder. Era cego de guerra e membro do partido comunista.

Ficamos hospedados num hotel excelente, tivemos banquetes muito
bem servidos, vinhos de qualidade e pratos finos; garons de
casaca para nos servir.

pag:129

Isso em Berlim Oriental... Por outro lado, quando andvamos pela
rua vamos filas enormes de pessoas com carto para comprar
comida. Misria no  s brasileira, no.

Nossa sada de Berlim Oriental foi impressionante. Realmente
Berlim Oriental assustava um pouco. Tnhamos sido prevenidos sobre
as dificuldades na polcia e na alfndega.
Tudo era muito examinado. Fomos para o avio da Aeroflot que nos
levaria da Alemanha Oriental para Moscou. Passamos por uma fileira
de guardas armados de metralhadoras.
Era traumtico e assustador, parecia que estvamos num campo de
batalha, numa guerra. Entramos no avio da Aeroflot que parecia
ser normal, mas o cho sem tapete,
poltronas normais como qualquer outro avio, mas sem nenhum
requinte, sem nenhum tipo de conforto extra, nenhuma decorao.
Seguimos para Moscou para participar
da Comisso Executiva do Conselho Mundial. Eu era membro da
Comisso Executiva e presidente do Comit Interamericano. Essa
reunio da Comisso Executiva em 1972
foi a preparatria para o Congresso e Assemblia Geral de 1974.

Quando se viajava pela primeira vez para a Unio Sovitica, ou
para os pases da cortina de ferro, tudo parecia estranho.
Chegamos a Moscou e passamos novamente por todos os complicados
trmites de alfndega e polcia.

Para apresentar o passaporte na entrada havia no guich uma
cancela que s era liberada depois de toda a documentao ser
visada. Ns estvamos com outras pessoas
que tinham estado em Berlim Oriental. No aeroporto havia
representantes da Associao de Cegos da Unio Sovitica (All
Russia Association for the Blind). Ns j
conhecamos o presidente, Bons Zimin e as suas intrpretes, Olga
que falava francs e ingls, e Lucy que falava mais ingls.  Havia
outra intrprete em Moscou,
Marina, que conhecemos nessa ocasio. Uma delas foi nos buscar no
aeroporto, liberou tudo com facilidade. Eu declarei pulseira de
ouro, corrente, anel; Alex tirou
todo o dinheiro do bolso, mostrou tudo com naturalidade. Sempre 
melhor se declarar tudo. A entrada foi tima, a sada tambm, no
houve problemas.

Fomos encaminhados a um hotel muito interessante, parecia um bolo
de noiva, cheio de torres rebuscadas, igual a muitos monumentos e
prdios que h na Russia. O nome
era Hotel Ucrnia, e era conhecido realmente por bolo de noiva.
Tnhamos um quarto confortvel s que no banheiro, em vez de
sabonete, havia sabo de coco.

A reunio da Comisso Executiva foi muito interessante. Tivemos
que enfrentar um problema: o representante da Federao
Internacional de Cegos, uma outra organizao que funcionava
paralela ao Conselho Mundial para

pag:130

o Bem-Estar dos Cegos, estava tentando fazer um Congresso
conjunto. A Comisso Executiva do Mundial no se mostrou muito
acessvel a essa idia, mas os membros
da Associao de Cegos da Unio Sovitica e alguns outros estavam
inclinados a que se fizesse um Congresso conjunto. Havia
sido discutido anteriormente, sem se
chegar propriamente a concluso, sobre a possibilidade de que pelo
menos as conferncias e determinadas reunies das Comisses
Executivas fossem realizadas concomitantemente,
porm, muitas pessoas que eram membros e representavam pases no
Conselho Mundial tambm faziam parte da Federao Internacional
de Cegos. Assim, os congressos s
poderiam ser realizados um em seguida ao outro.

Foi a segunda vez que entrei em contato com o clima poltico
dessas organizaes. A primeira foi em 1964, Jacobus TenBrook
era o presidente da Federao Internacional
de Cegos e participou de um Congresso do WCWB
Conselho Mundial. De certa forma agrediu a poltica do Conselho
Mundial. Eric Boulter, vice-presidente do Conselho Mundial,
era uma pessoa extraordinria, mas ele
e Jacobus TenBrook jamais conseguiram reunir-se para fazer o
trabalho conjunto das duas organizaes. TenBrook era presidente
da Federao Americana de Cegos que
fazia oposio  American Foundation for the Blind, a Fundao
Americana para Cegos. Eu senti bem isso em Nova Torque.

Em Moscou a coisa me pareceu um pouco menos contundente. Alis, em
1964, foi uma luta a aceitao da Repblica Democrtica Alem,
para que Berlim Oriental fizesse parte do Conselho Mundial para o
Bem-Estar dos Cegos. A Alemanha passou a ser representada por duas
delegaes: a delegao da Repblica
Democrtica Alem, que era a Alemanha Oriental e a representao
da Alemanha Ocidental.

Durante a reunio da Comisso Executiva em 1972 em Moscou, o
presidente do Conselho Mundial era Charles Hedkvist, e o
secretrio geral Mrs. Marce Cowburn.

Nas reunies da Comisso do Conselho Mundial ns preparvamos as
Assemblias Gerais que eram realizadas de cinco em cinco
anos, junto com um grande congresso. Eu
havia pedido no Brasil, aos ministros da Educao e das Relaes
Exteriores autorizao para o Conselho Mundial do Bem-Estar
dos Cegos se reunir no Brasil em 1974.
Recebi a aprovao e inclusive, o Ministro das
Relaes Exteriores enviou um telegrama que chegou durante a
reunio em Moscou, atravs da Embaixada Brasileira. Nesse
telegrama o governo brasileiro convidava
oficialmente o Conselho para que a Assemblia Geral e o Congresso
de 1974 fossem realizados no Brasil.

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O presidente Hedkvist era sueco, uma figura extraordinria, um
homem maravilhoso. Ele havia preparado tudo, j havia at
reservado os hotis para que. a Assemblia
de 1974 fosse realizada na Sucia, Estocolmo. J tinha local,
hotis. Prometeu ajuda aos pases em desenvolvimento. Da Amrica
Latina s eu esta presente, no havia
mais representantes na Comisso Executiva. Cheguei a falar com
Izabelita Peron e com o Ministro do Bem-Estar da Argentina,
fiz presso junto aos outros governos
da Amrica Latina, pedi ao Itamaraty o apoio para que eu pudesse
conseguir o maior nmero de pases membros. Se isso no
acontecesse seria muito difcil termos chances
de subir e assumir os postos principais, ou de ter uma Assemblia
Geral na Amrica Latina.

Havia muitos representantes da ndia e da frica que recebiam
recursos da Sucia, da Alemanha e principalmente da Inglaterra.
Eu pedi a palavra, apresentei o telegrama
do governo brasileiro convidando e me lembro at hoje das minhas
palavras: "Eu no posso oferecer ajuda financeira para
os pases em desenvolvimento, porque o meu
pas tambm  um pas em desenvolvimento e no tenho recursos
suficientes. Portanto, s posso oferecer colaborao total
para que a Assemblia Geral se realize em
1974 em So Paulo, Brasil. A nica coisa que, certamente, eu posso
garantir  que todos encontraro no Brasil Samba, Pel
e Caf ". GANHEI! O local foi posto em
votao e o Brasil foi escolhido. Sei que Hedkvist ficou triste,
mas me abraou e felicitou pela maneira como havia
proposto o Brasil, pela maneira como eu havia encaminhado a minha
proposta e conseguido vencer na Comisso Executiva.

Durante essa nossa reunio em Moscou, foi-nos proporcionado grande
nmero de visitas a instituies. Fomos a fbricas onde
os cegos trabalhavam num setor s para cegos.
Tanto a educao quanto a profissionalizao dos cegos era feita
em organizaes s para cegos. Vi, por exemplo, uma fbrica
de botes - os cegos tinham o monoplio; praticamente s os cegos
produziam botes para a Unio Sovitica inteira. Assim eles
estavam resolvendo o problema de emprego para
as pessoas cegas, que era e  um problema muito srio e difcil.

A Ministra de Servio Social nos recebeu e ofereceu um coquetel.
Eu nunca vi tanto caviar. Havia barquetes cheias de caviar
maravilhoso, amndoas deliciosas, vinho da Georgia, um coquetel
super bem servido.

Durante os dias que ficamos em Moscou, ainda tivemos a
oportunidade de visitar outras Repblicas da Unio Sovitica, O
grupo de participantes foi dividido, alguns
foram para a Georgia e o nosso grupo foi para Letnia e Litunia.
Primeiro fomos para Litunia. Os responsveis pelos servios
aguardavam-nos no aeroporto, levavam-nos
para os hotis e depois programavam as visitas.

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Visitamos as escolas, conhecemos vrias pessoas. Eu sempre tinha
de falar alguma coisa. ramos um grupo de vrias pessoas
de diferentes naes. Houve um acontecimento
diferente nessa viagem. Por acaso, estvamos na Litunia no dia do
meu aniversrio, 28 de maio, e nossos anfitries souberam
disso. Ento, cantaram parabns e me
deram um presente, um lindo colar de contas de mbar do Bltico.
Alex completou o presente dando-me um par de brincos e
anel tambm de mbar.

Essa foi a primeira vez que fomos  Unio Sovitica. Tivemos
reunies muito boas. Bons Zimin  um veterano cego de guerra.
Um homem muito conceituado, uma pessoa
muito equilibrada e muito interessado num intercmbio entre as
Associaes de Cegos do mundo inteiro. Proporcionou meios
para conhecermos o maior nmero de organizaes
e contatos com pessoas cegas. Numa dessas viagens  Unio
Sovitica, tive a oportunidade de fazer uma palestra para a
Associao dos Intelectuais, todos cegos, todos
com cursos universitrios, alguns deles eram at cientistas,
matemticos e msicos. Realmente pessoas de alto nvel.

Durante todos os anos em que trabalhei no Conselho Mundial para o
Bem-Estar dos Cegos, aprendi muito sobre a soberania dos
pases. Aprendi a respeitar os ideais
de cada povo. Encontrei muitas lies de amor e f no trabalho e
nos objetivos a alcanar. Havia muitas disputas, nem sempre
se estava de acordo, mesmo quando a
maioria votava uma das deliberaes. Isto aconteceu comigo e com
os outros, mas havia confiana mtua e respeito pelas decises
da maioria. O porte dos grandes lderes
serviu-me de inspirao.

Finalmente deixamos Moscou. Naquela poca, quando tudo era to
fechado em Moscou e na Unio Sovitica em geral - apesar
de todo o carinho e a maneira gentil com
que fomos recebidos, depois que nos encontrvamos na sala de
espera de uma linha area para ir para outros pases havia
uma sensao de alvio e liberdade. Fomos
para Roma e a ficamos uns dias no apartamento dos sogros da minha
prima, Wilma Zonari.

Durante nossa estada em Roma, a diretoria do Conselho Mundial foi
recebida em audincia privada por Sua Santidade o Papa
Paulo VI. Solicitamos que em suas homilias
o papa fizesse meno especial aos problemas enfrentados pelos
deficientes visuais, sobretudo aqueles dos pases em
desenvolvimento. De Roma fomos a Londres visitar
as instalaes e observar o funcionamento do livro falado. Fomos
recebidos pelo Major Clarke, que desenvolveu um excelente
projeto para a Inglaterra. Tnhamos que voltar rapidamente ao
Brasil para a inaugurao do Livro Falado na Fundao.

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Fomos para o aeroporto para tomar o avio, em tempo de chegar a
Brasil. Mais um dia ou dois seria a inaugurao do Livro
Falado, para a qual fora convidado o Ministro
Jarbas Passarinho. Qual no foi a nossa surpresa quando nos
avisaram de que havia um problema tcnico e que o avio no
sairia mais naquele dia.

Hospedaram-nos em um hotel, numa cidadezinha pequena perto do
aeroporto, alis encantadora, e ficamos muito bem acomodados,
embora s com a, bagagem de mo porque
as malas no foram tiradas do avio. Eu tive vontade chorar, alis
chorei. Trabalhei 25 anos para conseguir para o Brasil
o Livro Falado. A inaugurao que eu desejava
tanto ia se realizar e eu no assistiria. Mas afinal de contas o
mais importante era a inaugurao, feita por um ministro
e com a presena do Prefeito Paulo Maluf que
foi quem atendeu ao meu pedido e deu a verba suficiente para
instalar o Livro Falado na Fundao Falo dessas autoridades
sem nenhum interesse, apenas mostrando
o fato de que atravs delas conseguimos muitas coisas. Soube
depois que o Ministro Passarinho, referindo- ao fato da falha
tcnica ter sido detectada antes da partida
para o Brasil, com seu esprito brincalho deu graas a Deus que
eu tivesse tido a oportunidade e tempo de passar um telegrama
de Londres, justificando a ausncia.

Ao chegar ao Brasil, l estava o Livro Falado e o sonho realizado,
graas  colaborao do Prefeito de So Paulo, Dr. Paulo
Salim Maluf e de Gino Pereira dos Reis,
que atravs do Rotary Clube da Delta Eletrnica S.A., fez a
adaptao das salas  prova de sons. Gino contribuiu tambm
nas duas outras vezes que modificamos as
instalaes do livro falado. Ele conseguiu do Rotary Club uma
colaborao muito grande e na hora da maior necessidade.

SOROPTIMISTAS

O Clube de Soroptimistas  uma organizao semelhante ao Rotary
Club. So mulheres que representam profisses nas vrias
reas da atividade humana. Os princpios
do Clube exortam lealdade ao soroptimismo e aos ideais que
representa: sinceridade na amizade, alegria na realizao,
dignidade de servir, integridade profissional, amor  ptria.

O Clube existe h vrios anos e fui convidada para reunies e
conferncias. As scias foram muito generosas e me fizeram
Soroptimista Honorria do

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Clube de So Paulo, um dos primeiros e dos mais ativos no Brasil
e, posteriormente, do Clube de Santos.

Em 1970, a Federao das Soroptimistas das Amricas teve o seu
jubileu de ouro. Nessa oportunidade, elas premiaram algumas
mulheres e eu fui uma das escolhidas,
entre 25 mil. Uma das mulheres que recebeu o prmio era uma
jurista americana que lutou pela proibio do uso de talidomida,
remdio utilizado pelas gestantes que
causava profundas e irrecuperveis deficincias no beb. Era uma
mulher muito inteligente, fiquei encantada com ela. Recebemos este
prmio em Saint Louis, Missouri.
O titulo se chama Woman of Distinction Award, a organizao se
chama Soroptimist Federation of the Americas. Ganhei uma bandeja
redonda de prata. Recebi passagem
para ir aos EUA e levei Dorininha comigo. Tenho grande admirao
pelo trabalho das soroptimistas, iniciado em So Paulo por
Prpetua Pudnei das Neves. Costumo dizer
que Perptua  o prprio soroptimismo

Conheci Perptua Pudnei das Neves quando secretria do Instituto
Pinheiros, cujo presidente era Dr. Paulo Ayres Filho. Um dia fui
procur-lo para
obter colaborao num trabalho que a Fundao precisava realizar.

Perptua foi e  uma grande lder das soroptimistas. Propiciou a
criao de Clubes de Soroptimistas, ocupou cargos tanto no Brasil
como no plano internacional,
sempre dedicada a dar um maior nmero de oportunidades s
mulheres, principalmente quelas que se dedicam e trabalham em
qualquer ramo da atividade humana.

H centenas de Clubes de Soroptimistas no Brasil. No mundo
inteiro 1.200 clubes e 35.000 mulheres associadas. Os Clubes
Soroptimistas realizam concursos, fornecem bolsas de estudo,
organizam programas de estudo sempre visando
o bem-estar da mulher e o seu progresso na carreira profissional.

1974  V ASSEMBLIA GERAL

H 20 anos os congressos duravam dez ou doze dias, sempre
incluindo um dia a mais com o objetivo de oferecer oportunidade de
visitas s organizaes locais e tambm para o conhecimento das
cidades onde se realizava o congresso. Tudo
mudou nos tempos atuais e muitas vezes no conseguimos conhecer as
cidades onde estamos hospedados.

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Numa reunio da Comisso Executiva do Conselho Mundial para o Bem-
Estar dos Cegos, houve reclamao pelo fato de as pessoas chegarem
na hora do incio das sesses e partirem s vezes na vspera do
trmino do congresso.

Certa vez em Melbourne, na Austrlia, tivemos dois dias de
reunio. Fomos de nibus do hotel para o local onde se realizava a
nossa reunio, No primeiro dia tivemos
reunio  noite por causa de comisses especiais. No fim do
segundo dia algum mencionou qualquer coisa sobre mar. Eu me
espantei e perguntei se estvamos  beira-mar. Eu no tinha nem
percebido que o local da reunio era numa praia e que l bem
pertinho estava o mar. No havia tempo para conhecer o local.

Hoje os congressos esto reduzidos a dois ou trs dias, porque o
custo dessas reunies  muito alto. Alm do custo das salas,
equipamento de traduo simultnea
e todos os elementos necessrios para um congresso, h ainda todo
o mecanismo do congresso, como transporte dos participantes,
quando as sesses no so realizadas no hotel.

Gostei muito de ter me dedicado ao plano internacional, de ter
participado. Tive aborrecimentos muito grandes tambm. Muita
dificuldade para obter recursos, principalmente
do governo, para que pudesse participar. Fui alvo de muitas
criticas. Em qualquer trabalho que realizamos, ao lado das
apreciaes construtivas h sempre crticas
mal intencionadas. O catarinense Dr. Rogrio Vieira costumava
dizer: "Em rvore que no d fruto, moleque no joga pedra". Por
isso me tranqilizava. Nunca se agrada
a todos, mas eu sabia que no era apenas um desafio, ou prazer, eu
estava contribuindo para uma grande abertura no Brasil. Quantas
bolsas de estudos consegui, quanto
intercmbio foi feito com pases industrializados e mesmo com
pases menos desenvolvidos do que o Brasil. Tudo isto foi de um
valor muito grande e a Fundao muito se beneficiou.

Os relacionamentos e os novos contatos abriram novos horizontes
para a especializao de tcnicos. Muitos deles me acompanhavam e
assim conheciam novas formas de atendimento, diferentes programas.
Atravs de rgos internacionais, o Brasil obteve a vinda de
especialistas para diferentes reas: educao, orientao e
mobilidade, reabilitao. O intercmbio se fez tanto com a Europa
como com os EUA.

A Fundao tambm pde, nesse intercmbio, contribuir com o envio
de tcnicos como aconteceu com profissionais que foram para o
Peru, para o Uruguai e mesmo para Portugal. A prpria Teresinha
deu assistncia tcnica  Portugal duas vezes para a instalao de
cursos para formao de professores de

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cegos. Regina, na imprensa braille do Chile, Uruguai. Sr. Joaquim
Lima de Moraes no Chile e Peru, para instalao de oficinas de
trabalho para cegos.

Sem contar os bolsistas da OEA que passaram a estagiar em nossos
servios de educao e de reabilitao - todo o treinamento era na
Fundao.

Para mim a realizao no Brasil de uma Assemblia Geral do Mundial
era uma necessidade. Havamos feito o Congresso Panamericano. A
Guatemala havia feito o Interamericano,
mas a Assemblia Geral e o Congresso do Conselho Mundial, nunca
havia se reunido na Amrica Latina. Trabalhamos para que este
sonho se tornasse uma realidade. Foi um trabalho insano.

Durante dois anos, procuramos levantar recursos, que, alm das
despesas normais da V Assemblia Geral, permitisse a participao
de representantes das Associaes
da Amrica Latina que ainda no eram membros do Conselho Mundial.
Esses representantes tinham dificuldades para conseguir passagens,
hotis e dirias, o que tornava
complicada a participao dos pases latino-americanos.
Conseguimos um grande nmero de voluntrios. Entre esses
voluntrios, uma senhora, Magnlia Bonoldi, se
destacou por sua participao. Ela era da rea de Relaes
Pblicas, gostava e tinha prtica em promoes. Magnlia trouxe
vrias pessoas para reunio na Fundao e entre elas, Maria Clia
Monteiro de Barros, uma jovem advogada talentosa e entusiasmada
para colaborar na realizao da V Assemblia Geral.

O interesse dos voluntrios foi enorme. Eles foram divididos em
vrios grupos, cada um trabalhava numa rea da Comisso
Organizadora da V Assemblia Geral que
se criou na Fundao. A Comisso Organizadora contou com
representantes de escolas e organizaes de cegos nacionais e
locais. Foi um magnfico trabalho de equipe.

O Programa contava com sesses da prpria Assemblia Geral e
sesses profissionais nas reas de preveno, educao e
reabilitao. Para todas essas sesses foi
permitida a participao de pessoas no afiliadas ao Conselho
Mundial, na qualidade de observadores.

A no ser o que se realizou na Espanha em 1988, o nosso congresso
em 1974 foi um dos maiores que j se realizou em nmero de
participantes. Fizemos
propaganda em todos os pases da Amrica Latina e o interesse foi
despertado em todo o canto. Muitas pessoas que trabalhavam conosco
naquela poca, tornaram-se depois voluntrios da Fundao. Maria
Clia h mais de 20 anos pertence
 diretoria da Fundao, realizando um trabalho excelente.

Tivemos recursos do Ministrio da Educao, do estado de So Paulo
atravs de vrias Secretarias e principalmente do Ministro Delfim
Neto que

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conseguiu para a Fundao uma dotao de 900 mil cruzeiros,
atravs da Secretaria de Planejamento do Governo Federal, uma
quantia bastante elevada, comparada com
as dotaes daquela poca. Com os recursos obtidos, passamos 
execuo.

Organizamos uma exposio interessantssima com demonstraes de
laboratrios oftalmolgicos e de instituies e escolas para
cegos. As fbricas de equipamentos nacionais e internacionais
montaram um posto para medir a acuidade visual.

Preparamos tambm um Congresso de Preveno da Cegueira, realizado
no auditrio menor do Anhembi, durante trs dias que precederam a
Assemblia Geral, do qual participaram
grandes nomes da oftalmologia internacional e brasileira como Sir
John Wilson, que era o presidente do ento Comit de Preveno da
Cegueira do Conselho Mundial
para o Bem-Estar dos Cegos. O Congresso de Preveno da Cegueira
foi excelente, foi um marco para o desenvolvimento das Campanhas
de Preveno em nosso pas. Algumas
delas j tinham sido realizada no Brasil. Depois desse Congresso
que organizamos em colaborao com o Centro de Estudos
Oftalmolgicos, com a Secretaria de Sade
do Estado de So Paulo, com a Secretaria Municipal de Sade e com
o Ministrio de Sade, houve um movimento global nas reas de
sade ocular e preveno da cegueira.

Participaram da V Assemblia Geral vrias pessoas cegas
estrangeiras e muitas delas viajaram sozinhas. Era preciso treinar
voluntrios para atender s pessoas cegas.
Esse servio foi realizado pelo Projeto Rondon, com estudantes
principalmente das reas de lnguas, incluindo tambm estudantes
de Medicina, de Engenharia etc. Enfim,
vrios universitrios do projeto deram atendimento ao Congresso.
Houve preparao, um treinamento, incluindo o modo de conduzir as
pessoas cegas, noes sobre a
V Assemblia Geral horrios e locais de atividades. Foi um
absoluto sucesso este trabalho com o Projeto Rondom.

Eu ouvi muitas vezes, quando fui a outros pases, as pessoas se
lembrarem do Congresso do Brasil e do quanto essa preparao de
estudantes permitiu a melhor participao
de todos e o quanto contribuiu para a divulgao dos problemas das
pessoas cegas.

Os meus cinco filhos trabalharam - os dois estudantes de Medicina
Cristiano e Alexandre e tambm Dorininha, Denise e Kiko.

O Projeto Rondon foi uma atividade que se realizou no Brasil com
estudantes que, durante as frias, davam atendimento s pessoas
das regies carentes do pas. Eram
todos estudantes universitrios e j com alguma noo das suas
respectivas reas, Medicina; Enfermagem, Engenharia, Odontologia
etc. Na V

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Assemblia Geral participaram 120 estudantes do Projeto Rondon. Da
mesma forma os filhos dos nossos voluntrios, dos diretores, todos
colaboraram.

Imediatamente antes da abertura das Assemblias e Congressos do
Conselho Mundial havia sempre a reunio da diretoria seguida da
reunio da Comisso Executiva. Era praxe o presidente da Comisso
organizadora do Congresso oferecer um coquetel antes da abertura
para a Comisso Executiva do Mundial. Embora eu estivesse
preparada para fazer uma recepo em minha casa, aconteceu um fato
que me causou muita preocupao, mas que apesar de tudo no
conseguiu me deter. Desta vez foi bem grave - Alex, que nunca
ficava doente, teve um problema srio de rins e teve de ser
internado na Beneficncia Portuguesa. No estava em casa na noite
em que eu recebia 120 pessoas da Comisso Executiva.

Sempre h amigos para estas horas. A diretoria da Fundao toda
estava em minha casa para me ajudar a receber e os amigos de Alex
foram maravilhosos. Diva e Pedrosa
foram para a Beneficncia fazer companhia a Alex, e Pedro e Marice
ajudavam a receber. Eu no podia voltar atrs, cancelar. Alex
devia se submeter a vrios exames e fazer tratamentos que s
podiam ser feitos no hospital. Os amigos sempre me valeram, me
ajudaram muito durante esses dias difceis.

No me afastei do Congresso, ia visitar Alex nos intervalos. Nos
ltimos dias, ele voltou para casa e ainda pode comparecer ao
banquete de encerramento. Mas antes
do encerramento,  preciso falar da beleza que foi a instalao do
Congresso.

O Congresso realizou-se no Anhembi. Tivemos de alugar o auditrio
maior, porque o auditrio pequeno no dava para o nmero de
pessoas inscritas.

Participaram representantes de 63 pases Tivemos em vrias sesses
mais de 1.000 pessoas. Conseguimos dar passagens para
representantes de muitas instituies da
Amrica Latina. O Brasil colaborou com as organizaes latino-
americanas que no tinham condies de participar e demais
organizaes de todos os estados do Brasil.

Algumas companhias areas tambm cederam passagens nacionais e
internacionais. Foi uma colaborao extraordinria de todos.
Graas aos recursos
obtidos foi possvel dar acomodao a muitos participantes.

A Fundao responsabilizou-se pela acomodao dos membros da
Comisso Executiva do Conselho Mundial. Ficaram todos hospedados
no Hotel Jaragu que era um dos principais
naquela poca. Felizmente foi possvel acomodar em outros hotis
vrios brasileiros, pessoas da Amrica Latina e participantes dos
pases em desenvolvimento.

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Colocamos uma frota de nibus para transportar dos hotis para o
Anhembi e vice-versa, e para os diferentes lugares onde havia no
s recepes; mas tambm outros tipos de atividades.

A V Assemblia Geral - 1974, teve como tema "Recursos e
Relacionamentos no Trabalho com Cegos".

A abertura foi solene, presidida pelo Ministro da Educao Ney
Aminthas de Barros Braga que tambm representou sua Excelncia, o
ento Presidente da Repblica Emlio
Garrastaz Mdice. O Ministro da Educao proferiu a conferncia
magna na sesso de abertura. Estavam presentes autoridades
federais, secretrios de estado, do
municpio, representantes de governadores de vrios estados do
Brasil e o Cardeal de So Paulo.

Participou tambm da sesso a Sra. Maria Zilda Natel, Primeira
Dama do Estado, na qualidade de Presidente de Honra da Comisso
Organizadora da V Assemblia Geral. Na qualidade de Vice-
Presidente do Conselho Mundial para
o Bem-Estar dos Cegos, como Presidente da Comisso Organizadora,
tive a honra de saudar os participantes da V Assemblia Geral.

Durante o coquetel que se ofereceu no dia da instalao contamos
com a presena de dois governadores, Laudo Natel e Paulo Egdio
Martins. Contratamos uma escola
de samba para apresentar suas evolues aos participantes. Era
preciso ver todos os delegados, um grande nmero deles pessoas
cegas, da sia, da frica, das Amricas, do Canad, da Europa, dos
pases do Leste Europeu, danando samba com as baianas.

De 7 a 16 de agosto foram realizadas todas as sesses ordinrias e
inmeras reunies de comisses. Realmente, na Assemblia Geral, a
tnica predominante era, e
 ainda hoje na Unio Mundial de Cegos, a eleio da diretoria
para o prximo perodo.

H sempre uma srie de injunes polticas de pases, de regies.
Ao mesmo tempo, se procura colocar na presidncia algum que possa
ter liderana para entrar em contato com os rgos internacionais,
com as agncias das Naes Unidas, uma pessoa que tenha
compreenso e conhecimento muito amplo do problema em todas as
regies do mundo.

Anteriormente os presidentes tinham sido o Coronel Baker (Canad),
Eric Boulter (USA) e Charles Hedkvist (Sucia). Eram todos pessoas
pertencentes a pases industrializados,
onde a educao e a reabilitao de cegos estava em franco
desenvolvimento e onde as organizaes tinham condies de assumir
uma presidncia. O Conselho Mundial
por si s, no tinha recursos financeiros adequados. As cotas que
os pases pagam anualmente mal chegam para as des-

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pesas de escritrio e para suprir transporte e muitas vezes
acomodao para os representantes de pases em desenvolvimento que
no tm recursos para este fim.

A tendncia poltica, ento, era dar uma chance a Bons Zimmin, o
representante dos pases da Unio Sovitica, que ainda no tinham
ocupado uma posio de destaque no Conselho Mundial.

Bons, membro de partido comunista e veterano de guerra, era muito
estimado por todos. Seu grande interesse era realmente a educao,
a reabilitao, o atendimento e a preveno da cegueira, tudo
aquilo que se relacionava com os problemas da cegueira, alm de
ser uma pessoa muito bondosa e acessvel.

Durante o Congresso j se pensava, torcia e cabalava votos. Entre
os congressistas, principalmente os representantes das Amricas,
havia um movimento para lanar
minha candidatura  presidncia do Mundial para o prximo
qinqnio. Eu confesso, posso dizer hoje com muita sinceridade,
que estava simplesmente apavorada. A Amrica
do Norte e vrios outros pases tinham interesse em mudar a
situao de modo que o meu nome fosse proposto. O Ministro Ney
Braga disse que o Brasil garantiria o
que eu precisasse se fosse eleita. Mas cinco anos de presidncia,
com o nmero de viagens que um presidente precisa fazer, a
montagem de um escritrio, tudo isso me assustava.

Fui obrigada a conversar com membros de vrias delegaes, porque
havia pessoas que queriam que eu me candidatasse e a minha
candidatura foi realmente lanada. Foi
uma das poucas vezes em que houve uma eleio de fato, onde os
candidatos tiveram nmero de votos prximos. A torcida foi grande.
O leste europeu era formado de
vrios pases que faziam parte da Unio Sovitica e cada um deles
tinha seus representantes, seus delegados e compunham um nmero
razovel de votos.

Durante o Congresso, o disque-disque foi enorme. Eu tinha as
responsabilidades da comisso organizadora, tive de participar de
todas as numerosas promoes sociais,
atender todos aqueles que eram observadores da Amrica.

Eu tinha inmeras preocupaes e ainda tinha de ouvir e participar
de todos os encontros polticos, para ver a possibilidade de ser
eleita. Coloquei tudo
nas mos de Deus porque eu mesma no estava convencida de que
teria condies, naquele momento, de assumir a presidncia do
Conselho Mundial. No
havia nem sonhado ou pensado nisso; no havia feito uma
preparao, nem consultado as possibilidades de recursos.
Sinceramente, achei minha candidatura uma precipitao.

Foram tratados todos os assuntos de acordo com a agenda e chegou o
dia da eleio. A Comisso de Nomeaes desses rgos
internacionais em geral

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 indicada no incio das Assemblias. Essa comisso recebe as
indicaes de candidatos aos diversos cargos da diretoria. Como
houve dois candidatos, um proposto
pela Comisso de Nomeaes e eu, por proposta da Delegao dos
Estados Unidos da Amrica em plenrio, houve necessidade de se
fazer eleio por voto secreto.

Houve uma certa demora porque essa possibilidade no havia sido
cogitada. Em todo o caso, prepararam-se as cdulas em braille e 
tinta.

A empresa Alcntara Machado foi contratada para a organizao do
Congresso e as recepcionistas que vinham dando atendimento aos
congressistas desde a recepo
no aeroporto j estavam familiarizadas com os delegados dos
pases. A torcida das recepcionistas para que eu fosse eleita era
geral. Todas transformaram-se em cabos
eleitorais. Elas j conheciam bastante os delegados e faziam
propaganda. Estavam entusiasmadas. Meus filhos tambm, pois
trabalhavam diretamente com os congressistas.

Procedeu-se a votao e eu estava completamente gelada de nervoso,
alm de ser um dia glido de agosto. Lembro-me que naquele dia fez
4C. Foram contados os votos
em plenrio e em voz alta. Podia haver votos por procurao. Perdi
para o Bons Zimmin por um voto. Incrvel, eu no esperava este
resultado. Foi impressionante que
sem nenhuma preparao, eu tivesse chegado a obter tantos votos.
Foi uma das poucas vezes em que houve realmente uma eleio por
voto secreto. No foram lidas
as procuraes do Japo. Iwahashi, delegado do Japo, que tinha
direito a cinco votos, no as havia trazido. Pediu por telegrama,
mas essas procuraes ficaram retidas
na secretaria. Eu no sei porque e nem procurei saber, eram todas
para mim. Eu quase fui eleita. Graas a Deus, no! No momento em
que soube que no tinha sido eleita,
agradeci a Deus, porque ainda no era hora. Fui eleita vice-
presidente, fiquei muito contente e foi uma experincia indita,
impressionante ver que tanta gente havia votado em mim.

Durante todo o processo de eleio, quando cada candidato falou no
Plenrio, a mesa tinha um trabalho para conter o povo, inclusive
os observadores que no tinham direito a voto e nem voz.

A V Assemblia Geral ficou na histria, e foi lembrada durante
muito tempo por todos os participantes. Houve figuras
interessantssimas que participaram. Para
os brasileiros e para os latino-americanos que no tinham tido a
oportunidade de ir a outros congressos foi uma atrao  parte
poderem contatar as pessoas de outros
pases que vinham com seus trajes tpicos. Muitos deles os usavam,
como as indianas com seus saris, as africanas com as suas
roupagens e o cabelo todo tranado,
os africanos com as suas batas, os rabes com suas tni-

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cas. Esses trajes eram usados no dia-a-dia, porque no dia do
banquete todos capricharam em seus trajes tpicos de gala.

Akiko, mulher de Hideyuki lwahashi, usava quimonos belssimos.
Hideyuki era timo violinista e pedamos sempre a ele que tocasse.
Nos jantares de despedida que o
Conselho Mundial organizava os delegados cantavam canes tpicas
de seus pases. No final de mos dadas todos cantavam a valsa da
despedida, em p.

O grande animador da parte musical dos jantares foi,
indiscutivelmente, Robert Barnett, Diretor Executivo da American
Foundation for the Blind.

Lembro de uma princesa africana que me chamava "Madame la Presi
dente", e ela era a Presidente da Assemblia Legislativa de seu
pas, Senegal. Eu a encontrei num
congresso da ONU no Mxico no ano seguinte e ela continuou me
chamando de "Madame la Presidente". A Comisso organizadora
conseguiu que 50 famlias brasileiras recebessem
300 delegados estrangeiros em suas casas, para um jantar
tipicamente brasileiro.

Houve um concerto no Teatro Municipal com a Orquestra Sinfnica,
foi muito apreciado. Outra promoo muito interessante foi a
visita  Piracicaba para conhecer a
Escola de Agronomia Luiz de Queiroz, da Universidade de So Paulo.
Os congressistas foram muito bem recebidos pelo Prefeito, por
vrias autoridades, houve uma sesso
de MPB (Msica Popular Brasileira) e foi servido um almoo 
brasileira. Foi um dia excepcional em Piracicaba, que deixou os
congressistas encantados. Lamentavelmente
eu no pude ir, porque realmente procurava ficar perto do Alex em
todas as horas que me fosse possvel.

Enfim, o Congresso foi muito bem-sucedido, mas foi um esforo
enorme da equipe da Fundao e da Comisso Organizadora.

Todos os profissionais e funcionrios da Fundao trabalharam
noite e dia, com o maior entusiasmo. Os professores
especializados, os membros diretores, membros de outras
organizaes de cegos, foi um movimento conjunto que marcou
poca no Conselho Mundial. Foi a estria do Congresso Mundial na
Amrica Latina. Fiquei muito contente porque consegui realizar o
Primeiro Congresso Panamericano
em So Paulo e o Primeiro Congresso Mundial na Amrica Latina,
tambm em So Paulo. Foram dois anos de trabalho, de preocupaes,
muitas vezes de aborrecimentos,
mas que nos trouxeram grande alegria. Fui eleita vice-presidente
para minha tranqilidade, mas acho que foi o caminho para depois
ser eleita no tempo certo presidente mundial.

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Cristiano foi buscar no aeroporto um mdico, Dr. Bili Dobelle.
Dobelle estava iniciando um trabalho de implantao de olhos
artificiais. Meu filho atendeu o Dr. Dobelle durante todo o tempo
em que ele aqui esteve, levando-o para todo lado que precisava ir,
embora ele fosse uma pessoa vidente. Ele era e  um grande
pesquisador e cientista, pertence ao Colgio de Cirurgies dos
EUA. Fizemos questo
que houvesse uma palestra sobre olhos artificiais, para que ele
dissesse, em toda a sua extenso, o que era aquela realidade e em
que fase estavam as experincias.
Muita divulgao  feita em relao a transplante de olhos
artificiais que muitas vezes d iluses s pessoas cegas e faz com
que muitos busquem ir aos pases
onde estas experincias so realizadas, sem saber realmente at
onde poder beneficiar a cada um. Quisemos que houvesse uma
palestra em nossa prprio pas para esclarecimento.

Dr. Dobelle fez a conferncia e respondeu s inmeras perguntas.
Havia vrios locais no Anhembi onde as pessoas podiam consultar
nos intervalos, ou mesmo durante as
sesses, profissionais que lhes interessassem. Houve uma
divulgao muito grande e Bill Dobelle foi uma das estrelas do
Congresso. Ele se encantou com Cristiano
e convidou-o para ir aos EUA. At hoje eu e Cristiano nos
correspondemos com Bill Dobelle. Ele sempre nos manda as novidades
a respeito de transplante de rgos e olhos.

Durante a V Assemblia Geral Sir John Wilson anunciou a criao da
Associao Internacional de Preveno da Cegueira que  um rgo
de grande vulto e que se originou,
em parte, do Comit de Preveno da Cegueira do Conselho Mundial
para o Bem-Estar dos Cegos do qual Sir John Wilson era presidente.

A preveno da cegueira em extenso mundial  a pioneira na
preveno de qualquer uma das reas de deficincias. Isto se deve
aos lderes do Conselho Mundial para
o Bem-Estar dos Cegos; Sir John Wilson, Alian Johnnes, o lder
Bons Zimin na Unio Sovitica, outros na Frana, nos pases
escandinavos, o Iwahashi no Japo, Abdullah
M-Al-Ghanim no Oriente Mdio, os lderes na Austrlia, na Ocenia
com o grande trabalho feito nas ilhas e em toda aquela regio onde
h uma sria incidncia de
cegueira, e na ndia. Isso se deve tambm aos dirigentes das
organizaes de cegos nacionais e locais, que continuam o trabalho
iniciado pelos lderes do Conselho
Mundial. Os pases doadores, principalmente a Gr-Bretanha, os
pases Escandinavos, a Alemanha, a Itlia, a Frana, a Espanha, a
Holanda, todos estes, tm dado
recursos s organizaes de sade dos pases em desenvolvimento
para o trabalho de preveno da cegueira.

Outra coisa muito importante foi quando se reuniram todos os
representantes dos pases latino-americanos que ainda no
pertenciam ao Conselho Mundial, e os que
j passaram a pertencer. Na V Assemblia Geral comeou-se a formar
um movimento para a criao do Comit Latino-Americano do Conselho

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Mundial que foi definitivamente criado. O Comit Latino-Americano
passou a abranger o Mxico, Amrica Central, Caribe e Amrica do
Sul. Estados Unidos e Canad formavam a regio norte-americana.

Lamentei e s vezes ainda lamento, porque acho que as Amricas so
um continente, mas compreendi, porm, que era necessrio um
estmulo maior para que os prprios
pases latino-americanos se unissem, se incorporassem e passassem
a manifestar sua vontade. Ns ramos muito poucos em comparao
com os outros pases do mundo,
no tnhamos voz. O Brasil a princpio se fazia presente e
aparecia, assim como Bolvia, Colmbia, Guatemala, Mxico mas isso
no era o suficiente. Era preciso que
todos os outros pases se integrassem, e por isso eu concordei que
havia a necessidade de um Comit Latino-Americano para estimular o
trabalho dos prprios pases
da Amrica Latina, que fssemos uma s voz, como chegamos a ser
hoje, junto  Unio Mundial de Cegos.

OS FATOS COMO EU OS VI

O Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos foi o bero de
grandes organizaes mundiais como o Conselho Internacional de
Educadores de Jovens Cegos, hoje Associao
Internacional para a Educao de Deficientes Visuais
(ICVI), Associao Internacional de Preveno da Cegueira (IAPB) e
mais recentemente a Associao Internacional de Desportos para
Cegos (IBSA), entre outras. Uma
rea  qual sempre dediquei meu trabalho e ateno foi a preveno
da cegueira, pela grande importncia que tem no bem-estar da
comunidade  universal.

A preveno da cegueira foi tambm um trabalho mundial iniciado
por pessoas cegas. Famosos oftalmologistas iniciaram este trabalho
na esfera cientfica, mas o grande
movimento pblico, quer concordem ou no comigo, deve-se aos
lderes cegos do Conselho Mundial. A esses lderes se deve o
desenvolvimento, o deslanchar da preveno
da cegueira no mundo, atravs da Organizao Mundial da Sade, da
Agncia Internacional de Preveno da Cegueira, da Organizao
Panamericana de Sade, com o seu setor de Preveno para as
Amricas.

So os fatos como eu os vi nascer e crescer.

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Seu grande momento teve lugar na III Assemblia Geral em Nova
Iorque onde se levantou o problema da incidncia progressiva da
cegueira no mundo e se complementou com
o pronunciamento durante a V Assemblia Geral, no Brasil, quando
foi mostrada a necessidade da criao da Agncia Internacional da
Preveno da Cegueira (IAPB) em substituio ao Comit de
Preveno da Cegueira do Conselho Mundial.

Sempre tive um sentimento ntimo de satisfao de ter participado
de todos os movimentos de preveno da cegueira, que se realizaram
desde o inicio de meu trabalho.
No Brasil, vrios oftalmologistas dedicaram-se  preveno da
cegueira e desde a dcada de 1930 temos notcia desses movimentos
atravs das associaes oftalmolgicas.
Um dos lderes que se salientou muito foi o professor Moacir
Alvaro, quando Presidente do Conselho Panamericano de
Oftalmologia. No Brasil, fomentou o treinamento
de assistentes sociais para a preveno da cegueira, conseguiu a
sua especializao nos EUA e se destacou por estar sempre
envolvido nos principais movimentos na
rea. Outros oftalmologistas colaboraram como Renato Toledo, tanto
pelo Conselho Panamericano de Oftalmologia, como atravs do
Conselho Brasileiro de Oftalmologia.
Com o tempo foi ativada a Comisso de Preveno da Cegueira do
Conselho Brasileiro de Oftalmologia.

Finalmente o Conselho Brasileiro de Oftalmologia decidiu permitir
a incluso de tcnicos de outras reas como membros da Comisso de
Preveno da Cegueira. Tive
a satisfao de ser indicada como membro dessa Comisso
representando as organizaes de educao e reabilitao de cegos.

O Servio de Oftalmologia Sanitria da Secretaria de Sade de So
Paulo era representado pelo Dr. Oswaldo Gallotti, Participaram
dessa comisso o professor Hilton
Rocha, de Minas Gerais e o Professor Francisco Mais, de Campinas.

Essa comisso programou e realizou vrios congressos multi-
disciplinares, dos quais participavam oftalmologistas,
sanitaristas, assistentes sociais, professores,
todos envolvidos no trabalho com cegos e portadores de viso
subnormal. Tivemos muito apoio do Servio de Oftalmologia
Sanitria da Secretaria da Sade do Estado
de So Paulo nesse movimento, para fazer prevalecer o enfoque que,
desde h muito tempo, vinha sendo recomendado pela prpria
Organizao Mundial da Sade, OMS.
Durante muitos anos realizamos reunies aos sbados de manh na
Escola Paulista de Medicina.

A preveno da cegueira no  um assunto exclusivamente mdico.
Precisa incluir alm das reas mdicas e paramdicas, psiclogos,
professores, assistentes sociais, nutricionistas e organizaes
sociais da comunidade. O programa atual da Organizao Mundial da
Sade  uma interao da preveno da

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cegueira e sade ocular junto  comunidade. Essa interao tem
mais condies de ser bem-sucedida e de fazer com que muito cedo
as causas da cegueira sejam, seno
eliminadas, pelo menos reduzidas devido ao tratamento a ser dado
na hora exata.

A prxima fase foi o Ministrio da Sade do Brasil criar uma
Comisso de Preveno da Cegueira, tornando realidade o programa
nacional de sade ocular e preveno da cegueira.

Hoje esse trabalho est bastante difundido e o Brasil, graas a
Deus, tem um programa oficial de sade ocular e preveno da
cegueira. Esse tipo de trabalho iniciou-se
principalmente com a criao do Centro Colaborador de Preveno da
Cegueira no Servio de Oftalmologia Sanitria da Secretaria de
Sade do Estado de So Paulo. Tive a felicidade, a satisfao e a
alegria de ter contribudo para que isso se tornasse realidade - 
uma histria que tem muito valor para mim.

Esse trabalho foi realizado contando com a infra-estrutura da
Fundao e da sua equipe profissional.

Em 1979 representei o Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos
numa reunio do Setor de Preveno da Cegueira da Organizao
Mundial de Sade. O Conselho Mundial tinha um representante junto
a este Setor, pois ele foi criado por resoluo de um Congresso de
Ministros de Sade, realizado em Washington.

Fui  reunio em Genebra. Fiquei impressionada com os trabalhos
que vinham se realizando em todas as partes do mundo. Havia
oftalmologistas que representavam as
diferentes regies: sia, frica, Amricas, Europa. Verifiquei que
j havia na Amrica Latina um centro colaborador na rea de
preveno da cegueira, com a Organizao
Mundial de Sade no Peru e na Guatemala. Eu me perguntei: "Porque
no no Brasil?" Antes de voltar ao Brasil, procurei saber quais
seriam as condies para que isso se tornasse possvel. Era
preciso que o governo brasileiro mostrasse interesse na criao
desse centro e que um tcnico da Organizao Mundial de Sade
viesse ao Brasil fazer um levantamento de necessidades e
possibilidades.

No me detive, continuei participando das reunies, dos
congressos. Houve um em Braslia no qual participou o
representante da Organizao Mundial de Sade, Mrio
Tarizzo, gerente do Programa de Preveno da Cegueira da OMS,
grande nome em matria de preveno da cegueira. Numa audincia
que tive com o Chefe da Casa Civil, Ministro Golbery do Couto e
Silva, relatei o fato. Nessa ocasio contei com sua colaborao
para que eu pudesse participar de
reunies internacionais, estabelecesse os contatos com os
Ministrios e contasse com a aquiescncia das autoridades
brasileiras para desenvolver as atividades da

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vice-presidncia do Conselho Mundial. O Ministro disse-me que eu
continuas com as negociaes para que o Brasil viesse a ter um
centro colaborador.

Posteriormente, fui informada de que o Brasil estava interessado
na criao do centro colaborador e tomaria as providncias
necessrias. Finalmente o Centro foi
instalado em So Paulo. Eu, uma professora, trabalhando na rea da
educao, mas conhecendo a importncia da preveno da cegueira,
consegui este Centro e hoje o Brasil tem o seu programa nacional
de sade ocular e preveno da cegueira.

Concomitantemente com todo esse movimento realizou-se em
Washington, DC, uma reunio da qual participou o Conselho Mundial
para o Bem-Estar dos Cegos e houve solicitao
para que o Brasil indicasse um especialista para participar das
reunies de Preveno da Cegueira e das atividades que se
desenvolveriam subseqentemente.

Tive a honra e a inspirao de indicar o nome de Dr. Oswaldo
Monteiro de Barros para esse trabalho durante uma reunio da
Comisso de Preveno da Cegueira do Conselho
Brasileiro de Oftalmologia. A Comisso aceitou a indicao e o
Brasil passou a contar para o Programa de Preveno com Oswaldo
Monteiro de Barros, uma das maiores
autoridades no assunto em nossa rea geogrfica.

O Ministrio da Sade assumiu realmente a preveno da cegueira
quando criou a Comisso Nacional de Preveno da Cegueira, da qual
eu fiz parte como um dos trs
membros "de notrio saber" ao lado de grandes vultos da
Oftalmologia: Professor Hilton Rocha e Professor Aristides de
Athayde Neto, alm de oftalmologistas geneticistas, sanitaristas
etc.; exatamente de acordo com o que
prev o programa de preveno da cegueira da Organizao Mundial
de Sade - preveno com base na comunidade.

O Programa Nacional de Sade Ocular de Preveno da Cegueira do
Ministrio da Sade, foi o primeiro oficialmente institudo nas
Amricas, sob a coordenao de Oswaldo
Monteiro de Barros. J foram implantados em todas as cinco regies
de nosso pas, nas Secretarias da Sade dos estados, Centros de
Referncia com pessoal especialmente treinado.

So Paulo tem muitos desses centros. Minha esperana  que atravs
desse programa, se possa ter uma estatstica sobre o nmero real
de cegos e portadores de viso subnormal.

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Foi com essa determinao que me envolvi no programa de preveno
da cegueira e esse trabalho continua sempre presente em todas as
atividades que a Fundao realiza.

PARENTES ALM FRONTEIRAS

Em 1994, Alex e eu fomos  Portugal.

Kiko, meu filho, mora em Portugal - casou-se pela segunda vez com
uma moa portuguesa, Maria Joo e j tem dois filhos, Andr e
Tiago. Mora em So Joo do Estoril.
Fomos visitar Kiko e passar frias em Portugal. No foi por motivo
de trabalho, o que no aconteceu durante muitos anos de minha
vida. Todas as viagens tiveram sempre
uma razo de ser: um congresso, um trabalho a ser realizado fora
do pas, um seminrio ou reunies dos rgos internacionais.

Durante alguns anos fui mais  Europa, embora tivesse reunies na
sia, Amrica Latina e at na frica. No incio quase todas as
minhas atividades eram ligadas aos EUA por causa das conexes com
a American Foundation for Overseas Blind.

Eu tambm representei o Brasil atravs dos Companheiros das
Amricas. Como representante dessa associao, mais de uma vez
participei da reunio do Comit sobre Empregos para Cegos, do
Presidente da Repblica dos EUA.

A principal razo da viagem foi ver Kiko e famlia e dar
continuidade a um relacionamento com a famlia de meu pai que
existe em Portugal, na Penajia, e com primos
que eu no havia conhecido. O relacionamento com a famlia  uma
longa histria...

Alguns anos antes eu fui a Portugal com Dorininha, na volta da
Assemblia Geral da Unio Mundial de Cegos no Egito. Durante o
congresso fui convidada pelos delegados portugueses para conhecer
a nova organizao portuguesa ACAPO

Eu j conhecia anteriormente alguns tcnicos de educao e de
reabilitao portugueses. Tnhamos relacionamento com as
organizaes portuguesas. Presentemente, essas organizaes
passaram por grandes transformaes.

Quando me visitou na casa de Kiko, Dr. Francisco Alves, presidente
da ACAPO me disse que gostaria que eu fosse conhecer a Associao
em Lisboa, Coimbra e Porto. Aceitei com prazer a amvel
solicitao.

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Em Lisboa recebi a medalha da Associao das Organizaes
Portuguesas Reunidas - ACAPO. Houve todo um progresso, que
culminou com o que est sendo feito agora, principalmente
a participao dos cegos portugueses na direo da Associao e o
desenvolvimento na parte de eletrnica, alm de; programas de
empregos para cegos.

Quando fomos ao Porto, na volta Francisco Alves fez questo de
parar na Penajia, prximo a Lamego onde meu pai nasceu. Dorininha
e eu tentamos: localizar os membros da famlia de papai com
propriedades na regio, certamente descendentes de meus avs.
Alguns deles tm ainda quintas na Penajia. Conseguimos
endereos e telefones mas no os localizamos.

Um ano depois passei mais uns dias em Lisboa e fui com Kiko a
Iamego procurar na Prefeitura localizar melhor meus primos e suas
famlias.

Ao mencionar o nome Monteiro de Gouva, uma senhora que estava
perto de mim ofereceu-se para levar-nos at a aldeia e mostrar a
casa de meu, pai, que ela conhecia. Foi um dia memorvel. Entramos
na adega onde meus avs fabricavam vinho e azeite. Kiko encantou-
se com a paisagem, pois do andar de cima descortinava-se uma bela
vista do rio Douro, tantas vezes descrito por meu pai.

Voltando a Lisboa mantive contato com meu primo Zeca que solicitou
a uma de suas sobrinhas, Amelita, que fosse visitar-me antes da
minha partida para
o Brasil. Estava estabelecida a comunicao que eu tanto desejava.
Alex e eu fomos convidados para voltar  aldeia no ano seguinte,
em 15 de maio, quando se celebra
a festa das cerejas - segundo meu pai, as primeiras de Portugal.
Nesse dia a famlia reuniu-se na Quinta de minha prima Amelita e o
jantar com vrios membros da famlia foi uma grande e inesquecvel
emoo.

Como filha de estrangeiro h sempre dentro de ns um impulso para
procurar membros da famlia que sabemos viverem em outros pases.

Num congresso em Buenos Aires estavam representantes da Associao
de Mulheres Universitrias. Por acaso, durante a apresentao de
cada uma, ouvi que a que estava
ao meu lado era de Rosrio de Sta. F, onde moravam meus primos e
seus descendentes. Contei-lhe sobre meus primos Roberto e
Ermelinda e ela localizou-os posteriormente atravs da lista
telefnica.

Tempos depois fui a Buenos Aires num Seminrio de Direitos do
Autor. Fui com Olenka a Rosrio de Santa F, e minha prima foi com
a famlia buscar-nos no aeroporto.
Sua filha Meneca, assim como eu, gosta de manter esta ligao
familiar. Foi uma maravilha, tive oportunidade de conhecer toda a
famlia que mais tarde nos visitou
em So Paulo. Da por diante, por carta ou telefone estamos sempre
em contato.

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Por falar em famlia, em 1975 quando fomos a Roma de volta de uma
reunio em Moscou, resolvi visitar minha prima Ada, Superiora no
Monastero Delia Visitazione em
Rossolini na ponta da Siclia. Ao descermos do avio em Catnia,
ainda na escada, Alex parou para me dizer: "Estou vendo sua me
vestida de freira" - era minha
prima Ada, hoje Soror Maria Emanuela. Ficamos hospedados no
monastero passando dias deliciosos na paz do convento, alegrados
pela verve e inteligncia de Ada. Na
volta, tivemos 14 horas de viagem num trem de Siracusa a Roma e a
alegria de ter conhecido pessoalmente minha querida prima.

Alex, como eu,  filho de estrangeiros e na nossa primeira
passagem por Londres conhecemos dois de seus primos em Shefield,
jovens e simpticos, e um outro primo
mais velho e um pouco assustado, achando que estvamos l para
cobrar uma herana, o que no era o caso. Depois de vrios anos
ns estivemos na Austrlia na dcada
de 80. Alex sabia que tinha parentes na Austrlia. Procuramos na
lista telefnica, alis eu sempre fiz isso tambm em todos os
pases. Procuramos pelo sobrenome Nowill, que no  muito comum.

Na primeira vez que estivemos em Melbourne, Alex conseguiu
conversar com um Nowill ambos acharam que eram mesmo parentes.
Conversaram muito pelo telefone, mas no
houve tempo para nos encontrarmos. Ele estava de sada para uma
viagem e nossa estadia em Melbourne era curta. Em janeiro de 1994,
fomos a uma reunio da Comisso
Executiva da Unio Mundial de Cegos tambm em Melbourne e desta
vez Alex verificou na lista telefnica e ligou. Encontrou o filho
do pintor com quem ele havia falado
praticamente dez anos antes, chama-se Derek Nowill. Alex combinou
o encontro e ele foi nos visitar no hotel.

Descobrimos um parentesco muito prximo. Ele nos presenteou com
uma rvore genealgica da famlia, onde figurava o nome do pai do
Alex, como residente no Brasil. Ficamos sabendo de outros membros
da famlia que haviam
fornecido esta rvore genealgica e que moram na Nova Zelndia.
Passamos algumas horas muito agradveis; eles mostraram
fotografias uns dos outros, houve muita
promessa de correspondncia, mas os Nowill no so muito fiis 
correspondncia e por isso ainda no cumprimos nossa palavra, mas
vamos faze-lo um dia. Pediu-nos
fotografias da famlia e nos prometeu mais notcias do nosso primo
da Nova Zelndia. O fato  que somos realmente primos e de certa
forma ele tem todos os traos
fisionmicos da famlia.  um executivo de uma grande firma de
seguros em Melbourne e  uma pessoa muito simptica, tem filhos
pequenos, a mulher escreve para revistas
e  desenhista de modelos infantis. D aulas e deve ser uma pessoa
bastante preparada e conhecedora do assunto.

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Depois das viagens que fizemos, de todo este trabalho internado
nossa famlia cresceu. Temos parentes em vrios pases,
conseguimos conhece-los pessoalmente e como
eu j afirmei, conhecer pases  conhecer gente, porque gente 
que transmite histria, gente perpetua as tradies.

E A VIDA CONTINUA

IN decorrer dos anos 60, muitas alteraes se processaram em minha
famlia. Meus filhos cresceram, ultrapassaram a poca da entrada
do jardim de infncia e das primeiras
escolas. As primeiras experincias foram se processando durante o
fim da dcada de 50 e nos anos 60. A os colgios j estavam
definidos. Muitas pessoas me perguntam
e o mesmo acontece com os entrevistadores de TV, revistas etc.,
como pude educar meus filhos e qual a atitude deles em relao a
minha cegueira. Pelos fatos
que j relatei, muito transpareceu da atitude de meus filhos e da
minha prpria em relao a eles.

Se eu tivesse tido o bom senso de fazer um dirio da minha vida,
provavelmente muitas conversas com meus filhos, muitas discusses
e dilogos seriam mais reveladores
do que a minha memria pde guardar. Todos eles passaram pela fase
de no compreender exatamente como se processava o nosso
relacionamento, quando bem pequenininhos,
porque faltava a comunicao visual. Posteriormente porm, foram
se adaptando  minha maneira de lhes transmitir no s o meu
carinho, os meus cuidados, mas tambm
as minhas expectativas em relao a eles dentro do meu processo de
vida como uma pessoa cega.

No posso crer que eles tenham sofrido profundamente os efeitos da
cegueira, porque eu nunca lhes transmiti um drama, quer
voluntria, quer involuntariamente,
pelo fato de eu no poder ver. No tive sequer tempo para
dramatizar. O trem da vida, as atividades a serem desenvolvidas,
mesmo s dentro de casa com a criao
de cinco crianas com pouca diferena de idade entre elas, no d
tempo  me para dramatizar seus prprios problemas, mesmo que
sejam to graves como  o fato de
uma pessoa no poder ver. Jamais dramatizei a minha prpria
cegueira, nem sequer em qualquer circunstncia responsabilizei-a
pelas minhas frustraes ou pelos meus
erros. H coisas que nos acontecem, h circunstncias em que no
podemos reagir ou no podemos tomar uma deciso certa, porque 
imprescindvel a viso para se
poder realizar determinadas coisas. Nesses casos sim, no me
importei de declarar que a minha cegueira no me permitia

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fazer isto ou aquilo, mas nunca responsabilizei a cegueira por
atitudes, por reaes, ou erros meus.

Meus filhos e meus netos usam a palavra cego e cegueira sem
nenhuma restrio. Claro que s depois de uma certa idade eles
compreendem o que  a falta de viso.
Sempre expliquei aos pequenos porque eu no poderia ajud-los em
determinadas circunstncias e porque eu no correspondia aos
olhares, e expliquei as razes. Depois
de trs, quatro anos, eles passam a compreender melhor. Todos
percebem, de uma forma ou de outra. Meu netinho Andr que nasceu
em Portugal conviveu comigo em So
Paulo por um ms antes de completar dois anos. Quando voltou para
Portugal, tentou andar de olhos fechados. Posteriormente eu estive
em Portugal e ele j estava
com dois anos e meio. Passei cerca de vinte dias em sua casa, em
Estoril, e quando eu voltei Kiko me contou por telefone que ele
andou experimentando andar pela
casa com o bracinho meio para frente, de olhos fechados,
exatamente como eu ando quando estou sem bengala.

Todos eles fizeram esta experincia. Lembro-me tambm de ter feito
a experincia quando criana, de andar de olhos fechados para ver
como andava uma pessoa cega,
talvez impressionada por algum que eu tivesse visto - lembro-me
realmente desta experincia. Muito mais razo tiveram meus filhos
e tm os meus netos para fazer a mesma experincia.

Minha neta Renata anda me fazendo muitas perguntas sobre minha
cegueira. Ns duas estvamos sozinhas almoando. Disse a ela que
devia comer verdura porque deixava
a pele muito bonita e contei que minha av me ensinou a comer
verdura para que eu tivesse pele bonita e que realmente quando eu
era moa, minha pele era bonita e
eu era conhecida no bairro como "a moa da pele bonita", segundo o
que me contaram. Ela virou-se para mim e disse: "Voc no era cega
nessa poca?". O que ser que
passou na cabecinha dela? Eu respondi que eu era sim e que a
beleza da pele no tinha nada a ver com a cegueira. Eu tive razo
em me preocupar com a pergunta de
Renata, pois alguns dias mais tarde repeti a lio e frisei a
necessidade de comer legumes e verduras para se ter a pele bonita,
e ela me disse: "Mas eu no quero
ficar cega". Como eu disse que tinha pele bonita quando era jovem
e mesmo depois que fiquei cega, ela aliou as duas coisas. Pensei
comigo: Vov, chega de se dar
como exemplo. Foi uma boa lio que minha neta me deu. Ns
realmente nem sempre somos exemplos para nossos filhos e netos. As
crianas so impressionveis. Todos
eles, meus filhos e meus netos, esconderam-se de mim. Cristiano
foi o rei de se esconder, de procurar me tapear, e era muito
divertido, muito engraado. Ele fazia
disso uma piada. Outra piada de Cristiano era quando eu estava
correndo para alcanar o telefone, ou para ir a algum lugar, ele
dizia: "Mame, quer uma carona?" e me dava o

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brao para que eu pudesse ir mais depressa. Mesmo adulto, ele faz
isso. Eles sabiam brincar inclusive sobre a minha cegueira. Isso
jamais me afetou e sempre levei na brincadeira e na graa, com
muita sinceridade, sem nenhuma mgoa.

Meu neto Ricardo devia estar fazendo algo que ele no imaginou que
eu pudesse perceber sem ver. Devo ter chamado a ateno dele
porque ele chegou em casa e disse
para Luzia: "Acho que minha av usa aqueles culos escuros s para
fingir que  cega". No fundo, bem no fundo, todos eles gostariam
realmente que eu no fosse cega,
alis eu tambm. Lembrando as faanhas dos meus netos, um dos
filhos de Cristiano, o Dudi, Eduardo, quando era pequeno queria
muito que eu pudesse dirigir automvel.
Eu estava passeando com eles de carro, ia leva-los  algum lugar
junto com Maria, uma empregada antiga. Meu neto me fez uma
pergunta que eu no poderia responder
sobre qualquer coisa que ele estava vendo, ento Maria aproveitou
para me contar que eles queriam que eu dirigisse
o carro e que ela havia explicado que eu no poderia dirigir
porque eu era nervosa. Aproveitei imediatamente para dizer: "Maria
por favor, diga a eles que eu no
vejo, que eu sou cega e que uma pessoa cega no pode dirigir um
carro. Eu prefiro que voc explique bem o que eu sou na realidade.
No quero que meu neto pense
que eu sou meio louca, ou que eu no regule bem".

"Como voc ficou cega mame? Por que voc  cega mame?" "Como
voc ficou cega vov? Por que voc  cega vov?" As duas geraes
me fizeram as mesmas perguntas,
idnticas. Inmeras vezes cada um de meus filhos e cada um de meus
netos me perguntou e inmeras vezes eu contei exatamente porque eu
fiquei cega e como eu fiquei cega.

Penso que as crianas, embora no compreendam totalmente o que
seja a cegueira, no fundo no aceitam que o fato seja irreversvel
e sempre desejam que possa haver
alguma modificao. Nos anos 60 e 70 nossa grande preocupao foi
o estudo, o desenvolvimento psicolgico, intelectual, espiritual
de nossos filhos, o seu bom ajustamento
 vida e seu relacionamento com a sociedade. A adolescncia  a
fase em que se torna evidente o direito que os filhos tm de tomar
decises sobre o seu futuro.

Educar  assim. Educar  conduzir sem impor, sem forar, mas
conduzir atravs do apoio e com muita firmeza.

Passaram-se os anos de primeiro e segundo graus e chegou a poca
dos vestibulares. Alexandre, e depois Cristiano, decidiram-se pela
Medicina. Vestibular de Medicina
 um espantalho... mil apreenses.  de longe mesmo que se pode
apoiar, porque nessa hora os nossos filhos tm de ser eles mesmos
e tm de saber que precisam lutar
para conseguir o que querem. Apesar da inteligncia, o esfor-

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o e a persistncia so imprescindveis para se galgar os degraus
da vida e de uma profisso. Resolveram estudar e, com a graa de
Deus, ambos entraram para a Faculdade de Medicina.

As meninas entraram para a faculdade em 1976. Dorininha decidiu
que queria fazer Turismo na rea de hotelaria; Denise decidiu-se
por Direito, cursou um ano, viu
que no era bem aquilo que queria, fez Magistrio e depois
especializao em pr-primrio.

Kiko entrou em Comunicaes e optou por Jornalismo.

Alex e eu sempre achamos salutar que os meninos e as meninas
tivessem um trabalho formal enquanto estudavam, mesmo que fosse de
poucas horas. Cada um procurou um
servio de acordo com seus interesses e aptides. As meninas
fizeram testes para a Varig, foram contratadas e entraram para o
servio interno. Kiko tem muito jeito
para o comrcio e dedicou-se a isso.

Depois da Revoluo de 1964, nosso pas enfrentou uma situao
poltica de falta das garantias democrticas e o Congresso foi
fechado. O Brasil passou por tudo durante
quase 20 anos. Infiltraes de diferentes ideologias polticas,
radicalismos de todas as formas, terrorismo, represses e como
sempre aconteceu na histria atravs
dos tempos, os movimentos estudantis.

Jovens, principalmente os estudantes universitrios, manifestaram-
se da forma que era possvel, aliada  distribuio de panfletos,
publicaes consideradas clandestinas
naquela poca. Um clima bastante agitado nas Faculdades, sobretudo
nas Faculdades de Sociologia, Poltica e Direito.

As guerrilhas contriburam para uma inquietao permanente, e este
clima de insegurana perdurou por vrios anos. Nas Universidades
este clima era sentido mais
de perto porque a intelectualidade brasileira, em razovel
proporo, era inconformada com a situao que o pas atravessava.

As prises e os exlios afetaram muitas famlias e muitos
professores das Universidades deixaram o pas, foram para o Chile,
Frana, e alguns para os EUA. Penso
que para eles esta experincia foi dolorosa, mas tambm foi vlida
porque graas a Deus, no Brasil, os radicalismos de qualquer forma
no tm um longo perodo de
durao. Toda a manifestao artstica sofria a influncia da
difcil situao poltica que no podia ser discutida livremente
devido  censura da imprensa falada, escrita e televisionada,
imposta a todas as formas de comunicao. Foram produzidos muitos
movimentos para uma abertura e como gover-

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nantes e governados j estavam cansados com o clima que prevalecia
no pas, a vida nacional tomou um novo rumo.

Felizmente, o governo Geisel trouxe a esperada abertura para os
partidos polticos. Embora reduzidos a dois, propiciaram o incio
da democratizao. O movimento das Diretas J liderado por Ulisses
Guimares e a conquista da Anistia devolveram ao pas, sem
derramamento de sangue, a vida democrtica.

FELLOWSHIP

Alexandre foi o primeiro a ir, em 1969. Ele se inscreveu num
programa de "Fellowship" para ir aos EUA, de acordo com o que se
fazia na poca. Eram grupos de brasileiros
que iam para os EUA, ficavam em casa de uma famlia americana,
freqentavam uma escola, com a finalidade de fazer intercmbio
entre os dois pases para um melhor conhecimento entre os povos e
ao mesmo tempo para o aprendizado da lngua, j que eles teriam de
conviver praticamente s com americanos.

Havia toda uma preparao: os jovens tinham de apresentar seus
currculos que iam para uma comisso nos EUA. Essa comisso
procurava uma famlia onde houvesse tambm
jovens para eles conviverem. Criava-se muita ansiedade enquanto ia
e voltava toda essa correspondncia, mas muitos brasileiros
tomaram parte nesse tipo de programa.

Alexandre foi para um lugar perto de Nova Iorque. No caso de
Alexandre, no foi uma famlia ideal, porque a me trabalhava
muito e eles enfrentavam muitas dificuldades
financeiras. Estranharam muito que ele tomasse banho todos os dias
e ns nos divertamos aqui com as notcias. Alexandre gostava de
tomar longos banhos e os banheiros
dos EUA, principalmente em casas mais modestas, eram bastante
rudimentares e se ele no tomasse cuidado, a gua no escorria com
facilidade e inundava o banheiro.

Em contrapartida, recebemos depois um jovem americano. A nossa
experincia foi muito interessante. O jovem indicado para ficar em
nossa casa chamava-se Barney Sheppard
Rush. Ficamos sabendo que ele era um dos jovens considerados de
mais alto nvel de escolaridade e inteligncia. A famlia de
Barney era de classe mdia; o pai era
um ilustrador de livros, fazia fotografias para livros escolares.
A me trabalhava numa biblioteca e ele tinha uma irm. Barney
ultrapassou todas as expectativas.
Ele aproveitou integralmente a sua estada no

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Brasil, adorou a viagem. Demos-lhe oportunidades de conhecer as
cidades histricas brasileiras.

Cristiano iria viajar tambm atravs de "Fellowship", mas Bill
Dobelli, que tinha estado em So Paulo durante a V Assemblia
Geral ofereceu-lhe uma bolsa de trs meses
e Cristiano foi para Salt Lake City. Estava no segundo ano de
Medicina. Uma vida bastante dura porque a cidade era controlada
pelos Mrmons, at para tomar coca-cola
tinha de ser escondido. Treinou bastante, aproveitou, fez muita
cirurgia experimental com gatos. Ele tinha experincia em
instrumentao.

A princpio tudo foi difcil. A vida muito rgida, mas depois ele
aproveitou muito. Queriam que ele estudasse Medicina l, mas o
corao o fez voltar, fez com que ele no aceitasse.

Dorininha foi com um grupo para Londres atravs do International
Council for Contact. Era um grupo de jovens que desejava fazer um
curso de ingls. O curso era dado
em Croydon, perto de Londres. Ficou na casa de uma famlia em que
a dona da casa costurava para fora e morava com os pais. O velho,
pai da dona da casa, fabricava
vinho. Tinham independncia, pois eram jovens com mais de 18 anos.
Dollie minha cunhada, havia feito uma carteira de ttulos para
Dorininha, umas aes para que ela aos 18 anos pudesse fazer uma
viagem, e foi o que ela fez. Foi um presente da tia e madrinha.
Aproveitou muito, aprendeu ingls, divertiu-se e ficou realmente
muito amiga do casal que a hospedou. Denise
no se interessou pelos programas de intercmbio, embora gostasse
muito de viajar. Isso se tornou possvel quando comeou a
trabalhar e quando me acompanhava em reunies e congressos.

Kiko tambm foi numa "Fellowship", mas foi quem teve menos
oportunidades. Ele ficou numa famlia de poucos recursos e o jovem
da famlia era
muito problemtico, o que dificultou o relacionamento entre eles.

Ficamos muito desiludidos com o programa porque espervamos que a
seleo das famlias fosse feita procurando condies razoveis
para a permanncia dos estudantes. De qualquer forma, a
experincia foi vlida.

Kiko no gostava muito de escrever, mas nessa poca acabou
escrevendo longas cartas em ingls para ns, certamente inspirado
pelas dificuldades que estava encontrando.

Acho vlidas todas as diferentes formas de intercmbio.

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Barney, o nosso filho americano, encantou-se com o Brasil, tirou
fotografias para que seu pai ilustrasse livros didticos. Aprendeu
muito bem o portugus. Continuou nos
escrevendo durante bastante tempo, contando seus progressos, sua
possvel entrada para o MIT - Massachussets Institute of
Technology onde queria fazer os seus cursos e depois foi trabalhar
com um senador em Washington, como assistente.

Todas estas experincias so vlidas e precisamos saber que, em
determinado momento, os filhos pertencem ao mundo onde ns os
colocamos. Eles tm necessidade de ter
suas prprias experincias e se tornar independentes. Cabe aqui a
frase de M. Hillard que li quando meus filhos eram pequeno "A
nica forma de manter o amor e o calor
de um filho  coloc-lo sobre seus. prprios ps, quando ele
estiver em condies, e deixar que siga s". O dia em que eles
comeam a andar sozinhos, comea a sua
independncia. Cabe-nos seguir, rezar, orientar, amparar,
compreender e apoiar.

BODAS DE PRATA

No ano de 1975 ocorreram importantes acontecimentos na minha vida
profisional. Muitas surpresas e atividades inesperadas, tudo muito
revigorante e benfico para
o desenvolvimento na rea de educao, de reabilitao e de
participao em programas da coletividade, tanto nacional quanto
internacional.

Alex e eu celebramos as Bodas de Prata. Havamos planejado fazer
uma viagem com os cinco filhos ao interior do Brasil, e estvamos
selecionando excurses e programas
para sairmos no fim de janeiro e passarmos o de fevereiro
viajando. Antes faramos, como sempre, rezar uma missa de Ao de
Graas aqui em So Paulo.

Recebi a convocao para a reunio da Diretoria do Conselho
Mundial em Moscou. Alex e eu decidimos que iramos  reunio em
Moscou nos ltimos dias de janeiro de
1975. Alex ento props que na volta de Moscou, fossemos  Frana
com o propsito de estar no dia l em Lourdes, onde procuraramos
conseguir que fosse rezada uma
missa, a nossa missa de Bodas de Prata. Fiquei encantada com a
idia. Alex sempre se entusiasmou para me levar aos santurios.

Em Moscou, como sempre, tivemos todo o apoio do Ministrio das
Relaes Exteriores do Brasil; fomos recebidos no aeroporto por
representantes da Embaixada.

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O Ministrio das Relaes Exteriores reconhece a importncia desse
apoio para os brasileiros que ocupam cargos em organismos
consultivos junto  ONU, como era o
caso do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos. Durante meu
trabalho internacional sempre tive esse apoio magnfico do
Ministrio das Relaes Exteriores do
Brasil e dos embaixadores que conheci.

Ficamos hospedados no mesmo hotel que a associao de cegos local
reservava para seus hspedes, o Ucrnia.  um hotel imenso que ns
j conhecamos. Fomos recebidos
pelo prprio Bons Zimim, que disse da grande e agradvel surpresa
que teve por eu ter me prontificado a ir  reunio e o quanto eu
estava colaborando para que a
sua gesto fosse um sucesso. Isso o deixou muito feliz - ele tinha
receio de que eu tivesse ficado aborrecida por ter perdido a
eleio em 1974. Eu me diverti muito
com a idia, nem me passou pela cabea ficar aborrecida. Perder
uma eleio nada quer dizer, mais importante era poder colaborar.

Nessa reunio, o Presidente Boris anunciou que haveria um evento
muito importante em junho no Mxico, aconteceria a Conferncia da
ONU para o Ano Internacional da Mulher. Todos os diretores achavam
que seria muito importante que uma mulher cega participasse dessa
conferncia. O Conselho Mundial poderia
participar como observador, como organizao no-governamental,
devido a seu status consultivo junto  ONU. O importante, porm,
seria que houvesse uma delegada cega e eles propuseram que eu
procurasse obter no Brasil esta delegao para que pudesse
participar, como membro da delegao brasileira.

Durante a reunio, ficou estabelecido tambm que se deveria fazer
uma conferncia internacional sobre a situao da mulher cega no
mundo e eu fui eleita co-presidente, com Fatima Shah, do
Paquisto, que nessa poca era presidente da Federao
Internacional de Cegos e uma mulher proeminente na sia.
Ns duas fomos encarregadas de organizar a conferncia
internacional sobre a mulher cega e ficou decidido que seria em
Belgrado, no fim do ano de 1975.

Sa de Moscou com duas atribuies tremendamente difceis e
complicadas, como muitas vezes me aconteceu. Parece que eu tenho
um m para tudo aquilo que seja
promover unio, unificao. Fomos ns, as mulheres, que realizamos
o primeiro congresso conjunto que reuniu o Conselho Mundial para o
Bem-Estar dos Cegos e a Federao Internacional de Cegos. Fatima
Shah e eu realmente no tnhamos qualquer problema em trabalhar
juntas. O que nos interessava era a
situao da mulher cega, respeitando cada uma a organizao que
representava. Foi quando eu tive a oportunidade de trabalhar no
primeiro movimento de cooperao
e de unio entre as duas organizaes internacionais, at

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ento com os mesmos objetivos, mas separadas e s vezes dando a
impresso at de que havia competio entre elas.

 verdade que alguns membros no se aceitavam mesmo e no tinham
condies de trabalhar em conjunto. Era preciso vencer esses
obstculos. Ns duas tivemos a honra e a felicidade de ter em mos
essa primeira oportunidade.

A outra tarefa era bem difcil tambm - conseguir que o governo
brasileiro me nomeasse delegada oficial do Brasil na Conferncia
do Ano Internacional da Mulher da ONU.

De Moscou fomos para Paris e imediatamente para o Santurio de
Lourdes. L chegamos num dia de chuva, muito frio, em 31 de
janeiro. Dia l de fevereiro era o nosso
aniversrio de casamento. Logo ao chegar ao santurio deixamos as
malas no hotel e apesar da chuvinha que caa, samos para conhecer
o parque e aquele imenso lugar santo. Haviam me informado que um
grupo de peregrinos irlandeses iam celebrar uma missa numa
determinada capela. Para l nos dirigimos.
Havia relativamente pouco movimento porque era inverno e no era
um tempo adequado para peregrinaes. Estvamos subindo uma srie
de escadas, conversando Alex e
eu, quando passou na nossa frente um jesuta. Subiu as escadas e
sbito parou, voltou-se e nos perguntou se ramos brasileiros.
Disse que era um jesuta do Rio Grande
do Sul. Contamos a ele que estvamos l para celebrar nossas Bodas
de Prata e desejvamos mandar rezar uma missa no dia 1. Ele
imediatamente disse: "Eu vou rezar
esta missa amanh na gruta de Nossa Senhora de Lourdes. Estejam de
manh l, s 9 horas. Vou convidar um grupo de jovens brasileiras
e portuguesas que aqui esto
fazendo um curso de religio de alto nvel".

Assistimos a missa dos irlandeses naquele dia e voltamos para o
hotel. No dia 1 um dia mais agradvel, embora muito frio, fomos
assistir  missa. Para nossa surpresa
foi na gruta, bem no lugar do milagre quando Nossa Senhora
apareceu para Bernadete. O padre abriu a portinhola onde corre a
gua da fonte, me fez pr a mo na gua.
L recebi tambm rosas vermelhas, de minha predileo. A missa foi
muito singela. ramos poucos, haviam freiras e o grupo de
estudantes que entoou cnticos, bem
pouca gente. O padre benzeu as nossas alianas. Mais uma vez a
Divina Providncia nos guiou e nos deu como prmio uma missa de
Bodas de Prata to inesperada e to comovente.

Depois fomos ver os arquivos de Lourdes sobre os milagres. Durante
o dia andamos bastante por l, rezamos em vrias capelas, vimos
tudo o que era possvel. O milagre
de Lourdes tem uma coincidncia com o meu nome - o nome das flores
que Nossa Senhora mandou Bernadete comer  dorina. Lendo os
arquivos do milagre de Lourdes, outra
coincidncia: o dia do milagre - 25 de fevereiro - que  a data do
aniversrio de Alex.

pag:160

ANO INTERNACIONAL DA MULHER

Chegando ao Brasil comeou o trabalho. Ter de obter a nomeao do
Presidente da Repblica para eu poder ser membro da delegao
brasileira na Conferncia do Ano
Internacional da Mulher da ONU. Eu no imaginava o que isso
significava. Seria realizada a Conferncia Geral da ONU e
concomitantemente o Frum do qual todas as
organizaes no-governamentais participavam. Eu, como vice-
presidente do Mundial, poderia assistir  prpria conferncia da
ONU na qualidade de observadora, mas
o desafio havia sido feito e eu tinha de conseguir uma nomeao
para que uma mulher cega participasse da prpria Conferncia da
ONU no Mxico, na qualidade de delegada
do pas. A Fundao se ps em campo, toda a diretoria procurando e
falando com pessoas conhecidas e eu em contato com as organizaes
femininas e organizaes de
deficientes para conseguir do governo a necessria nomeao como
delegada do Brasil. Fui muito feliz nesses contatos com a Unio
Cvica Feminina, a Associao Cvica,
a Unio 19 de Maro, enfim, todas as organizaes onde havia
grupos de mulheres, Ligas das
Senhoras Catlicas e Federao Brasileira para o Progresso
Feminino, mas principalmente as organizaes cvicas. Elas se
prontificaram a tomar as providncias necessrias
para sugerir o meu nome ao governo federal. Fiquei sabendo como se
compunham as delegaes para as conferncias da ONU. Cada pas tem
direito a trs delegadas. As
delegaes eram compostas, em sua grande maioria, por diplomatas.
Apenas as trs delegadas tinham direito  palavra e ao voto na
plenria e nas reunies do plano
de ao. Para minha grande surpresa fui nomeada pelo Decreto
Presidencial de 30/05/1975 uma das trs delegadas. Acho que isso
foi o resultado do movimento das muitas
organizaes cvicas, das organizaes de cegos do Brasil, de
pessoas de destaque que conheciam a Fundao e autoridades do
estado. Foi um orgulho para mim.

Como seria essa conferncia? O que eu teria de fazer? Chegou o dia
em que as trs delegadas foram convidadas para uma reunio no
Ministrio das Relaes Exteriores
com o Embaixador Baena Soares, depois Secretrio Geral da OEA. Eu
tinha uma boa experincia, o Mundial me havia dado uma vivncia
extraordinria de comportamento
parlamentar; j havia assistido a outro congresso da ONU, sabia
como  que funcionava o plano de ao, sabia como um pas podia
propor projetos de resoluo.

Chegando na reunio, conheci as duas outras delegadas: Maria Alice
Silva, que era Secretria Geral do Ministrio do Trabalho,
procuradora do Trabalho, uma moa
muito inteligente e muito competente. E a outra era um verdadeiro
luminar: nada mais nada menos do que Bertha Lutz, a mulher que
participou da reunio da ONU quando
a ONU foi instituda e conseguiu integrar na carta

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da ONU a consignao do item da eliminao da discriminao em
relao  mulher. Ela foi uma das que mais trabalhou para
conseguir que a mulher brasileira pudesse
votar. Dra. Bertha Lutz foi uma figura mpar no que concerne aos
direitos da mulher.

Nessa reunio achei Dra. Bertha um pouco reticente em relao 
minha presena na delegao; e no meio da reunio, foi explicado
qual deveria ser a nossa participao
durante a conferncia. Cada uma de ns teria junto de si uma
diplomata de carreira. S poderamos falar o que fosse aprovado
pelo Ministrio das Relaes Exteriores,
pela Embaixada do Brasil no Mxico e pelo Presidente da Repblica,
porque no poderamos falar do pas sem que o pas aprovasse o que
iramos dizer. Foram-nos entregues
todos os documentos. Toda conferncia da ONU tem um documento
preparado por uma equipe super especializada contendo um prembulo
e uma centena de itens sobre os
assuntos que devem ser debatidos para que se componha o plano de
ao. Este  um resumo muito simplificado de todo o procedimento.

No havia neste documento nada referente  mulher deficiente.
Perguntei ao Embaixador Baena Soares se eu poderia fazer uma
proposta de projeto de resoluo sobre
a situao da mulher deficiente no mundo para o Brasil apresentar.
O Embaixador estranhou um pouco e disse: "Muito bem, a senhora
pode preparar e levar o documento.
Ele ser estudado l na Embaixada pelos diplomatas, vamos ver se
pode ser aprovado. Precisa haver, um estudo para que o pas
proponha, mas que tenha apoio dos outros
pases.  preciso que haja o apoio e por isso  necessrio que
seja cuidadosamente estudado. Eu no sei se a senhora vai
conseguir, mas leve a sua proposta de resoluo".
Eu fiquei muito satisfeita, gostei muito da reunio. Dra. Bertha
nada falou em relao  minha proposta. Fiquei quieta na reunio
porque estava aprendendo com uma
mulher que era uma grande lder. Dra. Bertha era a maior expresso
do movimento em favor da mulher brasileira. Nessa reunio tomei
conhecimento da sua grande capacidade.
Era uma senhora bem idosa, mas muito decidida, muito firme e
falava muito bem.

Voltei para So Paulo e com a minha equipe preparei o meu projeto.
Foi decidido que Denise, minha filha, me acompanharia ao Mxico.
Para ela foi uma beleza, uma
menina, uma mocinha, assistir a uma coisa to maravilhosa como era
uma conferncia da ONU. Fomos para o Mxico, ficamos no hotel onde
ficaram as outras duas delegadas,
tivemos uma excelente acolhida da Embaixada Brasileira. Fomos 
Embaixada onde recebemos toda a orientao. As diplomatas que nos
assessoraram foram: Marlia Sandemberg,
Anunciata Salgado Santos e Vera Lcia Barranin Crizano Machado,
que nos deram uma excelente colaborao.

A Delegao Brasileira da Conferncia estava assim constituda:
Chefe da Delegao: Embaixador do Brasil no Mxico, Dr. Lauro
Escorel Rodrigues de

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Moraes. Delegadas: Dra. Bertha Lutz - Pres. da Federao
Brasileira do Progresso Feminino, Profa. Dorina de Gouva Nowill -
Pres. da Fundao para o Livro do Cego
no Brasil, Maria Alice Silva - Secretria Geral do Ministrio do
Trabalho. Deixei na embaixada a minha proposta para ser estudada.
A conferncia foi instalada no
dia 9 de junho de l975 no Palcio do Congresso do Ministrio de
Relaes Exteriores do Mxico - Cidade do Mxico. Denise assistiu
a tudo sentada a uma distncia
que eu pudesse cham-la a qualquer momento. Tive a felicidade de
encontrar a minha amiga do Senegal, a princesa que tinha estado no
Brasil. Na delegao do Senegal todas
estavam vestidas com requinte, com todas aquelas trancinhas, mil
adereos e sempre com carros a sua disposio. Ns tnhamos s um,
era um carro timo, apenas um
para todas ns. Ento s vezes tnhamos de esperar, a Embaixada do
Brasil no tinha tanta disponibilidade. As africanas tinham todas
as facilidades proporcionadas
por suas respectivas embaixadas As indianas, todas vestidas a
carter, j estavam acostumadas com as reunies do Mundial que era
uma miniatura de uma grande conferncia como esta.

Era interessantssimo. De repente, estvamos no plenrio.
Assistimos todas as mulheres importantes que falaram. Uma Ministra
da Frana foi a que mais me impressionou.
Falou sobre a importncia da educao da mulher, afirmou que a
ignorncia e a falta de informaes so as principais causas que
levam muitas jovens  prostituio
e aos abortos resultantes de gravidez indesejadas. Tudo falta de
informao negada a essas jovens. A Ministra enfocou esse problema
de forma magistral. Foi deslumbrante
assistir tambm  apresentao da sra. Anuar Sadad com toda a
pompa da mulher de um grande presidente. Em contraposio, a
mulher do Presidente das Filipinas, com seu vestido longo florido
defendeu o direito das mulheres do campo.

Quando apareciam as mulheres dos presidentes dos pases rabes, as
israelitas se retiravam do plenrio e vice-versa. Denise as seguiu
e viu que iam para uma outra sala, assistir pela televiso.

Em relao s africanas, s indianas, mesmo s latino-americanas,
o documento da conferncia chegava a ser chocante, O direito de
vida que o marido tinha sobre a
mulher adltera naquela poca, na prpria Venezuela e em outros
pases, era uma realidade e foi discutido nessa ocasio.

Fui designada para o grupo do Plano de Ao. Dra. Bertha, que
ficava bastante no plenrio, vinha sempre que podia para o nosso
grupo. O grupo de Plano de Ao analisou
centenas de tpicos do documento da conferncia para estabelecer o
devido plano de ao para os anos vindouros. Fui autorizada a
apresentar o meu projeto de resoluo, em nome da delegao
brasileira. Quando eu usei da palavra Denise, que estava sentada
atrs, disse que todos os olhares
das pessoas presentes viraram-se para mim, com surpresa porque eu
tinha em e minhas mos anotaes em braille. A diplomata estava ao
meu lado, acompa-

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nhando o texto. Falei exatamente o que estava no papel. Pude fazer
a exposio sobre a importncia de que fosse reconhecida a
necessidade da eliminao da discriminao
para um grupo de mulheres do mundo que eram mais discriminadas,
por serem mulheres deficientes, mas que tinham tanto direito
quanto quaisquer outras - salientei a importncia desse
reconhecimento. Se nos paises
industrializados ainda havia dificuldades, tanto pior a situao
nos pases em desenvolvimento.

Dra. Bertha tomou a palavra e defendeu o meu projeto de resoluo,
com toda a capacidade, vibrao e o peso de suas palavras. Poucas
mulheres no mundo receberam
homenagens que Bertha Lutz, uma brasileira, recebeu durante aquela
conferncia. O projeto de resoluo sobre mulheres deficientes
apresentado pela Delegao Brasileira
foi aprovado por unanimidade e faz parte do
Plano de Ao, transformado na Resoluo XIV, item 11 (Documento
L-78-U.N.- Conferncia Internacional da Mulher).

Durante a conferncia, passou-se um fato muito interessante em
relao a Dra. Bertha Lutz. No incio ela era muito reservada em
relao a mim. A delegao recebia
convites e a Embaixada Brasileira indicava quem deveria participar
de coquetis oferecidos pelas outras Embaixadas. Num desses
coquetis fomos, Denise, eu e Dra.
Bertha Lutz, que ia a quase todos. Quando fomos descer as escadas,
percebi que Dra. Bertha no estava vendo bem, pedi licena a Dra.
Bertha para que Denise a ajudasse.
Disse: "Eu fico de um lado dela e a senhora do outro, para que ela
nos ajude nessa escadaria enorme que temos de descer". Ela relutou
mas aceitou. Da por diante comeou a conversar mais comigo.

Depois que eu apresentei o meu projeto de resoluo Dra. Bertha um
dia me convidou para almoar. Durante o almoo conversamos muito
sobre os problemas da mulher
brasileira. Discutimos muito sobre a importncia da educao e a
informao na vida da mulher e ela, muito cerimoniosa, me disse:
"Eu queria que a senhora soubesse
que quando a senhora foi indicada para ser representante do
Brasil, eu fiquei revoltada. Com tanta mulher no Brasil capaz,
inteligente, para defender os pontos de
vista da mulher brasileira, indicam justamente uma moa cega,
quando ns s temos trs lugares na Delegao. O que ela poder
fazer numa Conferncia deste nvel?".
Dra. Bertha acrescentou muito humildemente:
"Eu quero lhe pedir desculpas, porque hoje reconheo que a sua
indicao foi providencial e que a senhora pde fazer muito mais
do que muita gente que poderia ter
vindo, inclusive a senhora conseguiu apresentar um projeto de
resoluo em nome de nosso pas e este projeto foi aprovado por
unanimidade pelo grupo de Plano de Ao".

Ficamos muito amigas e eu fiquei feliz de ser brasileira quando vi
quantas homenagens Dra. Bertha Lutz recebeu de delegaes de todos
os pases do

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mundo, um reconhecimento enorme pelo que soube fazer pela mulher
brasileira e pelas mulheres do mundo inteiro. Foi uma das
personalidades que eu aprendi a respeitar e admirar.

Eu fui a nica delegada deficiente de toda a conferncia. Havia um
representante masculino numa das delegaes que tinha problema de
locomoo. Durante todo o tempo
houve situaes interessantes, algumas at pitorescas. Havia uma
srie de telefones para que as delegadas consultassem seus pases
sobre posies a serem adotadas
e muitas vezes ficavam esperando as respostas. Uma agitao, um
movimento, eram centenas de pessoas. De vez em quando as
feministas faziam protestos na porta, e
ns saamos para assistir os protestos das feministas,
principalmente uma grande feminista norte-americana Betty Friedman
e todo o seu grupo. A maioria delas estava
no Frum que estava se realizando ao mesmo tempo, mas todas
protestavam em frente ao Palcio do Congresso, onde se realizou a
conferncia.

Foram 15 dias de trabalho que ia, s vezes at meia-noite. As
conferncias da ONU das quais participei e tambm as que assisti
na qualidade de observadora, junto
ao grupo das Organizaes No-Governamentais foram para mim
verdadeiros cursos de poltica internacional. Ampliei meus
conhecimentos sobre regras parlamentares e
planos de ao. Foi um aprendizado fora de srie que jamais
poderia ter tido sem ter participado destas conferncias. Confesso
que as assisti com o maior entusiasmo
e interesse, nunca faltando a qualquer reunio, participando
integralmente dos grupos de discusso, procurando contribuir,
porque a contribuio do Brasil era a que eu levava em mim mesma.

Esses congressos eram um pouco cansativos, mas deixaram at hoje
uma ponta de saudade.

1975 foi um ano realmente muito complicado no que se relacionou a
congressos. Em janeiro, durante a reunio da Comisso Executiva do
Conselho Mundial, havia ficado estabelecido que eu deveria, em co-
presidncia com Fatima Shah, organizar o Congresso sobre a
Situao da Mulher Cega, a realizar-se em
Belgrado na Iugoslvia. Foi organizado para este evento um
programa a fim de dar as mesmas oportunidades s mulheres de todos
os nveis e graus de desenvolvimento. Fatima Shah foi sempre uma
grande lder dos pases asiticos e com
muita influncia tambm nos pases da frica. Sendo do Paquisto,
ela conhecia profundamente o problema das mulheres dessa regio,
onde os diferentes tipos
de religio, principalmente da muulmana, aliada ao
subdesenvolvimento de quase todas estas reas, concorria para que
a discriminao em relao  mulher fosse muito
maior. As meninas cegas no freqentavam a escola porque os filhos
vares tm prioridade, eles representam recursos na economia da
famlia, uma vez que podem trabalhar.
Se as meninas andassem sozinhas nas ruas para ir a escola, seriam
consideradas prostitutas. Isto era uma realidade em vrios pases

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da sia. Na Legislao no havia abertura de forma alguma e as
oportunidades de educao e de trabalho eram mnimas, ento o
nosso programa teve como finalidade
trazer o testemunho destas jovens da sia e da frica para o
congresso, a fim de que este problema pudesse ser discutido com as
mulheres cegas de outras regies
do mundo. Esse tipo de tratamento do problema visava tambm a
apresentao de solues que pudessem ser pleiteadas pelas
participantes junto a seus governos quando
de volta a seus pases.

O programa foi elaborado para dar chance nos grupos de discusso,
para que estes problemas viessem  tona, trazidos pelas prprias
mulheres cegas das diferentes
regies. As que participaram sabiam pelo menos um pouco de ingls,
mas assim mesmo poucas tinham tido uma opo de formao
profissional, e no tinham sido expostas
s oportunidades de trabalho. A independncia atravs da
reabilitao tambm era de certa forma desconhecida. Poucas tinham
experincia na tcnica da bengala longa
e em outras atividades de reabilitao.

O congresso desenvolveu-se muito bem, todas as participantes
aproveitaram bastante, os resultados foram excelentes e ficou
proposto um novo congresso que a Dra
Ftima Shah procuraria que fosse realizado no Ir, nos prximos
cinco anos. Dra. Ftima Shah poderia conseguir do X da Prsia,
Reza Palhevi, que financiasse o congresso.
Alm disso estava sendo criado no Ir o Instituto da Mulher.

Fui ao Congresso de Belgrado com Olmpia e Jurema. Fomos por
Londres, onde visitamos vrias Organizaes de Cegos,
principalmente o Royal National Institute. Fizemos
alguns programas s dentro de Londres, porque o tempo era muito
escasso.

Estas viagens para participar de congressos, seminrios ou
reunies, tinham tambm seus aspectos culturais, s vezes
pitorescos, e o conhecimento das autoridades
locais. Em quase todas havia a participao de Ministros de
Educao, de Bem-Estar Social, escritores, autoridades locais,
alm dos embaixadores brasileiros com
quem sempre tivemos oportunidade de ter entrevistas. Por exemplo
no Mxico houve uma linda recepo para as delegadas na casa do
Embaixador Brasileiro no Mxico,
Lauro Escore. Uma casa belssima, com objetos no s brasileiros,
mas mexicanos.

MEU PAI

Em 1976 eu j tinha praticamente quatro filhos na faculdade e Kiko
estudando e se preparando tambm para fazer exame vestibular. Foi
quando meu pai

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adoeceu, com 91 anos. Depois que me mudei para o Alto de
Pinheiros, procurei fazer papai morar em nossa casa. Havamos
planejado uma reforma para que ele pudesse
morar conosco. Desde que mame morreu ele ficou sozinho, eu
passava por sua casa para v-lo todos os dias. Toda a semana ele
almoava conosco. Durante um certo tempo
como experincia, ele morou conosco e tinha o seu prprio carro
com motorista. Mas a minha vida no mudou, continuei trabalhando,
saindo bastante e um belo dia
quando cheguei, Luzia me disse que papai tinha ido embora. Eu
fiquei muito assustada. Ele tomou o carro e voltou para sua casa.
Disse que para ficar com as minhas
empregadas o dia inteiro, ele ficava com a dele.

Eu tinha ido para a praia das Cigarras com os meninos, em 1976 no
ms de julho, quando mandaram me chamar no dia 26 - papai estava
passando muito mal. Voltei para
So Paulo com a noiva de Cristiano que estava comigo, e com alguns
dos meninos. Vim imediatamente, mas infelizmente, papai j tinha
falecido. Ele morreu durante
 noite. Deve ter tido um derrame, morreu na cama, mas a sua
fisionomia estava tranqila. Morreu placidamente, sem dar
trabalho, como viveu. A medida que os anos
passam sentimos mais falta de nossos pais. No relato de minha vida
eles no so apenas lembrados, esto presentes pelo que
representaram em todos os momentos, em
todas as fases de minha existncia. Depois que eles se foram
permanecem nos exemplos que deixaram, na sabedoria de seus
conselhos, no esprito de justia que norteou
todas as suas atitudes e no amor que nos dedicaram.

ADESG

Os Ciclos da Escola Superior de Guerra tomaram vulto no Brasil e
eram realizados em diferentes estados. Os cursos funcionavam de
agosto a dezembro com aulas todas
as noites, muitas pessoas ambicionavam fazer. As autoridades
recomendavam as pessoas para admisso no ciclo, e a seleo dos
candidatos era bastante rigorosa. Poucas
mulheres haviam feito o ciclo aqui em So Paulo.

Em 1976 Alex e eu fomos inscritos no Ciclo da Escola Superior de
Guerra de So Paulo. ramos seis mulheres e os homens, a grande
maioria. Como o curso era intensivo,
o horrio devia ser cumprido rigorosamente, a disciplina era
militar. Quando as autoridades entravam todos se levantavam Cada
um podia escolher um nome de guerra
para chamada, para poder fazer suas apreciaes ou dar opinies
durante as discusses - o ambiente era excelente. Os participantes

pag:167

foram divididos em grupos para a realizao de um trabalho. O
trabalho do nosso grupo foi" Famlia". Aproveitei muito porque os
conferencistas foram do mais alto
nvel; ministros, grandes executivos, personalidades do exrcito,
da marinha, da aeronutica, representantes da sociedade civil,
sempre pessoas que conheciam profundamente os assuntos.

O ciclo me proporcionou uma nova viso do Brasil. A pujana da
indstria, a beleza da natureza e os problemas reais existentes em
nosso pas eram discutidos e tnhamos
toda a liberdade de contestar desde que soubssemos o que
pretendamos e tivssemos certeza das afirmaes que fazamos.

A nossa formatura foi solene, no Palcio dos Bandeirantes.
Nosso orador foi Murilo Macedo e depois tivemos uma grande festa
no Clube Militar. Fui oradora da turma durante o banquete. Fiquei
muito lisonjeada pela escolha,
procurei fazer o melhor possvel frente  difcil tarefa de falar
em nome de um grupo que inclua pessoas de alto nvel intelectual
e alto nvel de realizaes em
profisses liberais e em cargos executivos, civis, militares e
eclesisticos. Havia dois sacerdotes no nosso grupo. Fizemos
timas amizades, algumas delas duram
at hoje. De vez em quando nos encontramos em reunies, em
almoos, celebrando os aniversrios de nossa formatura.

O nosso foi o l8 Ciclo de Estudos da Escola Superior de Guerra e
celebrando os 25 anos de criao da Escola Superior de Guerra. A
experincia do ciclo ajudou-me na
tarefa que eu assumiria depois em 1979, quando fui eleita a
Presidente do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos.

Entre as minhas atividades na Amrica Latina fui  Guatemala, onde
se realizou uma reunio muito importante. Comeamos a estudar a
criao da Organizao Latino-Americana
para a Promoo Social dos Cegos. Foi um trabalho de unificao
dos grupos profissionais e organizaes existentes na regio.
Parece que o meu destino era mesmo
estar sempre presente na hora da unificao.

ORIENTE MDIO

Em 1977 fui pela primeira vez ao Oriente Mdio. Foi a reunio de
executivos na Arbia Saudita.

Nessa poca era mais fcil viajar e principalmente sairmos os
dois, Alex e eu. Os filhos j estavam moos, j estavam adiantados
em seus cursos na faculda-

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de, alguns com namoros mais definitivos. As meninas no, ainda
estavam passeando bastante com seu grupo de amigos, pensavam muito
em viajar.

Fomos muito bem recebidos pelo presidente do Comit do Oriente
Mdio, Abdulah-M-Al-Ghanim, nosso companheiro de trabalho e de
diretoria no Conselho Mundial, um lder dessa rea.

Abdulah tinha excelente situao financeira. Ofereceu um jantar
para os membros da Comisso Executiva do Conselho Mundial, em sua
casa, um verdadeiro palcio. Foi
lder durante muito tempo e realizou trabalho magnfico, desde
preveno da cegueira, at educao e reabilitao. Levantou a
situao dos pases do Oriente Mdio,
ningum lhe pode tirar esse valor.

Conhecendo melhor Abdulah, aprendemos a aceitar a sua maneira de
ser e vimos o quanto ele tinha de bondade e de interesse em
realizar seu trabalho, sua ambio de
ser presidente e de ter uma posio elevada no organismo
internacional.

A sesso solene de abertura foi realizada no auditrio do Hotel
Inter Continental, com a presena de ministros e representantes do
rei. Iniciou-se com a leitura
do Coro. Os trajes eram tpicos. Os jantares do Mundial eram
danantes na maior parte das vezes. Na Arbia Saudita era
proibido, no se podia danar.

Durante a reunio tivemos a oportunidade de ir ao palcio real
conhecer o Rei Fahed.

No Oriente tudo  diferente. Ns no ramos turistas, estvamos l
trabalhando, com representantes de vrios pases do Oriente Mdio
e por isso tivemos acesso a muitas informaes. Pudemos observar
comportamentos do povo que nem sempre o visitante de uma excurso
tem oportunidade de ver.

Na reunio no Oriente Mdio, entre outros assuntos j se cogitava
bastante do comit de ajuda aos pases em desenvolvimento. No
incio esse trabalho foi muito informal,
obtinha-se ajuda quando os dirigentes das organizaes doadoras
conheciam o trabalho dos pases em desenvolvimento e procuravam
colaborar. Aos poucos, as grandes
organizaes integraram-se nesse comit e a ajuda tomou um carter
mais profissional e mais eficiente.

Nessa reunio no Oriente Mdio as comisses diretoras da Federao
Internacional dos Cegos e do Conselho Mundial reuniram-se,
procurando melhor intercmbio e relacionamento.

pag:169

DIREITOS DO AUTOR

Entre as inmeras atividades que exerci uma das mais importantes
foi o trabalho que comeou em 1976 numa reunio da diretoria do
Mundial na Finlndia. Fui eleita
presidente do Comit de Cultura do Mundial. Esse comit precisava
ser organizado e minha funo era promover entendimento entre as
diferentes lnguas sobre as notaes
cientficas do sistema braille e a unificao de muitos dos
aspectos do sistema braille integral. Era preciso obter a incluso
de uma exceo s Convenes de Berna
e  Conveno Universal dos direitos autorais para as publicaes
feitas em braille e possivelmente para os livros gravados. Uma
tarefa realmente difcil que estava
ligada aos Direitos do Autor. Havia nessa rea, dois rgos, como
h at hoje, o Comit Intergovernamental de Direitos do Autor, que
 um organismo da UNESCO em
Paris, e a Organizao Mundial da Propriedade Intelectual, que
funciona em Genebra.

Fui diversas vezes s reunies desses rgos, tanto em Paris como
em Genebra. Tive a oportunidade de conhecer homens ilustres,
ministros, chefes de setores importantes
de diferentes pases do mundo, os representantes da Associao
Internacional do Direito do Autor e de outras organizaes
regionais. A grande maioria dos membros
era representante de pases e pude observar a realidade do que me
haviam dito, que era formada de advogados e pessoas altamente
credenciadas e muito bem pagas
para no permitir qualquer exceo em relao aos direitos de
autor. Houve um conselheiro do Itamaraty ligado a esse assunto,
que me disse na primeira reunio; "A
senhora vai ser lanada numa arena de lobos. A etapa mais difcil
ser convencer os ministros, os advogados, os representantes das
associaes de que  necessrio,
que h possibilidade de se conceder uma exceo para livros em
braille". Eu fiz vrios trabalhos, fui apoiada pelo Ministrio das
Relaes Exteriores, pela delegao
brasileira na UNESCO, pela delegao brasileira em Genebra, fui
orientada pelo professor Antnio Chaves, o ento reitor da
Universidade de So Paulo e presidente
da Organizao Latino-Americana dos Direitos de Autor. Fui a
reunies na Argentina, Paris, Genebra, enfim, de 1977 a 1984, tive
uma atividade muito intensa e essa
foi uma das razes que me fizeram sair do Brasil vrias vezes.

O Conselho Mundial era tambm ligado a IFLA - Federao
Internacional das Associaes de Bibliotecas. Durante muito tempo,
fui membro do grupo de bibliotecas para
cegos dessa associao, participei de inmeros congressos, sempre
pleiteando exceo s convenes de direitos do autor e sua
importncia para a livre autorizao
para produzir os livros para cegos. A nossa Fundao imprime os
livros e pede autorizao aos autores e s editoras, mas para cada
livro gravado, para cada livro
transcrito em braille,  preciso solicitar

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uma autorizao. Essa rotina poderia ser evitada com uma
legislao adequada nesse sentido, que fosse aceita pelas
associaes nacionais e internacionais de direitos de autor.

No centenrio de Helen Keller houve um importante congresso e uma
reunio em Boston, onde se discutiu bastante esse problema com
profissionais da Biblioteca do Congresso,
que eram membros do Comit de Cultura do Conselho Mundial.
Lamentavelmente, at hoje bem pouco se conseguiu. No Brasil j se
tentou legislao especfica, que presentemente
dever ser regulamentada.

Apreciei esse trabalho e sempre falei com muita veemncia durante
as reunies. Muitas vezes tive a certeza de que algum caminho j
se tinha aberto. A maioria dos
autores compreende e faz essas concesses, mas fora do Brasil j
houve para vrias imprensas braille, a negativa de editores para a
concesso dos direitos autorais.
No Brasil, tivemos tambm uma experincia com o pai de um
escritor, que se recusou a princpio a permitir a gravao do
livro de seu filho, tudo porm ficou resolvido
pelo prprio autor, que atendeu ao nosso pedido.

Os escritores so pessoas que tm o dever de preservar seus
direitos. Escrever  uma atividade que exige muito esforo
intelectual e muitas vezes mal
recompensada. Em vida, quantos escritores no conseguiram obter
sequer a satisfao de ver o valor de suas obras reconhecido e
muito menos usufruir dos recursos
financeiros que essas obras lhes poderiam ter proporcionado.
Compreendo a defesa das associaes de direitos do autor,
compreendo as defesas dos editores e dos
prprios autores. A produo em braille infelizmente  pequena.
Nem todos os livros publicados so transcritos em Braille. Alm
disso os livros em braille so produzidos sem fins lucrativos. So
cpias das edies a tinta, nada mais do que isso.

Conheci personalidades muito interessantes, pessoas de projeo e
de grande cultura como os presidentes, os diretores e secretrios
dos rgos internacionais, dos
representantes na UNESCO e na WIPO, World Intelectual Property
Organizations. Entre outras personalidades, conheci o Ministro
Joaquim Mc Dowel, representante do Brasil na UNESCO; Marie Claude
Dock, que era Diretora Executiva
do Comit Intergovernamental do Direito do Autor e o Presidente da
WIPO em Genebra, Claude Masony. Personalidades com as quais tive
a oportunidade de discutir os problemas da produo de livros para
cegos e interess-los por esse campo, at ento bastante
desconhecido e no considerado nessas organizaes internacionais.

Uma das minhas tarefas permanentes foi sempre fazer com que os
problemas das pessoas cegas, educao, reabilitao e cultura,
fossem considerados pelos organismos internacionais, nacionais e
locais. Os contatos para solues dos

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problemas de livros, assim como para os da sade e educao sempre
foram muito proveitosos para a Fundao para todos aqueles que
trabalhavam comigo e para o desenvolvimento
do trabalho em relao s pessoas cegas. Foi uma oportunidade
nica poder promover esse conhecimento, mostrar que as pessoas:
cegas existem, que seus direitos e suas necessidades precisam ser
levadas em considerao porque so membros da comunidade. Essa foi
uma das minhas tarefas na vida e
uma tarefa que amei e procurei realizar com o melhor de mim mesma.
No me refiro aqui a minha atuao pessoal, mas ao trabalho que
pude realizar, o que pude expressar nas minhas apresentaes
nessas reunies, nesses fruns de alto nvel.

Muitas das reunies desses comits especiais, eram antes ou depois
de outras reunies programadas e assim durante uma viagem,
participava sempre dos trabalhos dos
comits. As distncias eram pequenas, em poucas horas, ia de um
pas para outro e fiz sempre toda esta agenda muito movimentada,
embora a cada vez, no me ausentasse
muito longamente do Brasil. As vezes em dez, doze dias estava tudo
realizado.

Kiko viajou comigo para Braslia. Ele era muito pequenininho,
tinha quatro anos. Eu ia no avio Caravelle e ele entendeu que o
avio se chamava Cara Velho. As comissrias de bordo se divertiram
muito porque ele falava bem alto:
"O cara velho". Sentamos e o avio decolou. O vo era tranqilo.
Kiko estava bastante satisfeito e de repente me perguntou: "Este
cara velho est parado mame?".
O rapaz da tripulao que estava passando e ouviu a pergunta e a
minha resposta tranqilizadora, de que no havia perigo, disse:
"Minha senhora, at que seu filho
 muito gentil. Outro dia viajei com uma senhora com um filho
desse tamanho, que perguntou para a me: 'Mame, quando  que isto
vai cair?'"

Denise chorava todas as vezes que eu partia. Jamais fiz uma viagem
para qualquer lugar, principalmente se fosse demorar alguns dias,
que Denise no chorasse na
sada e na chegada, quando ia me buscar no aeroporto. Ela s no
chorava quando ia comigo, porque adorava viajar e aproveitava
muito. Uma companheira excelente,
haja visto a minha participao no Ano Internacional da Mulher, no
meio de todas aquelas autoridades, de vrios paises, todos
diplomatas. Ela, muito jovem, alm
de se divertir e de aprender muito, foi tima companhia.

Minhas duas filhas sempre foram excelentes companhias. Conheciam
todos os meus companheiros internacionais do Conselho Mundial, da
Associao Internacional de Educadores,
ajudavam nas reunies. As meninas ficaram muito conhecidas de
todos os membros das organizaes com as quais trabalhei durante
tantos anos. Elas podiam ler em ingls e francs para mim; os
trabalhos eram s

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vezes maantes para elas, mas faziam com a maior boa vontade.
Tinham muita experincia em acompanhar pessoas cegas, por isso
eram utilssimas nas reunies, ajudavam
a escrever cartas, enfim, tudo o que fazem os voluntrios durante
as reunies, onde h um grande nmero de pessoas cegas. No sei
como no se cansavam durante as
reunies tcnicas, que duravam horas. Colaboravam intensamente com
a Secretaria das reunies dos congressos. As vezes faziam compras
para os delegados cegos, que
no podiam sair das reunies, mas queriam levar alguma coisa para
as suas famlias. J conheciam mais ou menos o que cada um
preferia, sabiam que tinham de comprar
sempre pelo menor preo. Assim, participaram de todo esse trabalho
nacional e internacional, sem que isso lhes causasse qualquer
aborrecimento.

Nos congressos de assuntos mais especializados iam assessoras e
tcnicas da Fundao para que pudessem usufruir tambm dos
benefcios e dos conhecimentos que essas
viagens proporcionavam. Quase todas viajaram comigo por esse mundo
afora. Conheceram durante todos esses anos o trabalho em vrias
partes do mundo.

Alm disso, conhecer outros pases  sempre um beneficio para o
ser humano. Hoje em dia temos a facilidade da comunicao. Mas
apesar de tudo, o convvio com pessoas
de outras lnguas, de outros costumes, nos torna mais
compreensivos e nos permite julgar melhor o comportamento de
pessoas cujos costumes so bastante diferentes
dos nossos.

No era nada fcil, durante os congressos, acordava bem cedo para
estar s 7h00 j no caf da manh, onde havia sempre uma reunio.
Depois, ficar prestando ateno
durante horas, representando um pas e uma organizao. A
responsabilidade  enorme e eu tive a felicidade de contar com
assessoras, como Jurema, Teresinha, Olenka,
Ivete, Ana Cristina, Maria Felipe, Maria Cristina. As diretoras
tambm, principalmente Olmpia que foi a muitos congressos, se
adaptaram a esse sistema muito rgido
de reunies, de manh, de tarde, quase sempre de noite e muitas
reunies sociais, praticamente obrigatrias, que terminavam bem
tarde. Apesar de tudo, precisvamos levantar bem cedo no dia
seguinte.

Quando havia mais tempo, fazamos excurses, sempre depois que
terminavam os trabalhos. Alex era muito exigente nesse sentido,
ele podia pensar em fazer um passeio
ou ir a outro pas, desde que fosse depois que terminassem os
congressos. Nunca, em nenhuma hiptese, sa de uma sala de
reunies, deixando o lugar do Brasil vazio,
para ir a uma excurso, mesmo que me interessasse profundamente.
Conto com o respeito de todos os meus companheiros de Com-

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selho Mundial, hoje Unio Mundial de Cegos, e da Unio Latino-
Americana, pela maneira como agi, e da mesma forma meus
assessores.

Por essa razo, acredito na eficincia de reunies, de seminrios,
de congressos, porque h muita gente que tem a mesma atitude que
eu, meus assessores e minha
famlia, ao encarar a responsabilidade de representar o Brasil ou
a Fundao, em qualquer uma dessas circunstncias.

Em 1977 fui com Alexandre Eduardo ao Congresso do Comit do
Oriente Mdio, em Am, na Jordnia. Nessa conferncia foram
discutidos assuntos pertinentes e visitamos
instituies que eram bem diferentes das outras que j conhecamos
nos pases europeus e nas Amricas. H porm semelhanas nas
instituies de cegos de todos os
pases do mundo. O programa inclua uma representao com poesias
e danas; a princesa irm do Rei Husseim da Jordnia deu incio 
cerimnia.

Nessa oportunidade conhecemos um irmo do Rei Hussein, que o
representou em uma das sesses. Todas as pessoas da famlia real
foram educadas na Europa, falavam
ingls e francs muito bem, mas em reunies oficiais usavam a
lngua materna com traduo concomitante em vrias lnguas, de
acordo com o idioma dos participantes.

OS PRIMEIROS CASAMENTOS NA FAMLIA

Namoradas, namoradinhos houve vrios. Os mais velhos comearam a
se firmar nos seus namoros. Cristiano foi o primeiro a casar. Ele
namorou Serena, uma colega do
curso Objetivo, que fez Medicina Veterinria. Acho que Cristiano
fez muitas experincias como cirurgio at em Clnicas
Veterinrias, porque ele gostava mesmo de
cirurgia. Resolveram casar-se antes da formatura do curso de
Medicina, em dezembro de 1977, e depois fazer residncia.

Eu levei um grande susto antes do casamento de Cristiano.
Felizmente, sou uma pessoa bastante prevenida e gosto de planejar
e ter tudo pronto antes da hora. Por
isso j havia escolhido o vestido do casamento religioso - um
lindo vestido de crepe da China verde, e Janira, tia de Glauce,
uma pintora maravilhosa, pintou a  saia inteira do vestido em
plumas. O arranjo da cabea tambm foi providenciado, combinando
aigrettes e um paradis que foram de mame. Tudo

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preparado com antecedncia, porque eu tive de ir para uma reunio
do Comit Intergovernamental de Direitos do Autor na Frana.
Participei tranqilamente das reunies,
mas s Deus sabe o quanto eu estava ansiosa. Tinha que chegar a
So Paulo em tempo, mesmo porque o casamento civil seria em nossa
casa, e amos oferecer um jantar
aos pais, padrinhos e irmos dos noivos. No dia do embarque para o
Brasil acordamos com o rdio anunciando uma greve no aeroporto
Charles de Gaulle. Ficamos mais
um dia em Paris. Embora ansiosas, Olmpia aproveitou para me
descrever a Cidade-Luz engalanada para o Natal. Felizmente, alguns
servios da Varig voltaram a funcionar, e pude voltar ao Brasil.

Cheguei em tempo de tudo: preparar o jantar do casamento civil de
Cristiano, finalizar a roupa de todo mundo e deixar que tudo
ficasse bem arrumado.

Alexandre, quando era ainda bem jovem, teve uma namorada, Maria,
durante certo tempo. Terminaram o namoro e Maria foi estudar na
Itlia e casou-se com um italiano.
Ambos seguiram suas vidas. Alexandre estava namorando uma outra
jovem do mesmo grupo e assistiu ao casamento de Maria.

Quando eu voltei de viagem de Am com Alexandre, em 1977, soube
por Maria Clia que Maria, a ex-namorada dele, estava no Brasil e
tinha ficado viva. Incontinente,
isso  muito verdadeiro, eu pensei: "Os dois livres, se se
encontrarem, agora vai dar certo". Doille minha cunhada, tinha
vaticinado um dia, quando Maria era bem
mocinha e esteve com Alexandre em nossa casa: "Essa menina daria
uma tima mulher para Alexandre. Tomara que possam se casar".

Os amigos contaram para Alexandre que Maria havia voltado com uma
filhinha de dois anos e Alexandre foi visit-la. Maria estava se
preparando para fazer vestibular
para a faculdade de Direito, estava estudando bastante. Alexandre
se props a ajud-la em Matemtica. Maria Flora e Joo da Cruz
Vicente de Azevedo, pais de Maria,
quando souberam, se surpreenderam pois lembravam-se de Alexandre
quando ainda muito jovem.

Namoraram. Ficaram noivos e quando Alexandre se formou, marcaram o
casamento para dezembro de 1978. Alexandre tinha idias de estudar
no exterior, mas fez o seu
exame para residncia na vspera do casamento civil.

Oferecemos um jantar no dia do casamento civil em nossa casa, para
os pais, padrinhos e irmos.

O meu vestido era em tafet vermelho francs, com renda exatamente
do mesmo tom. O arranjo da cabea combinava e como era vero, a
sandlia de salto alto, como se
usava naquela poca com vestido longo, tambm do mesmo tom do
vestido.


pag:175

ASSOCIAES NACIONAIS E INTERNACIONAIS

Durante mais de 50 anos de trabalho que j tenho, pertenci a
vrias associaes, locais, nacionais, regionais e internacionais
em muitas reas, alm de meu prprio campo de trabalho.

Uma dessas organizaes  a Federao das Obras Sociais do Estado
de So Paulo, a FOS. A FOS nasceu depois de uma campanha feita em
So Paulo que se chamou a campanha
do "FAZ". Foi nos anos 60 e dela participamos integralmente, eu e
os diretores e profissionais da Fundao. Foi um movimento para
reunir as obras sociais do Estado
de So Paulo. A maioria das organizaes aderiu. Foi um movimento
para captar recursos para as obras e cada um recebeu
proporcionalmente ao que conseguiu arrecadar.

Houve vrios tipos de promoes e principalmente jantares. Na
poca em que esta grande campanha se realizou, talvez uma das
maiores no gnero, ela realmente conseguiu
captar recursos razoveis. Essa campanha foi organizada por um
profissional muito competente, Sr. Cassab. O trabalho foi muito
bem estruturado e teve como conseqncia
relevante a criao da Federao das Obras Sociais.

A nossa Fundao, ento ainda chamada Fundao para o Livro do
Cego no Brasil, foi uma das organizaes fundadoras da FOS.
Durante muito tempo, representei a Fundao
no Conselho de Obras e na Diretoria dessa Federao. Atualmente
sou membro vitalcio do Conselho Deliberativo. Olimpia  nossa
representante na FOS hoje. Desde ento
temos participado de promoes e feiras na marquise do Ibirapuera.

Gino Pereira dos Reis  o presidente da Federao. Um homem que
tem um grande tirocnio para o trato das obras sociais e suas
promoes. Tem lutado junto a outros
empresrios para tornar a Federao de Obras Sociais cada vez mais
eficiente. Foi tambm Diretor-Tesoureiro de nossa Fundao.

S quem lida com obras sociais sabe como  difcil conseguir
congregar essas obras e poder amparar as que tm menores recursos.
Fazer com que elas se desenvolvam
em suas estruturas administrativas e que realmente cumpram os
objetivos que orientaram a sua instituio. Eu acredito na
Federao das Obras Sociais e acho que a
sua existncia  imprescindvel em nosso Estado, assim como em
todo o territrio nacional.

pag:176

Fui convidada para fazer parte de um movimento a que j me referi,
os Companheiros das Amricas, que promoviam o relacionamento de um
estado norte-americano com
um estado brasileiro. Todo o trabalho era feito para que em vrias
reas de educao, cultura, cincia, houvesse um intercmbio
benfico para os dois estados. Isso
realmente produziu excelentes resultados.

Chegamos a iniciar uma Organizao das Associaes de Deficientes
no Estado de So Paulo, integrada pela APAE, Associao de
Assistncia  Criana
Defeituosa, a nossa Fundao, o Lar Escola So Francisco e outras.

Foi um trabalho que levou vrios anos, dando timos resultados no
incio. A prpria Fundao conseguiu bolsas de estudos para os EUA
e a presena de tcnicos internacionais
no Brasil. No foi s com a Fundao, isso se passou com todas as
outras obras para pessoas deficientes. Programas de reabilitao
de deficientes no Brasil tiveram
o apoio dos Companheiros das Amricas, que se voltaram tambm para
a arte e o intercmbio de profissionais e estudantes.

No plano religioso, tambm participei da Cruzada Infantil, junto
com os meninos e as meninas da Parquia do Esprito Santo da Bela
Vista. Mais tarde, freqentei
com mame durante muitos anos a congregao Mariana do Colgio So
Lus, assistindo todas as quartas-feiras  missa. Cantei no coro e
escrevi artigos para a revista
da Congregao, que se chamava Andorinha.

Conheci na Congregao do Colgio So Lus pessoas maravilhosas.
Senhoras religiosas que sempre lutaram, se dedicaram a promover o
ensino da religio catlica apostlica
romana. Atravs de obras de caridade, de uma vida exemplarmente
religiosa, dedicada  sua prpria famlia, aos seus filhos, aos
pobres e doentes, procuravam levar
o conforto da religio e um pouco de recursos materiais para
aliviar o sofrimento dos doentes e amparar os idosos abandonados.

Minha devoo  Nossa Senhora nunca me abandonou. Ela sempre me
valeu com amparo e conforto nas horas tristes que todos ns
passamos na vida.

Sempre tive atrao por movimentos de grupos, participando de
associaes, organizaes, da criao de associaes, como
aconteceu com a Associao Brasileira de
Educao de Deficientes Visuais e com a Associao Ibero-Americana
de Imprensas Braille. Trabalhei muito para que fossem criadas e
organizadas. Presidi as assemblias de criao de ambas.

Em 1977 participei e presidi a Sesso de Criao da Organizao
Latino Americana para a Promoo das Pessoas Deficientes Visuais,
a OLAP. Essa orga nizao teve
por objefivo reunir o Conselho Panamericano para Cegos, o Comit
Inter-Americano do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos e
as Orga nizaes de Profissionais
da Amrica Latina. Fui presidente desta organizao,

pag:177

tendo participado tambm, da assemblia de sua criao. Tive a
grande satisfao de poder dar a minha contribuio para que em
1984, existisse um trabalho mais unificado na Amrica Latina.

Presidi em 1985, em Mar dei Plata, Argentina, a assemblia de
criao da Unio Latino-Americana de Cegos que aglutinou todos os
comits e associaes da rea. A
Unio Latino-Americana de Cegos (ULAC) faz parte da Unio Mundial
de Cegos. Foi uma assemblia muito movimentada, bastante difcil
de ser presidida, mas acho
que o meu grande interesse pela unio de esforos muito me ajudou
a compreender aqueles com quem eu no concordava e auxiliar de
maneira tranqila aqueles de cujos
pontos de vista eu partilhava.

Nos primeiros congressos no Brasil e mesmo na Amrica Latina as
pessoas pediam a palavra para perguntar ou contestar, mas no fundo
elas procuravam contar um pouco
das suas prprias organizaes. Muitas vezes era a duras penas que
eu conseguia que falassem rapidamente. As vezes tinha que
interromper em favor do assunto que
estava sendo abordado. Isso me custou muito, embora mantivesse a
tranqilidade, ficava muito pesarosa em ter que cortar a palavra
de pessoas bem intencionadas, que
tentavam expor suas experincias, contar um pouco do que cada um
fazia no seu pas. Mas era preciso manter a dinmica da discusso.
Penso que era isso mesmo que
todos queriam, por isso fui muitas vezes eleita, ou convidada para
esse trabalho de coordenao com manuteno da ordem e da
oportunidade de expresso.

As pessoas que no podem terminar o que procuram expor, ficam
aborrecidas como j fiquei muitas vezes quando ultrapassei tambm
o tempo de exposio. Mas depois
ns todos verificamos que para que todo o grupo possa participar,
 necessrio que seja mantida essa disciplina e essa ordem.

Raramente atrasei o incio de qualquer reunio. A no ser quando
se aguardava numa sesso solene, a chegada de autoridades, ou de
personalidades que o protocolo
exigia que se esperasse. Desde que tivesse que presidir uma destas
sesses, eu sempre chegava antes da hora marcada.

A mais difcil dessas reunies para criao de associaes foi
certamente a de 1985 em Mar del Plata, para a criao da ULAC.
Conter argentinos, venezuelanos, uruguaios,
brasileiros, colombianos, pois l estavam representantes de quase
todos os pases da Amrica Latina. Foi bastante complicado. Tinha
que falar no meu espanhol, isto , em "portunhol". Propus muitas
vezes falar em portugus mas no aceitavam.

Apesar de tudo, fui muitas vezes aplaudida e agraciada mesmo com
condecoraes que me trouxeram lgrimas aos olhos.

pag:178

Na dcada de 70, recebi tambm uma grande condecorao do Estado
de So Paulo, a Comenda do Ipiranga. Entre as personalidades que
receberam naquele dia estava o
grande Dr. Zerbini. A comenda foi concedida aps a seleo de
nomes por uma comisso de condecoraes. Fique muito emocionada; a
cerimnia realizou-se no Palcio Bandeirantes.

Em 1975 em Paris num congresso celebrando o sesquicentenrio do
sistema braille, recebi a medalha de prata da cidade (Medail
D'Argent).  linda, tem um barco sobre
o Sena, onde est escrito "Flutuart Nec Mergitur". A cerimnia de
entrega foi presidida pelo Presidente da Assemblia de Paris, no
Bureau du Conseil Paris no prdio
que fica na Rive Gauche, isto  na margem esquerda do Sena.

Em 1977 realizou-se o grande Congresso do Conselho internacional
de Educadores de Cegos, em Paris.

Nesse congresso, muitas professoras brasileiras tomaram parte. Eu
estava com Teresinha, Olenka e Odinia. Odinia Leite Caminha
viajou muitas vezes comigo, participando
de congressos Ela especializou-se em So Paulo, foi bolsista da
Campanha Nacional de Educao de Cegos e dirigiu, durante muitos
anos na Secretaria de Educao do
Par, o Servio de Educao e Reabilitao de Cegos. Depois chegou
a ser Secretria de Planejamento. Faleceu lamentavelmente neste
cargo e deixou muita saudade.

Os congressos apesar de cansativos, das reunies prolongadas, das
comisses de redao e concluses dos grupos de trabalho e das
extensas plenrias que tinham lugar,
eram excelentes oportunidades de trocas de experincias e
pessoalmente de renovao de amizades. Havia professores de todo o
mundo e os seus depoimentos eram de
primeira linha. Outros, de pases onde a educao de cegos estava
apenas iniciando, mostravam o interesse dos professores videntes
ou cegos pela educao.

Havia sempre na vspera do encerramento dos congressos um grande
jantar. Neste ano Abdulah ofereceu tambm um grande jantar no
restaurante Pr Catelan no Bois de Boulogne.

Todos ficavam muito satisfeitos porque ele sempre mandava escolher
restaurantes excelentes, muito bonitos e era um momento de
alegria, um momento em que todos esqueciam
as discusses, era um momento de relaxamento para todos que
trabalhavam s vezes dez, doze dias.

Houve a necessidade de que vrios nibus transportassem os
congressistas. Muitos congressistas estavam hospedados em hotis
prximos da UNESCO. Ns, brasileiras,
estvamos num hotel muito bom, confortvel, mas pequeno na rua de
Comartain, o St Petersbourg. Por isso tnhamos que tomar uma
conduo at a UNESCO que era o ponto de encontro para que os
nibus especiais nos levassem para o Bois de Boulogne.

pag:179

Na ida tomamos um txi e tudo correu bem. Depois do jantar porm,
j bem tarde da noite, ns tomamos na sada o nibus at a UNESCO.
L devamos tomar uma conduo
at o nosso hotel. No conseguimos um nico txi e fomos -  p
at o metr, em traje a rigor, agasalhos leves. Embora estivesse
relativamente fresco em pleno vero,
 noite, o tempo sempre esfria. Algumas das professoras usavam
jias bonitas, mas ns no sentimos medo de andar por aquelas ruas
de Paris, mesmo porque ramos um grupo numeroso.

Corremos com saltos altos e vestidos longos at o metr. Descemos
as escadarias a toda pressa e tomamos o metr muito contentes
porque ele nos levaria a um lugar
onde pudssemos fazer uma troca para irmos para a estao Opera
que era o nosso objetivo. Porm, a uma hora, hora exata em que
parava o metr, o nosso estacionou,
parou em uma das estaes. No houve remdio, era impossvel que
ele continuasse, apesar dos nossos protestos. Subimos as escadas
desta estao e nos achamos l em cima num lugar que no sabamos
muito bem onde era. Felizmente depois de um bom tempo, conseguimos
dois txis e voltamos para o hotel.

Essa  uma lembrana hoje alegre e festiva. Apesar de algumas das
nossas companheira j no estarem mais trabalhando conosco.

AA - ALCOLICOS ANNIMOS


ORAO DA SERENIDADE

Dai-nos foras, Senhor para aceitar
com serenidade tudo o que
no possa ser mudado.
Dai-nos coragem
para mudar o que pode
e deve ser mudado.
E dai-nos sabedoria
para distinguir
uma coisa da outra.

Almirante Hart

Dollie, minha cunhada, foi uma mulher impressionante. Quando a
conheci, ela estava se casando novamente. Numa vida bastante
agitada, chegou a ser secreta-

pag:180

ria da UNESCO numa conferncia no Mxico. Falava muito bem ingls,
francs e portugus, de vez em quando tinha um pouco de sotaque,
porque em toda a sua meninice
falou ingls e no Colgio Sion s falava francs. Foi uma vida
truncada pela morte do pai, porque ela teve de deixar uma vida de
menina, criada no Colgio Sion,
no inicio de sua mocidade e precisou trabalhar.

No foi feliz em seus casamentos. Atravs de seu trabalho mantinha
contatos com estrangeiros. Quando eu me casei, ela j era
alcolatra. Eu me preocupava muito
quando ela vinha para So Paulo, pois um pouco que bebesse, j
ficava transtornada. Eu me assustava muito, mas procurava ajud-
la. Alex sempre adorou a irm, brigava
muito com Dollie mas gostava demais dela. Eles eram no fundo dois
irmos muito amigos. Ele sempre procurou fazer o possvel para que
Dollie desistisse da bebida. Mrs. Nowill, minha sogra, sofria
brutalmente, mas se ela tentasse dizer alguma coisa, Dollie ficava
indignada. Muitas vezes acusava a me pelos seus problemas.

Dollie e Alex sempre trabalharam para ajudar o sustento de sua
me. Eles realmente foram duas criaturas que tiveram conscincia
e, dentro do possivel, procuraram oferecer conforto a Mrs. Nowill.

Os amigos de Dollie e alguns de seus conhecidos haviam entrado
para um grupo de Alcolicos Annimos no Rio de Janeiro. Um dia
Dollie sentiu-se mal e eles a levaram
para casa. Depois foram visit-la, trataram dela. Foi um
tratamento de choque e ai ficaram amparando, se revezando e
interessando Dollie pelo movimento dos Alcolicos
Annimos. Foi uma ressurreio, Dollie motivou-se, assumiu tudo o
que se relacionava com o programa. Procurou estudar o assunto,
teve entrevistas com pessoas que
conheceu mais profundamente no movimento e engajou-se num dos
grupos no Rio de Janeiro. Foi ao Canad e EUA para participar de
simpsios e conhecer os criadores
do movimento mundial. Dedicou-se de corpo e alma. Nunca mais
provou uma gota de lcool.

Hoje as coisas se explicam atravs de enzimas. Segundo Dollie,
Alcolatra morre alcolatra, mesmo que ele no beba mais". Foi o
que aconteceu com ela. Ela ajudou
no desenvolvimento de todo este trabalho no Rio de Janeiro e numa
ocasio, veio para So Paulo, onde o movimento era incipiente. Com
alguns colaboradores, comeou
a visitar pessoas alcolatras, casos graves. O alcolatra s deixa
de beber se ele aceitar o seu envolvimento e Dollie contava todo o
processo de aceitao pelo
qual ela teve de passar. Ela sempre disse que foi atravs da
filosofia dos Alcolatras Annimos que compreendeu os fatos de sua
vida, o seu relacionamento com sua
me. Nesse dia compreendeu o quanto sua me a queria e passou a
usufruir desta coisa maravilhosa que  o amor da filha pela me.
Ela tinha uma bonita imagem do pai.

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Dollie era uma moa muito bonita, era uma loira platinum biond
natural. No precisava tingir o cabelo; tinha uns olhos azuis
magnficos. O dia em que ela entendeu
o quanto amava sua me, aceitou-a com os problemas e com os
defeitos que todos ns temos, ai ela foi feliz e fez sua me
feliz, Graas a Deus! Antes de minha sogra
morrer, ela teve essa imensa felicidade de ver Dollie
absolutamente realizada, trabalhando para os Alcolicos Annimos.
O trabalho dos Alcolicos Annimos  voluntrio
e absolutamente annimo. Do entrevistas no rdio e na televiso
sem aparecer. No existe dinheiro envolvido nesse trabalho.  de
apoio mtuo, uma coisa maravilhosa.

Dollie foi uma grande mulher. O trabalho que ela fez para os
Alcolicos Annimos foi visto em seu enterro, nas homenagens
pstumas que lhe foram prestadas. Deixou-me
uma caixa com dezenas de medalhas de cada ano que vencia mais um
ano sem beber. No recaiu, ela foi extraordinria. Quase no fim da
sua vida, tinha feito uma operao
no pulmo, e ainda assim fumava bastante, Tinha enfisema e sua
morte foi devido a esse problema. Mas numa determinada poca em
que ela havia piorado muito, o mdico
pediu-lhe que deixasse de fumar. Ela internou-se na Beneficncia
Portuguesa no Rio de Janeiro, passou l alguns dias, acabou
vencendo e nunca mais fumou. Venceu-se
a si prpria. Mesmo quando sua sade estava muito abalada, ainda
teve foras para vencer e para ajudar muita gente. Quero que esta
passagem fique para meus netos,
porque meus filhos acompanharam a vida da tia Dollie a quem eles
quiseram muito bem, ficavam com ela no Rio, iam com ela para o
stio, faziam mil diabruras no stio
de Cabo Frio, mas sabem a mulher de valor que ela foi. Jamais
escondemos deles esses fatos para que soubessem o seu valor.

A FUNDAO NA COMUNIDADE

MInha participao em muitas associaes nacionais e
internacionais, nas reas relacionadas principalmente s pessoas
deficientes, obras sociais, ou outras organizaes
da comunidade voltadas para o problema dos deficientes, jamais me
impediu de dar continuidade ao meu trabalho na Fundao. Minhas
ausncias para congressos e seminrios
eram freqentes, mas no muito prolongadas Tinha como finalidade a
prpria divulgao da Fundao e colocao do problema na
comunidade, O problema da cegueira  um problema da sociedade, 
um problema da comunidade.  preciso que a sociedade se compenetre
de que os cegos no so um grupo  parte, que devem reivindicar
por si mesmos as solues para os

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grandes problemas que os afetam na rea de educao, do trabalho,
na rea do convvio social, da participao da vida cultural,
esportiva e poltica do pas.

No trabalhamos apenas para reivindicar os direitos das pessoas
cegas, mas os direitos do homem. Obter em nosso pas condies
de que todo o brasileiro possa usufruir
do direito da cidadania, que lhe  inerente desde o nascimento,
no importa a sua condio social, econmica, a sua capacidade
mental, ou a sua perfeio anatmica.

A Fundao para o Livro do Cego no Brasil, hoje Fundao Dorina
Nowill para Cegos, tem realizado esse trabalho com seriedade
e profundidade, esclarecendo e informando
a comunidade sobre os problemas da cegueira. Isso se deve a seus
profissionais especializados, dedicados e aos seus diretores
e conselheiros.

J me referi a vrias diretoras, que na dcada de 1970 entraram
para a Fundao; todas comearam a trabalhar como voluntrias
e depois passaram para a diretoria.
Pessoas que deram muito de si mesmas como Vicentina Sapienza. Foi
uma excelente diretora e acho que foi a Fundao, que
de certa forma, lhe deu tambm um pouco de
entusiasmo e coragem para assumir, como assumiu mais tarde a
direo de uma obra social de amparo a mulheres. Vicentina
saiu da Fundao para ser presidente dessa
outra associao, mas foi tambm uma copista maravilhosa. E mais
um dos exemplos que ficaram na histria da Fundao.

Os voluntrios da Fundao realizam os mais variados servios,
entre eles, o servio de copista
braille voluntrio. So pessoas que aprendem o sistema braille e
transcrevem livros em cpias nicas. Snia Caropreso Salles Gomes
foi diretora e chefe desse servio por muito tempo. Snia j
ganhou muitos prmios por ter feito o maior nmero
de pginas em hraille durante um ano.
Durante muitos anos a diretoria da Fundao foi composta por
mulheres. No incio, entretanto, tivemos Aziz Simo; mais
tarde tivemos, durante algum tempo, o meu irmo.

Os estatutos foram reformulados em 1974. Passamos a ter um maior
nmero de diretores e muitos outros cargos. Desta forma,
em vrias pocas passaram para a diretoria
pessoas que j ocupavam o Conselho Consultivo da Fundao, entre
eles Luis Augusto Paula Santos e Antnio Carlos Monteiro
da Silva. Luis Augusto  advogado; Antnio
Carlos  diretor de uma empresa de administrao, ambos so cegos.

Foi muito bom termos homens e mulheres na diretoria; de certa
forma, muitos aspectos tiveram um enfoque diferente,
principalmente devido queles que tm uma larga experincia como
empresrios.

pag:183

A Gino Pereira dos Reis se deve tambm a colaborao magnfica da
Delta Eletrnica, da qual  diretor superintendente, a colaborao
do Rotary de So Paulo, do Rotary Internacional e do Rotary Itaim,
principalmente na obteno de equipamentos e na colocao de
trabalhadores cegos na indstria.

Todos continuam colaborando com a Fundao em diferentes cargos.

As obras dos homens se assemelham muito aos prprios homens. Elas
evoluem, se transformam, buscando sempre atingir o fim para o qual
foram criadas. A Fundao para
o Livro do Cego no Brasil passou por vrias etapas. Sofreu algumas
modificaes, inclusive nos seus prprios estatutos. As reformas
de estatuto refletem indiscutivelmente
as necessidades de crescimento que precisam ficar registradas e
devem ser reguladas pelos documentos normativos de uma entidade.

Em 1974 criou-se, alm do Conselho Fiscal, um Conselho Consultivo.

Tivemos grandes benefcios com a criao de mais esse conselho.
Homens como Oswaldo Campiglia, grande professor de economia que
deixava as suas tarefas, seu escritrio,
para participar das nossas reunies e que nos trouxe o prestgio
de seu prprio nome, muita orientao, alm da contribuio
pessoal que sempre fez.

Armando Galo, oftalmologista que acompanhou uma das fases difceis
da minha vida quando eu estava nos primeiros anos da cegueira, e
que buscou de certa forma, tambm,
como os outros, uma possibilidade para que eu voltasse a ver,
tornou-se e  um desses conselheiros cuja passagem pela Fundao 
marcante. Armando  um dos excelentes
captadores de recursos para a Fundao e mantm em sua prpria
mesa de trabalho um folheto que ele escreveu, imprimiu e entrega a
todos que freqentam seu consultrio,
para divulgar a Fundao e obter maiores contribuies.

Fbio Monteiro de Barros, outro conselheiro, redigiu a segunda
reforma estatutria e  um dos mais assduos s reunies em mais
de 20 anos.

Durante muitos anos, no meu trabalho internacional junto ao
Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos,  Organizao Mundial
da Sade,  UNESCO,  Associao Internacional
de Preveno da Cegueira, precisei do apoio financeiro e tcnico
de rgos nacionais.

Deficincias de recursos financeiros e de matria-prima sempre
foram muito angustiantes, tanto para os profissionais quanto para
a diretoria da Fundao. Muitas
vezes recorramos a Horcio Cherkassky e ele jamais deixou de nos
atender. Como nosso conselheiro, sempre notamos a ateno com que
avaliava os

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resultados apresentados nos relatrios e a sua participao
efetiva na reunio, suas crticas e sugestes foram sempre do mais
alto nvel.

Papel para livros em braille tem sido um problema constante. Muito
devemos  contribuio de Antonieta e Leon Eeffer.

Hoje, sem promoes, as nossas obras sociais no podem sobreviver.
Os convnios e contratos com os governos, so insuficientes.
Graas ao esclarecimento da comunidade,
consegue-se aos poucos, obter contribuies que representam mais
de 90% dos recursos com que se pode contar para a subsistncia da
Fundao.

Um dos nossos conselheiros, Emdio Dias de Carvalho, tem feito um
trabalho significativo na rea de captao de recursos. H dez
anos atravs da Feira de Vinhos
e Azeite de Portugal, tem conseguido recursos que vrias vezes
cobriram folhas de pagamentos, nos tiraram de dificuldades
financeiras e ajuda ram a manter os servios.

CLNICA DE VISO SUBNORMAL

Antes de voltar dos EUA, quando l estudei, eu j havia tomado
conhecimento de um trabalho importante que se iniciava e que
resultou nas clnicas de viso subnormal.
Uma grande parte dos deficientes visuais em todo o mundo  formada
de pessoas portadoras de viso muito baixa, que educacionalmente
ns chamamos de portadores
de viso subnormal. So resduos visuais que variam conforme a
leso que o indivduo apresenta, e que permitem desde facilidades
para locomoo at a leitura dos
tipos de impresso comum, com auxlios pticos. Auxlios pticos
so lentes, lupas e equipamentos como circuito fechado de
televiso, que ampliam vrias vezes a
imagem permitindo a melhor utilizao da viso e a leitura dos
tipos de impresso comum. Os resultados dependem muito do
treinamento dos portadores de viso subnormal,
feito por professores especializados e ortoptistas aps a
avaliao do oftalmologista. O processo de treinamento necessita
do trabalho de uma equipe multidisciplinar,
e seus resultados quase sempre so bem-sucedidos.

As pessoas portadoras de viso subnormal com deficincia visual'
no precisam utilizar o braille em sua educao, trabalho, lazer e
atividades em geral, desde que possam utilizar recursos que a
tecnologia moderna oferece. O treina-

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mento  indispensvel a fim de que seja conseguida a melhor
eficincia de sua viso residual.

Durante um dos congressos e reunies em que participei com Jurema,
fomos  Light House em Nova Iorque, EUA. A Light House  uma
organizao de cegos que por volta
da dcada de 40 era bastante tradicional. Essa organizao sofreu
grande evoluo e abriu uma clnica de viso subnormal, que
visitamos e nos inteiramos do trabalho
que estava sendo realizado.

Tivemos a satisfao de conhecer a Dra. Eleanora Faye, uma das
grandes especialistas em viso subnormal. Mostramos nosso
interesse em iniciar uma clnica de viso
subnormal no Brasil, em bases cientficas, seguindo um programa
semelhante ao da Light House. Dra. Eleanora colocou a Light House
a nossa disposio para os estgios
que fossem necessrios para os profissionais. Sua assistente Miss
Claire Wood, alm de acompanhar a nossa visita, foi encarregada de
nos auxiliar em tudo o que fosse
necessrio para o incio do trabalho no Brasil.

Procuramos oftalmologistas. Fui  Beneficncia Portuguesa,
consegui do ento diretor superintendente, Antnio Ermrio de
Moraes, que havia sido membro do Conselho
Consultivo da Fundao, que nos cedeu uma sala num dos prdios
para a instalao de um servio que denominamos Centro de
Treinamento de Viso Subnormal (CETREVIS).
Era um servio particular, porque entendamos que seria melhor
estabelec-lo num hospital onde pudssemos contar com a facilidade
de outros servios mdicos. As
pessoas que no podiam pagar eram atendidas gratuitamente.

Nosso interesse era fazer o treinamento das pessoas e conseguir
aos poucos que se fabricassem em So Paulo os auxlios pticos
necessrios.

Dcio Vasconcelos se interessou naquela poca e em sua fbrica foi
feita a primeira caixa de provas para a avaliao de viso
subnormal, que tem tambm o nome de CETREVIS. Ns nos cotizamos e
dois profissionais, incluindo Jurema foram fazer treinamento e
estgio na Light House. Eu trabalhei no CETREVIS fazendo a
primeira entrevista com os clientes que nos procuravam.

H grande incidncia de viso subnormal nas pessoas de idade
avanada. Muitas destas pessoas precisam desse tipo de treinamento
e realmente em So Paulo ningum
estava fazendo esse trabalho. No Rio de Janeiro, um oftalmologista
Dr. Vitorino Arajo, h alguns anos vinha trabalhando em seu
prprio consultrio. Ele teve um
problema de viso, ficou apenas com viso residual. Preparou-se
num dos centros mais avanados nessa rea, em Baltimora
Indiscutivelmente, no Brasil, ele foi o pioneiro.

Eu atendi casos interessantssimos. Muito me impressionou o caso
das senhoras idosas, principalmente aquelas com um nvel
socioeconmico menos

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favorecido. Quase todas tinham muita dificuldade para se tratar.
No tinham recursos financeiros para fazer frente s despesas de
consultas e no tinham muitas vezes
quem as levasse aos consultrios e ao CETREVIS.

Jurema e eu somos educadoras. Por isso a orientao do CETREVIS
caracterizou-se por abordar o ser humano em sua totalidade e
encarar a viso subnormal, no apenas
como um tratamento de olhos, mas como um processo de treinamento
para maior eficincia da viso.

Foi uma experincia excelente. Depois que eu assumi a presidncia
do Conselho Mundial, diante das dificuldades de tempo que tinha,
repensamos o que fazer em relao
 viso subnormal. Era preciso contratar mais profissionais, ter
um espao maior e principalmente ver o problema em seu aspecto
multidisciplinar e no apenas mdico, embora o oftalmologista seja
importante e o primeiro a atender o paciente.

A essa altura j tnhamos mais um oftalmologista que havia feito
estgio e treinamento e estava preparado tambm para trabalhar na
rea. Alm dos problemas das
pessoas de idade e suas dificuldades de recursos, inclusive para o
transporte, havia alguns que me diziam "Eu fui a um mdico de
olhos e ele me mandou aqui. Disse que a senhora faz tudo de graa
e que por isso eu podia vir sem pagar".

Fazer funcionar o CETREVIS sem recursos era impossvel. Ao mesmo
tempo, era importante que esse tipo de tratamento fosse feito
adequadamente. Fechamos o CETREVIS.
Dr. Alexandre Costa Lima Azevedo, o oftalmologista que j havia se
especializado no assunto, foi contratado pela Fundao para dar
atendimento na Clnica de Viso Subnormal, a primeira criada
dentro de uma organizao social no Brasil.

A Fundao nesse trabalho tambm foi pioneira pois forneceu
treinamento e estgio para muitos profissionais do norte ao sul do
Brasil e mesmo em So Paulo, que
esto hoje trabalhando com viso subnormal. Oftalmologistas,
professores, assistentes sociais, ortoptistas fizeram estgio na
Clnica de Viso Subnormal da Fundao.

A Clnica contou com a grande vantagem da infra-estrutura da
Fundao atravs das equipes de educao e reabilitao.

Um dos meus sonhos  ter condies de ampliar a clnica com maior
espao, colocar todos os equipamentos que a tecnologia produz para
esse tipo de pessoas e conseguir
mant-la tanto para aqueles que possam pagar seu tratamento, seu
treinamento, suas consultas, como para as pessoas carentes que so
at agora, em um nmero muito
grande, atendidas na Fundao. As pessoas carentes em qualquer
idade precisam ter esse atendimento.

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ESTIMULAO PRECOCE

1979 foi o Ano Internacional da Criana. Os anos internacionais da
ONU so muito criticados pela falta de eficincia no trato dos
problemas que eles enfocam. Acho que sou uma pessoa que acredita.
Apesar das crticas, eu sempre acreditei nesses Anos
Internacionais da ONU, pelo menos os que eu presenciei: da mulher,
da criana, das pessoas deficientes, que me tocaram muito de
perto.

O Ano Internacional da Criana repercutiu beneficamente na
Fundao. Ns tnhamos conscincia das necessidades da criana
cega e da criana com viso subnormal e
muito interesse em criar um servio de atendimento a essas
necessidades. No Brasil no havia, at ento, nenhum servio na
rea pr-escolar para deficientes visuais.

A cegueira atinge o indivduo em qualquer fase da vida. As
crianas que nascem cegas ou com viso subnormal precisam de um
atendimento especial, cuja importncia
foi debatida pelos profissionais da Fundao durante o Ano
Internacional da Criana. O programa de estimulao precoce
destina-se s crianas de 0 a 3 anos. A seguir,
o programa de educao ou reeducao psicomotora tem por
finalidade atender s crianas de 4 a 6 anos.

H vrios anos a Fundao j vinha oferecendo servios de educao
especializada, atravs de programas de complementao educacional
para crianas e jovens deficientes
visuais em idade escolar. Esses servios sempre complementaram as
atividades do educando deficiente visual no ensino integrado.

Nessa poca, em todo o mundo, pedagogos e outros profissionais
estudavam e discutiam o assunto. Muitos cursos foram iniciados no
exterior para preparar especialistas.
A Fundao, como sempre, fez estudos e debates que culminaram na
criao do programa de estimulao precoce para a criana
deficiente, na Fundao. Esse foi o primeiro
servio para a criana deficiente visual no Brasil. Procuramos
proporcionar treinamento e preparo para os professores e demais
profissionais com a finalidade de estruturar
esse setor de atendimento.

Lembro-me de uma entrevista com o Ministro da Educao Rubem
Carlos Ludwig para solicitar verbas. O ministro lamentou a
insuficincia de recursos governamentais para
o atendimento de crianas nessa fase mais importante da vida,
quando se estabelecem as bases para aquisio de conhecimentos,
para a formao de atitudes em relao  vida e  sociedade.

Jurema especializou-se, estudou profundamente o assunto. Fez
estgios, fez cursos e foi a grande orientadora dos profissionais
da Fundao e de todos aqueles que posteriormente criaram no
Brasil servios de estimulao precoce e

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muitos profissionais dos diferentes estados da Federao se
prepararam nos cursos que a Fundao passou a oferecer sobre o
assunto em colaborao com as diversas Universidades do Brasil.

Esses cursos e seminrios foram a pedra fundamental do
desenvolvimento da rea de estimulao precoce no Brasil. Na
Fundao estagiaram
tanto brasileiros e latino-americanos, como bolsistas da OEA.

O atendimento de bebs que nascem cegos ou portadores de viso
subnormal  hoje a "menina dos olhos" da Fundao. E nessa fase da
vida que se detecta o resduo
visual que precisa ser estimulado. Nenhum tipo de resduo visual
pode ser desconsiderado porque ningum pode prever como a
eficincia visual pode ser desenvolvida
atravs de estimulao e treinamento.

Um dos grandes mritos da Fundao foi no s o seu pioneirismo no
atendimento direto do cliente, mas o quanto pde servir de
estgio, de observao e de treinamento
para centenas de profissionais brasileiros e estrangeiros. A
Fundao continua nessa tarefa acompanhando a evoluo da cincia
educacional e tecnolgica.

COORDENADORES

Jurema Lucy Venturini foi minha assistente e tem sido at hoje
coordenadora geral da Fundao. Durante muitos anos dedicou e tem
dedicado  Fundao uma grande parte
de sua vida. Tem um carinho muito especial pelos profissionais,
alguns muito antigos.

Maria Cristina Godoi Cruz Felippe comeou aos 16 anos, trabalhou
na Campanha Nacional de Educao de Cegos e hoje  coordenadora de
servios de
bibliotecas e doaes. Uma excelente profissional.

Ivete De Masi, assistente social, coordenadora do departamento de
reabilitao, iniciou seu trabalho como estagiria na Fundao.
Evoluiu, fez cursos, participa
de reunies nacionais e internacionais na rea de preveno,
educao e reabilitao de cegos. Pertence a quase todas as
organizaes profissionais da rea.

Maria Felipe, quietinha, mas uma excelente professora de
treinamento de optacon, realizando o seu trabalho de pedagoga
tambm na rea de viso subnormal.

pag:189

Francisco Tofoili Jr., psiclogo que faz parte da equipe h muitos
anos. Est sempre pronto a colaborar em todas as reas e d muito
de seu tempo para avaliao e orientao de muitos casos, tanto de
crianas como de adultos. Francisco
est dando uma preciosssima colaborao para a captao de
recursos para a Fundao, alm do trabalho na sua rea
profissional.

Ana Cristina Teixeira, a ltima a entrar para o grupo, embora j
esteja com muitos anos de servio.  coordenadora do departamento
de educao.. Entusiasta, pronta
para divulgar a Fundao, atende mes e crianas, est sempre
voltada para todos os educandos que procuram o nosso servio.

Feliz de quem na sua vida de trabalho, pde indicar tantos nomes
que correspondem a tantos valores. Nomes h muitos no mundo, mas
nomes que
representem valores nem sempre so encontrados facilmente.

As antigas colaboradoras como Regina, Olenka e Teresinha j tm os
seus substitutos que certamente se tornaro guardies dos grandes
ideais da Fundao, to voltados
para o respeito, a dignidade e o valor do ser humano.

LAZER

Muitas vezes eu me empolgo falando do meu trabalho e da Fundao.
At parece que os meus problemas de me de famlia e de dona de
casa ficaram de lado. Isso no
 verdade, eles evoluram com o crescimento dos filhos, com a
prpria realizao de cada filho e com a evoluo geral da
sociedade em que vivemos.

Vivi intensamente os problemas da minha famlia, os problemas da
minha casa, dos meus pais, de meus irmos, de meus primos e de
meus filhos, os problemas da famlia
de meu marido, porque ns no existimos sozinhos no mundo.
Pertencemos a um grupo muito maior dos nossos contemporneos, dos
que nos antecederam e dos que nos sucedero.
Procurei sempre manter o meu lazer porque, alm de tudo, eu no
poderia sacrificar o meu marido e meus filhos. Tive frias na
praia, fiz viagens, dei reunies e
festas de aniversrio para meus filhos que freqentemente reuniam
os amigos. Procurei ajud-los para que tudo sasse perfeito.

Procurei atender sempre os colegas
de Alex, seus companheiros de trabalho e receb-los em nossa casa.

pag:190

A verdade  que eu no sou uma pessoa que se cansa fcil e por
isso, as horas dos meus dias sempre renderam bastante. Nem a idade
conseguiu ainda me vencer de todo.

Nunca trouxe problemas para casa, nunca transformei a minha casa
numa sucursal da Fundao. No mantenho documentos da Fundao
guardados em minha casa. Nunca recebi donativos em meu lar
destinados  Fundao.

Uma vez uma senhora ficou muito aborrecida comigo, porque ela
queria entregar em minha casa 500 dlares em moeda para pagar uma
mquina braille e eu lhe pedi encarecidamente
que entregasse na Fundao. Alex e eu sempre tivemos muito cuidado
com esse aspecto, porque eles podem ser muito prejudiciais para a
imagem da prpria organizao,
da prpria obra para a qual damos tanto de ns mesmos.

Em minha casa eu escrevo e sempre escrevi, mas raramente fao
reunies ou recebo pessoas para entrevistas. Acho que as
entrevistas devem ser feitas na Fundao.
Esse  o ambiente do meu trabalho. E a Fundao que deve ser
conhecida por aqueles que querem me entrevistar.

Numa ocasio em que Alex e eu estvamos na Europa, entre duas
reunies, uma de diretores do Conselho Mundial e outra da
Organizao Mundial da Sade, tivemos dez
dias de intervalo, O que fazer? Felizmente Diva e Alberto Pedrosa
estavam na Europa fazendo uma grande excurso de carro. Combinamos
encontrar-nos em Paris, no hotel Belford perto de Madelaine.
Celina, filha de Diva e o marido juntaram-se a ns. Alugamos um
Renault grande e samos via Rouen, onde tive a satisfao de
conhecer um pouco mais da vida de Joana D'Arc e apreciar toda a
histria local.

Diva e eu gostamos das mesmas coisas, temos muito interesse por
hist ria, tradio, arte. Numa viagem desse gnero  importante
que eu tome conhe cimento anteriormente
do que se vai passar. Diva lia trechos relativos ao que amos ver,
onde amos posteriormente, de forma que eu tivesse uma viso dos
lugares por onde passamos. Pude
apreciar realmente essa excurso que durou um pouco mais de uma
semana, mas para mim foi muito proveitosa.

Esse tipo de atividade, assim como as leituras, as palestras que
ouo, o contato que tenho com pessoas de outros pases, ou mesmo
de outras cidades do Brasil, so
um verdadeiro alimento para a minha alma. Sinto necessidade muito
grande de conhecimento. Nesse aspecto, sou tremendamente
ambiciosa. Gostaria de conhecer, de saber
muito mais do que aquilo que posso obter com os recursos que tenho
e que todo o ambiente pode me proporcionar.

Posso parecer injusta dizendo isso, pois trabalho com muitas
pessoas, tenho ateno de meu marido, de meus filhos, de minhas
noras, meus genros,

pag:191

meus netos. Na Fundao os diretores, assessores, os
profissionais, todos tm sempre muito desejo de satisfazer a minha
curiosidade e o meu interesse pelo saber
e pelo conhecimento das coisas, do mundo em que vivo e at da
histria e da literatura do passado. O passado foi a escada, as
etapas que construram este mundo em que eu vivo.

Para assistir filmes prefiro que esteja algum comigo. Dorininha,
por exemplo, interrompe o vdeo, descreve o cenrio para depois
continuar. Mas h outros que no
tm condies de contar certos pormenores das cenas, que por
vezes so importantes, mas muito rpidas. Em geral, nem todos
sabem o que  importante descrever.
No me interessa ir muito ao cinema enquanto no Brasil no houver
os equipamentos que j existem no mundo inteiro, para que as
pessoas cegas possam acompanhar os
filmes no vdeo, ou na televiso, ouvindo num pequeno dispositivo
de ouvido a descrio das cenas Isso j existe no teatro nos EUA,
na Austrlia, em outros pases
do mundo e est tomando grande impulso em relao aos vdeos e aos
prprios aparelhos de televiso. Ficarei radiante quando esses
recursos chegarem ao Brasil, preparados por profissionais.

Quando vou ao cinema, a pessoa que vai comigo sempre descreve as
cenas baixinho, atravs de um aparelho que eu tenho chamado
"murmurator". Esse aparelho  uma caixinha
do tamanho de um mao de cigarros que contm um microfone e
entrada para um fone de ouvido. Funciona com uma bateria. Quem
descreve fala com o aparelho prximo dos
lbios e eu ouo atravs do fone colocado num dos meus ouvidos.
Pelo outro ouvido ouo tudo o que se passa na tela ou no palco.
Tudo sem perturbar as pessoas que
esto prximas. Assisti com minha neta nes, o filme Ghost. Ela
descreveu as cenas atravs do "murmurator". Foi um dos filmes de
que mais me inteirei. Acabei tocando
o fundo musical no meu rgo.

Alex j fez isso algumas vezes, inclusive em teatro. H pessoas
que quando prestam ateno, no conseguem falar ou descrever. Tudo
depende das condies de cada um.

s vezes uma pessoa cega assiste a um filme sem ter quem descreva
determinadas cenas. Foi o que j aconteceu comigo. Segui um filme
inteirinho pela televiso, consegui
entender o ingls, os dilogos eram claros, era um filme com
muitas falas, mas chegou no fim, houve uma exploso. At hoje eu
no sei quem morreu, porque a msica
foi muito bonita, mas no sei quem ficou vivo ou quem morreu.
Certamente os filmes no tm muito interesse para ns, quando no
se tem a descrio das cenas, e do
comportamento dos atores, s perceptveis atravs da viso.

Com relao s novelas, tenho tido experincias muito
interessantes atravs das moas que trabalham no salo da
Madalena. Vou h 20 anos ao mesmo

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salo de cabeleireiros, perto de casa.  a "bendita" e querida
Madalena. Ela tem sido mais do que uma profissional.  uma amiga
para todas as horas. Quantas vezes
vem rapidamente  minha casa para que eu possa estar devidamente
penteada nas reunies, nos programas de televiso. Delci e Cleusa,
suas manicures, ao me verem chegar perguntam: "A senhora assistiu
 novela? J lhe contaram..." Assim, at desta forma as pessoas me
descrevem o mundo.

Minhas companheiras de trabalho, que so quase todas professoras
especializadas, assistentes sociais, pedagogas, vm estudando
durante anos todo o problema da
comunicao e da informao para a pessoa cega. Quando estou com
elas,  sempre um prazer muito grande porque elas tm experincia
em transmitir, mais do que as outras pessoas.

 por isso que eu gosto de viagens. J que no sou Julio Verne,
gosto de ir aos lugares mesmo que no possa ver a beleza da
paisagem, a grandiosidade
do pr do sol, as noites de lua cheia, o encanto das flores, o
vigor da folhagem, o conjunto das paisagens do alto das montanhas,
dos vales, dos rios. Gosto de estar
nos ambientes novos e diferentes, recebendo estmulos do calor, da
brisa, do vento, dos rudos, dos aromas, do canto dos pssaros, do
mugir de bois, dos gritinhos
de determinadas aves, do som da gua que borbulha ou que cai pelas
pedras, eu aproveito muito, do pouco ou do muito que as pessoas me
descrevem. Tudo me d prazer,
graas a Deus. Nesse ponto no sou muito exigente. Tudo  to
extraordinrio! A riqueza das paisagens  to grande, que mesmo
absorvendo menos do que os outros,
consigo sentir a beleza. Formo minhas idias, meus prprios
conceitos e me satisfao com aquilo que posso obter.

Sempre lembrando a comunicao,  quase cmico o que me acontece
nas centenas de viagens que fao de avio por esses mundos por
onde ando.  sobre o pessoal de bordo, quando se trata de me
servir, estando eu sozinha ou
acompanhada. Tive cenas verdadeiramente divertidas. A princpio
quando os comissrios de bordo servem bebida, em geral chegam
perto de mim e dizem: "A senhora quer um suco de laranja, um
refrigerante, uma gua tnica,..." eu deixo enumerar tudo e depois
digo: "Quero um usque on the rocks ou champanhe", mesmo
que no tenha vontade de tom-lo.

No sei porque uma pessoa cega d a impresso de ser uma pessoa
que no toma lcool de forma alguma. Mas isso acontece mesmo. Uma
vez viajei com Denise, e estvamos
as duas, cada uma numa ponta da fileira do meio do avio. O vo
estava mais ou menos vazio. A aeromoa seguiu como de costume, o
ritual da cena nos aperitivos. Depois
ela mesma compreendeu o ridculo da situao e deu risada quando
eu pedi usque. Da ela trouxe o jantar. Ela sabia que minha filha
estava na outra ponta da mesma
fileira. Muito delicadamente colocou a bandeja na minha frente,
depois no sei porque, embora ela j tivesse conversado

pag:193

comigo, virou-se para Denise e bem alto disse: - "Diga para ela
que o jantar est aqui". Foi uma gargalhada s e at ela mesma deu
risada. Depois que tudo passa
 muito divertido. Mas quando se est vivendo um desses momentos,
s vezes a apreenso  sria e tem sua razo de ser. As pessoas
deficientes tm o direito de pedir
servio especial, principalmente quando viajam desacompanhadas. H
muitos anos que esse regulamento existe,  um acordo entre as
companhias areas.

A partir de 1981, no Ano Internacional da Pessoa Deficiente,
vrios acordos e facilidades foram estabelecidos para as pessoas
deficientes que se utilizam
do smbolo da cadeira de rodas, hoje universalmente difundido.

O smbolo da cadeira de rodas  encontrado nos meios de transporte
coletivo, nos shoppings, reas de estacionamento, edifcios
pblicos. Os aeroportos de todo o
mundo tm sanitrios adaptados para usos das pessoas deficientes,
salas de atendimento especial para deficientes, idosos e crianas.
 freqente ver-se telefones
pblicos rebaixados  altura das cadeiras de rodas.

A partir do Ano Internacional da Pessoa Deficiente todas as vezes
que me aproximo do balco de uma companhia area nos aeroportos, e
que j est notificado de que
preciso de servio especial, l vem a cadeira de rodas. No incio
no aceitava. Eu explicava que uma pessoa cega pode andar com a
bengala ou dar o brao para algum
e no tem a necessidade da cadeira de rodas. Mas depois resolvi
aceitar. As vezes os percursos so enormes e sempre carrego uma
bolsa e uma mala de mo, o que complica um pouco para dar o brao.

Minhas filhas disseram: "Mame qual  o mal de voc aceitar uma
cadeira de rodas, se facilita com as bolsas?" Uma vez em Londres,
no aeroporto de Heathrow, foi
uma delcia porque fui transportada dentro de um jipe inflvel.
Naquele aeroporto imenso, que eu teria de andar quilmetros,
simplesmente atravessei tudo confortavelmente
sentada. Denise ao meu lado vibrou, porque do contrrio ela no
teria a oportunidade de passar por essa experincia.

Uma recepcionista em Miami me explicou tambm que a cadeira de
rodas facilita a entrada no avio, antes dos outros passageiros. 
s pedir que a empresa area nos
d o que se chama "pre-boarding". Se a pessoa estiver na cadeira
de rodas, pode-se passar por caminhos internos do prprio
terminal, o que no  permitido aos outros passageiros.

s vezes quando anunciam: "Senhoras grvidas, com crianas, ou
deficientes podem ir  bordo em primeiro lugar," as pessoas numa
fila muito grande, nem sempre tm
boa vontade para deixar uma pessoa cega passar. At desconfiam que
a pessoa no seja cega. So muito engraadas estas reaes, mas
elas so encontradas em todo o canto.

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Numa ocasio, no aeroporto de Santiago, no Chile, amos voltando
de um congresso em Concepcion. Estvamos todos cansados; ramos
mais ou menos dez pessoas cegas,
com duas pessoas videntes acompanhando. Houve uma juno de dois
vos, um vo foi cancelado e havia uma multido para embarcar.
Servio especial, nem sonhar. Quando
chegou perto da hora, tentamos chegar ao porto de embarque. Uma
dificuldade.

A moa no porto de embarque no tomava a menor providncia e eu
esperava um verdadeiro estouro da boiada. Todos tinham o carto de
embarque, portanto todos iam
entrar, mas a multido no ia respeitar ningum como no respeita
quando h muita gente para entrar no avio. Eu no tive dvidas,
disse a quem estava comigo: "Vamos
furar e chegar perto dessa moa". Conseguimos a duras penas, com
resmungos de todo o lado. Eu ligo muito pouco para resmungos
quando sei que estou certa. Chegamos
perto da moa e dissemos: "A senhora por favor tome uma
providncia". Ela disse: "No posso, estou sozinha!" Eu disse:
"Pode sim! A senhora d um aviso bem alto
que h pessoas cegas e que essas pessoas tm direito de embarcar
na frente. Depois a senhora avisa ao seu pessoal que facilite a
nossa chegada at o avio porque
somos dez pessoas cegas, com apenas duas videntes acompanhando".
Por incrvel que parea ela me atendeu e foi assim que conseguimos
chegar ao avio, tranqilos,
e tomar os nossos assentos. Logo depois foi uma verdadeira
invaso. Todos os passageiros viram que havia muita gente num vo
s e todos tinham medo de no conseguir
sentar perto de seus parentes, de seus familiares, ou das pessoas
com quem estavam viajando. Nessas horas, pelo menos ns temos o
direito de nos defender porque
estamos em condies de inferioridade em relao a quem v.

Minha experincia de centenas e centenas de vos em todas as
partes do mundo, me autoriza s vezes a tomar determinadas
providncias e quase sempre d certo. Na
grande maioria das vezes, mas na grande maioria mesmo, eu fui bem
atendida. Quando no fui, escrevi cartas aos diretores, aos
presidentes das empresas areas, reclamei e recebi resposta
dizendo que o funcionrio tinha sido repreendido por no ter
proporcionado  pessoa cega aquilo a que ela tem direito.

Uma vez fiquei num corredor gelado sozinha, durante duas horas, no
aeroporto de Lisboa. Eu estava viajando sozinha naquele dia e o
funcionrio que me atendeu no
me levou para a sala de espera. Fiz uma reclamao severa, por
escrito,  Varig, dei o nmero do vo, horrio, no podia haver
engano. Recebi a resposta de que isso no aconteceria mais com
nenhuma pessoa cega.

Por outro lado, a cada viagem que fao, eu escrevo  companhia
area, dando o nome de quem me atendeu e fao o meu agradecimento,
embora isso

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seja um direito conquistado e determinado por um regulamento da
IATA. O direito do servio especial.

Esse  o mundo das interaes e esses so os problemas, porque so
homens, so seres humanos que se comunicam. Sempre h falhas, mas
 preciso apontar aquilo que
 bom, dentro do que est nas nossas possibilidades e corrigir os
erros para que outros no passem pelo que passamos.

MEU TRABALHO NO MINISTRIO DA EDUCAO E CULTURA

Tenho muita satisfao em lembrar o meu trabalho na Campanha
Nacional de Educao de Cegos (CNEC) do Ministrio de Educao e
Cultura pela extenso do trabalho que
a Fundao pde realizar em todo o territrio nacional, e pela
oportunidade que tive de conhecer minha terra de norte a sul,
centro, leste e oeste. Estive em quase
todos os estados do Brasil, conheci pessoas muito dedicadas ao
trabalho, tive contato com secretrios de estado, governadores e
prefeitos. Em muitos locais, salvo
raras excees, sempre consegui despertar ou garantir o interesse
do poder executivo, muitas vezes do poder legislativo dos estados
para o desenvolvimento do programa
de educao de cegos e de preveno  cegueira.

Entre os Ministros da Educao com os quais tive contato, destaco
o Dr. Flvio Suplicy de Lacerda porque ele foi uma pessoa que me
conhecia bastante desde criana.
No exerccio do cargo como diretora da CNEC fui a Braslia muitas
vezes para despachar com ministros. Eu ia mais de uma vez por ms.
Numa das minhas idas, encontrei
com Andr Montoro no avio. Ele me perguntou quando eu voltaria
para So Paulo e eu disse: "Andr, eu volto hoje  noite". Ele
disse: "Eu no acredito, voc consegue em Braslia, num dia falar
com o Ministro e realizar o seu trabalho da Campanha em todos os
departamentos do Ministrio? No acredito"
... Pois neste dia eu almocei na casa do Ministro da Educao,
tive uma audincia com o Ministro no prprio Ministrio, fui a uma
reunio de senhoras de ministros
que faziam tric e roupas para os pobres e  noite daquele mesmo
dia, eu estava jantando com meus filhos em So Paulo.

Eu conseguia num dia realizar um grande nmero de atividades,
sempre com os horrios organizados anteriormente. Durante todo
este tempo houve ministros que foram
extraordinrios. Entre eles o Ministro Ney Braga, pelo grande
apoio que deu  Fundao para sua participao no plano
internacional. Encon-

pag:196

trei pela segunda vez em minha vida o professor Teotonio Monteiro
de Barros. A primeira vez quando ele foi Secretrio de
Educao do Estado de So Paulo na poca
de meus estudos, obteve do Governo Federal um decreto para que eu
pudesse freqentar a Escola Normal Caetano de Campos.
A segunda vez quando o professor Teotonio
assumiu o Ministrio da Educao e me confirmou na posio de
diretora da CNEC. Nessa oportunidade tive a satisfao de
mostrar-lhe que o decreto que ele havia conseguido e a
oportunidade que ele havia me dado tinham produzido frutos e eu
havia sido bem-sucedida no trabalho que estava realizando.

Um dos ministros com quem trabalhei bastante foi o Ministro Jarbas
Passarinho que demonstrou um inegvel interesse pelos
programas de educao de cegos. Muitos outros
me impressionaram. Acho que foram duas dezenas nesses doze, ou
quase treze anos em que trabalhei com a Campanha Nacional
de Educao de Cegos. Mesmo depois que terminou a CNEC, tive a
oportunidade de conhecer vrios Ministros da Educao.

O Ministro Marco Maciel deu ateno especial  imprensa braille da
Fundao. Estvamos precisando de mquinas para a modernizao
da produo. Toda experincia
feita para a informatizao com as nossas mquinas antigas no
havia dado o resultado esperado. Atravs do Servio Internacional
do MEC o Ministro fez uma solicitao de equipamentos ao Latin
American Zentrun - Centro Latino-Americano na Alemanha e marcou
uma entrevista com a diretoria do referido Centro.

Fui  entrevista acompanhada pelo chefe de gabinete do Embaixador
Brasileiro em Bonn e conseguimos os trs esteretipos,
os Puma 5, mquinas eletrnicas para a produo
informatizada dos livros em braille. Nessa ocasio fui de
Frankfurt at Bonn de trem. Uma viagem linda, e quem estava comigo
era Marina Magalof, que ainda era secretria
da Unio Mundial de Cegos.

Nenhum Ministro da Educao durante a minha gesto conseguiu ficar
indiferente  Campanha Nacional de Educao de Cegos,
porque eu estava sempre presente, representando
a deficincia. Os projetos de minha equipe eram muito bem
elaborados dentro do oramento que havia para atender s
organizaes de cegos e s secretarias de educao.
Foi um trabalho difcil, muito diferente daquele que eu realizava
na Fundao, mas que graas a Deus, deu muitos resultados.

Toda a equipe da CNEC compreendia a transitoriedade de um
organismo de educao de cegos em forma de Campanha e a
necessidade de que o trabalho j realizado se cristalizasse num
organismo permanente dentro do Ministrio de Educao e Cultura.
Nos ltimos anos do funcionamento da

pag:197

Campanha Nacional de Deficitrios Mentais, Sarah Couto Cesar havia
se tornado diretora dessa Campanha. Sarah trabalhou no Instituto
Benjamin Constant e fez um curso
na Frana como bolsista da Campanha Nacional de Educao de Cegos.
Desde que Sarah assumiu seu cargo realizamos vrios programas em
conjunto, at ser criado o Grupo
Tarefa em 1973, para a liquidao das campanhas e a estruturao
de um rgo Autnomo de Educao Especial, abrangendo vrias reas
de deficincias, no Ministrio
de Educao e Cultura. Sarah foi nomeada gerente do Grupo Tarefa.

Foi com imensa alegria que recebemos a notcia da assinatura do
decreto que criou o Centro Nacional de Educao Especial (CENESP)
do MEC e Sarah foi nomeada Diretora Executiva.

Desde logo eu sabia que deixaria minha posio na rea de educao
de cegos do CENESP, pois eu no tinha inteno de deixar minha
famlia para mudar-me para o Rio
de Janeiro ou Braslia. Insisti muitas vezes que esse Centro
deveria funcionar em Braslia, no prdio do Ministrio da
Educao. Quando dirigi a Campanha Nacional
de Educao de Cegos eu tinha um escritrio em duas salas no
prprio prdio do Ministrio em Braslia.

A Fundao continuou a trabalhar intensamente com o CENESP, desen.
volvendo um vasto programa de atividades atravs de convnios,
abrangendo todo o territrio nacional.
Foi um tempo timo trabalhando com duas excelentes profissionais,
Sarah e Olivia Pereira. Na poca determinada para se fazer uma
avaliao do programa do CENESP,
seu desenvolvimento e ampliao, a Dra, Lizair Guarino, ento
diretora executiva do CENESP, criou uma comisso para a qual
Jurema e eu fomos indicadas.

Fui freqentemente ao Rio de Janeiro e foi preparado um estudo que
props a criao da Secretaria de Educao Especial do MEC. Foi
realizada uma solenidade da qual
participei. Durante o governo Sarney criou-se uma nova comisso
com representantes de vrios ministrios e rgos da administrao
pblica entre eles: Sade, Trabalho,
Justia, INPS, representantes de organizaes de pessoas
deficientes e pessoas de notrio saber e especialistas, entre os
quais Dr. Mauro Spinelli, Stanislau Krinsky
e eu. Fiquei muito honrada. Faziam tambm parte dessa comisso a
equipe do CENESP, inclusive Maria Augusta Tempone, da Universidade
Federal do Rio de Janeiro,
e personalidades como Dr. Roberto de Abreu Sodr, Sandra
Cavalcante e Adilson Ventura, este representando o Conselho
Brasileiro para o Bem-Estar dos Cegos. A Coordenadora
dessa Comisso era Tereza Amaral.

Durante vrios meses fui semanalmente ao Rio de Janeiro pelo
primeiro horrio da Ponte Area, trabalhar nessa comisso. Nessa
poca, havia muitas

pag:198

pessoas interessadas na criao da Fundao do Excepcional. Eu
jamais concordei com esse tipo de estrutura que me parecia
bastante desvinculada do panorama administrativo
de nosso pas. Essa no foi a primeira vez que esse assunto foi
discutido, mas a comisso em questo, depois de longos meses de
trabalho, optou pela criao de uma coordenao nacional que
contasse com a participao de vrios ministrios e das
organizaes de e para deficientes de todo o pas.

Trabalhei com o maior interesse durante todo o tempo e fiz parte
da Comisso de Redao que entregou ao Ministro da Educao Jorge
Bornhausen
um documento propondo a criao da Coordenadoria Nacional para
Integrao da Pessoa Deficiente. Foi uma bela solenidade realizada
em Braslia, com a presena do
Presidente Jos Sarney. A minha participao para a criao destes
organismos deu-me grande satisfao, assim como a minha
contribuio para a preveno da cegueira em nosso pas, que hoje
 o Programa de Sade Ocular e Preveno da Cegueira.

Este  um captulo para o qual dei muito de mim mesma e do meu
trabalho.  a satisfao que a gente sente na vida quando olha
para os anos passados e v o que pde
realizar. Muitos contriburam para a realizao destes programas,
para a instituio desses rgos. L est tambm o meu quinho de
trabalho e um grande orgulho,
mas um orgulho honesto. No  vaidade,  satisfao,  sentir que
vale a pena trabalhar.

Na Amrica Latina participei de toda a evoluo e criao de um
organismo, a Organizao Latino-Americana para a Promoo dos
Deficientes Visuais, OLAP.

Essa organizao reuniu os representantes de comits latino-
americanos e associaes de profissionais. Foi criada em So
Paulo, durante o Congresso do
Comit Latino-Americano do Conselho Mundial e fiz parte da
diretoria no cargo de presidente at 1979, quando assumi a
presidncia do Conselho Mundial para o Bem-Estar
dos Cegos, funo que ocuparia muito de meu tempo.

A OLAP foi o movimento concreto para a unificao dos comits e
organizaes existentes na Amrica Latina.

CONSELHO MUNDIAL PARA O BEM-ESTAR DOS CEGOS  JAPO

Os rgos que compunham o Conselho Mundial para o Bem-Estar dos
Cegos reuniam-se anualmente; o comit executivo duas vezes no
qinqnio, mas o comit diretor reunia-se
praticamente todos os anos.

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A maioria dessas reunies eram feitas, como ainda hoje, em
diferentes partes do mundo, a convite dos pases. Esse convite
devia ter o patrocnio de uma organizao
onde as reunies pudessem ser realizadas, ou que a organizao
providenciasse o local, a traduo simultnea, ou a traduo
concomitante.

Nas reunies os idiomas oficiais so ingls e francs.

De 11 a 16 de maio de 1978 - lembro a data exata porque foi a
primeira vez que fui ao Japo - houve uma reunio da Comisso
Executiva do Conselho Mundial em Osaka,
a convite de um dos diretores, Hideyuki Iwahashi. Ele era um
grande lder e diretor executivo da Nipon Ligth House for the
Blind. Havia sido educado na Inglaterra,
entendia mas falava pouco ingls. Era muito tmido.
Na oportunidade dessa reunio do Conselho Mundial, havia tambm em
Kioto o XXIII Congresso Internacional de Oftalmologia de cuja
seo plenria de preveno da cegueira eu participei.

A minha primeira impresso do Japo foi um grande burburinho
reinante. Senti-me no meio de uma enorme quantidade de pessoas,
tal o movimento dentro e fora do aeroporto,
incrvel o nmero de pessoas! A sensao era de estar no meio de
uma multido que se movia de um lado para o outro.

A primeira coisa que me perturbou foi morrer de sono nas horas das
reunies e no conseguir dormir  noite. O impacto da diferena de
fuso horrio foi terrvel.
Quando contei ao Boulter e ao Coiligan, eles se divertiram muito
porque j haviam estado l vrias vezes, tinham passado por tudo
isso e estavam todos munidos de
plulas para dormir a fim de pr em dia o fuso horrio. Eu no
tomo pilulas para dormir e no tomei. Acabei me pondo em dia e
conseguindo seguir todas as reunies.

Hideyuki nos mostrou o quanto estava avanado no Japo o
atendimento s pessoas cegas: a educao, as escolas, o nmero de
livros em braille, o centro de reabilitao,
os operrios cegos que trabalhavam na indstria. S uma coisa me
chocou: os operrios cegos no eram aceitos no sindicato de
trabalhadores. Incrvel o contraste
entre tantas oportunidades de trabalho para os cegos, de
reabilitao, de participao em esportes; no entanto, nos
sindicatos, os cegos operrios no eram aceitos.

Eu reclamei e falei do assunto em vrias oportunidades, em vrias
reunies. Durante essa reunio Eric Boulter, John Colligan e
outros conversaram comigo a respeito
da minha candidatura a presidncia do Conselho Mundial, para o
qinqnio 79-84.

Era uma poca agitada. Estava fervendo a possibilidade de
unificao entre a Federao Internacional de Cegos e o Conselho
Mundial para o Bem-Estar

pag:200

dos Cegos. Nenhuma das duas organizaes tinha realmente muito
desejo de ceder em seus princpios e em sua atuao, embora muitos
dos membros do Conselho fossem,
tambm, membros da Federao Internacional de Cegos.

Era isso que eu no conseguia entender: como eles podiam assumir
duas personalidades, quando estavam nas diferentes reunies dos
dois rgos.

Foi nessa oportunidade que Boulter me contou um parecer do Dr.
Robert Irwin que me deixou aturdida. Falando sobre a possibilidade
da presidncia, a importncia desse
qinqnio, em que certamente teria de ser decidida a unificao
ou no, Boulter me contou que foi trabalhar nos EUA depois que eu
havia voltado para o Brasil,
ao trmino de minha bolsa de estudos. Boulter era ingls e Helen
Keller tinha feito com que ele fosse  Grcia atuar junto ao
governo sobre o problema dos cegos,
fazer com que as organizaes tivessem oportunidade de mostrar as
suas necessidades. Dr. Irwin chamou Eric Boulter para os EUA para
assumir a direo da American Foudation Overseas Blind.

Segundo Eric, um dia o Dr. Irwin lhe disse: - "Foi pena voc
chegar s agora porque voc desencontrou de trs brasileiras que
estiveram aqui estagiando durante mais
de um ano. Uma delas  cega" (nesse caso era eu) "Eu tenho a
certeza que um dia ela vai dirigir o destino dos cegos no mundo".
Eu no Japo estava exatamente titubeando para aceitar a
presidncia do maior rgo internacional na rea da cegueira, que
era o Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos.

Vaticnio? No sei. Essa frase foi dita no incio da dcada de
1950. Ns j estvamos vinte anos adiante, em 1978, quase 1979.

Fomos a Nara e depois ficamos dois dias em Moto onde eu apresentei
o trabalho sobre Preveno da Cegueira na Amrica Latina, durante
o XXIII Congresso Internacional de Oftalmologia, na sesso
plenria de preveno da cegueira.

Aprendi o que  uma cerimnia de ch em Moto, visitamos jardins,
templos, senti muito cheiro de incenso, toda a religiosidade, o
respeito pelos antepassados, pela tradio e pela cultura.

Terminavam os dias da reunio executiva do Conselho Mundial em
Osaka. Nessa reunio sempre tomvamos todas as decises
necessrias para o
Congresso Mundial que seria em 1979. Na assemblia geral
estudvamos as alteraes dos estatutos, fazamos um exame
retrospectivo das atividades durante o qinqnio
e eu j comeava a me admirar de que durante essas reunies, que
antecediam a grande Assemblia Geral qinqenal, no se pensasse
j em fazer um plano de ao. Desde
essa poca, essa foi uma grande preocupao minha.

pag:201

A nossa volta foi marcante porque o novo aeroporto de Narita
estava sendo inaugurado. A populao  volta do aeroporto fazia
enormes protesto
porque o barulho dos avies diminua muito o valor das
propriedades prximas. O aeroporto  um show. Modernssimo.
Antecedendo e em seqncia s escadas h uma passadeira
com bolinhas. Parece braille no p.  uma pista para que os cegos
percebam onde ficam as escadas.

Os banheiros para deficientes so excelentes, perfeitamente
adequados e impecavelmente limpos. Samos de Narita no segundo dia
de funcionamento, Graas a Deus no houve nenhum tiroteio e nenhum
grupo de protesto. Estava tudo absolutamente calmo, disciplinado,
em ordem, como  quase tudo no Japo.

CONSELHO MUNDIAL - COMIT DE CULTURA

Um dos trabalhos que me deu grande prazer no Conselho Mundial foi
a minha participao como presidente do Comit de Cultura do
Conselho. Em 1976 Eric Boulter
j havia voltado  Inglaterra e era diretor do Royal National
Institute for the Blind e John Colligan, Tesoureiro do Conselho
Mundial, tambm trabalhava no Royal National Institute em Londres.

Com a colaborao do Royal National Institute eu pude planejar e
realizar o "Primeiro Congresso Mundial de Braille Computadorizado
Hoje e Amanh".

O congresso foi no prprio Regent Center Hotel. Entre as muitas
atividades do Comit de Cultura, eu saliento esse congresso porque
foi o primeiro a ser realizado na era da informatizao, no que se
refere  produo de livros em sistema braille.

Tivemos a presena de muitas autoridades no assunto e cientistas,
O Brasil foi representado por um especialista da Fundao e outro
da IBM. Quando presidi o Comit
de Cultura do Conselho Mundial, tivemos verdadeiros desafios. Um
deles certamente foi iniciar estudos sobre a possibilidade de
informatizao das imprensas Braille,
principalmente para os pases em desenvolvimento.

Nessa poca foi levantado todo o problema da necessidade de
unificao da linguagem para o computador. Se as abreviaturas e os
cdigos cientficos estavam causando problemas pela sua
diversificao, ns j podamos prever o

pag:202

que se passaria mais tarde em relao  prpria linguagem para o
computador, quando a simbologia teria de ser usada na transcrio
em braille.

 o que est acontecendo atualmente, 15 anos depois desse nosso
primeiro congresso. Hoje as possibilidades de comunicao atravs
das redes de informao via computador
tm um potencial preciosssimo para que se possa obter uma
extenso muito maior de conhecimentos para as pessoas cegas.

Da mesma forma, outro desafio refere-se ao grande problema que so
as concesses de direitos autorais para publicaes em sistema
braille ou em forma gravada. Foi
atravs desse Comit de Cultura que eu pude me dedicar a esta
rea, mesmo porque eu sentia o problema atravs da imprensa
braille, e da Unidade de Gravao de Livro Falado, da Fundao.

Quanto aos livros em forma gravada o problema se complica, porque
algumas editoras ou algumas companhias de gravao j os
comercializam h algum tempo. Porm, na
sua grande maioria so resumos de livros, condensaes, mas so
vendidos e pagam direito do autor. No caso dos livros gravados
para uso dos cegos no h venda.

O Comit de Cultura era constitudo principalmente por
profissionais que estavam envolvidos no problema de acesso 
leitura, seja em braille ou em forma gravada. Desse modo as
reunies eram muito proveitosas, isto , davam
resultados excelentes e alguma coisa foi obtida no que se
relaciona com abreviaturas: unificao de simbologia cientfica
que j est mais definida entre os grupos lingsticos.

Fizemos vrias reunies em diferentes pases: Inglaterra, Brasil e
Itlia. Na Itlia a reunio foi realizada em 1981 em Veneza, no
meio de imensa beleza e cultura.
O local era bastante adequado ao assunto. Esta reunio foi seguida
da Reunio do Comit Executivo do Conselho Mundial para o Bem-
Estar dos Cegos, em Gotenburg, Sucia.

COMENTRIOS

Houve um incidente bastante pitoresco com a filha de um
representante brasileiro, Roberto Aguiar - um professor de
sociologia, rapaz de grande talento que estava
fazendo sua tese em Londres e ns pedimos que ele representasse o
Brasil no Comit de Cultura, pois tinha bastante conhecimento do
assunto. Roberto, sua mulher e
uma filhinha, uma menina de 4 ou 5 anos chegaram antes de ns em

pag:203

Veneza. Havia, para a chegada das pessoas que deviam participar da
reunio uma pessoa que atendia  Secretaria. Existia muito
comentrio entre os que j haviam chegado
e certamente, porque eu era a presidente do Conselho Mundial, as
pessoas perguntavam: "Dona Dorina chegou? Vai chegar?"

Estive primeiro em Roma e fomos juntos com os representantes
italianos.

Os italianos eram muito ativos tambm no Comit de Cultura,
No dia que chegamos, algum disse: "Bem, a Dona Dorina j chegou".
A filha do Roberto perguntou: "Mas o que  esta Dona Dorina?" A a
me e o pai explicaram a ela
que eu era a presidente do Conselho Mundial e presidiria a reunio
do Comit em que se iria discutir um assunto que interessava muito
a todos ns. Fiquei muito orgulhosa
quando soube do comentrio da menina que foi a grande piada dessa
reunio. Ela virou-se para a me e disse: "J sei, ela  a Mrs.
Thatcher dos cegos". Muito obrigada
para a filhinha do Roberto. Realmente foi um grande elogio porque
Margaret Thatcher estava no auge de sua carreira e a menina,
certamente em Londres, ouvia falar
freqentemente dela e de sua posio de comando como Primeira
Ministra.

Outra apreciao ao meu respeito, que muito me divertiu, foi a de
um amigo de meu pai, um senhor portugus. Quando voltava conosco
da cidade  noite, eu muito animada
contava para papai os sucessos no inicio do meu trabalho, as
pessoas cegas que eu tinha conseguido que se acercassem da
Fundao, que passavam a entender que o
trabalho de educao e reabilitao era para tir-los de situaes
s vezes caticas em que se encontravam, sem saber o que fazer de
suas vidas. Eu me animava muito
e numa dessas noites, ao descer do carro o amigo de papai me
disse; "Qual! a menina  mesmo um boato. A menina no existe...".

O meu motorista, (expedicionrio na I Grande Guerra), meio
atrapalhado da cabea mas muito engraado, contava muitas
vantagens da guerra, talvez algumas apenas
sonhadas por ele. Um dia levou-me de carro para procurar uma
pessoa cega que precisava de muito apoio. S encontramos esta
pessoa depois de muitas voltas de carro.
Na volta, ao entrar no carro ele disse simplesmente: "Dona Dorina,
at que foi um achado para os cegos a senhora ter ficado cega,
no?" Esse foi o mximo do elogio
que eu poderia ter ouvido. Por outro lado, ouvi muitas vezes
depreciaes, como num baile no qual eu estava com um vestido
bonito, danando muito feliz; ao passar
por um grupo ouvi uma pessoa elogiar o meu vestido azul
acinzentado, que me ficava muito bem; "Que vestido bonito" e a
outra disse: "Ah, voc no sabe! Coitadinha
dessa moa, ela  cega ela  uma ceguinha".

Graas a Deus nem os grandes elogios e nem os diminutivos
depreciativos com que as pessoas se referem a nossa cegueira
jamais me atingiram. Prefiro

pag:204

mesmo a sinceridade ingnua de minhas netas e netos: "Vov, para
que voc quer que eu mostre o vestido? Voc  cega mesmo!"

Renata, minha neta, das meninas  a mais moa. Agora que se
compenetrou do que  a minha cegueira, ela sempre corre e me pega
pela mo mesmo que
eu no precise e pergunta aonde eu quero ir, me ajuda. Mas ainda
reage quando quero pegar alguma coisa, quando peo para tocar
alguma coisa, isto , ver tocando. Para ela, ver  s com os
olhos. Renata est comeando a perceber a
diferena, tanto que outro dia ela pegou na minha mo e me mostrou
a forma exata do desenho que ela tinha feito.

 minha outra neta, tambm de cinco anos, eu disse: "Vem Marina,
eu vou passar baton". Resposta: "Como? Voc  cega vov". A
levei-a junto comigo, passei batom
para que ela visse, depois penteei os meus cabelos e passei
perfume nela. Ela completou, dizendo "Voc  cega mas voc faz
tudo mesmo, no  vov?"

O melhor foi Andr, o filho do Cristiano, o mais moo. Quando ele
tinha uns quatro, cinco anos, foi ao banheiro e chamou a me para
ajud-lo, ento eu fui e disse-lhe
que sua me estava ocupada e que eu iria ajud-lo. Ele virou-se
para mim e argumentou: "Mas voc no pode vov, voc no v!" eu
disse a ele: "O que  que voc est pensando? Eu no vejo e quem 
que fazia isto para o seu pai? Quem  que o ajudava?" A que foi a
beleza, ele virou-se, deve ter aberto uma
boca do tamanho de um bonde e deu um berro: "Meu pai, voc ajudava
quando ele ia ao banheiro?!" A imagem que ele teve foi do pai bem
grando, na frente dele e se
esqueceu de que o pai tinha sido pequeno. Eu tratei logo de
explicar que era s quando o pai era criana.

1979 - ANO DA SEXTA ASSEMBLIA DO CONSELHO MUNDIAL PARA O
BEM-ESTAR DOS CEGOS

A Assemblia Geral do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos
estava acertada para ser realizada na frica, na Nigria ou
Qunia. Os africanos faziam convites ao Mundial para que uma das
Assemblias Gerais tivesse lugar em seu
continente. As assemblias so uma grande oportunidade para
motivar o governo e a sociedade do pas onde elas se realizam.

pag:205

Um pouco antes da data marcada, estive em Londres e Eric Boulter
se mostrou muito apreensivo quanto  possibilidade de realizar a
Assemblia Geral na Nigria. Ele
se comunicou com o servio diplomtico e as notcias vindas da
Nigria, atravs dos delegados do Mundial, foram pouco animadoras.

Havia uma certa apreenso desde o incio sobre a possibilidade de
l se realizar a Assemblia e o Congresso Mundial porque esses
congressos eram muito concorridos.
Ns tnhamos todo o interesse em que os pases africanos tivessem
a oportunidade de se reunir em sua prpria regio, a fim de
estimular o desenvolvimento do trabalho
nessa rea geogrfica. Todavia, faltando poucos meses da data
marcada para o incio da Assemblia, as ltimas comunicaes
mostraram que isso seria impossvel. Ento
ficou decidido pela diretoria do Mundial que se procuraria
emergencialmente um pas onde a Assemblia e o Congresso pudessem
ter lugar.

A soluo foi aceitar o convite da Blgica. A Assemblia aconteceu
em Anturpia.

Na antecipao de uma possvel candidatura minha para a
presidncia como j vinha sendo discutido, a delegao do Brasil e
o nmero de participantes
brasileiros foi bem maior do que o de costume.

Eu fui com Alex. Olmpia, que estava na Europa com a filha, foi
para Anturpia passar uns dias tambm. Da Fundao foram Ivete,
Olenka, Nely, Geraldo e Teresa Sandoval
e, pelo Senai de Minas Gerais, Luiz Geraldo e a mulher Moema, alm
de Odinia, de Belm do Par.

A diretoria do Mundial teve de agentar muita improvisao, pois
tudo havia se resolvido praticamente em poucos dias, com a mudana
da Assemblia Geral da frica
para a Europa. Havia um bom nmero de latino-americanos, graas a
Deus. Enfrentar uma eleio mundial sem ter representantes dos
pases de nossa rea geogrfica seria terrvel.

Confesso que na noite da chegada, tive de me vestir s pressas
para um jantar de gala e fiquei atordoada. Alex ficou com medo que
alguma coisa me acontecesse, mas graas a Deus resisti ao impacto
dos boatos, dos cochichos, das confabulaes que comearam desde o
momento em que eu pus os ps na Anturpia.

O tema do congresso foi Cooperao. Como j havamos planejado, a
Federao Internacional de Cegos - IFB, - j havia terminado o seu
congresso e sua eleio. Dr.
Franz Soontag foi eleito presidente. No Brasil, eu j tinha
recebido a garantia de apoio do Governo Estadual, e tambm do
Governo Federal. Mas continuava incrdula de que pudesse realmente
ser eleita. As presses eram muito grandes. Os latino-americanos
foram fabulosos. Todos unidos pediram a

pag:206

Alex que ele coordenasse tudo o que deveria ser feito para que eu
realmente fosse eleita. Alex era conhecido por todos, mas nunca
interferia nos assuntos dessas
reunies e assemblias. J tinha assistido a vrias porque nessas
reunies polticas eu pedia muito a ele que fosse comigo. Foi uma
verdadeira revelao. Ele assumiu a coordenao e revelou os seus
dotes polticos. Cristiano sempre dizia: "Meu pai  um grande
poltico".

Alex coordenou de forma organizada e silenciosa todos os latino-
americanos.  interessante, todos estavam contentes e seguiam
exatamente os planos que eram traados em conjunto.

Eu continuava assistindo s reunies do congresso, mas confesso
que nem sempre conseguia me concentrar, pois de repente algum
vinha me chamar. "Dr. Alex disse que a senhora precisa falar com
fulano". L ia eu falar com fulano da ndia, da frica, de
Portugal, da Espanha, e s Deus sabe mais de onde.

Nas vsperas da eleio, eu estava tomando o meu caf da manh,
no havia dormido a noite inteira de preocupao. De repente me
arrancaram do caf da manh. "Voc
tem de ir para o quarto imediatamente.  uma ordem do Dr. Alex.
Voc no pode se encontrar com determinadas pessoas porque algum
vai pedir a voc que desista da
candidatura. Eric Boulter disse que em hiptese alguma voc pode
desistir agora". L fui eu ficar trancada no quarto.

Sabia exatamente aqueles que faziam muita presso para que eu
fosse eleita. Alm dos latino-americanos, os franceses, os
ingleses, toda a Amrica do Norte, espanhis,
portugueses, alguns italianos, alguns alemes e muitos asiticos e
africanos. Os escandinavos preferiam que a presidncia ficasse com
Franz Soontag porque faziam
muita presso para que a Federao Internacional de Cegos e o
Conselho Mundial se unificassem e, se o presidente fosse o mesmo,
eles achavam que haveria maior possibilidade
de que isso acontecesse. Alm do Dr. Franz Soontag ser membro do
Mundial, tinha sido eleito presidente para o qinqnio 79 a 84.

Um dia marcaram uma reunio com Bons Zimmim. Alex foi comigo. Bons
tinha sido o meu competidor na eleio que perdi em So Paulo.
Tornamo-nos grandes amigos e durante
toda a presidncia de Bons Zimmim ele me pediu muitas vezes para
represent-lo, principalmente nos congressos das Naes Unidas ou
das suas agncias especializadas
e me deu grande oportunidade de participar de vrias reunies no
Ano Internacional da Mulher. Tive todo o apoio de Bons Zimmim.

Bons Zimmim significava todos os votos da Unio Sovitica. Fui
conversar com ele e com o meu grande amigo Hideyuki Iwahashi.
Hideyuki era um dos delegados do Japo, muito conceituado, muito
srio, procurava ser imparcial, e

pag:207

era bastante ligado aos anglo-saxnicos. Bons me animou muito e eu
me lembro das suas intrpretes Luci e Olga, com que entusiasmo
elas traduziam e faziam interpretao
da entrevista; garantiu que toda a Unio Sovitica votaria em mim.

Abdulah era candidato e estava fazendo muita presso tambm para
ser eleito. Ns ramos timos amigos. Eu o queria muito bem, como
quero at hoje. Sempre apreciei
todo o seu grande desejo de realizar o que podia para os cegos do
Oriente Mdio, tinha muito carinho para com as pessoas cegas mais
velhas, nossos antecessores.
Naquela oportunidade porm, ele teve muito desejo de que eu
desistisse da minha candidatura, porque sendo ele vice-presidente
da IFB, teria chance de ser eleito em 1979. Mas conseguiram que
no nos encontrssemos mais at a Assemblia de Eleio.

Jean Kenmore, que havia sido chefe da seo da American Foundation
Overseas Blind em Paris, naquela poca estava ligada ao Conselho
Mundial tambm. Fazia parte
da delegao norte-americana. Jean me disse um dia:"Eu no
acredito mais nos delegados do Mundial se voc for preterida. Voc
tem todas as condies para ser a primeira
mulher presidente. Ser a maior injustia, se por outras razes
polticas, voc, que  uma profissional na rea, no for eleita".

Muitos delegados africanos pendiam um pouco para Abdulah, porque
representavam pases onde ele estava ajudando financeiramente e
tinham um compromisso, caso ele
fosse candidato. Realmente no sei o que se passou, mas acho que
todos os dias Alex, Susana Crespo da Argentina e Ernando Pradilia
Cobos da Colmbia faziam a contagem
das intenes de voto. Foi voto secreto e desta vez muito bem
feito. Havia cdulas preparadas em braille e  tinta e urnas
inviolveis, tudo muito bem organizado.

At hoje no sei o que aconteceu realmente, mas acho que os meus
competidores e seus partidrios de repente viram que seria uma
eleio muito difcil para todos:
Franz retirou sua candidatura, Abdulah tambm e afinal eu
realmente fui eleita por aclamao.

Penso que me encolhi inteira naquela mesa diretora. Eu ouvia os
aplausos, chorava, ouvia os aplausos, chorava, talvez poucos
acreditem, eu mesma no acreditei que
aquilo fosse possvel.  realmente o cargo mais ambicionado e mais
difcil de ser atingido na nossa rea de trabalho.

Acima de tudo o que me preocupava era a imensa responsabilidade: a
primeira mulher em tantos anos a assumir este posto. Eu tinha
sobre mim todos os pensamentos,
as observaes de mais de 70 paises e todos haviam concordado em
me entregar o cargo de Presidente do Conselho Mundial.

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Da em diante tudo foi congratulaes, telegramas, festas e
alegria. Eu pensava "Como vou dar conta de tudo?" Mas eu sabia que
se Deus havia permitido, ele me ajudaria.

Alex, como sempre, l na ltima fila da assemblia, torcendo. Alex
contribuiu muito para que eu pudesse ser eleita, com o seu
consentimento. Ele sabia que eu ia
ter de viajar muito. Durante cinco anos ia me ausentar muito de
nossa casa. Dessa vez, ele ficou orgulhoso!

O vaticnio de Robert Irwin comeava a se cumprir.

Meus companheiros de Diretoria foram:

Ex-Presidente Imediato	-	Bons Zimmim - URSS
Secretrio Geral Honorrio	-	Anders Amor - Sucia
Tesoureiro Honorrio	-	John C. Colligan - Inglaterra
Vice-Presidentes	-	Ismaila Konat - frica
 				-  Hideyuki Iwahashi  - sia
-  Fielmut Pielasch  - Europa
- Sheik Abdulah M-Al-Ghanim  - Oriente Mdio
- John Wiilson - Amrica do Norte e Oceania
- Hernando Pradilla Cobus - Amrica Latina e
Caribe

Mais duas pessoas tinham de ser eleitas.  Felizmente John Colligan
ganhou, como tesoureiro. Ele sempre foi um excelente tesoureiro e
eu confiava nele. Foi eleito Anders
Amor como secretrio geral, tambm bastante competente. No
escritrio de Paris, minhas muito queridas amigas Hillary Gohier e
Marina Magalof  - duas secretrias a
cuja dedicao eu devo muito. Senti durante todo o tempo o grande
carinho que elas me dedicavam. Foram maravilhosas, inesquecveis e
muito queridas.

No regresso a So Paulo fomos a Paris. As brasileiras ficaram no
mesmo hotel. Estavam Odinia, Olenka, Nely e Ivete. Fomos jantar
celebrando a minha eleio e Alex me deu duas blusas de seda e uma
roupa azul marinho e branca de malha que era uma graa. Nunca me
esquecerei desse presente pela minha eleio.

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No Brasil muita festa, muita comemorao, muita alegria.
Organizado pela Fundao foi realizado um jantar muito concorrido,
no Clube Atltico Paulistano. Nunca
me esqueo, no sei porque, da minha roupa, feita especialmente
para o jantar. Alex tinha me dado no Japo vrios metros de seda
branca, seda pura japonesa com uma
espcie de pinherinhos, mas em branco mesmo, linda. Era uma seda
muito estreita porque era para vestido de noiva japonesa. Mas ele
gostou e comprou vrios metros
para o vestido. Era um vestido longo, uma saia com pregas, um
blaiser e uma blusa amarela que se destacava muito no cru; a seda
pura  mais cru do que branca.

Nessa, como em outras oportunidades, quando assumia cargos
nacionais e internacionais, havia sempre congratulaes da
Assemblia Legislativa e da cmara dos Vereadores
e eu as recebi com entusiasmo porque elas continham muito de
reconhecimento para a Fundao. O meu trabalho e todas as posies
que assumi foi porque eu tinha um
interesse profundo em que o trabalho no Brasil pudesse um dia
equiparar-se aos melhores do mundo, tendo em vista, acima das
organizaes, as pessoas cegas, principalmente
aquelas que mais necessitam desse trabalho, dessa divulgao,
desse esclarecimento da comunidade que nessas horas se processa.

ONCE

Tive sempre muito bom relacionamento com a Organizao de Cegos da
Espanha - ONCE. Conheci a ONCE no incio de meu trabalho
internacional. Tinha uma grande admirao
por seu fundador, Don Tgnacio Satrustegui. Todas as vezes que me
foi possvel atendia aos convites da ONCE para reunies onde
discutamos muitas vezes os problemas
da Amrica Latina. Durante o tempo em que presidi o Mundial recebi
tambm convites da Espanha, Itlia, Inglaterra, EUA, Canad e
ndia para divulgar os trabalhos
do Conselho e tomar conhecimento dos recursos locais.

Eu quero muito bem  filha de Don Ignacio, Isabela, que depois se
tornou secretria da Rainha Sofia Estive vrias vezes em sua casa
e conheci ento Pedro Zurita,
um jovem cego, muito promissor, que j estudava muitas lnguas e
Don Ignacio achava que ele um dia poderia ocupar uma posio de
relevo no plano internacional. Sua
previso realizou-se, Pedro foi eleito secretrio geral da Unio
Mundial de Cegos.

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Mais tarde, Pedro esteve no Brasil e em outros pases da Amrica
Latina, nas reunies de discusso dos problemas das imprensas
braille. Pedro me sugeriu ir a Madri
para discutir com a diretoria da ONCE os problemas latino-
americanos. Foram reunies muito interessantes.

No princpio de 1980, fui muitas vezes sozinha a Madri e de l ia
para Paris, onde Alexandre estava morando Numa dessas vezes, fui
com os espanhis a Paris para um evento quando recebi o chelon
Vermeil, a medalha da cidade de Paris.

Quando eu ia sozinha para Madri, eles mandavam me buscar no
aeroporto, depois passava o dia na ONCE em reunies em vrios
setores e com os diretores. Foi quando
conheci Antnio Mosquete e sua mulher Rosa, que trabalhava com
crianas cegas numa escola comum. O grande Antnio Mosquete ser
sempre lembrado por todos os cegos
do mundo e pelos latino-americanos muito especialmente, pelo
carinho, pelo interesse que demonstrou pela Amrica Latina.

A ONCE  uma organizao de cegos dirigida por pessoas cegas. O
Conselho Superior e sua diretoria so formados s por pessoas
cegas. A princpio Don Ignacio fez
a indicao do seu substituto. Era o procedimento usado ento para
a escolha dos novos dirigentes.

A partir de Antnio Mosquete, o Conselho Superior passou a ser
eleito por todos os membros da ONCE, a cada trs anos. O processo
 democrtico, h grupos de poltica
interna que elegem os membros do Conselho, compreendendo vrios
ramos das provncias, sempre obedecendo a uma eleio democrtica.
H um ramo da ONCE em cada provncia,
tendo cada um deles o seu diretor eleito.

A Espanha naquela poca tinha escolas residenciais s para cegos,
separadamente para meninos e meninas. Eram escolas de primeira
linha, muito bem organizadas, com
bons professores, timos equipamentos e acomodaes. Hoje o grande
centro educacional recebe meninos e meninas em regime de co-
educao.

A ONCE  uma grande organizao.  a quinta potncia financeira da
Espanha, segundo a Gazeta Mercantil de So Paulo. Desde o incio a
ONCE conseguiu uma concesso
que tem de ser renovada anualmente para realizar uma loteria
nacional diria. Essa loteria  toda feita pela ONCE, com seus
prprios funcionrios, no pas inteiro.
Ela distribui prmios em dinheiro. So cinco prmios e o sorteio 
feito todos os dias no canal 5 da televiso espanhola. A ONCE tem
200 prdios em toda a Espanha, onde funciona a loteria. Grande
nmero de cegos trabalha em funo da loteria.

pag:211

Numa das minhas viagens, fui  televiso assistir a um sorteio.
Alis, o presidente do canal da televiso era Miguel Duran, na
poca tambm diretor executivo da
ONCE. Duran  tambm uma pessoa cega. A ONCE  detentora de uma
grande parte de aes desse canal de TV. Possui estao de rdio,
e na ilha Marguerita, na Venezuela,
 dona de um magnfico hotel de turismo.

Tive a oportunidade de sugerir, durante o tempo em que fui
presidente do Conselho Mundial, que se criasse um escritrio da
ONCE para a Amrica Latina, possivelmente
no Uruguai. As associaes de nossos pases tm poucos recursos
para a manuteno de uma coordenao regional por conta prpria.

Era necessrio uma ajuda maior da ONCE para os pases latino-
americanos.

Na Amrica Latina existia o Comit Latino-Americano do Conselho
Mundial e posteriormente a OLAP, Organizao Latino-Americana para
a Promoo de Cegos. O Conselho
Mundial contava com um grupo de pases doadores, principalmente
Inglaterra, Sucia, Itlia, Alemanha, Frana, a Unio Sovitica,
os EUA e o Canad. A Oceania, a
Austrlia e a Nova Zelndia tambm faziam doaes para os pases
da regio, principalmente no campo de preveno da cegueira. Os
pases de lngua inglesa da sia
e da frica recebiam recursos muito grandes da Royal Commonwelth
Society for the Blind, da qual foi presidente muitos anos Sir John
Wilson. A Frana e a Alemanha
tambm ajudavam pases da frica. Aos poucos, foi se formando um
grupo no Conselho Mundial, procurando fazer uma espcie de
coordenao para a ajuda aos pases em desenvolvimento.

Isso j existia durante os cinco anos da minha presidncia. Ns
buscva mos sempre que a ONCE se voltasse para uma ao mais
intensa junto s orga nizaes da Amrica
Latina. Embora o Brasil tivesse recebido em anos anteriores a
colaborao da American Foundation for Overseas Blind e da
Inglaterra, ns acreditvamos que era muito
importante que algo maior se fizesse. Por isso eu estive vrias
vezes na Espanha.

Numa das vezes houve um jantar em casa de uma moa que trabalhava
na ONCE como telefonista, chamada Angelines. Angelines tinha um
apartamento muito bem montado e
o jantar foi em uma noite de vero. Estavam Pedro Zurita, Antnio
Mosquete e Rosa sua mulher, Angelines e eu. Ela serviu um jantar
muito simptico no terrao do
apartamento. Tomamos um "gaspacio", tudo preparado por ela e pela
esposa de Antnio. A mesa estava muito bem arrumada e um carrinho
servia de buffet. De repente
elas foram trocar os pratos e copos que estavam no carrinho, uma
cega e a outra com viso subnormal, ouve-se um barulho de copos e
pratos quebrados. Levamos um
susto e algum disse: "La mucama". Bem, mucama para mim, em
portugus,  a servente, uma espcie de

pag:212

arrumadeira dos tempos antigos. Eu no tinha percebido se havia
uma emprega da e disse; "O que aconteceu? Ela caiu, se machucou?"
Eu no tinha a menor idia do que
tinha acontecido. Foi uma gargalhada geral, porque o que havia
cado era o carrinho e carrinho de ch em espanhol  mucama.

Mais tarde em 1984, quando terminou o meu mandato, na reunio do
Comit Latino-Americano na Arbia Saudita, foi criada a Unidade de
Gesto da ONCE para a Amrica
Latina. Tudo o que havamos sonhado e discutido vrias vezes na
ONCE a estava. No quero dizer com isso que foi mrito meu, longe
de mim. Mas, mais uma vez, l
estava a minha pedrinha num trabalho de reunir esforos, de reunir
organizaes e coordenar o trabalho numa importante regio
geogrfica como  a regio latino-americana.

Na Espanha, uma vez, veio  minha mente uma conversa que tive h
muitos anos, em Madri, com um grupo de senhoras dos ento
diretores da ONCE. Isso faz mais de vinte
anos. Eu falava sobre a importncia de se dar muitas oportunidades
sociais s moas cegas que estavam nas escolas e trabalhavam e que
tinham uma formao profissional.
Referia-me principalmente  possibilidade delas ocuparem posies
e cargos na prpria direo da organizao. Naquela altura, eu
tinha conversado com vrias moas
cegas e tinha sentido o quanto elas aspiravam, tambm, ter maiores
oportunidades de cargos na ONCE. A resposta que ouvi de uma das
senhoras, cujo nome no vem ao
caso porque ela  uma pessoa bonssima foi que "Ns mujeres
teneamos que ser preparadas para los servicios del hogar, cuidar
de sus famlias". Acho que ela continuou dizendo que as moas
recebiam instruo de acordo com a funo da mulher. Que para ela,
essa funo no abrangia absolutamente nenhum aspecto profissional
e muito menos de direo de uma organizao.

Nesse tipo de discusso aconteceu o habitual; elas diziam que o
meu caso era um caso excepcional, e eu nunca achei que era um caso
peculiar. A realidade  que anos
mais tarde revi Angelines, que j estava trabalhando numa outra
posio; Rosa, que trabalhava com crianas de viso subnormal numa
escola regular, porque ela acreditava
na integrao da educao. Mais tarde vim a conhecer, entre
outras, Cristina Gonzales, que se tornou vice-presidente do
Conselho Superior. Ela exerceu sua funo
com muita competncia. Ainda est numa posio de direo de um
rgo muito importante da ONCE. Cristina no  o nico exemplo,
sei que h muitas outras mulheres na ONCE que hoje esto
trabalhando lado a lado com os membros da direo.

Os tempos, graas a Deus, mudam, e principalmente as mentalidades
evoluem. As vezes  s uma questo de tempo, mas na maioria das
vezes depende muito, no caso das
mulheres cegas, de se lhes oferecer educao, oportunida-

pag:213

des de convvio social aberto, meios de formao profissional e
trabalho adequadamente remunerado.

Esta discusso teve lugar quando eu j me encontrava preocupada em
buscar melhores solues para a situao da mulher cega no mundo.
A tal senhora completou: "
melhor deixar as moas cegas como elas esto, porque so felizes e
tm o apoio, o abrigo de uma organizao como a nossa". Eu porm
no desisti e sempre que possvel,
em todas as organizaes que freqentei, em todas as palestras que
fiz, enfoquei o problema das mulheres cegas e hoje principalmente
insisto no s na sua formao
profissional, na sua oportunidade de educao e de reabilitao,
mas sobretudo no reconhecimento do seu valor e nas oportunidades
que lhes devem ser facilitadas
para ocupar as posies para as quais tm competncia. A sua
valorizao na sociedade e as oportunidades de se realizarem como
esposas e mes a que tm direito pela
sua prpria condio de mulher, devem ser ressaltadas. Educao
sim, profissionalizao sim, mas sobretudo maior abertura para a
sua participao na vida da comunidade,
tia cultura, na poltica, nas artes e principalmente no lazer. No
apenas em clubes segregados, ou organizaes segregadas, mas no
nvel de suas famlias, no meio
em que elas vivem. O progresso tem sido muito grande.  preciso
reconhecer, porm, a necessidade de liderana nesta rea para que
se ampliem as possibilidades em
todos os ramos da atividade humana.

Lamentavelmente perdemos Antnio Mosquete, jovem ainda, num
acidente no elevador. Seus sucessores no desmentiram os
propsitos que a ONCE j havia assumido com
os pases latino-americanos. Jos Antnio Reis Duran confirmou os
programas elaborados; Don Jos Maria Arroyo tem realizado um
trabalho de grande envergadura com
o fundo ONCE - ULAC para a Amrica Latina. Em todas as gestes h
um dos membros da ONCE ligado aos problemas da Amrica Latina,
como Cristina Gonzales e Rafael
Mondaca, que participam das reunies e congressos e procuram dar
sua valiosa colaborao aos nossos trabalhos.

So centenas de organizaes no Brasil e em outros pases da
Amrica Latina que tm sido atendidas por este Fundo em inmeros
servios de educao, de profissionalizao,
no fortalecimento das organizaes de cegos e no apoio a projetos
das organizaes de servios para cegos em toda a nossa regio.

A ULAC - Unio Latino Americana de Cegos, tem tido todo o apoio do
Fundo para realizar congressos, seminrios e cursos.
Indiscutivelmente a ONCE projetou-se na Amrica Latina, e atravs
do Fundo promoveu um desenvolvimento muito grande.

pag:214

A Espanha tornou-se um dos grandes pases doadores da Unio
Mundial de Cegos e assumiu a liderana da IBSA - Associao
Internacional de Esportes para Cegos, colocando
um entusiasta como Henrique Saenz na presidncia dessa
organizao.

Pedro Zurita seguiu sua carreira, seu destino correspondeu aos
desejos de muitos de ns que acompanhamos a sua trajetria na
Secretaria da Unio Mundial de Cegos.
Tem prestado valiosos servios nesse cargo a todos os pases do
mundo e a todas as organizaes filiadas  Unio. Tem habilidade
ultra excepcional de comunicao,
fala muitas lnguas e mesmo alguns dialetos; eu no tenho dvidas
de que ultrapassou as expectativas de todos que o acompanham desde
o incio de sua carreira. At
o presente momento, para o estudo e defesa dos projetos na Amrica
Latina, para obteno de recursos, a ONCE, alm de ouvir o
presidente da ULAC no quadrinio 1992/96,
Henrique Elissalde, um cego uruguaio, tambm um grande lutador, a
ONCE ouve um dos grande lderes brasileiros, que tive a satisfao
de conhecer desde o incio
de sua carreira, Adilson Ventura. A Adilson cabe a difcil tarefa
de defender centenas de projetos das organizaes brasileiras
junto ao fundo ONCE - ULAC para a Amrica Latina.

pag:215

O IDEAL SEMPRE PREVALECE


ANO INTERNACIONAL DA PESSOA DEFICIENTE

Entre as inmeras tarefas que tive em toda a minha vida de
trabalho, uma das mais difceis foi sem dvida alguma falar na
Assemblia Geral da ONU, quando se iniciou
o Ano Internacional das Pessoas Deficientes das Naes Unidas.

A abertura desse ano realizou-se em setembro de 1980. Foi
realmente muito preocupante ter de falar na ONU. A ento Fundao
para o livro do Cego no Brasil solicitou
ao governo brasileiro que eu na qualidade de presidente do
Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos e presidente da
Fundao, fizesse parte da delegao brasileira
na Assemblia Geral e que pudesse fazer uso da palavra em nome dos
deficientes visuais.

Preparei o meu trabalho "A Contribuio das Pessoas Deficientes na
Sociedade Atravs da Participao Plena" com assessores
competentes. O trabalho foi submetido
ao Presidente da Repblica atravs do Itamaraty e obtive per
misso para apresent-lo no Terceiro Comit da XXXV Assemblia
Geral da ONU.

Elaborar o trabalho foi uma tarefa difcil, mas possvel de ser
realizada. Quando sinto a responsabilidade, o quanto se espera
daquilo que vou apresentar, sempre procuro pensar que vou dar o
melhor de mim mesma e, portanto, devo ficar tranqila. Nem sempre
correspondo s expectativas. Isto no acontece

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apenas comigo e esse temor no me impede de enfrentar uma situao
to difcil como a de 1980. Confesso que o Esprito Santo tem me
ajudado. Eu sempre peo a sua
proteo e tenho a certeza de que ele me ajudou inmeras vezes.

Na Assemblia Geral da ONU enfrentei um problema maior. No podia
falar sem ler, porque eu no podia me desviar do texto. Tinha de
ser absolutamente fiel, ler o
texto que havia sido aprovado pelo Ministrio das Relaes
Exteriores e tambm era o que esperavam de mim os diplomatas da
delegao brasileira na ONU.

Comecei a ler o meu discurso e consegui faz-lo em grande parte.
J tinha assistido s sesses durante vrios dias e percebi que
ningum podia ocupar o espao de
tempo para falar, sem o determinado limite. Li durante
aproximadamente meia hora, devagar, mas achei que estava
ultrapassando de longe o tempo que me era permitido.
Ningum me chamou a ateno, ningum me mandou parar, mas sempre
tive o senso da realidade e pressenti que levaria ainda bastante
tempo para chegar ao fim, porque era um trabalho extenso.

Pedi licena ao presidente da sesso e solicitei ao diplomata Ruy
Casaes que por favor, terminasse a leitura para mim a fim de que
eu no ocupasse mais tempo do
que era devido. Sabia que ele estava me acompanhando, tinha o
texto todo em tinta, mas ele me confessou depois que levou um
enorme susto, porque no o preveni e
no podia preveni-lo porque eu mesma no sabia se conseguiria ler
todo o trabalho em braille.

Eu j havia presenciado em muitas reunies desse tipo que as
pessoas cegas, quando percebem que lem muito devagar, pedem a
outra pessoa que faa a leitura de todo
o texto. Raramente tenho feito isso na vida porque no leio,
apresento os trabalhos. Tenho comigo um esquema e leio apenas para
acompanhar.

Defendi no meu trabalho a criao da Dcada da Pessoa Deficiente
que depois foi criada, de 1982 a 1992. Defendi o princpio de
transferncia de tecnologia dos pases
industrializados para os pases em desenvolvimento devido 
necessidade de que ns, cegos, pudssemos contar com maior nmero
de equipamentos tecnolgicos.

No posso negar que fiquei muito orgulhosa, principalmente depois
que passou o susto de ter de ler em braille um discurso na ONU.
Para mim, foi uma proeza. Foram
os 30 minutos mais sofridos que j passei. Houve momentos em que
pensei: meu Deus! como  que fui assumir uma responsabilidade to
grande! Falei exatamente no dia
30 de outubro, quando nascia no Brasil a minha quarta neta, Marta,
filha de Alexandre e Maria.

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Tive uma viso diferente daquela Nova Iorque onde eu tinha morado
mais de um ano e que j conhecia bastante. Conhecer como estudante
 diferente de conhecer como
membro da delegao brasileira da ONU.

Durante anos muitas reunies, seminrios e congressos realizavam-
se nos EUA. Primeiro porque as organizaes norte-americanas
tinham mais recursos e ofereciam acomodao.
Conseguia-se patrocnio para passagens no Conselho Mundial e
outras organizaes tinham muito interesse em que os
representantes dos pases em desenvolvimento tivessem
oportunidade de conhecer servios j bastante desenvolvidos,
recursos tcnicos de muito boa qualidade e recursos financeiros
que l tambm foram conquistados graas
 presso das pessoas cegas e dos profissionais em geral na rea
de deficientes visuais.

Representei o Brasil duas vezes numa reunio que se realizava
todos os anos em Washington. E a reunio do Comit do presidente
dos EUA sobre reabilitao e profissionalizao
das pessoas deficientes.

O presidente dos EUA indicava para esse comit capites de
indstria e empresrios de renome. Dessas reunies participavam
tambm altas autoridades do governo americano.
Muitas vezes eu estive at em mesas de trabalho com Ministros de
Bem-Estar Social e do Trabalho dos EUA, alm das altas patentes,
figuras de primeiro escalo do governo americano discutindo o
problema com os representantes de todos os pases.

Essas reunies se realizavam do fim de abril at os primeiros dias
de maio. Eram sempre trs dias. Havia exposies, onde conheci os
primeiros equipamentos eletrnicos,
sintetizadores de voz j em uso em vrios departamentos de governo
onde houvesse pessoas deficientes visuais trabalhando e inmeros
equipamentos para mobilidade
e para facilitar a vida das pessoas portadoras de deficincia
auditiva, e de deficientes fsicos em geral. Andavam por aqueles
corredores pessoas com mltiplas deficincias, todas participando
do congresso, apresentando trabalhos, profissionais ligados a
rgos governamentais e particulares.

A GRANDE AVENTURA DE SER AV

Quando somos jovens, constitumos o nosso lar. Planejamos o
presente e sonhamos o futuro. Os filhos sim - pelo menos para ns,
eles fazem parte em todo o tempo do nosso planejamento e do nosso
sonho. Mas e os netos? Ser que algum

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quando  muito jovem e inicia uma famlia pensa ou cogita sobre os
netos? A famlia, os filhos so uma longa estrada a percorrer e eu
penso que nem se cogita a respeito de netos.

O que  ser av ou av? O que  ter netos?  to distante.. A
famlia ocupa tanto de ns mesmos, de nossas cogitaes, de nossas
preocupaes, de nossos trabalhos,
que esse  um sonho apenas vislumbrado muito  distncia. De
repente, um dia a est. Acontece, nasce o primeiro neto.

A vida passou, a vida correu. Tivemos uma experincia prvia com o
fato de sermos avs. Quando Alexandre se casou, Maria era viva e
tinha uma filhinha que ainda
no completara 3 anos, nes. Durante o namoro e o noivado de Maria
com Alexandre, nes passou a freqentar a nossa casa. Foi um
encanto. Era a bonequinha de todos.
As tias e tios se encantaram e os avs tambm.

A primeira vez que ela foi a nossa casa, sentou-se no meu colo e
conversou comigo. Era uma gracinha, falava italiano. Tinha vindo
da Itlia e mal falava portugus. Acho que nos comunicamos porque
eu tambm lhe respondi em italiano. Foi amor  primeira vista.
Alex e eu nos sentimos avs de repente.

Logo depois nasce o primeiro neto, um menino. Foi uma felicidade,
um menino lindo, Eduardo, Dudi, o primeiro filho de Cristiano. Foi
uma festa, uma grande alegria.

O pai e a me trabalhavam, tinham plantes e logo depois de alguns
meses tive a felicidade de cuidar de Dudi duas vezes por semana.
Reviver fraldas, sopas, mamadeiras,
choros, horrios de dormir, foi uma delcia.  interessante que
depois de criar cinco filhos, quando se volta no tempo, passados
alguns anos, parece que temos de
aprender outra vez a cuidar dos bebs, mas a prtica retorna
depressa. Tornamo-nos outra vez exmias nas trocas de fraldas, nas
mamadeiras, na maneira de fazer a
criana dormir. Parece um sonho rever os primeiros meses de vida
de nossos prprios filhos. Ser av  uma delcia,  possuir algo
que realmente no nos pertence,
porque eles so nossos apenas quando esto perto de ns. A
responsabilidade de suas vidas no  diretamente nossa.

As avs, quando se renem, contam inmeras proezas dos netos.
Parece que so as primeiras crianas do mundo a fazerem gracinhas,
que para as avs se transformam
em peripcias inditas. Temos mais tempo de observar o
comportamento, as atitudes, a vivacidade dos netos, porque quando
nossos filhos so pequenos, so vrias
as tarefas que temos a sua volta para o seu bem-estar. Os afazeres
do lar nos impedem de gozar toda a sua intensidade, todas as
manifestaes de nossos filhos quando crianas.

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Criar filhos  tarefa intensa, preocupante, e que exige muito,
tanto dos pais como das mes. Com os netos tudo  bem diferente.

Quase dois anos depois do Dudi, em poucos meses de diferena,
entre julho e outubro nasceram duas netinhas. Adriana, filha de
Cristiano, delicada, uma gracinha e
Marta, de Alexandre, que j nasceu com a cara do pai segundo todos
dizem. Ambas muito fortes, graas a Deus. Foi uma delcia ter
netinhas.

Uma graa as duas netas. nes j estava grandinha nessa poca, em
outra fase de sua vidinha, e as gracinhas j eram diferentes.
Assim, foi a primeira leva de netos.
Depois nasceu o Deco - o Andr de Cristiano, um menino lindo. Os
trs de Cristiano nasceram com olhos lindos, herdados no sei se
de meu filho ou da me, todos tinham
olhos claros. Mas os dois meninos, Dudi e Andr, sempre chamaram a
ateno pelo tom de azul dos grandes olhos; os de Adriana eram
enormes e esverdeados.

Marta nasceu com os olhos de seu pai e, porque no dizer, eu
fiquei contente, porque eram os olhos da cor dos meus e de meu
pai. Olhos castanhos, cor de mel, que
mudam s vezes com a cor da roupa que a gente pe. Porque eu falei
tanto dos olhos? Ser que a preocupao  s minha? Sempre tive
preocupao em saber se as crianas
eram perfeitas, e logo depois que nasceram o exame de olhos para
mim foi sempre uma condio indispensvel.

O mesmo acontece em relao a filhos e netos das minhas amigas,
por que  um imperativo que desde a maternidade a famlia se
cientifique de que as crianas tm o
globo ocular perfeito, tm condies de ter viso normal. Isso 
possvel na maternidade com exames peditricos e
oftalmopeditricos.

Todos me contavam que os meus netos eram lindos. E porque no o
seriam para mim? Eu os acariciava, passava a mo no rostinho deles
e sempre achei que eram fisionomias
muito regulares e essa regularidade que meu tato podia perceber,
dava-me tambm uma sensao de beleza.

Por alguma razo, quando meus filhos se casavam e saiam de casa eu
me lembrava de Raymundo Correa nas Pombas: "Vai-se a primeira
pomba desperta da... Vai se outra
mais... mais outra... " Alis o que aconteceu  que todos, depois
que casaram, foram e voltaram por uma razo ou outra e passaram
algum tempo conosco, uns mais tempo,
outros menos. Mas todos j voltaram para ficar um pouco no
aconchego do lar paterno.

Depois que nasceram os primeiros netos, tivemos a segunda leva de
casamentos. A vida das meninas corria tranqila quando Denise
inesperadamente disse-me que precisava
marcar um dia para que Ricardo Santos Rudge viesse conversar com
Alex. Ricardo tinha sido um timo companheiro durante os meses em
que Denise estivera adoentada.
Mas foi e sempre  uma surpresa quando uma

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filha anuncia que vai casar-se. Foi um prazer conhecer os pais de
Ricardo, Eduardo e Lcia. Denise e Dorininha em 1985 resolveram
casar-se. Denise no dia 27 de maio e Dorininha no dia 25 de
setembro.

Sinto que a maior parte das mes do mundo quer ver e fica feliz
com o casamento das filhas. Algumas negam, eu no sei porque. Acho
to razovel que os pais queiram
ver seus filhos casados, porque ns pais no somos eternos, Os
filhos, pela ordem natural das coisas, devem sobreviver a ns.

Confesso que fiquei muito animada para fazer o enxoval das duas
filhas. To animada quanto o fui para o meu mesmo. Revivi aqueles
dias de escolha, de projetos. Fiquei
encantada, mas continuei com o meu trabalho. No precisou haver
nenhuma interrupo, nem sequer nas minhas viagens, pois ainda era
presidente do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos.

Minhas filhas Denise e Dorina sempre foram muito unidas. Tinham
amigas comuns, trabalhavam ambas na Varig, freqentavam
praticamente as mesmas reunies, muitas
vezes saam com os mesmos grupos. Graas a Deus foi sempre uma
grande alegria para Alex e para mim ver o quanto elas eram e o
quanto so unidas. Apoiavam-se mutuamente
em todas as circunstncias e at resolveram casar no mesmo ano.
No foi um enxoval que eu tive de fazer, foram dois. No me
assustei. De certa forma foi mais fcil, programamos as mesmas
coisas para ambas, cada uma escolhendo, porm, os gneros que mais
lhe agradavam e de acordo com o tipo de apartamento que elas
planejavam ter e o tipo de vida que iam levar.

O caso de Dorininha foi um pouco mais complexo. No meio de todos
os problemas de enxoval houve o casamento de Denise. Dorininha
afirmou que tinha alguma coisa que
ela precisava me contar. Guilherme Cruz, o seu namorado, era
divorciado e tinha trs filhos. Pronto, que grande complicao!

Isso dificultou o relacionamento com o namorado de Dorininha. Ns
j o havamos conhecido, mas ignorvamos este particular. Logo
depois eu soube que ele, no seu
primeiro casamento, no havia sido casado no religioso. Confesso
que para mim foi um sossego, pois minha filha poderia casar na
igreja tranqilamente.

O casamento religioso era e  importante para mim e para Alex.
Passado o primeiro momento, tudo se acomodou e afinal, aceitamos a
situao, como acontece com a grande
maioria dos pais que tm situaes anlogas em suas famlias.
Abandonar nossos filhos, nunca. Rejeitar um filho por essa razo
ou outra qualquer, jamais aconteceria.

Msica, reserva da data na igreja, decorao da igreja, estas
preocupaes, as providncias, deram um trabalho enorme. A seu
tempo ocasionam

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gastos muito grandes. Conforme o tempo passa, parece que mais
complicado todo o "entourage" do casamento. E o vestido de noiva?

O vestido de Denise, feito por Roberto Issa, ficou lindo. Ela
ficou uma noiva muito bonita, O vestido, de acordo com ela mesma,
uma linha romntica. Parecia uma
princesa. O arranjo da cabea que Roberto Issa mandou preparar
ficou muito bonito.

O meu vestido era cor de goiaba madura, bordado, longo, como eu
havia sonhado o vestido de me da noiva. Na cabea usei um arranjo
bem combinado, escolhido pelo prprio costureiro.

Denise e Ricardo escolheram Pe. Corbeil para casa-los.

No deu para descansar entre o casamento de Denise e Dorininha.
A diferena foi de poucos meses e logo depois do casamento de
Denise, no dia 27 de maio, eu j estava de novo pensando em todas
aquelas providncias que
tm de ser tomadas principalmente para o casamento religioso.

Dorininha e Guil quiseram uma cerimnia diferente. Preferiram
casarem casa, em cerimnia conduzida pelo jesuta Pe. Aquino.
Confesso que gosto, acho muito bonito
tambm casar em casa. Muito mais simples, menos complicado,
convida-se um nmero de amigos e parentes que a casa comporte.

Dorininha, muito determinada, no gosta de ficar escolhendo
roupas. Lourdes Tada, excelente costureira e amiga, fez um
encantador vestido de noiva. Na cabea, um
arranjo de flores naturais. S podia ser Felipo, nessas horas,
para pentear me e filha.

Alexandre, que havia morado em Paris depois do seu casamento,
fazendo um estgio no instituto Pasteur e em ViIle Juif, estava de
volta ao Brasil e morando conosco. Minha casa continuou cheia.

O que eu achei muito interessante  que em todos os casamentos
sempre houve um ou dois irmos como padrinhos. A tradio de
famlia, a amizade, o carinho indiscutivelmente estavam presentes.

Reavaliando esses oito anos de minha vida, de 1977 a 1985, quantos
acontecimentos! Os casamentos de quatro filhos, enxovais para
serem feitos, programas de ajustamento
a todas essas situaes e ao mesmo tempo, a minha eleio 
presidncia do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos que
durante cinco anos me fez realizar viagens,
mais de 70, a diferentes pases nas vrias reas geogrficas.

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SEQNCIA DE FATOS

Em 1980 em Boston, aconteceu o centenrio de Helen Keller. Foram
trs reunies ao mesmo tempo, realizadas nos EUA, duas em
Washington e uma em Boston. Foi todo um
trabalho voltado para a produo de livros, direitos do autor,
dificuldades que os pases todos encontravam e encontram at hoje
para o acesso  literatura pelas
pessoas cegas. Ao passo que o mundo inventa mais maneiras de
produzir mais rapidamente maior quantidade de obras escritas,
maior tambm  o nosso trabalho para dar
aos cegos condies que lhes permitam colocarem-se no espao e no
tempo, em igualdade com as pessoas de viso normal.

O Ano Internacional da Pessoa Deficiente em 1981, superou todas as
expectativas em nmero de reunies nacionais e internacionais. A
Associao Internacional de Preveno
da Cegueira e o grupo de preveno da cegueira da Organizao
Mundial de Sade realizaram uma reunio em Nova Delhi.

Pela primeira vez eu fui  ndia. Jurema foi comigo. Tive a
oportunidade de ter contato direto com a situao da cegueira
nesse pas. Um dos pases que era campeo em nmero de pessoas
cegas.

Nessas reunies da Organizao Mundial de Sade em sua maioria, os
membros so oftalmologistas. Mas h nutricionistas, outros
profissionais mdicos
e os representantes do Conselho Mundial. Atravs dos trabalhos
apresentados pelos oftalmologistas e demais profissionais da rea
mdica e paramdica, pude atualizar-me
tomando conhecimento de dados estatsticos, atividades e esforos
sobre-humanos para se conseguir a instalao dos programas
propostos pela Organizao Mundial de
Sade.  na ateno primria da preveno da cegueira que se pode
detectar os problemas e a forma de se abranger toda uma populao
e no apenas no atendimento a
pessoas que podem freqentar os consultrios dos oftalmologistas.
Este programa sempre me entusiasmou e eu trabalhei muitos anos e
continuo trabalhando para a sua
implementao, abrangendo cada pas de per si e principalmente os
pases das regies em desenvolvimento.

Nossa ida para a ndia observou todas as precaues relativas s
vacinas, inclusive da febre amarela. A febre amarela parecia to
distante e, no entanto, na hora de se preparar passaporte,
condies e vistos para o pas, ela parece muito prxima de ns.

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Acho que a gente fica com o esprito um pouco prevenido. Jurema e
eu descemos na Alemanha e de l tomamos o avio para a ndia.
Recebemos mil recomendaes sobre precaues ao tomarmos a
conduo do aeroporto ao hotel.

O grupo local da OMS havia feito reservas de hotel. Logo aps
desembarcarmos, tomamos um txi e ficamos um pouco ressabiadas
porque o motorista, que falava bem
ingls, perguntou se tnhamos certeza de que queramos ir mesmo
para aquele determinado hotel. Indira Ghandi fazia naquela semana
uma enorme reunio de presidentes
das grandes potncias. Todos os hotis de Nova Delhi estavam
lotados, mas o motorista disse que se no quisssemos ficar no
hotel indicado, ele poderia nos conseguir
uma penso, ou um outro hotel, talvez melhor.

Tnhamos sido prevenidas para no aceitar sugestes, porque no
sabamos para onde poderiam nos levar. Chegamos ao hotel, depois
de andar muito nos arredores de
Nova Delhi, uma regio muito pobre. O hotel parecia ficar no meio
de uma chcara, um stio, uma paisagem muito rida com crianas
desnutridas e descalas, alm
de galinhas que passeavam tranqilamente pelo caminho, o que nos
deixou de certa forma preocupadas.

Entramos no hotel trs estrelas. Um hotel de trs estrelas na
ndia  bastante simples, mas esse era um pouco simples demais.
Quando chegamos no quarto, vimos que
no havia armrio. Havia uma prateleira na parede com alguns
cabides pendurados. Apenas as camas, cujos lenis usados no
haviam sido trocados. Colcho muito manchado,
e quando eu entrei no banheiro, o box tinha trs dedos de gua,
que havia sido usada no ltimo banho.

Estvamos exaustas porque estvamos viajando h mais de um dia e
resolvemos descansar. Enrolamos-nos em nossas roupas e descansamos
durante umas duas horas. Resolvi
pegar o meu caderninho - eu sempre levo o meu caderninho com o
nome do embaixador brasileiro e o endereo das embaixadas seja num
pas industrializado, seja num
pas em desenvolvimento. Procurei nmero da embaixada e telefonei.
Custou um pouco mas fui atendida. Pedi para falar com o embaixador
Dr. Roberto Luiz Assumpo de Araujo.

Quando na embaixada souberam onde estvamos, o embaixador
imediatamente mandou uma pessoa para ver a nossa situao. No
mesmo hotel haviam um ou dois mdicos que
estavam na reunio e que no conseguiram lugar co outro hotel em
Nova Delhi. Realmente, todos os hotis estavam tomados, foi que
nos informou Sir John Wilson que estava
presidindo uma das reunies. Ele ficou muito aflito com a nossa
situao quando descrevemos o lugar.

Em resumo, o embaixador determinou que um membro da embaixada
brasileira, professor de portugus na ndia, nos levasse para um
hotel mais

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central, em Nova Delhi. Tivemos acomodao excelente e no
estvamos muito longe do local das reunies.

S depois ficamos sabendo que o pobre do motorista tinha toda a
razo. Tinha havido um caso muito srio no hotel, inclusive
relacionado com drogas e um assassinato.
No demos ouvidos ao motorista, mas felizmente tivemos a embaixada
brasileira que jamais deixou de me atender em todos os pases por
onde andei.

Certa vez, eu tinha acabado de chegar em Paris de uma viagem muito
longa a sia, incluindo Bangcoc. Na hora que o nosso avio
levantou vo, saindo de Bangcoc eu
soube que l havia estourado uma revoluo. A tenso era grande e
quando chegamos a Paris, Alex me disse: "Agora vamos descansar at
amanh, por favor, porque eu
no tenho condies de andar e nem voc". Ele me disse que eu
mesma precisava descansar e era verdade. Quando pus a cabea no
travesseiro, tocou o telefone. Era
minha grande amiga Hillardy secretria do Conselho Mundial para o
Bem-Estar dos Cegos. "Madame Dorina ela comeava: eu
j sabia o que vinha depois. Naquele dia, da a duas horas se
iniciava a reunio da UNESCO. Importantssimo para o Conselho
Mundial estar presente e principalmente
na pessoa de sua presidente. Tivemos de nos arrumar, Hillary veio
me buscar e l fui eu para a reunio.

A UNESCO tem uma atrao especial para mim. Educao, cincia,
cultura, atividades dos seres humanos que me encantam. O prprio
prdio da UNESCO, e s o fato de l entrar me deixava orgulhosa.
Eu me sentia diferente por ter tido
essa oportunidade na vida. Imagine isso sem falar ento da grande
Conferncia Mundial sobre Ao e Estratgias para Preveno e
Integrao que se realizou em 1981 em Torremolinos, na Espanha,
para celebrar o Ano Internacional da Pessoa Deficiente. Passou-se
algo semelhante ao que j me havia acontecido
em relao a outros convites para representar o Brasil num
importante congresso da UNESCO.

O Brasil recebeu o convite. Eu era presidente do maior rgo de
cegos junto  UNESCO,  ONU e  Organizao Mundial de Sade. O
Brasil indicou quatro representantes
pouco ligadas  educao de deficientes. Eram pessoas que
pertenciam ao Ministrio da Justia e da Educao. No estou
julgando a capacidade profissional e a qualificao
dessas pessoas como funcionrios do Governo Federal. No importa.
De repente eu recebo um convite direto da UNESCO. Mr. Sundberg,
que era o diretor de educao especial,
tomou conhecimento de que eu no havia sido indicada pelo meu pas
e providenciou um convite especial. Preparei-me, escrevi inclusive
o trabalho que me foi solicitado:
"O Direito de Ser Diferente e o Dever de Estar Junto". Essa
conferncia foi de grande alcance para a educao especial.

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A conferncia foi presidida pelo diretor geral da UNESCO que era
um ex-ministro de educao espanhol, uma personalidade de
reconhecido valor na rea. A Rainha da
Espanha esteve presente na abertura, assim como a Infanta
Marguerita, que  cega.

Fui cumpriment-la junto com os representantes da ONCE. Tive a
oportunidade de conversar tambm com o diretor geral da UNESCO.
Mr. Sundberg conhecia j bastante
o meu trabalho no Conselho Mundial. Foi ento eleita uma comisso
de redao do documento da conferncia, que era a parte mais
importante de um encontro desse tipo.
Era um texto para ser enviado para a Assemblia Geral da ONU e
faria parte de seus anais.

Para a minha surpresa, entre as cinco ou seis pessoas escolhidas
de vrios pases, o meu nome foi indicado. Quando disseram o meu
nome pelo Brasil, houve um protesto
dos delegados brasileiros, meus compatriotas. Foi-lhes explicado
porm, que eu havia sido convidada por ser uma educadora e que a
UNESCO confiava na minha capacidade
de poder contribuir para o trabalho, alm de estar l como
convidada especial da UNESCO.

Solicitei aos meus compatriotas que fizessem sugestes, se bem que
nenhum deles fosse muito ligado ao problema das pessoas
deficientes. Procurei harmonizar a situao
porque nesses momentos no estrangeiro, numa reunio de uma das
agncias mais importantes da ONU, no era hora de se criar
problemas em relao ao nosso pas.

Graas a Deus, sempre tive muito discernimento e uma linha que
jamais foi modificada, procurando elevar o nome de meu pas e
fazer que ele surgisse
apenas pelas coisas boas que pudessem ser sugeridas ou realizadas.

Durante a conferncia aconteceu um fato muito triste. Em uma das
manhs soubemos que Mr. Sundberg, quando entrou num dos toiletes,
pediu a uma pessoa que chamasse
algum da conferncia, porque ele estava se sentindo mal. Faleceu
poucos minutos depois. Ele se apresentaria logo em seguida.

A conferncia no parou. Continuamos, terminamos o documento, que
passou a chamar-se Carta Sundberg. As comemoraes foram muito
simples, mas procuramos com o nosso
trabalho fazer jus quele que havia trabalhado tanto em vida para
a educao das pessoas deficientes.

Que Ano Internacional da Pessoa Deficiente foi para mim! Foram
tantas as viagens que, quando passo a recapitular, eu mesma no
acredito que viajei tantas vezes.
Fui outra vez para ndia. Desta vez para Bombaim. Foi uma visita a
convite da Associao Nacional para Cegos da ndia, onde o querido
amigo Capito Dessai, companheiro
de diretorias e de reunies do Conselho Mundial para o Bem-Estar
dos Cegos, trabalhava.

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Na Associao Nacional de Cegos da ndia, recebi um pergaminho de
condecorao da Associao, dentro de uma lindssima caixa
marchetada, feita de madeira e marfim.
 uma beleza a caixa. Recebi tambm uma medalha da cidade de
Bombaim com uma corrente. Guardo essas medalhas num quadro, que
fica atrs da cadeira de Alex em seu
escritrio. O quadro tem mais de um metro por um metro,  bem
fechado com vidro, onde esto as medalhas e as placas. De vez em
quando gosto de peg-las e me lembrar
das horas felizes, dos acontecimentos de anos que j se foram.

Durante 14 anos, de 1974 a 1988, fui s reunies de diretoria do
Conselho Mundial e da Comisso Executiva, alm de participar em
congressos representando o Conselho
e visitas a convite dos pases membros. De 1974 a 1979 fui vice-
presidente, de 1979 a 1984 fui presidente e de 1984 a 1988, "past
president". Foram anos de intensos trabalhos e casualmente grandes
eventos, entre estes, O Ano Internacional da Mulher.

UMA NOITE DE SUSPENSE

A convite da Sucia, realizamos a reunio da Comisso Executiva no
hotel Ramada, que ficava nos arredores de Gotenburgo. Fizemos uma
reunio do Comit de Cultura em Veneza e de l fomos, Teresinha e
eu junto com os italianos para a Sucia.

O Ramada  um hotel confortvel e de bom nvel, mas de muito pouco
servio de atendimento nos quartos; carregadores para malas, no
havia, ns mesmos tivemos de
arrast-las. E que malas! Ns estvamos numa reunio que duraria
vrios dias. J tnhamos estado em outras reunies em Roma e
Veneza. Era preciso roupa para todas
as ocasies e todas as cerimnias.

Uma noite, eu e Teresinha j havamos prendido o cabelo, porque
no dava tempo de ir ao cabeleireiro e nem sei se havia um no
hotel. Mas mesmo que tivesse, as reunies
no davam tempo de freqent-lo. Depois do jantar, ns subamos,
lavvamos a cabea e cada uma fazia o seu mis-en-plis para estar
arrumada no dia seguinte.

Ns tnhamos dois quartos contgos. Cada um com o seu banheiro,
com comunicao. De repente ouvi um barulho, gente batendo na
porta e falando sueco. Claro, no
abri. Chamei Teresinha, que estava tomando banho. Quando saiu do
banho, ouviu tambm. Eu disse: "E melhor no abrir".

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Eu j estava acomodada, pronta para dormir, o barulho cresceu,
liguei para a recepo, a moa falava relativamente bem o ingls.
Disse-lhe: "Por favor, h um grupo
de bbados que est batendo na nossa porta, gritando em sueco e eu
pediria a senhora que tomasse alguma providncia". Ela
simplesmente berrou do outro lado:" Desa!
E pegue o seu mant". E eu disse:"Mas o que  que o meu casaco tem
a ver com estes berros?" e ela "Desa imediatamente. Estamos tendo
um incndio no quarto andar".

Quase ca! Dei um grito, chamei Teresinha e disse:"Pegue o seu
mant, pegue o que puder, no se preocupe com a roupa e venha
imediatamente". Ns estvamos no terceiro
andar bem embaixo da lavanderia onde havia se iniciado o incndio.
No havia mais elevador e foi aquela correria. Os tais bbados
coitados, no eram bbados e sim
os empregados do hotel que nessa hora no se lembravam de falar em
ingls. Gritavam em sueco e ns no sabamos do que se tratava.

O alarme de incndio no funcionou. L fomos ns descendo as
escadas, passando pelos outros andares, juntando-nos aos que
procuravam escapar. Foi uma das situaes
mais cmicas e, ao mesmo tempo, trgicas pela qual j passei.
Quando chegamos em baixo, j encontramos muitos dos participantes
da nossa reunio. Cada qual mais cmico que o outro.

Elisa de Sthal a minha grande amiga da Guatemala olhou para mim e
deu gargalhadas e eu no entendia porque. Acontece que ns duas
estvamos com casaco de plo de
camelo ingls muito parecido, e debaixo do casaco, camisolas cor-
de-rosa tambm do mesmo tom. Chinelas idnticas, parecamos duas
irmzinhas gmeas. No sabamos que tnhamos roupas iguais.

Eu havia comprado o casaco na Inglaterra e ela tambm, a camisola
e o chinelo nos EUA, o mesmo tinha feito ela. Um dos nossos
companheiros, um senhor alemo, estava
com pijamas. Ele era um homem muito discreto, muito srio e ali
estava de pijamas; sua intrprete, tambm estava de pijamas, mas
com um blaiser do sr. alemo.

Quanto rimos quando me descreveram todas as idumentrias! Os
africanos com pijamas e seus lenis por cima do corpo. Annie,
secretria do Secretrio Geral do Mundial,
sueca, sentadinha l fora, no frio, em cima de duas malas. Jean
Wilson me chamou e disse: "Dorina, voc no acredita, ela
conseguiu trazer as malas". Corremos para
saber como  que ela tinha podido fazer aquilo e ela nos explicou
que j havia passado por tantos incndios, que no tirava mais a
roupa das malas. Ento foi s pegar as duas maletinhas e descer as
escadas. Quando eu fui assoar o nariz, o meu leno ficou preto,
porque era s fuligem. Ns descemos

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correndo, percebemos a fumaa, mas no imaginvamos que aquela
fumaa tinha entrado em nossas narinas.

Ficamos horas acompanhando a situao, que estava sob controle,
por que poucos minutos depois da constatao do incndio os
bombeiros chegaram. Estavam jogando muita
gua, j estava quase todo o incndio controlado. Foram queimados
apenas alguns quartos, exatamente em cima dos nossos.

SITUAO DA MULHER CEGA  SEMINRIOS

Sucia, Frana, ndia, Espanha e Malsia. O primeiro seminrio
asitico sobre a situao da mulher cega foi realizado em Kuala
Lumpur, na Malsia. Alex me acompanhou.

Para a realizao deste primeiro seminrio solicitamos a
colaborao da SHIA, a Associao Internacional para Deficientes
da Escandinvia e da Federao Sueca de
Cegos, Swedish Federation of the Blind. Conseguimos que
patrocinassem o projeto feito por especialistas que colaboraram
conosco.

Uma vez organizada toda a programao desses seminrios, ficou
estabelecido que o primeiro seria na sia e eu daria a primeira
aula. Esta aula seria baseada nos
trabalhos e pesquisas que havia feito sobre o assunto. Um sobre a
situao da mulher deficiente no mundo, fundamentado em tudo o que
havia observado na conferncia
do Ano Internacional da Mulher, e o outro sobre a situao das
mulheres cegas nas organizaes de cegos. Fiz dois questionrios
internacionais e escrevi esses trabalhos.
Recebi da OIT um pedido para que fossem includos os meus
trabalhos no documentrio da prpria OIT, porque acredito que at
ento no existissem muitos estudos nessa rea.

Conversei com as especialistas que prepararam o projeto. Alis,
pessoas excelentes e de muita competncia. Expliquei-lhes que eu
daria a aula dividindo a classe
em grupos. As especialistas preveniram-me que achavam muito
difcil usar essa tcnica porque muitas moas tinham muito pouco
preparo, nunca tinham comparecido a
uma reunio. Algumas no sabiam como se comportar  mesa, no
sabiam nem andar sozinhas. Arrisquei.

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Preparei as aulas em So Paulo, dividi meu trabalho em questes e
propus a soluo pelos grupos. A classe foi dividida em grupos
para que depois cada grupo apresentasse
as concluses de sua discusso. Fiz uma exposio, depois as
questes que havia deixado em suspenso foram trabalhadas pelos
diferentes grupos. Foi um sucesso total.
Todas sabiam braille, tinham capacidade, umas mais, outras menos,
para redigir. Mas foi um xito absoluto. As especialistas do
projeto ficaram encantadas com a experincia,
que passou a ser seguida depois, em outras aulas tambm.

As aulas foram muito interessantes, todas as palestrantes, Fatima
Shah e outras, ficaram muito felizes e podamos sentir a alegria e
o prazer daquelas moas, s
quais Fatima se referia tanto, por serem to privadas do contato
com o mundo exterior. Viviam em pequenas aldeias, em organizaes
s para cegos, conheciam to pouco
do mundo. No conheciam sequer os seus direitos. No nos
esqueamos de que eram quase todas muulmanas e que estavam dentro
dos rigores impostos s mulheres muulmanas.

Em Kuala Lumpur conhecemos quase todas as autoridades e ministros
Tivemos entrevistas muito interessantes e conhecemos alguns
lugares pitorescos Como sempre as feiras
de artesanato, os tecidos pintados e especialmente uma pintura que
estava muito na moda tambm no Brasil, o batik.

O curso foi bastante intenso. Mesmo as horas de lazer eram
aproveitada para demonstraes e oportunidades de aprendizagem
para aquelas jovens que
viviam muito confinadas em seus prprios pases.

PLANO DE AO

Voltando ao problema da unificao das organizaes
internacionais, a reunio de Gotenburgo foi muito importante. Alm
de ser a reunio no meio da minha gesto, compreendeu
uma reunio conjunta das comisses executivas do Conselho Mundial
para o Bem-Estar dos Cegos e a Federao Internacional de Cegos.

J comeava a ficar mais definida a tendncia para a unificao
das duas organizaes. Eu podia sentir durante as reunies, a
eletricidade do ambiente. Havia indiscutivelmente
plos antagnicos, mas todos ns das duas organizaes sabamos
que, mais dia, menos dia a fuso teria de acontecer.

Ainda demoraria um pouco. Eu havia comeado, nas reunies dos
diretores e tambm na reunio da comisso executiva, a falar muito
sobre o plano de

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ao do Conselho Mundial, prevendo mesmo que uma fuso tivesse
lugar. Insistia na necessidade de que se comeasse a elaborar um
plano de ao para o prximo qinqnio.

Cheguei mesmo, prximo ao fim de meu mandato, a sugerir que
escolhssemos duas pessoas pertencentes  nossa organizao que
tivessem uma grande capacidade administrativa
para se submeter a um treinamento, possivelmente em Viena no
Center of Social Development and Humanitarian Affairs, para a
elaborao de uma minuta de um plano
de ao a ser discutido na prxima Assemblia. Nesse centro havia
especialistas que preparavam os projetos para as grandes
conferncias da ONU.  uma tcnica especial.
Numa reunio da diretoria do Mundial, surgiu a dificuldade
financeira para se garantir a permanncia de dois elementos em
Viena e obter a permisso tambm do centro.

Fiquei muito grata a Abdulah M-Al-Ghanim, vice-presidente, quando
se ofereceu para pagar as despesas desses dois elementos.
Infelizmente outros membros da diretoria,
em cuja experincia eu confiava, acharam que pareceria uma forma
da diretoria estar indicando o futuro secretrio geral, e que isso
no seria democrtico para as prximas eleies em 1984.

De qualquer maneira, continuei insistindo e foi o nosso secretrio
geral, Anders Arnr que foi a Viena e se encarregou de preparar o
primeiro esboo do plano de ao.

O plano de ao deveria ser submetido  apreciao da diretoria e
posteriormente apresentado  Assemblia Geral, onde seria criada
uma comisso que durante o Congresso
trabalharia na elaborao do plano como um todo. Compete 
Assemblia Geral analisar e aprovar esse tipo de plano. Ao trmino
dos trabalhos o plano seria encaminhado
 nova Comisso Executiva para sua implementao. A meu ver esse
procedimento tem a vantagem de garantir pelo menos em grande parte
a continuidade do trabalho da
diretoria anterior, enriquecido com a contribuio dos dirigentes
eleitos para o prximo qinqnio.

O plano de ao elaborado pelo Secretrio Geral foi includo no
programa da Assemblia Geral em 1984. Foi discutido pelo Plenrio
e obteve praticamente aprovao
unnime de todos os participantes.

VISITAS A ORGANIZAES EM VRIOS PASES

Na qualidade de presidente, visitei associaes e servios em
vrios pases da sia, especialmente as organizaes de Hong Kong
e Cingapura. Havia sempre

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seminrios realizados pelos rgos regionais ligados ao Conselho
Mundial e pelos seus comits regionais. Eram seminrios muito
eficientes com um nmero limitado
de participantes, onde os problemas de cada regio eram discutidos
de forma mais abrangente e definida.

Em Cingapura, o ento embaixador brasileiro Dr. Murilo Gurgel
Valente nos convidou para um almoo em sua casa. Uma residncia
belssima com objetos interessantes
dos pases da sia e do Oriente Mdio onde o embaixador e sua
esposa haviam estado. Foi uma tarde muito simptica e muito
carinhosa. Esses convites eram uma demonstrao
do quanto o governo brasileiro se interessava pelo nosso trabalho
e prestigiava a minha posio na direo do Conselho Mundial.

No Brasil tambm o Ano Internacional da Pessoa Deficiente foi
muito celebrado. Tivemos seminrios, reunies, inclusive uma
sesso plenria do Rotary Internacional,
onde apresentei o trabalho "Integrao dos Cegos na Sociedade".
Entre as minha relquias dessas celebraes, tenho um quadro que
foi recebido pelas pessoas que falaram
na Conveno Internacional do Rotary, em 5 de junho de 1981. O
quadro  uma alegoria ao Ano Internacional da Pessoa Deficiente,
tendo escrito em baixo: "Abre-te!"

Celebrando o centenrio de Helen Keller, 1880 a 1980, na
conferncia de Boston, ganhei um prato de porcelana com a
inscrio da frase de Helen Kelier:
"Life is an exciting business and most exciting when it is lived
for others", "A vida  uma experincia vibrante e ainda mais
vibrante quando  vivida para os outros".

Entre os programas nos quais tive grande participao esto,
indiscutivelmente, os trs seminrios para o treinamento de
mulheres cegas.

Depois do primeiro Congresso Sobre a Mulher Cega em Belgrado, o
segundo deveria ser em 1980, no Ir. No foi possvel realiz-lo
devido  situao poltica do pas.
Quando criado o Comit sobre a Situao da Mulher Cega no Conselho
Mundial, sugeri que em vez de congresso fossem programados trs
seminrios para treinamento de
mulheres cegas, nas trs reas geogrficas de pases em
desenvolvimento: sia, frica e Amrica Latina. A sugesto foi
aprovada e tive uma satisfao muito grande.

Depois do primeiro seminrio em Kuala Lumpur, o segundo realizou-
se em agosto de 1981 na Etipia, frica. Eu deveria dar a aula
inaugural, como havia feito na Malsia.

Denise me acompanhou. Fomos do Brasil para Toronto via Nova
Iorque, para um congresso da AAWB - American Association of
Workers for the Blind, da qual sou membro honorrio desde o meu
tempo de bolsista nos EUA.

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Assisti ao congresso em Toronto. Eu estava muito preocupada com o
que se poderia fazer em matria de legislao para o trabalho das
pessoas cegas. Esse congresso
teve tambm vrios tpicos referentes a aspectos profissionais.
Foi muito interessante e de l ns fomos para a Inglaterra, onde
falei numa conveno do Comit
Permanente do Royal National Institute for the Blind, o Instituto
Real para Cegos da Inglaterra, que  uma das maiores organizaes
da Gr- Bretanha. Foi um convite
do ento Presidente do Conselho dessa importante instituio e um
grande companheiro de trabalho, Duncan Watson.

Durante essa reunio, alm de falar para o Comit Permanente dessa
importantssima organizao, discorri sobre o Mundial e sobre os
nossos projetos no Brasil. Visitei
a imprensa braille, estive em uma das organizaes mais antigas,
criadas aps a Primeira Grande Guerra, St. Dunstan's. Duncan e sua
mulher Mercia nos cercaram de
muito carinho e ateno. Houve um fato sensacional durante a minha
estada em Londres; o casamento do Prncipe Charles com Lady Diana.

A nossa viagem foi muito boa, mas eu estava muito preocupada,
porque em Londres, um dia antes da nossa partida, tivemos a
notcia de que a companhia de turismo que
reservou as nossas passagens havia se esquecido de avisar sobre a
necessidade de vacina contra clera. No havamos feito a vacina.
Deveramos faz-la em Londres,
mas naqueles dias era impossvel conseguir quem aplicasse.

O Cairo exigia a vacina, mas permitia passar sem ela, pagando-se
150 dlares. No me lembro se pagamos ou no, mas passamos.

Chegando ao hotel, fomos a p para a embaixada brasileira. No
conseguimos o visto para a Etipia em Londres e nem no Brasil. Em
Londres no foi possvel sem a
vacina de clera. Dessa maneira, tnhamos trs dias para conseguir
o visto no Cairo, o que realmente seria suficiente, uma vez que
tnhamos toda a ateno do secretrio
geral e de todo o pessoal da embaixada brasileira.

Qual no foi nossa surpresa quando verificando os horrios,
soubemos que a embaixada da Etipia estaria fechada naquele dia e
no outro dia no abriria porque, alm
dos 40 dias do Ramadam, aguardava-se a possibilidade de mais trs
dias correspondentes ao Bairan. O Bairan  quando a lua aparece de
uma determinada maneira em Meca e a ningum trabalha.

Ns precisvamos, alm de tudo, fazer a vacina de clera. O
secretrio da embaixada disse que nos acompanharia, que ele sabia
onde fazia, e ainda brincou conosco
dizendo que provavelmente iramos nos inocular de clera. A
situao da vacina deixou Denise em pnico. Ela j estava muito
assustada com o movimento no Cairo. Quando
no se est numa excurso, assusta um pouco. Fomos levadas a uma
sala onde havia uma mdica. Em cima da mesa tinha uma

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bacia com gua de cor duvidosa e algodo, a mdica veio com uma
seringa de injeo, molhou o algodo naquela gua, passou no meu
brao e "pack", me deu a vacina
de clera. Denise ficou apavorada, achou que ns amos ter clera
e morreramos.

Ns tnhamos de aceitar, no havia outro jeito. A voltamos para o
hotel e resolvemos esperar para ver o que  que se resolvia a
respeito do nosso visto para a Etipia.
Teramos de aguardar trs dias no Cairo, tudo alm do previsto.
Posteriormente, a embaixada da Etipia informou  embaixada
brasileira que se ns no tnhamos
dez dias de vacina, teramos de ficar no hospital de quarentena na
Etipia. O nosso problema foi discutido na embaixada e como o
surto de clera estava aumentando,
o adido militar aconselhou; - "Voltem j para a Europa, vo para
Paris, ou para a Sua. Paris talvez seja mais fcil para entrar
que na Sua, pois com essas notcias, l vocs no entram
mais,..."

No sabamos mais o que fazer. Ficamos atarantadas, mas procuramos
imediatamente um vo para Paris. No conseguamos imaginar ir para
Etipia e ficar num hospital.
As perspectivas eram quase de um hospital de campanha. Ficar 10
dias em observao, todos na embaixada acharam que era uma
situao pouco segura.

Fomos para uma agncia de turismo. Havia lista de espera do Cairo
para Paris. Teramos de esperar dois dias e assim mesmo no
tnhamos certeza de embarcar. Poderia
demorar mais um dia ou dois, at conseguirmos lugar numa das
linhas areas da regio.

No Cairo, quase tudo fechado, no havia possibilidade sequer de se
fazer uma excurso por causa do Bairan e do Ramadam. Pelo menos
por trs dias iria estar tudo
fechado e ns no poderamos sair do hotel, ou andar de txi pelo
lugar. Aps muitas diligncias, conseguimos um txi para conhecer
alguma coisa, enquanto aguardvamos
as respostas das companhias areas. Fomos ver as pirmides,
fizemos uma excurso muito frustrada, porque eu passei mal, tive
um problema de rim.

Graas a Deus, conseguimos depois um lugar na Alitlia para Roma.

No dia em que amos sair, era num horrio em que todos deviam
estar em orao, voltados para Meca. Descemos s 4h30 da manh, e
quando chegamos na portaria a limousine
que nos levaria ao aeroporto no apareceu. Um dos porteiros nos
disse que havia pouca gente trabalhando e que a nica soluo
seria o carro de um amigo dele, um  txi.

Ningum pode calcular como as pessoas se sentem inseguras numa
hora dessas. Entramos no carro sem saber se chegaramos ao
aeroporto ou no, mas

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de qualquer maneira tnhamos de tentar sair do pas antes que
fosse tarde demais e no pudssemos entrar na Europa de novo por
causa das notcias do grande surto de clera.

Para eu me sentir mais segura, fui conversando com o motorista que
falava um pouco de ingls, "A senhora no precisa ficar
preocupada." Mostrou o tero: "Eu sou
catlico, no h problema." Nessa hora eu elevei o pensamento e
agradeci a Deus. Ele nos levou tranqilamente, foi muito gentil.
Por todas a casas onde passvamos
as pessoas estavam em orao, porque depois de uma determinada
hora, comearia a festa. Graas a Deus na hora que comeou a festa
chegamos ao aeroporto. Aps checarem
nossas malas tomamos o avio. Foi uma bno. Fomos at Roma e l
descemos apenas para fazer a conexo com Paris.

Ficamos algumas horas no Fiumiccino. De l seguimos para Paris
pela Air France. Quando chegamos em Paris uma linda novidade:
nenhuma das malas havia chegado. No
sabamos mais o que fazer. Fomos para um hotel que eu j conhecia
e ficamos esperando. Primeiro resolvemos  claro, o problema da
bagagem. Soubemos que as nossas malas tinham ficado em Roma e que
viriam por um outro avio, no se sabia se naquele dia ou no
outro. Era domingo e estava tudo meio atrapalhado.

Recebemos um "voucher", isto , um cheque para poder comprar roupa
porque s no dia seguinte chegariam as nossas malas. Foi uma
confuso terrvel.

Fiquei muito frustrada porque tinha que ter dado a aula na
Etipia, mas nas condies em que ficamos no Egito e aconselhadas
pelo prprio pessoal da embaixada, o
mais prudente foi voltar. Nas minhas viagens sempre cheguei ao
destino final, mas muitas vezes com algo de pitoresco, encrencado,
ou complicado para alegrar a situao.

Voltei ao Egito em 1992 para a Assemblia Geral da Unio Mundial
de Cegos. Desta vez tive a oportunidade de conhecer um Egito
diferente. Fiquei no hotel Semramis.
Fizemos excurso durante uma tarde, com um grupo de pessoas cegas
e algumas entraram nas pirmides. Sem poder ver os hieroglifos,
tendo que descer em fila indiana,
somadas as dificuldades dos caminho, resolvi no entrar. No subi
em lombo de camelo em nenhuma das vezes que estive no Egito.
Dorininha me acompanhou a este Congresso.
ramos ao todo seis brasileiros. Fomos todos convidados para
jantar em casa de um Ministro da Embaixada: Cristiano e sua esposa
Maria Lcia Whitaker. No faltou
ainda desta vez um fato extraordinrio: durante o aperitivo o sof
onde eu estava com Dorininha passeou um pouco pela sala. Nada mais
do que um pequeno terremoto
para os egpcios e um susto bem grande para os brasileiros.

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Participei de inmeros congressos que os comits do Conselho
Mundial realizavam, como por exemplo os do Comit de Cego-Surdos,
reunies do Comit de Cultura, onde
eu continuei trabalhando com as organizaes intergovernamentais
do direito do autor e com a Associao Internacional de
Bibliotecrios, International Federation
of Libraryes Association. Esta organizao tem um setor que cuida
apenas de bibliotecas para cegos. O trabalho do comit dessa
organizao estava muito envolvido
com o problema dos direitos de autor.

Participando de um grande congresso do comit asitico realizado
em Cingapura, recebi um convite para conhecer as organizaes de
Hong Kong. Em Hong Kong havia uma
escola muito bem organizada alm de uma oficina profissional para
cegos adultos. Tambm estive em Bangcoc a fim de tomar
conhecimento do programa de educao integrada
e visitar as escolas para cegos.

Participei de reunies de preveno da cegueira muito
freqentemente, tanto na Europa como em outras regies
geogrficas, dentro do programa de preveno da cegueira
da Organizao Mundial da Sade. Fui ao Peru para uma reunio de
preveno da cegueira. Sempre em conjunto havia uma reunio da
Associao Internacional de Preveno
da Cegueira de cuja comisso executiva eu fazia parte e do grupo
assessor de preveno da cegueira junto  Organizao Mundial de
Sade, do qual eu tambm fazia
parte, assim como da Organizao Panamericana de Sade.

Representei o Conselho Mundial em reunies das organizaes
mundiais interessadas nos deficientes em Viena. Alm disso j
existia em Viena o Centro de Desenvolvimento
Social e Negcios Humanitrios, onde se realiza um grande trabalho
para cuidar de todos os aspectos dos problemas das pessoas
deficientes. Nesse perodo estvamos
tambm em plena dcada da pessoa deficiente. Alm disso criou-se
junto  ONU uma comisso da
Dcada da Pessoa Deficiente, hoje World Committee on Disability,
presidida pelo Secretrio GeraL da ONU, Sr. Boutros Gali, cujo
diretor executivo  o Sr. Alan Reich, para a qual fui indicada e
com a qual trabalhei intensamente. No Brasil,
participei de Conferncias da Universidade de So Paulo, das
reunies das Associaes Brasileiras, alm do trabalho da Fundao
que eu jamais abandonei.

De fato tive muito trabalho e muitas preocupaes para obter
recursos para fazer frente s despesas necessrias para a
manuteno de um escritrio de presidente
de um rgo internacional. Muitas pessoas colaboraram com a
Fundao para manter esse escritrio.

Fui recebida por Ministros de Relaes Exteriores, no apenas com
cortesia, mas com um legtimo interesse pelos problemas de
educao e de reabilitao de cegos
que eu lhes levava. Graas ao Embaixador Joo Clemente Baena

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Soares, tanto no Ano Internacional da Mulher como na OEA pude
compreender melhor os intrincados caminhos da diplomacia, para se
atingir o objetivo que se pretende.
Realizei vrios trabalhos durante meses e anos. Para os mais
longos, como na rea de direito do autor, sempre contei com
orientaes, informaes e o grande apoio do Ministro Francisco
Alvim do setor competente do Itamaraty.

Para vrios trabalhos que realizei tive a continuada e sempre
fidalga colaborao, apoio e orientao do hoje Embaixador
Francisco Vicente de Azeve do e Junqueira
de Oliveira. Francisco  filho de Rosa Raquel, minha contempor
nea no Elvira Brando.

Minhas ausncias duravam em mdia dez, quinze dias, s vezes
menos. Algumas eram mais freqentes, porm nunca deixei a
administrao da Fundao, a no ser pelos
dias em que eu estivesse fora do pas. Procurava, todavia, deixar
a maioria dos problemas resolvidos.

A FUNDAO: MUDANAS E TRANSFORMAES

A diretoria da Fundao estava muito bem constituda e foi nessa
poca que se comeou a desenvolver um trabalho maior de captao
de recursos na comunidade. No
incio, a Fundao desenvolvia seu trabalho principalmente graas
aos convnios com o Estado, o Municpio e o Governo Federal.

Iniciou-se esse trabalho principalmente porque os recursos do
governo s so colocados  disposio das organizaes sociais no
segundo semestre de cada ano.

Muitas vezes eu fui a Braslia discutir com secretrios do
Ministrio da Educao e o Presidente da Fundao de Amparo ao
Estudante. Numa dessas idas, discuti com
um dos secretrios gerais do ministrio a necessidade de que essas
verbas fossem distribudas de forma que para fazer os livros ns
pudssemos contar com os recursos
no incio do exerccio. Era necessrio que desde o primeiro
semestre houvesse liberao de recursos, porque fazer livros sem
dinheiro para pagar pessoal e sem matria-prima  impossvel.

A Fundao sempre distribuiu livros em braille para todo o
territrio nacional, atravs das secretarias estaduais e
municipais de educao, das orga-

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nizaes de e para cegos e aos cegos individualmente. Inclusive os
livros falados, cuja produo tambm se ampliou e passou a
circular por todo o Brasil.

A imprensa braille precisava de equipamentos mais modernos para
ampliao de sua produo. Foi feito um projeto entre a IBM e a
Universidade de So Paulo: uma
pesquisa para a informatizao feita aqui no Brasil, nos
equipamentos eltricos que ns tnhamos. Chegou-se a fazer at um
prottipo para a produo automatizada
dos livros em braille. Entretanto, a utilizao do computador que
nos foi doado pela IBM tornou essa produo to cara, que tivemos
de dispor desse computador e procurar outras solues.

Durante as minhas viagens, visitava as imprensas braille. Assim
foi na Espanha, na Alemanha, na Inglaterra e na ndia.

Em 1982 fizemos uma reunio da Comisso Executiva do Conselho
Mundial e fiz minha primeira viagem  Austrlia. Pude conhecer e
analisar o processo de produo dos
livros nesse pas. Alis, a Austrlia tem servios muito bem
organizados para a produo de livros gravados por voluntrios.

 impressionante, a Austrlia tem hoje mais de 700 e tantos
voluntrios que mantm um servio atravs de rdio e telefone para
que os cegos possam estar a par de
todas as notcias dos principais jornais e revistas. Atravs desse
processo, as pessoas cegas, com um pequeno equipamento, ligado a
um aparelho de rdio, podem sintonizar
a emissora que transmite durante 24 horas por dia a leitura de
artigos de fundo de jornais e revistas. Esse servio na Austrlia
 realizado por voluntrios, muitos
deles profissionais de radiodifuso. Hoje j se utiliza nessa
operao tambm o telefone para que a pessoa, atravs de linhas
especiais, possa solicitar o tipo
de artigo da publicao que deseja ouvir.

A Fundao cresceu em nmero de voluntrios e foram crescendo tam
bm as promoes, as campanhas. Abriram-se novas frentes para as
campanhas com grupos de voluntrios
sempre com a coordenao dos membros da diretoria. Conforme eu j
disse, as diretorias se tornaram mais estveis e a Fundao j
havia feito uma nova reforma estatutria
com um Conselho Consultivo muito amplo, com pessoas que nos
trouxeram grande colaborao.

Eu gostaria de mencionar as visitas de autoridades, de ministros,
mas principalmente dos Presidentes da Repblica. Duas vezes a
Fundao recebeu Presidentes da Repblica.
A primeira vez foi logo depois da Revoluo em 1968, o Presidente
Emlio Garrastazu Mdici aceitou um convite e visitou a Fundao,
interessou-se muito pelos trabalhos
e os seus ministros todos procuraram colaborar conosco.

Posteriormente tivemos a visita do Presidente Joo Baptista
Figueiredo, em 1980. Tive antes uma entrevista com o Presidente
Figueiredo quando solicitei

pag:238

a possibilidade de fazer no Brasil, para as organizaes de cegos,
uma loteria,  semelhana da loteria que a ONCE tem na Espanha,
cujos recursos garantem o funcionamento
de servios de primeira linha e fizeram com que a ONCE se tornasse
uma das maiores organizaes do mundo. Os cegos espanhis obtm
desses recursos: educao, cultura,
possibilidades de utilizao de todos os equipamentos modernos e
acesso s artes,  cincia e ao trabalho. Contei ao presidente que
eu havia estado na Espanha e garantia a possibilidade de se poder
trazer tcnicos espanhis para resolver o problema no Brasil. Ele
prometeu estudar e fez uma visita  Fundao.

As visitas dos presidentes so realmente extraordinrias. Nas
comitivas comparecem ministros, governadores e muitas autoridades.
Na visita do Presidente Medici
era governador de So Paulo o Dr. Roberto de Abreu Sodr, e o
prefeito, Sr. Paulo Salim Maluf. Na visita do presidente
Figueiredo o governador era Paulo Salim Maluf e o prefeito
Reynaldo Barros. Todos estiveram presentes, inclusive oito
ministros. Nossos conselheiros foram receb-los. Foi uma festa!

O mais interessante foi o nosso zelador, o nosso porteiro, Sr.
Jos, que estava h muitos anos conosco. Sr. Jos chegou a ser
ordenana no exrcito. Para ele, receber
dois presidentes militares foi a glria de sua vida. Ele bateu
continncia, se apresentou, ns todos ficamos felizes porque todos
na Fundao querem muito bem ao
Sr. Jos. Ele dedicou muitos anos  nossa obra, agora j est
bastante idoso. Quando ainda dava seu planto na portaria fazia o
possvel para agradar a maior parte
das pessoas. Todos os dias quando eu entrava, ele dava bom dia e
me dizia: "Tudo bem, Dona Dorina, a parte daqui, tudo em ordem".
Parece mesmo a ordenana de um general.

Os aspectos pitorescos ficam marcados na nossa vida. Todo o
trabalho da Fundao aos poucos foi se tornando cada vez mais
baseado em projetos. Projetos para a imprensa
braille, educao, reabilitao, profissionalizao, projeto do
livro falado. Os profissionais so organizados em forma de uma
equipe multidisciplinar.

Esse trabalho realizado em equipe permite o aperfeioamento do
pessoal e a introduo das modernas tcnicas de educao e
reabilitao. Muito se deve a Jurema Lucy Venturini, coordenadora
da equipe que acompanhou, desde o incio, a introduo dessas
tcnicas to valiosas para o ajustamento das pessoas cegas.

Jurema e Ana Amlia da Silva deram os primeiros cursos de formao
e treinamento de profissionais nas reas de estimulao precoce e
treinamento de viso subnormal, orientao e mobilidade na
educao e reabilitao de deficientes da viso em vrios estados
do Brasil. Os cursos sempre foram dados em

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colaborao com as Universidades. Em So Paulo os cursos quase
todos, durante muitos anos, foram feitos com a Universidade de So
Paulo ou com a Escola Paulista de Medicina.

A Fundao sempre se preocupou em realizar cursos cujos
certificados tambm tivessem validade para melhor qualificao dos
professores e dos tcnicos em geral.
Os nossos coordenadores so todos especializados, a maioria j
est h muitos anos conosco. Todos tiveram a oportunidade de
participar de seminrios em outros pases
e evoluram graas ao estmulo para estudar e melhorar as suas
prprias condies de trabalho.

Uma das coisas que me d imenso prazer  sentir que o trabalho
profissional da Fundao  reconhecido no Brasil e no exterior.
Sei que os diretores tambm se alegram
e se sentem recompensados pelo seu trabalho, porque atender
pessoas deficientes no  questo apenas de boa vontade ou de
generosidade. , antes, um trabalho tcnico
e cientfico que precisa ser realizado com critrio, porque lidar
com vidas humanas  uma responsabilidade muito grande.

A profissionalizao das nossas atividades tem sido a causa de
nosso sucesso e do reconhecimento do pblico.  imensa a
satisfao quando algum nos procura, no
para agradecer, mas para mostrar a sua inteno de colaborar
porque algum da sua famlia ou conhecido foi atendido e conseguiu
adaptar-se  vida.

O trabalho tem de ser cada vez mais profissional e ns s podemos
realiz-lo desde que a organizao e os rgos superiores de
direo proporcionem aos profissionais
oportunidades de desenvolvimento, de aperfeioamento e de
satisfao no trabalho que realizam.

 fundamental este aperfeioamento dos profissionais, porque todas
as teorias e estratgias de trabalho com deficientes sofreram
evoluo no to rpida quanto a
tecnologia, mas bastante rpida e de grande amplido. Os
profissionais que trabalham nas nossas organizaes precisam estar
a par desse desenvolvimento para aplicar
os conhecimentos e adapt-los s realidades da vida brasileira.

CAMINHOS

Vencer na vida  manter-se de p quando tudo parece estar abalado.
 lutar quando tudo parece adverso.  aceitar o irrecupervel. 
buscar um caminho novo com energia, confiana e f.

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Quando se fica cego  um pouco assim. Perde-se a princpio a noo
de equilbrio fsico. O controle do ambiente fica gravemente
prejudicado. A liberdade de movimentos
 seriamente comprometida. So as perdas ocasionadas pela
cegueira, segundo Father Thomas Carroll.

A natureza, porm,  sabia. Outras sensibilidades, outras pistas
tornam-se perceptveis. O rico potencial do ser humano procura
suprir em grande parte as lacunas ocorridas.  preciso enfrentar a
cegueira em toda a sua realidade. Muito difcil para uns, um pouco
menos difcil para outros. Fcil, para ningum.

O caminho novo existe para todos, deve-se apenas reconhec-lo no
meio de toda a perturbao e segui-lo confiante. O progresso e a
evoluo das cincias humanas facilita
a transio entre o mundo que se conhecia visualmente e o mundo
novo que  preciso conhecer atravs das sensibilidades restantes.

Esses pensamentos me vm  mente hoje, enriquecidos e delineados
pelos conhecimentos que adquiri atravs dos estudos que realizei
para me tornar profissionalmente
capacitada para trabalhar na rea da cegueira, desde sua
preveno, educao, reabilitao, at a profissionalizao.

Certamente no os discerni quando perdi a viso. Nem sequer
imaginei que tudo isso existisse, que pudesse fazer parte de um
processo de adaptao. Mas tenho a certeza
que Deus permitiu que eles me guiassem quando tive de enfrentar a
realidade de que estava cega. Mesmo sem saber, ou sem me perguntar
porque, reagi.

A necessidade inata que tenho e sempre tive para enfrentar a
realidade dos fatos foi o fator primordial que me permitiu
descobrir o novo caminho de minha vida aos
17 anos. Reconheo que tentaram suavizar minha realidade,
principalmente meus pais.

A minha grande felicidade foi saber aproveitar as oportunidades
que surgiram, para que eu primeiro recomeasse a freqentar os
ambientes a que estava acostumada
aps meses e anos de tratamento em que tive de ficar em repouso
absoluto. No havia centros de reabilitao no Brasil. Nem sequer
desconfiava que eles existissem
em outras partes do mundo, muito menos vislumbrava as tcnicas que
surgiriam no ps guerra.

Num certo momento percebemos na Fundao que precisvamos ter uma
oportunidade de interessar o Presidente Juscelino pelo nosso
trabalho. Um dos funcionrios da Fundao,
que conhecia o Presidente, convidou-me um dia para ser madrinha de
uma criana que teria o Presidente Juscelino como padrinho. Foi
assim que tive a honra de batizar
uma criana em Vinhedo, uma menina, em companhia do grande e
admirvel Juscelino Kubitschek.

pag:241

Quando presidente do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos,
tive a honra de ter, com toda a Comisso Executiva do Conselho
Mundial, uma audincia com o Papa
Paulo VI. Foi no Vaticano, numa sala de audincias, quando pedimos
a Sua Santidade que em seus sermes e em suas falas, em suas
pastorais, inclusse um apelo sobre
as pessoas deficientes, no nosso caso os deficientes visuais, a
fim de que a comunidade universal se conscientizasse sobre os
direitos, as necessidades, as oportunidades
que deveriam ser dadas s pessoas cegas e aos outros deficientes
para que pudessem se educar, ou se reabilitar e poder trabalhar
para conquistar o seu ganha po
e o seu lugar na sociedade. Nessa oportunidade cada um de ns
recebeu a bno de Paulo VI e pudemos na cerimnia, beijar o anel
papal. O ambiente do Vaticano por
si s  uma sensao diferente, pois toda a histria de Cristo
est no Vaticano, diante de seu representante legtimo. E uma
inesquecvel e duradoura emoo.

Em So Paulo, quando Madre Teresa de Calcut esteve no Brasil,
conseguimos uma audincia com essa santa criatura cuja vida foi
inteiramente dedicada aos pobres e
aos sofredores. Fui com Maria Clia. S a aproximao de Madre
Teresa j era uma bno. Ela ficou sentada ao meu lado, segurando
minhas mos e conversando comigo.

 indescritvel a sensao de bondade, de ternura e de elevao
que se sente ao lado de Madre Teresa. Este encontro foi para mim e
para Maria Clia uma bno, um
presente do cu. Foi durante uma reunio da Cruzada Pr-Infncia,
no Parque Fernando Costa na gua Branca, que tivemos a felicidade,
a grandeza e a iluminao de
estar com uma to humilde serva do Senhor.

Conheci e recebi a bno de trs Papas. Pio XII, Paulo VI e Joo
Paulo I Cada vez a emoo foi maior. Relembrar os dilogos 
impossvel! Esses encontros so um
todo em si que os torna inesquecveis. Qualquer detalhe de per si
representa o todo de uma situao dessas.

Quando Alex e eu estvamos em Roma em uma de nossas passagens pela
Itlia para reunies e congressos, fomos ao Vaticano. Sempre que
vou a Roma, volto ao Vaticano.
 grande a atrao que sinto pela Catedral de So Pedro. Fomos
tentar falar com Joo Paulo II, procurar saber sobre o seu
programa. Soubemos que ele cumprimentaria
o povo numa quarta-feira; depois de falar ao meio dia, ele viria
cumprimentar o povo, na praa em frente  catedral.

Assistimos  missa, ouvimos a fala do bondoso e santo Joo Paulo
II e depois esperamos enquanto ele cumprimentava o povo. Gente de
todas as partes do mundo enchia
aquela enorme praa. Chegamos perto de Joo Paulo e falamos em
portugus. Foi um sucesso, ele nos disse: "Vocs so brasileiros?"
E depois fez uma apreciao sobre
o Brasil, do qual ele tinha gostado imensamente.

pag:242

Pedimos suas bnos para nossa famlia e para os trabalhos da
Fundao e do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos.

Entre vrias viagens fui duas vezes  Oceania. Ir  Oceania  como
dar um salto no mundo. Pude ter a oportunidade de visitar
organizaes de Auckland na Nova Zelndia.
Chegamos a Nova Zelndia exatamente no dia em que a Argentina
invadia as Malvinas e o embaixador argentino na Nova Zelndia se
despedia daquele pas.

Nessa poca, 1982, nossas discusses nas reunies de diretoria, ou
na Comisso Executiva, giravam muitas vezes em torno da unificao
das duas organizaes mundiais. Procurei sempre ser prudente,
ouvir os dois lados.

Em todas as reunies estava, porm, latente ou presente o assunto
da unificao das duas grandes organizaes internacionais. Era
preciso que se firmassem alguns
dos conceitos sobre a forma de agir, em relao s modificaes
nos estatutos e formao das delegaes nacionais.

Havia diferenas quanto aos pontos de vista. No era discrdia,
mas faltava um denominador comum entre os membros das duas
organizaes. Nunca fui radical sobre
alguns desses aspectos e sempre achei que se deveria abdicar de
alguns princpios em favor de um trabalho conjunto que se tornava
imprescindvel em relao  Organizao
das Naes Unidas e s outras organizaes internacionais.

TAREFAS RDUAS, MAS VALIOSAS EXPERINCIAS

Em agosto de 1982 foi programada a V Conferncia da Associao
Internacional
dos Educadores de Deficientes Visuais em Nairobi, Qunia.

Chegamos a Nairobi e logo tivemos a surpresa de ver que havia um
representante do Presidente e do Ministro da Educao para nos
receber. L estava tambm o embaixador
do Brasil, Ney de Mello Matos. Uma pessoa simpatissssima.

O Embaixador nos acompanhou ao hotel Hilton e disse que era melhor
trocarmos imediatamente o dinheiro, porque eles no recebiam
dlar. Porm, na
hora que chegamos no havia servio de cmbio no hotel.

pag:243

No sei porque isso acontece s vezes, imagino que inspirada por
Deus, eu disse de repente ao Embaixador que eu tinha o telefone e
o endereo da chancelaria, que
alis era pertssimo do hotel, mas se ele no se importasse, eu
gostaria de ter o telefone de sua residncia que ficava a uns 4 km
do centro de Nairobi.

Nos acomodamos em dois quartos adjacentes, Maria ficou comigo,
Olenka ficou no outro quarto, mas com a porta de comunicao
aberta. Elas foram muito gentis, insistiram
para que eu descansasse e penduraram minha roupa. Seriam muitos
dias de conferncia, depois eu ia continuar a viagem a outros
pases, tinha outro congresso para assistir.

Era bem tarde quando nos acomodamos. Achei estranho quando pedimos
no hotel para trocar o dinheiro e o caixa disse que no tinha o
dinheiro do pas, s teria de
manh cedo, quando descssemos para o caf. J estvamos
acomodadas quando de repente ouvi um rudo, um barulho enorme-
Falei; "Ah, Olenka, acho que  feriado, so fogos. Que pena! Se
for feriado no d para irmos ver o parque dos animais".

Muitos dos congressistas estavam em safris, principalmente os
suecos, espanhis e ingleses. Ns queramos pelo menos ver os
animais, conhecer um pouco dessa impressionante coleo que existe
no zoolgico de Nairobi, sobre a qual tnhamos lido.

Tinha conseguido do Itamaraty uma licena para oferecer aos
membros das associaes africanas um coquetel na embaixada
brasileira. O embaixador muito gentilmente
acedeu e j havamos combinado que eu distribuiria os convites da
embaixada do Brasil para os pases em desenvolvimento. Eu gostaria
de ter um entendimento com
esses pases e ver quais as suas aspiraes, o que desejavam. A
realizao de um coquetel deste tipo depende de entendimentos
anteriores,  preciso uma licena especial.
Depois de tudo concedido, eu estava muito animada. Iriam mais de
100 pessoas, cujos nomes estavam em poder da embaixada brasileira.

Eu realmente no tinha sono, estava com todos estes planos na
cabea quando ouvi o barulho. De repente foi um estrondo muito
maior, Olenka levantou assustada;
"Dorina isso  um tiro de canho, no so fogos de artifcio". A
verdade  que era mesmo um tiro de canho. Naquela madrugada
estourou um golpe de estado.

A aeronutica se revoltou, queria tomar conta do Palcio do
Governo que ficava bem prximo do Hilton, e estava bombardeando o
Palcio e seus arredores. Ficamos apavoradas.
O que fazer? Tiramos o fone do gancho. Notei que o telefone dava
linha, mas no havia telefonista.

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Isso prolongou-se durante toda a madrugada. De manh ouvimos
pessoas que passavam no corredor, falando ingls. Abrimos nossa
porta e soubemos que essas pessoas
iam para um safri, mas no podiam descer porque os eleva dores
no funcionavam. Nesse momento chegou uma famlia americana que
contou estar acontecendo um golpe de estado.

O hotel no tinha mais nenhum servio, nem telefonistas e nem
empregados, apenas o gerente havia permanecido. Resolvemos ficar
dentro do quarto e voltei ao telefone.
Disquei o nmero da casa particular do Embaixador do Brasil.

Qual no foi minha surpresa quando o nosso embaixador respondeu,
eu disse quem era e ele perguntou: "Como a senhora conseguiu esta
ligao? Eu estou sem comunicao,
as estradas esto com barricadas, h um golpe de estado e eu estou
absolutamente sem comunicao com o centro da cidade. Por enquanto
o bombardeio foi perto do Palcio,
mas est havendo problemas j nas fronteiras. A torre do aeroporto
foi danificada, os avies no podem descer ou subir e eu no tenho
outras noticias porque estou aqui isolado".

Ento coloquei o telefone na vidraa da janela para ele ouvir o
tiroteio que estava na praa em frente a ns. Ele nos ordenou que
ficssemos quietas
aguardando e que ligaria assim que pudesse nos retirar do hotel.

Assim foi! Quando o tiroteio era pior, todo mundo se abaixava,
embora estivssemos no sexto andar.  bem verdade que um tiro
passou raspando, no andar de cima e
foi justamente esse tiro que atingiu o rosto do Sami, secretrio
de Abdulah que tentava tirar uma fotografia quando um soldado o
atingiu. Graas a Deus no foi grave, mas valeu para assustar
todos que estavam naquele lado do hotel.

Maria e Olenka olhavam pelas frestas das cortinas e me descreviam
o que se passava na praa. Pessoas que vinham nos nibus eram
obrigadas a descer, havia rajadas
de metralhadora. Por toda praa havia soldados camuflados debaixo
das rvores, atrs das plantas.

Um saque total e absoluto. As vitrines das lojas de frente do
hotel foram todas saqueadas, os vidros partidos, as pessoas
passavam com carrinhos de mo, com televises,
rdios, malas, roupas. Elas me descreveram um negro muito
engraado com um carrinho de mo, uma pasta 007 de couro fino e um
vu de noiva na cabea. Tudo o que
os saqueadores podiam pegar era carregado. Foi uma pena,
televises que se partiam, que caam dos braos ou dos carrinhos.
Era simplesmente assustador. Quando terminou
o dia, samos no corredor e nos disseram que podamos descer.

pag:245

Descemos e foi uma cena. Encontramos o Presidente do ICEVH,
Wolfgang Stein, um alemo super disciplinado, rgido. Ele tinha
sido do exrcito alemo, um verdadeiro
comandante. Quando nos viu, nos abraou, botou a cabea em meu
ombro e chorou, estava desesperado: "Eu fiz vocs todos virem para
c. Ns nos empenhamos tanto para este grande congresso".
Realmente, a associao alem a que ele pertencia havia se
empenhado muito para a realizao daquele congresso.

Era importantssimo que fosse na frica. Ns desejvamos o
desenvolvimento dessa rea do mundo que tanto necessitava de
professores e recursos educacionais. Eu
mesma, na minha gesto, pleiteava para que tudo que fosse
possvel, fosse canalizado para os pases da frica, atravs de
programas da ao conjunta de organizaes doadoras.

Aquele congresso fra bem planejado, porque o presidente da
associao era um homem organizadssimo, muito competente. E l
estvamos ns, na vspera da instalao do congresso, no meio de
um golpe de estado.

Nos abravamos, todos muito emocionados e temerosos. Soubemos que
um hspede japons que saiu do hotel e tentou tirar uma fotografia
na calada foi assassinado.
Houve estupros no andar abaixo do nosso de duas mocinhas
americanas. Enfim, era uma situao apavorante.

Um hspede americano, cozinheiro, em frias e alguns outros foram
preparar uma refeio. Fizeram caf, grandes bules de ch,
chocolate, leite, tudo o que houvesse.
Fizeram um buffet e ns todos passvamos, como num campo de
concentrao, com o prato na mo.

Fiz uma refeio muito divertida, me lembro do arroz frio,
ervilhas cozidas (mas frias), queijo, abacaxi, tudo misturado. Foi
um risoto "sui generis" a la Golpe de Estado de Nairobi.

Todos os hspedes, pessoas de pases to diversos, se comunicavam
em qualquer lngua possvel e todos procuraram se ajudar. O
gerente realmente foi um heri. Ele
ficou sozinho durante todo o tempo, procurando organizar o melhor
para os hspedes. O hotel era excelente.

Logo depois encontramos Jean Kenmore e eu lhe disse que ns no
sabamos o que fazer. Ela nos disse que a embaixada norte-
americana havia mandado os norte-americanos
se reunirem numa sala. Disse-nos: "Vocs so americanos tambm,
venham que o que puder ser feito pelos norte-americanos ser feito
tambm por vocs".

O governo norte-americano havia se comunicado por rdio com um
mdico da embaixada que, com a esposa, atendia aos feridos. Este
mdico comu-

pag:246

nicou que o Presidente Reagan iria mandar um avio da fora area
americana para tirar os norte-americanos do Qunia, principalmente
as pessoas que estavam em Nairobi.

Sentamos todos no cho, onde foi possvel, na sala de reunies e o
mdico que estagiava em Nairobi e trabalhava para o governo
americano pediu que tomssemos cuidado,
que no podamos sair na rua com todos os problemas que havia:
assaltos, mortes, estupros e tudo o que j estava acontecendo; que
ficssemos em nossos quartos.

Naquele momento estava havendo negociaes, mas ningum sabia dos
resultados. A praa estava calma com soldados patrulhando de
metralhadoras em punho. Francamente, no sei de que partido eram
os tais soldados, mas tudo era assustador.

Subimos e fomos descansar. No havia outro jeito. Nos nossos
quartos havia apenas frigobar com bebidas, batatinhas, amendoim e
um pacote de biscoitos que havamos
comido na vspera. Ficamos praticamente mais de 24h sem poder
tomar alimento nenhum, porque usque, conhaques e outras bebidas
que havia no frigobar no nos interessavam.
Foram horas muito difceis. J estvamos procurando arrumar nossas
malas sem saber bem como sairamos de l e eu continuava dando
notcias ao embaixador, pelo telefone.

No terceiro dia fomos avisados de que poderamos descer, que j
havia quem nos servisse o caf da manh. Estvamos tomando caf e
de repente novo tiroteio perto
da janela... Samos correndo e voltamos para o quarto. Nesse
minuto recebemos um telefonema da filha do embaixador, dizendo que
esperssemos dentro do quarto com as malas prontas. Seu pai iria
nos buscar para nos levar para sua casa.

Durante a noite os outros hspedes nos avisaram que se houvesse
batidas na porta dos quartos evitssemos falar e se insistissem,
deveramos dar o que pedissem. Eles queriam dinheiro do pas,
jias e relgios. No queriam dlares - e ns no tnhamos
dinheiro do pas. O embaixador brasileiro avisou que no
abrssemos, a no ser quando ele batesse.

Graas a Deus, quando ele chegou ao hotel e bateu para nos chamar,
estvamos atrs da porta, enfileiradas, malas prontas, tudo
prontinho para zarpar, como se diz.

Pagamos a conta do hotel e foi a primeira vez que no nos demos ao
trabalho de somar e verificar. Samos de carro com o senhor
embaixador. Atravessamos as ruas,
ele nos contou que j havia recolhido outros brasileiros que
estavam em hotis prximos e estvamos todos indo para a sua casa.

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Chegamos  casa do embaixador, a 4 km ou mais do centro de
Nairobi. Uma casa linda, um jardim maravilhoso. Pensamos que
estvamos a salvo, mas quem disse! O embaixador
nos contou que na manh do domingo uma bomba caiu no jardim do
embaixador do Paquisto e matou a esposa do embaixador. Foi
terrvel!

O almoo foi muito interessante, aprendemos muito sobre a frica,
sobre Nairobi. O embaixador Melo Matos e a senhora, pessoas muito
cultas, carinhosas, bem podiam
imaginar o nosso pnico. Lamentamos o nosso coquetel frustrado e o
embaixador procurou ento, naquele momento, acomodar todos os
brasileiros que havia recolhido.

Fomos para a casa de uma secretria da embaixada, Elizabeth. Uma
casa confortvel, no meio de um grande jardim. O marido de
Elizabeth, Haroldo, representava o Brasil
na sede do Meio Ambiente da ONU em Nairobi. Duas pessoas
maravilhosas que nos acolheram com o maior carinho.

Ns tnhamos dois quartos, estvamos muito bem acomodadas, a casa
era muito confortvel. Uma coisa impressionante  que a rea dos
quartos  noite era fechada com
uma porta automtica de ferro, parecendo porta dos cofres de
bancos. Haroldo tinha em sua cabeceira um boto especialssimo,
independente de toda a parte eltrica da casa e que uma vez
acionado, chamava a polcia. O empregado morava num quarto no
fundo do quintal e no comia a mesma comida dos donos da casa.
Segundo Elizabeth, ele no gostava da nossa comida.

L ficamos assistindo pela televiso as negociaes entre o
governo e os rebeldes, O casal traduzia quando as notcias eram no
dialeto local. As negociaes culminaram
com o fim do golpe de estado. Queramos nos comunicar com o
Brasil, mas no conseguamos. Por acaso a av de Elizabeth que
morava nos EUA, mas j tinha morado em
Recife, soube da revoluo, comunicou-se com os pais de Elizabeth
no Brasil e, atravs dela, pudemos mandar notcias para So Paulo.
Graas a Deus as notcias da revoluo no chegaram aqui
assustadoras, finalmente conseguimos falar com o Brasil.

Estvamos sob a guarda da embaixada brasileira em Nairobi. Que
aventura! Logo depois foram restauradas as linhas telefnicas e eu
falei com o presidente do ICEVH;
ele me pediu que fosse a uma reunio da Comisso Executiva. O
embaixador no deixou. Eu lamentei, mas no pude ir.

O embaixador s permitiu que no dia seguinte eu fosse  abertura
do congresso, no Keniata, mas que deixasse todas as malas prontas.
No havia vos porque a torre
do aeroporto continuava danificada, mas tudo deveria ser ajeitado
para uma partida repentina.

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O presidente resolveu fazer a abertura porque havia um grande
nmero de participantes, alguns haviam chegado dos safris,
conseguiram passar pelos focos de revoluo,
todos assustados. Elisa e Gustavo, da Guatemala, que estavam em um
outro hotel, o InterContinental contaram que saindo no terrao uma
bala passou perto de Gustavo. Foram aventuras de todo o tipo.

O ambiente no era muito para congresso, mas para contar fatos. Em
todo o caso eu tinha de fazer o discurso de abertura. Fiz o meu
discurso, no chegou o representante do governo que o presidente
esperava e assim mesmo comeamos o congresso.

Na sesso da tarde, eu estava sentada com a delegao brasileira.
De repente ouo a voz do embaixador sentado ao meu lado: "As
senhoras vo sair imediatamente daqui.
J fomos buscar a bagagem, faam silncio, no comentem, vai sair
um avio da Air France e eu j consegui os trs lugares".
Abenoado embaixador.

Realmente no sei o que senti, a verdade  que quando descemos as
escadas, vrias pessoas comearam a fazer perguntas. Eles andavam
pelos corredores, eram franceses, espanhis, hindus, alemes,
noruegueses. Todos que haviam conseguido chegar.

Fomos de carro com o embaixador para o aeroporto. Logo depois
comearam a chegar vrios congressistas, quase todos que
conseguiram sair do congresso. Estavam todos
no aeroporto tentando o mesmo avio.

Na entrada do avio, a ansiedade era terrvel. Havia vrias
pessoas cegas. J tinha feito centenas de vos na minha vida e
nada me havia acontecido. Mas
a aeromoa aflitssima viu Maria, que subiu na minha frente, e eu
segurando o brao dela. De repente a aeromoa resolveu puxar
Maria, achou que ela era cega,
e l fui eu, ca de joelhos com as pernas penduradas entre a
escada mal colocada e o avio. Quase houve um desastre maior na
minha subida. Graas a Deus
apenas machuquei os joelhos e rasguei a meia.

A viagem foi muito boa, mas a comida do avio era muito
rudimentar, porque foi um vo de emergncia. Quando o avio
levantou vo, que alvio! Que delcia! Que sensao
maravilhosa. E l ficou Nairobi e a nossa reunio frustrada com os
africanos. Nossa recordao carinhosa e amiga para esse grande
embaixador que nos prestou socorro,
amizade, coragem e procurou dar uma soluo para o nosso problema.

Fomos para Paris.

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OIT - CONVENO 159

Durante minha gesto em 1982, estava muito preocupada com as
providncia necessrias em relao a um documento muito importante
para as pessoas deficientes,
a Recomendao 99, que seria discutida na Conferncia da OIT, em
Genebra. A OIT havia remetido o questionrio sobre o documento em
questo para governo brasileiro,
a fim de ser estudado e analisado em colaborao com a
organizaes no governamentais.

Estava em Genebra para uma reunio da Organizao Mundial de
Sade, quando tomei conhecimento, no escritrio da OIT, sobre esse
documento. Quando cheguei ao Brasil,
fiz uma circular para todos os pases membros do Mundial para que
se inteirassem da Recomendao 99 e procurassem orientar o seus
representantes junto  OIT para
regulamentao desse importante documento. No Canad, em conversa
com Andr Leblanc, diretor do Departamento d Reabilitao desse
pas falei-lhe sobre meu projeto
de realizar uma reunio da organizaes internacionais de pessoas
deficientes, para discutir o assunto. Eu no tinha recursos
financeiros para convocar essa reunio,
mas Leblanc aconselhou-me solicit-los  ONU. No tive dvida.
Mandei um telegrama  ONU Recebi resposta por telegrama, poucos
dias depois, afirmando que eu contaria
com 14 mil dlares para fazer uma reunio na Europa com as
organizaes internacionais ligadas a todas as deficincias.

Foi uma a alegria. Fiquei encantada pela rapidez com que obtive os
recursos e a passamos a organizar a reunio, que seria em Paris.
Aqui no Brasil procurei as organizaes
de deficientes: APAE, Pestalozzi, Associao de Assitncia 
Criana Defeituosa. Procurei saber como eram as estruturas das
reunies da OIT. J havia participado
de outras reunies das agncias especializadas d ONU. Sabia que
havia nessas Assemblias representantes do governo, dos
empresrios e dos trabalhadores.

Procurei os representantes brasileiros e fizemos uma reunio em
So Paulo, na Fundao. Compareceram alguns presidentes de
organizaes de deficientes e o representante
dos trabalhadores junto  Conferncia da OIT que me sugeriu: "Se
vocs querem um documento mais consistente, porque no sugerem uma
conveno?"

Parecia a coisa mais impossvel do mundo conseguir uma conveno
da OIT. Mas no paramos nisso. Para a nossa reunio, o Conselho
Mundial resolve convidar os responsveis
pela sesso de reabilitao da OIT em Genebra. Participaram Karl
Gunther e Norman Cooper da reunio em Paris, em 1983. Havia
representantes das maiores organizaes
de deficientes, o suficiente para poder-

pag:250

mos discutir o assunto. Os representantes do Conselho Mundial
propuseram a Conveno Internacional para a Reabilitao,
Treinamento e Emprego das Pessoas Deficientes.

Os representantes da OIT no tinham autorizao para nos garantir
a adoo da proposta mas acharam que deveramos propor, o que
seria uma reformulao da Recomendao
99, em termos mais satisfatrios para todos os pases.

Vitria! Quando a OIT se reuniu em congresso em 1983, em Genebra,
eu no pude ir. A diretoria do Conselho Mundial indicou um dos
nossos representantes, o Capito Homi Dessai, que era membro da
delegao indiana, para estar presente no congresso.

Capito Dessai era um homem que conhecia regulamentos
parlamentares, falava muitssimo bem o ingls, redigia
maravilhosamente muitas das nossas resolues e interpretava
perfeitamente todo o pensamento e a filosofia da Unio Mundial.
Ele eslava autorizado a pleitear a conveno, em nome de todas as
organizaes, inclusive da Federao
Internacional de Cegos que fez parte da reunio, e que trabalhou
harmoniosamente conosco, em conjunto com as outras organizaes de
deficientes e ainda de esclerose
mltipla, organizaes de surdos e a organizao internacional de
sade mental. Enfim, como representante do Conselho Mundial foi
excelente, falava muitssimo bem e conhecia todas as formalidades,
toda a maneira de se comportar e sabia fazer um "lobby"
extraordinrio para obter a aprovao da nossa conveno.

Franz Sonntag, que representou a Federao Internacional de Cegos,
tambm fez uso da palavra. Desejei muitssimo poder estar presente
naquele momento, mas o que
sempre me importou na vida foi que se concretizassem as medidas
necessrias e se obtivessem as regulamentaes que os cegos no
mundo precisavam, muito mais do que
a minha participao pessoal naquele momento.

Acompanhei com o corao e o pensamento. Soube que tudo tinha sido
aprovado e que os representantes do governo brasileiro, dos
empresrios e dos trabalhadores unanimemente
votaram a favor da Conveno 159 e da Recomen dao 168, que
regulamenta a reabilitao, o treinamento e o emprego das pes soas
deficientes.

Havia ainda o passo seguinte. O Brasil precisava ratificar essa
conveno, porque uma conveno ratificada significa que o pas se
obriga a tomar medidas e providncias de acordo com o que
preconizam as convenes. Este procedimento  muito mais do que
apenas uma recomendao que  enviada a
todos os pases membros. Recomendaes podem ser seguidas ou no.
A conveno sim,  um documento forte. Eu me senti profundamente
grata a Deus por ter me permitido trabalhar e tecer tudo para que
houvesse a realizao da nossa

pag:251

reunio em Paris. A unio de todas as reas de deficincias
conseguiu convence a Assemblia Geral da OIT.

O Brasil levou algum tempo para ratificar essa conveno.
Finalmente em 26/08/89 foi ratificada pelo Congresso Nacional e
publicada no Dirio Oficial da Unio em
28/08/89. Outros pases, inclusive da Amrica do Sul, ratificaram-
na nos anos seguintes. Essa conveno  meu orgulho. Foi uma
vitria, uma alegria sem par. Jamais
esquecerei os momentos de emoo, e satisfao que senti quando a
conveno foi assinada.

Trabalhei muito para a instalao dos primeiros centros de
reabilitao no Brasil. Em 1962, a Fundao iniciou o seu primeiro
centro. Vinte anos depois, a conveno.
Quanta coisa se passou nestes vinte anos. Quanto trabalho no
Brasil, porque alm da participao em reunies internacionais,
participava tambm d reunies, seminrios
e mesmo em 1982, de um seminrio na Faculdade de Educao da
Universidade de So Paulo. Esse foi o primeiro encontro de
educao especial promovido pela Faculdade de Educao da USP.

Em 1983 fui agraciada com a Ordem do Tribunal de Justia Militar.
Recebi a Gr Cruz da Ordem do Mrito Judicirio Militar. Foi uma
grande honra para mim. A Ministra
da Educao era minha ex-professora, Ester Figueiredo Ferraz, que
tambm recebeu a condecorao no mesmo dia. Senti-me muito honrada
por receb-la ao lado de to
ilustre figura como Ester e o ento Ministro da Marinha, entre
outras autoridades. Presidiu a sesso o jurista Gualter Godinho,
Presidente do Tribunal de Justia Militar e marido de uma colega
dos tempos da Caetano, Ruth Franchini Godinho.

Neste mesmo ano em Manila, Filipinas, participei da quinta Reunio
Anual do Grupo Assessor de Preveno da Cegueira da Organizao
Mundial de Sade e ao mesmo tempo
se realizou uma reunio da IAPB - Associao Inter.nacional de
Preveno da Cegueira, de cuja Comisso Executiva eu era ento
vice-presidente.

Normalmente esses eventos da IAPB e do Grupo Assessor realizam-se
um seguido ao outro, para que as pessoas no tenham que se
deslocar muitas vezes para vrias partes
do mundo. Essas reunies so muito elucidativas. Cada uma das
organizaes tem como representantes oftalmologistas,
geneticistas, nutricionistas etc. O Conselho
Mundial esteve sempre ligado ao trabalho de preveno atravs da
IAPB e da Organizao Mundial de Sade.

Antes de ir a Manila, viajamos, Denise e eu, de So Paulo a San
Francisco, onde ficamos uns dois dias. Em San Francisco, quando
estava fazendo uma excurso com o bondinho, fui parar no
Fisherman's Ward. Encontramos uma

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voluntria da Fundao e seu marido que l estavam passando
frias. Foi um encontro muito agradvel.

Fomos a Palo Alto, onde tive a satisfao de visitar a Telesensory
Systems e ver os equipamentos mais modernos que estavam sendo
produzidos naquela poca, j ligados
a computadores, entre eles o Optacon. Conheci seu inventor o Dr.
John Linvill, um professor da Universidade de Stanford, que tem
uma filha cega, Candy, e inventou
esse equipamento para que a filha pudesse ler os tipos de
impresso comum de forma direta.

Muitos outros equipamentos da por diante foram desenvolvidos pela
Telesensory, entre eles a impressora braille com voz sintetizada e
circuito fechado para ampliao
de letras, utilizado para viso subnormal. Conheci tambm uma
grande Fundao que se preocupava principalmente com a
problemtica de emprego de cegos e que tem financiado
a produo desses equipamentos que so importantssimos para que
os cegos possam trabalhar.

Manila foi uma surpresa. Fiz uma reunio com as moas cegas e tive
a oportunidade de conhecer as enormes dificuldades que elas tinham
de ultrapassar para poder
trabalhar. Nessa poca ainda havia muita prostituio, mesmo entre
as moas cegas. Os irmos procuravam os parceiros, a troco de
pagamentos para as irms menores
e muitas delas se prostituam. Algumas moas cegas eram
verdadeiras heronas. Cantavam em restaurantes e bares, andavam
sozinhas, fazendo uso da bengala longa.
Procuravam manter-se com dignidade em vrias profisses, embora
fossem muito mal pagas.

Havia profissionais da American Foundation for Overseas Blind,
hoje Helen Keller International, trabalhando em Manila para
minorar aquela situao, mas apesar de
tudo, ainda havia muito o que fazer para que as pessoas deixassem
a mendicncia e acreditassem no treinamento para a independncia e
para uma vida de trabalho digno.

A presidncia reservou-me tambm surpresas muito interessantes no
ano de 1983. Entre elas, um convite para visitar a Repblica
Popular da China. A Diretoria do Conselho
Mundial para o Bem-Estar dos Cegos tinha interesse em que a China
se filiasse a essa organizao. Na qualidade de presidente, recebi
um convite oficial do governo
da China para visitar as associaes de cegos em vrias regies do
pas. A viagem foi muito interessante.

A primeira descrio que eu tive ao chegar foi em relao aos
carros com cortinas abaixadas e a enormidade de bicicletas nas
ruas.  impressionante nesses pases
asiticos, principalmente na China, o nmero de pessoas que
transitam pelas ruas. Parece um formigueiro.

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Nosso intrprete era uma pessoa muito amvel, muito simptica e
que pertencia  Associao de Cego-Surdos da China. A Associao
abrangia as duas reas de deficincia
e todos tinham muito interesse em ouvir tudo que se relacionasse
com a educao e reabilitao de cegos.

Fomos primeiro a Beijin (Pequim). Visitamos instituies como a
Associao Chinesa para Cegos e Surdos, conhecemos autoridades. No
Palcio do Povo foi nos oferecido
um banquete. Um banquete na China no precisa de m de mais doze ou
quinze pessoas e o banquete no Palcio do Povo foi muito
impressionante e uma novidade inesperada.

O Palcio era magnfico. A descrio que Alex fez at me
surpreendeu. Ele prprio se esmerou para me descrever tudo o que
estava vendo. Nosso embaixador, Italo Zappa,
foi magnfico. Nesse jantar oferecido pelo Ministro do Bem-Estar,
estvamos o embaixador brasileiro, sua senhora, eu, Alex, o
Ministro e mais alguns representantes da
associao. O banquete com vinte pratos diferentes, era uma comida
bastante estranha para mim. Desde que havia chegado no havia
conseguido comer, a no ser alguma
coisa no restaurante internacional do hotel. O que eu mais gostava
eram as mas e os camares. A comida tinha
um sabor estranho e naquele banquete Alex me avisava: "Coma porque
foi o Ministro que serviu voc". Era o pato laqueado de Pequim.
No gostei do pato mas comi.

O assunto sobre o qual recebi mais perguntas, foi educao e
reabilitao dos portadores de viso subnormal. No perodo ainda
se fazia muito pouco na China. As escolas
e as fbricas no diferiam demasiado. Os meios que as escolas
tinham eram muito parcos. Havia escolas em que as crianas se
sentavam no cho, sobre pequenas almofadas,
noutras havia j mquinas braille e equipamentos. Mas de qualquer
maneira, havia um trabalho com crianas e adultos cegos. Fiquei
contente de poder falar em todas
as palestras e em todos os lugares, sobre o que eles realmente
desejavam ouvir que era viso subnormal e como iniciar um trabalho
nessa rea. Visitamos ainda associaes
em Tienjin, Xangai e Loyang. Nesta ltima havia uma escola de
excelente padro para a formao de massagistas e acupunturistas
cegos. Nossos anfitries nos deram a oportunidade
de conhecer as grandes montanhas com budas esculpidos em todos os
tamanhos, desde microscpicos at tamanhos de grandes prdios. 
impossvel esquecer a sensao que
se tem subindo as muralhas da China e entrar na Cidade Proibida.

O embaixador Zappa ofereceu, na embaixada do Brasil, um coquetel
para o qual foram convidadas inmeras autoridades e os membros das
associaes chinesas. Ao trmino
de nossa visita tivemos uma cerimnia de despedida, recebi vrios
presentes e uma tapearia feita de varetas e sobre estas varetas
um bordado que mais parece uma estampa,
bem no estilo chins, como recordao

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dessa viagem e da amizade que estabelecemos com as organizaes
chinesas. Estava feito tambm o relacionamento com o Conselho
Mundial.

Em 1984, a China participou da Assemblia Geral do Conselho
Mundial para o Bem-Estar dos Cegos e desde ento  membro da Unio
Mundial de Cegos, como passou a chamar-se
o Conselho Mundial a partir dessa data.

MISSO DIFCIL - MISSO CUMPRIDA

Os ltimos meses da minha presidncia no Conselho Mundial, em
1983/1984, foram preenchidos com congressos e seminrios.

Foi uma poca muito rica em reunies. As duas organizaes
internacionais, o Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos e a
Federao Internacional de Cegos encontraram-se
vrias vezes em vrias partes do mundo.

Em Cingapura a Conferncia Asitica reuniu as duas organizaes
sob o tema "Progresso atravs de Esforos Conjuntos". Antes de
Cingapura, porm, houve um evento
importante no Oriente Mdio, em Bahrein. Foi a III Conferncia de
Cego-Surdos, do Comit de Cego-Surdos do Conselho. Abdullah M-Al
Ghanim procurou sempre dar recursos
para esse Comit. Inclusive em 1984, fui com ele ao Palcio
conversar com o Prncipe Talal Bin, que nessa oportunidade doou 60
mil dlares para a continuidade desse Comit.

J era dezembro de 1983 quando fomos  Viena para uma reunio do
Conselho Mundial das Organizaes Interessadas nos Deficientes -
CWOIH.  um rgo que rene todas organizaes de servios para
pessoas deficientes e continua existindo com eficincia.

Naquela poca Anders Amor era o secretrio geral do Conselho
Mundial e seu representante no CWOIH. Genebra, Cingapura e Paris
foram palco de inmeras reunies das quais tive de participar.

Olenka deu-se ao luxo de contar: nos cinco anos de presidncia (de
1979 a 1984), fiz 76 viagens a pases diferentes.

Em 1984 o meu mandato estava por terminar. Bons Zimim, Presidente
da Associao Russa de Cegos, fez questo de nos fazer um convite
para uma visita a vrias partes
da Unio Sovitica que no conhecamos.

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Antes porm, participei de uma reunio na Repblica Democrtica
Alem, Alemanha Comunista. Foi um congresso muito importante, no
que se relaciona a materiais para
uso de cegos. A conferncia se chamou Conferncia Internacional
sobre o Material em Relevo - International Conference on Embos sed
Material. Como sempre, Helmut
Pielasch, membro do conselho, representante da Repblica
Democrtica Alem no Conselho Mundial e membro do partido
comunista, era de fato a figura principal para o trabalho com os
cegos naquela poca, na Repblica Democrtica Alem.

O congresso foi muito tcnico, alm de bem organizado. Os tcnicos
que participaram conheciam bastante o sistema em relevo. Pudemos
observar muitos modelos de desenhos
que eram feitos na Sucia e nos outros pases escandinavos para a
ilustrao de livros para as crianas.

Algumas novidades surgiram desse congresso e eu recebi de Helmut
Pielasch uma mini-mquina braille.  uma mquina braille bem
pequenininha, que est sempre sobre a
minha mesa na Fundao. Essa mquina foi feita por um tcnico
alemo e eu a recebi como um presente da Associao de Cegos da
Repblica Democrtica Alem.

Antnio Carlos e Lucinha Monteiro da Silva, Alex e eu fomos depois
para a nossa visita  Unio Sovitica. Como aconteceu outras
vezes, sempre havia uma comitiva
para nos receber. Procuravam nos mostrar com muito entusiasmo tudo
o que se fazia na Unio Sovitica e nessa visita em 1984, havia j
o princpio de uma Rssia diferente:
calas jeans, menos formalidades e muito mais abertura nas
conversas e mesmo nas perguntas que faziam sobre o Brasil. Digo
Rssia porque comeamos a visita em Moscou.
Mostraram-nos o prottipo de mquinas braille e de outros
equipamentos que os tcnicos russos estavam tentando implementar.

Fomos de avio de Moscou para Tashkent e Samarkand que ficam no
Ubequisto. Viajamos vrias horas. A nossa entrada no avio foi
triunfal, porque o avio estava quase
lotado. Quando entramos, a nossa guia, que era uma pessoa de
grande prestgio e autoridade, pediu os lugares melhores para ns
quatro. No sei o que ela explicou, mas as pessoas se levantaram e
foram sentar-se em outro lugar.

Tivemos muitas reunies. O estilo das reunies, a maneira de
receber me lembrava um pouco as reunies da China. Logo que
entrvamos nas organizaes, ramos convidados
para sentar em mesas longas, sobre as quais havia uma toalha
simples e pratos de amndoas deliciosssimas, e os damascos secos
mais suculentos que j comi em minha vida.

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Fomos depois para Leningrado, hoje, novamente So Petesburgo.
Leningrado era uma ode a Lenin e sua obra. Visitei o museu de
Lenin, alis em outra oportunidade eu
havia ficado muito impressionada quando fui visitar, em Moscou, o
esquife de Lenin, todo de vidro, onde no se podia falar e o povo
passava em filas contnuas para
prestar homenagem ao seu ento, grande dolo. Lenin estava por
toda a parte. Estivemos numa organizao de cegos onde havia um
museu com maquetes de prdios e monumentos
pblicos, muito bem feitos. Tivemos a oportunidade de ver um museu
sobre Lenin. Durante estas visitas muitas vezes havia cantoria e
tivemos que cantar msicas brasileiras.
Desta vez conheci muito o lado romntico dos russos, atravs das
canes e da msica que os intrpretes traduziam para o portugus.

No Conselho Mundial no havia ideologias polticas que nos
separassem. Nossa finalidade era fazer o possvel para melhorar a
qualidade de vida das
pessoas cegas e trabalhar para a educao das crianas.

Visitamos um dia inteiro o museu Hermitage. Os pilares das
lareiras antigas em lapis-lazuli, as antiguidades, a descrio dos
quadros, a sala onde estavam reunidas
as grandes autoridades e ministros russos, que acabaram sendo
mortos quando Lenin invadiu Leningrado e o comunismo se instalou
na Rssia.
O Hermitage foi inesquecvel. Depois de todos os dias trabalhando,
nossos anfitries nos ofereceram muitos presentes. Eu trouxe uma
mala cheia de quadros com paisagens
dos diferentes lugares que visitamos, um saco enorme de damas cos
e de outras frutas que nos deram em Tashkent. Ns no sabamos
como carregar tudo aquilo no avio.
Ofereceram-nos pes tpicos fabricados em casa, muito
caracterstico e ns tivemos que carregar o po. Uma rosca enorme
e que andou conosco toda a viagem, at a volta para o Brasil.

Graas a Deus ns mostramos que tudo aquilo era presente. Havia
presente de todo o jeito. Voltamos para o Brasil via Roma.

So Paulo foi palco de eventos como o Seminrio "Progresso atravs
do Esforo Conjunto", em 1984, que foi patrocinado pelo Conselho
Mundial e pela Associao SHIA
dos pases escandinavos e organizado pela ento Fundao para o
Livro do Cego no Brasil . Foi mais um seminrio preparatrio para
atingir aos objetivos de uma estreita
colaborao entre as duas organizaes internacionais: Conselho
Mundial e Federao Mundial de Cegos, um caminho para a unificao
desses rgos.

A Fundao se encarregou de toda a organizao, vieram
representantes de toda a Amrica Latina e foi um seminrio onde se
preparou, tambm, um
grande plano de ao para ser desenvolvido na Amrica Latina.

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Foi um importante trabalho realizado pelo Comit Latino-Americano
do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos. A Fundao sempre
tomou parte integrante na organizao
dos congressos realizados no Brasil, providenciou todos os
recursos locais e esses congressos levaram meses para sua
preparao. Sempre havia dificuldade e sempre
h dificuldades nessas horas para conseguir- se recursos do
governo, mas era muito importante trazer os estrangeiros para que
nos conhecessem e essa foi uma das
grandes ocasies que tivemos, foi muito bem-sucedida.

Finalmente tivemos o bicentenrio da Fundao da I Escola para
Cegos em Paris, La Institucion Nacional pour Jeunes Aveugles - A
Instituio Nacional para os Jovens
Cegos, com toda celebrao para Valentim Hay. Eu fui a Paris,
fiquei em casa de Alexandre e Maria. Participei do congresso na
qualidade de Presidente do Conselho
Mundial para o Bem-Estar dos Cegos e fiz a apresentao na
instalao da grande promoo. Estava nessa cerimnia o Ministro
da Educao Pierre Berregovoy.

Recebi pela segunda vez a medalha da Cidade de Paris, o Echelon
Vermeil. A entrega foi na Prefeitura de Paris. Recebi nessa
oportunidade uma condecorao da Federao
dos Cegos da Frana "Cravate de Commandeur d'Ordre da Mrite
Typhlologique le Franais" 25/06/94 - La Federation des Aveugles
de France.  um cordo com uma cruz lindssima. Fiquei muito
orgulhosa com essa condecorao, pois a Federao de Cegos da
Frana  muito cuidadosa na seleo dos homenageados.

Foi uma poca muito difcil. Uma vez programada a nossa Assemblia
Geral de 1984, depois de cinco anos, eu terminaria o mandato de
Presidente do Conselho Mundial
para o Bem-Estar dos Cegos. A convite da Arbia Saudita, ficou
determinado que a prxima Assemblia Geral seria realizada em Riad
de 18 a 31/10/1984.

No meio de toda essa preparao Denise, minha filha, ficou
gravemente enferma e passou quinze dias no Hospital Albert
Einstein, com perigo de vida. Foram quinze
dias nos quais eu no pude, nem por sonho, sair de perto dela. Mas
Nossa Senhora das Graas me ajudou a resolver o problema. Denise
saiu s e salva de tudo o que houve.

O congresso que sempre se realiza na poca das Assemblias do
Conselho Mundial, precedia a Assemblia Geral, que era a parte
administrativa da conduo do Conselho
Mundial. Nesse ano o tema do congresso foi com Responsabilidades".

Durante os meus cinco anos, adotei a poltica administrativa na
qual acredito. Acho que para administrar um rgo, seja ele grande
ou pequeno, em

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primeiro lugar  preciso conhecer toda a administrao em si,
todas as atividades que devem ser desenvolvidas para se atingir o
objetivo fundamental da organizao.
Analisar a estratgia, isto , os mtodos e as atividades em
desenvolvimento. Verificar quais devem ser implementadas.
Administrar no  impor uma nova conduta,
no  modificar tudo o que foi feito.  primeiro e acima de tudo
utilizar o que existe de bom e que precisa ser implementado.
Nenhum presidente, nenhum grande administrador
seja ele do governo, ou da sociedade civil, precisa impor novos
rumos, modificar os mtodos em andamento, trans formar todas as
estratgias sem conhecer primeiro
o que j existe e que funciona, e o que deve ser implementado.

A marca de um administrador reconhece-se pelo que ele  capaz de
realizar. No importa que outros tenham iniciado, o que importa 
que a estratgia seja desenvolvida
sem causar grandes comoes internas, aproveitando tudo o que j
tenha sido feito. O administrador deixa a sua marca quando,
baseado na anlise e na implementao
do que existe, consegue inovar com a sua capacidade, com a sua
competncia e com a sua prpria forma de agir.

Isso  certo, isso acontece sempre. Enganam-se aqueles que ao
iniciar uma administrao pensam apenas na inovao, na
modificao, nas mudanas de tudo o que j
foi feito. Progredir, evoluir cientificamente  aproveitar
primeiro o que existe, porque s assim  que se inova em benefcio
da prpria organizao.

Para minha alegria conclu, com sucesso, minha gesto obtendo um
plano de ao com que sonhava e no qual eu sempre acreditei.  a
forma de que a diretoria que sucede
a outra tenha que se reparar queles princpios e s estratgias
da diretoria que termina o seu mandato, a fim de que no fiquem
abando nadas as atividades que
devem ser implementadas e no exclusivamente substitudas.

UNIFICAO

O cinco anos da minha gesto foram realmente muito ricos em
experincias, porque foram anos de preparao para uma grande
transformao: a unificao das duas organizaes
internacionais que lutavam e trabalhavam no mesmo campo, mas cujas
foras estavam divididas.

O Conselho Mundial tinha uma filosofia marcadamente
integracionista no que se refere  conduo de servios e de
trabalho no campo da cegueira.

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Isto no quer dizer que a grande maioria dos membros da Federao
Internacional fosse alheia  integrao, muito pelo contrrio.

A Federao tambm desejava essa integrao, mas pressionava
fortemente para que as deliberaes fossem tomadas s por pessoas
cegas. Essa atitude foi uma caracterstica
histrica dos anos 80. Existia desde a dcada de 1960, mas
manifestou-se com muito mais fora nos anos 80 e no foi apenas
nas organizaes de cegos, mas em todas
as organizaes dos vrios tipos de deficincia. Assim
intensificou-se o trabalho para que o Ano Internacional da Pessoa
Deficiente da ONU imprimisse essa filosofia
s recomendaes desse ano. Durante todo o tempo, esse movimento
claro e definido, certamente foi fruto da segregao em que viviam
os cegos nos pases subdesenvolvidos
e dos preconceitos que interagiram durante muito tempo, mesmo nos
pases industrializados, considerados mais desenvolvidos.

A observao dos pases subdesenvolvidos e o abandono em que
ficavam as pessoas, as crianas, os adolescentes, adultos cegos e
portadores de outras deficincias
foi um dos fatores que geraram os movimentos e as reivindicaes
para que as pessoas deficientes pudessem decidir sobre os seus
destinos. Os prprios deficientes
movimentaram-se para ter o direito de opinar sobre o tipo de
servios que a sociedade tinha de criar para que as pessoas
deficientes pudessem participar da vida
educacional, cultural e poltica da sociedade. Nesse tempo vivemos
intensamente a transio do paternalismo para a auto-afirmao,
conseqncia das transformaes
porque passaram e passam as organizaes do nosso tempo.

Foi vlido. Na minha peregrinao de cinco anos, visitando em
quase todas as regies do mundo as organizaes, escolas,
fbricas, instituies de todos os tipos,
ricas, pobres, grandes, pequenas, observei esses fatos que me
ajudaram a trabalhar com as duas correntes, desejando sempre que
ambas chegassem a um denominador comum.

No tive nenhuma atitude para tolher quaisquer dos movimentos, mas
sim ajud-los a se integrar. Foi esse o meu pensamento, a minha
conduta, fiel ao prprio tema do congresso onde comecei o meu
mandato; Cooperation Anturpiu 1979.

H pouco tempo, eu dizia que  impressionante como as nossas
atitudes e at as nossas palavras, tm repercusso no futuro. Em
1994, numa reunio em Montevideo para
planejamento da grande conferncia da Unio Latino-Americana de
Cegos, em Cuba, em 1996, estvamos estudando o programa cientfico
do congresso. O tema do congresso
: Cooperao e Unidade. Passamos a discutir quais os convidados
para falar na abertura.

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Sugeri autoridades que falassem sobre o assunto com amplitude, o
que me pareceu mais adequado ao congresso. A comisso toda, porm,
resolveu que eu deveria falar
sobre cooperao e Enrique Elissaldi sobre unidade. Segundo eles,
a minha experincia e a de Elissaldi nos credenciava para faz-lo.
Nos trmites para se atingir
a unificao dos rgos internacionais, assim como das
organizaes latino-americanas, foi necessria muita cooperao
entre grupos com tendncias diversas. Como
presidente do Conselho Mundial, participei de toda a evoluo dos
trabalhos das organizaes latino-americanas, cabendo-me depois
presidir a Assemblia de Mar Del
Plata que criou a Unio Latino-Americana de Cegos (ULAC), em 1985.
Enrique Elissaldi j presidiu por dois perodos a ULAC (1985-88 e
1992-96) e foi um dos batalhadores para que esta organizao
viesse a concretizar-se em Mar Del Plata.

 bem verdade que na seo final, a transformao e a fuso dos
dois rgos internacionais mudou muito a prpria estrutura da nova
organizao que passou a chamar-se Unio Mundial de Cegos.

Os presidentes das duas organizaes: eu, do Conselho Mundial e
Franz Sonntag, da Federao Internacional de Cegos, passamos ambos
a ser "past president" da nova
organizao. Assumiu o presidente eleito, Abdulah M-Al-Ghafim. A
diretoria e a comisso executiva tinham membros das duas
organizaes que se fundiram numa s.

A Unio Mundial de Cegos, criada em Riad, tem em sua constituio
parte da prpria constituio do Conselho Mundial, com as
inovaes pleiteadas pela Federao internacional
de Cegos. Uma delas, com a qual sempre concordei, prev que as
delegaes nacionais sejam constitudas por pelo menos cinqenta
por cento de organizaes de cegos.

Dentro da nossa rea, uma organizao de cegos  uma organizao
cujo corpo deliberativo  constitudo de pessoas cegas. Na
realidade essas organizaes so aquelas
organizaes polticas que fazem as reivindicaes, que comearam
a surgir nas dcadas de 1960 e 1970 e que fazem presso sobre o
governo, sobre o poder legislativo
e a comunidade em geral, para obteno de melhores condies de
vida para as pessoas cegas.

Essa foi talvez a maior modificao que houve no estatuto e
realmente refletiu todo um pensamento, todas as correntes
reivindicatrias de uma poca em que essas
reivindicaes ocupavam o palco e os fruns de todas as reunies
em congressos e assemblias que se fizeram no mundo, no piano
internacional, nacional e local.

Os dois presidentes das duas organizaes que se fundiram
tornaram-se membros honorrios da nova organizao, a Unio
Mundial de Cegos. Teramos

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mais quatro anos na qualidade de "past president" para dar a nossa
colaborao, sempre garantindo a continuidade do trabalho que
havia sido iniciado.

Minha gesto teve caractersticas muito diferentes das outras.
Alm de realizar reunies de diretoria mais freqentes, houve um
trabalho muito grande de entrosamento com a diretoria da Federao
Internacional de Cegos.

Criou-se uma comisso composta por membros das duas organizaes,
para estudar a melhor forma de se elaborar uma constituio que
satisfizesse aos dois lados, de acordo com os pontos de vista, a
fim de diminuir as diferenas e permitir uma fuso.

Foi uma gesto, posso dizer, bem difcil. Alm disso, meu mandato
foi caracterizado por minha peregrinao. Visitei 27 pases, com
nfase em locais que conheciam
menos o Conselho Mundial, para mostrar o que era a nossa
organizao. Fazia em todo o canto palestras sobre o assunto.
Isso, independente das minhas viagens para simpsios, reunies em
geral e congressos dos comits regionais. Foram cinco anos de um
movimento muito grande, que exigia muito da diretoria.

Nesse intervalo ns perdemos um vice-presidente, uma pessoa muito
querida de todos ns, Hideyuki Hiwahashi. Teve uma sria depresso
e veio a falecer.

Muito importante para qualquer gesto era e , nesses rgos
internacionais, conseguir mais pases membros. Eu me prontifiquei
a esclarecer por toda parte, em minhas visitas e palestras, o que
era o Conselho Mundial, a utilidade desse rgo internacional e
sei que consegui filiaes importantes.

A meu ver, porm, a Conveno 159 da OIT sobre reabilitao,
treinamento e profissionalizao para pessoas deficientes e a
Recomendao 168 representaram uma importante
realizao durante o tempo em que eu fui presidente. Tive a grande
felicidade de contar com excelentes colaboradores, todos membros
da diretoria eleitos para o qinqnio
de 1979 a 1984 e os representantes de reas geogrficas que
compunham toda a Comisso Executiva. Todos imbudos do mesmo
esprito de colaborao e os problemas foram
resolvidos porque a direto ria era forte e equilibrada nos seus
propsitos. Formavam todos um grupo harmonioso e capaz de
compreender e buscar solues para a maximizao
dos ideais de cooperao e unificao que constitua a difcil
tarefa do engrandecimento das duas organizaes internacionais.

Sempre contei com essa diretoria e atravs do zelo e da sabedoria
com que os assuntos eram tratados, tornaram possvel e
satisfatria a minha intrincada misso.

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Nas reunies e assemblias gerais o primeiro relatrio  o
relatrio do presidente e no fim do mandato  um relatrio
histrico. O meu relatrio escrito foi bastante
completo. Eu o apresentei sem ler, mas acho que enfoquei os
principais aspectos de todo o imenso trabalho que foi realizado.

Iniciei muito emocionada, tremendo, e lembro-me que durante todo o
tempo, a minha emoo foi de tal maneira crescendo, que eu fiquei
com medo de no poder continuar
a falar em p. Quando terminei e me sentei e soube que eu estava
sendo aplaudida de p, uma coisa rara, rarssima, nas reunies do
Conselho Mundial, eu que j estava
com a voz embargada, desatei a chorar. No houve jeito.

Fui sincera, me emocionei e sabia que terminava naquele momento
uma fase muito importante dos rgos mundiais e que foi a conduo
honestamente feita desse perodo,
que contribuiu para o nascimento de um organismo que reunia
correntes opostas. Organismo esse que se preparava para
ultrapassar o fim do sculo e do milnio. A Unio
Mundial de Cegos - em ingls World Blind Union - WBU.

DEPOIS DA PRESIDNCIA

Antes de ser presidente do Mundial, eu havia comeado a estudar
alemo. J estava bastante adiantada quando chegou a minha
eleio.

Tinha instalado a clnica de viso subnormal na Beneficncia
Portuguesa, era uma empresa difcil, mas necessria. Tivemos que
integr-la na Fundao, eu
no teria condies de me ocupar de mais uma empresa.

Ao terminar o meu mandato, pensei que iria ficar muito folgada e
por isso resolvi fazer o que eu havia prometido a mim mesma, uma
coisa que eu pessoalmente desejava
de todo o corao: estudar rgo e tocar para mim mesma. Pedro
Gere, o irmo de alma de Alex, estava estudando rgo. Pedi a
Pedro que me indicasse uma professora.
Foi Dayse Aguiar a minha primeira professora de rgo. Ela toca
divinamente bem,  muito entusiasmada e, alm de tudo, tem muita
facilidade para transmitir.

Depois tive outros professores. Eu no queria copiar msica em
braille, embora conhecesse a musicografia Braille. Eu queria uma
coisa leve, alguma coisa que fosse fcil de poder aprender. No ia
me tornar uma concertista e queria tocar s para mim.

pag:263

Felizmente Dayse indicou-me uma professora excepcional, Regina
Munhoz, uma grande amiga. Regina me entusiasmou muito, fez-me
evoluir, foi aos poucos me animando,
at tornar-me independente e tirar de ouvido, sozinha, as msicas.

Para que pudesse estudar rgo, o processo era o seguinte: eu
tomava o gravador, a professora ditava a mo direita, depois a mo
esquerda e eu decorava as msicas.
Claro que no princpio eram arranjos bem fceis. Toquei muitos
sambas, estudei valsas de Chopin, trechos do concerto de
Tchaikowsky e at uma sonata de Bach.

 um hobby para mim,  uma distrao,  uma forma de relaxamento
muito boa e que me d uma satisfao interior muito grande.

TATU

NO ano de 1984 Alex descobriu um canto neste enorme estado de So
Paulo, cuja estrada fica pertssimo de nossa casa e que se tornou
o nosso recanto predileto, Tatu.

Tatu  uma cidade encantadora, pequena com todo o encanto de
cidade do interior. Tem casas antigas, prdios que so tombados, o
largo da matriz, o coreto, o lugar onde descansavam os cavalos, o
mercado municipal e a praa.

Um dia, quando fomos procurar um telefone para falar com So
Paulo, Alex deparou-se com um emprio  moda antiga, chamado Casa
Vanni. Fui atendida por um senhor
muito simptico, Nilzo Vanni. Duas semanas depois voltamos a Tatu
e fomos fazer compras. Fomos recebido desta vez por Elzie Vanni.
Foi assim que nos conhecemos
e comeou uma duradoura amizade. Ao nos encontrarmos, Elzie me
perguntou porque eu havia demorado para voltar a Tatu. Expliquei-
lhe que tinha ido a Braslia para
participar de um encontro sobre Educao Especial. "O que 
educao especial?" perguntou-me. Aproveitei a oportunidade para
explicar todo o trabalho sobre educao
de cegos e as atividades da Fundao. Elzie acrescentou que eu
deveria conhecer a vereadora Vera S, professora na Faculdade de
Pedagogia e profundamente envolvida
em programas de educao. Nesse momento entra no emprio Dr.
Nelson Marcondes do Amaral que eu havia conhecido h muitos anos
como Secretrio Municipal de Educao
em So Paulo. A essa altura, era presidente da APAE de Tatu.

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Comeamos a pensar num trabalho para Tatu e eu sugeri logo uma
campanha de preveno  cegueira. Acabei indo falar com Quevedo,
que era Prefeito naquela poca,
para que ele contratasse um oftalmologista. O Servio de Sade de
Tatu entrou em contato com Oswaldo Monteiro de Barros, Diretor do
Centro Colaborador de Preveno da Cegueira da Organizao Mundial
de Sade. A convite do Departamento de Sade de Tatu, Oswaldo e
eu fizemos palestras sobre o assunto.

Mais tarde, fiz tambm uma palestra no Rotary e iniciou-se um
trabalho para que Tatu tivesse um programa de preveno da
cegueira.

H dois anos resolveram fazer-me uma surpresa. A Cmara aprovou e
me concedeu, por um projeto de lei de Vera S, o ttulo de cidad
tatuiana. Foi uma festa linda na Cmara, com vereadores,
presidente da cmara, Prefeito e a orquestra do conservatrio.

No meu stio de Tatu, "Stio Nossa Senhora das Graas", conto com
uma auxiliar, Cida, tima pessoa, esposa do Z, nosso caseiro.
Quase no cozinhava, mas com as instrues da "cozinheira
intelectual" que eu sou, tornou-se tima no fogo.

Em diversas ocasies descrevi um pouco as minhas auxiliares porque
elas fazem parte da minha vida diria. Foram preciosas em muitas
circunstncias para que eu pudesse realizar os meus trabalho.

CASAMENTO DE KIKO E SEGUNDA LEVA DE NETOS

Nessa poca Kiko j estava trabalhando com comrcio de peas para
computador e era independente. Terminou a Faculdade de Jornalismo,
mas dedicou-se ao comrcio.

A preparao do casamento dos filhos  uma poca realmente alegre.

Kiko e Marta casaram-se depois de alguns anos de namoro. Marta,
uma moa italiana, era bem jovenzinha quando se casaram. O
casamento religioso foi na igreja da Cruz
Torta. Os pais de Marta so italianos, moravam em So Paulo h
anos, mas as meninas nasceram na Itlia.

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Minha roupa, dessa vez, foi um vestido azul hortnsia, de uma
fazenda chinesa. Era um crepe muito diferente, uma fazenda muito
na moda, que permitia uma saia inteirinha
de minsculas pregas-macho. Sobre o vestido, uma tnica toda
bordada de missangas no mesmo tom. Todos me disseram que era muito
bonito. E o costureiro, como sempre,
Roberto Issa, o costureiro oficial dos ltimos casamentos dos meus
filhos, tambm ficou satisfeito com a sua obra.

Para os homens no faltou a corrida atrs de fraques e cravos.
Planejar como esperar no altar, discusso com os padrinhos, os
vestidos do altar da cor que a noiva preferia.
Os irmos foram padrinhos do Kiko, alm de um grande amigo dele,
Francisco Escobar, com quem ele trabalhava na poca, e sua esposa,
e outro casal grande amigo do Alex, Celso Feitosa e Eliana.

Os pais de Marta ofereceram um jantar no Buffet Colonial e os
noivos foram, depois, para a Itlia.

Quando todos se casaram, Alexandre j havia voltado da Frana e
morou conosco at se estabelecer outra vez com consultrio e
iniciar o laboratrio de imunologia na
Unicamp. Esteve conosco dois anos e oito meses. Quando a mudana
de Alexandre saiu, s 9h00 da manh, Denise entrou com a mudana
ao meio-dia, O apartamento em que
ela morava na Bandeira Paulista havia sido pedido pelo
proprietrio. Ricardinho, o primeiro da segunda leva de netos,
filho de Denise e Ricardo, nasceu no dia 3 de maio de 1987.

Posteriormente, Maria, minha nora, e Denise ficaram grvidas ao
mesmo tempo. As meninas nasceram, Fernanda, filha de Denise e
Ricardo, dia 6 de outubro e Marina,
filha de Alexandre e Maria, dia 24 de outubro de 1989.
Experimentei toda a confuso de fraldas outra vez, de enfermeiras,
falta de leite, mudana de leite, embora
houvesse Luzia para cuidar da Denise e dos bebs. Realmente eu
estava destinada a reviver tudo. Ricardinho e Fernanda foram
criados em minha casa. Marininha nasceu
um pouco pequenininha demais. Foi um susto, mas o neonatologista
no Einstein, no momento que viu a menina disse: "Ela 
pequenininha mas vocs vo ver quando comear
o crescimento, ela vai at ultrapassar os outros". Dito e feito!
Marina  a mais alta das trs meninas.  linda, mas deu muito
trabalho. As irms, Ines e Marta escolheram
o nome. nes e Cristiano so os padrinhos de Marina. Dorininha 
madrinha de Ricardinho.

Trs meses e meio depois, dia 6 de fevereiro de 1990, Dorininha d
a luz a uma menina, Renata. Minha cunhada Dollie que era madrinha
de Dorininha, queria imensamente que
Dorininha tivesse um filho e principalmente uma filha.
Infelizmente ela no pode conhecer Renata, pois faleceu exatamente
um ms antes, mas ela soube que seria uma menina.
Acho que ela morreu contente e de onde estiver sempre proteger
essa menina que desejou tanto para a sua afilhada.

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Completvamos assim nove netos, com predominncia do matriarcado:
6 mulheres e 3 homens. Para mim no existe nada mais encantador do
que uma gostosa risada, a gargalhada de uma criana. Fico
imaginando, pelo som da gargalhada, o quanto deve ser radioso o
rostinho, o brilho no olhar, a vivacidade transparecendo at na
pele do rosto de uma criana. Uma criana no precisa ser bonita,
ela s precisa ser criana pura e bela.

Atualmente estou na reprise das perguntas: "Vov, voc  cega?
Porque voc ficou assim?" Conto a histria, mas tenho que repetir.

Esse grupinho tambm j aprendeu a colocar os objetos em minha mo
e me mostrar suas roupas, seus penteados, seus sapatos - de vez em
quando passo a mo na sola, no faz mal, pelo menos fico sabendo o
que esto calando.

Quando tenho tempo gosto de sentar com eles e dar algumas noes
de religio. Comprei livrinhos para eles colorirem A Vida de Jesus
e conto um pouco as histrias
de Jesus. So incrveis as perguntas e s vezes eu fico
atrapalhada para responder, mas vale a pena.

O casamento de Kiko durou relativamente pouco, mas foi um divrcio
amigvel e tranqilo. Eles resolveram que no tinham condies de
continuar juntos e ns pais s temos de aceitar. Kiko, porm, no
voltou para casa, continuou morando sozinho.

Dizem alguns pessimistas que ns, as pessoas da minha gerao,
nasce mos numa poca em que s os pais tinham razo e educamos
nossos filhos numa poca em que s os filhos tm razo. Eu no sou
to pessimista assim.

AGRADVEIS RECORDAES

Fiquei muito feliz no ano de 1987, pois recebi em Braslia, do
Ministrio da Educao e Cultura, a Ordem do Mrito Educativo.

Depois do trmino de meu mandato na atual Unio Mundial de Cegos,
ainda como past president, continuei ligada a esta organizao, o
que fao at hoje. Dediquei-me
bastante  nossa rea geogrfica, a Unio Latino-Americana de
Cegos, cuja Assemblia de criao eu tive a grande satisfao de
presidir em Mar del Plata na Argentina,
em 1985. Foi uma coordenao dura, difcil, complicada, mas muito
estimulante. Fui eleita scia honorria dessa organizao.

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Tenho estado sempre ligada  programao dos congressos, sendo que
um deles realizou-se no Brasil, em So Paulo, no Hotel Holliday
Inn, em 24/4/1988. A disputa para
a presidncia da ULAC, no congresso e assemblia geral realizados
aqui em So Paulo, foi muito acirrada. Os nimos estavam muito
exaltados, mas Adilson Ventura, brasileiro, foi eleito para o
perodo de 1988 a 1992.

Continuamos todos amigos, os mesmos amigos daquele congresso, dos
outros que se sucederam, continuamos discutindo, pleiteando,
lutando, pois temos objetivos comuns.
Tanto isso  verdade que, apesar de todas as complicaes, recebi
muito emocionada, num congresso posterior no Chile, em Concepcin,
em 1992, uma belssima medalha de ouro que  concedida pela Unio
Latino-Americana de Cegos aos grandes batalhadores no campo da
cegueira - Condecorao Jorge Taramona Miranda.

Tenho a certeza de que a medalha foi o resultado da apreciao de
muitos dos companheiros de trabalho de outros pases da Amrica
Latina que me concederam esta grande
honra. Recebi tambm, em Concepcin, com grande surpresa, nesse
mesmo congresso do Chile, a Outorga del Seio "Por la
rehabiitacion", da Associao de Cegos de
Cuba. Certa vez fui encarregada pela diretoria da ULAC para
preparar um trabalho sobre barreiras alfandegrias. Fiz ento um
estudo sobre barreiras que impedem a
circulao de equipamentos para cegos em nossa regio. Esse
trabalho foi traduzido para o espanhol e publicado. Recebi uma
carta da OIT com congratulaes, pedindo-me
que no parasse as minhas investigaes e prosseguisse no assunto.
Fui pela primeira vez a Cuba para participar de uma reunio como
membro da Comisso Executiva
da ULAC. Pude conhecer os servios realizados nesse pas. Muitos
eram praticamente novos: centro de reabilitao, construdo com o
patrocnio da Noruega, mquinas
braille doadas por pases europeus, novos equipamentos para a
produo do braille e um esforo muito grande dos membros da
Associao Cubana de Cegos Jos Segundo
Monteagudo, fez parte da Comisso de Preveno da Cegueira que eu
coordenei nesse perodo. Tique  professor de Filosofia na
Universidade, fala muito bem ingls, estudou nos EUA; Amado
Gonzalez Landa  um militar e est na presidncia da Associao.

Em relao ao povo cubano, senti muitas das restries que eu j
havia visto em outros pases de regime comunista.  um povo
corajoso que procura adaptar-se s condies
bastante difceis que seu pas atravessa. Os profissionais da
nossa esfera de trabalho so interessados, desejosos de conhecer,
de poder usufruir de todos os benefcios, dos progressos
cientficos e torn-los acessveis s pessoas cegas de seu pas.

So conscientes de seu trabalho. So tambm, hospedeiros, amveis
e generosos.

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Nossa volta ao Brasil teve algumas peripcias. Embarcamos nossa
bagagem e ficamos horas esperando a Air Panam. Foi uma viagem
rpida, praticamente uma hora entre
Cuba e Panam. Quando chegamos ao aeroporto do Panam, soubemos
que o avio da Varig para o Brasil havia dado sinal de partida.
Corremos com as bagagens e insistimos.
O avio estava na pista, mas lamentavelmente no nos deixaram
embarcar porque estava lotado. Como a Air Panam demorou, perdemos
nossa conexo. A verdade  que
o nosso lugar havia sido confirmado, segundo as informaes, em
Cuba, com 72 horas antecipadas e certamente as companhias sabiam
do atraso da Air Panam, mas de nada adiantou.

Enfim, foi um grande problema. Havia vrios brasileiros e outros
latino-americanos que embarcavam para outros pases da Amrica
Latina. Ns fizemos um enorme percurso
dentro do aeroporto, amos e voltvamos. Procurvamos os vos
possveis. No fim, eu fui falar com a gerncia da Air Panam,
porque ns s teramos vo da a dois dias para o Brasil.

Ofereceram-nos para seguirmos via Bolvia, por Santa Cruz de La
Sierra. amos ter de ir ao Chile para chegar depois a So Paulo.
Achamos que para ficar nesses aeroportos
pela Amrica do Sul, talvez fosse melhor esperar l, desde que a
Air Panam nos desse um hotel. Foi o que aconteceu, alis um hotel
muito simptico, muito agradvel,
com piscina e quarto muito bom. Mas sempre acontece alguma coisa.

Estourou no Panam um tipo de golpe de estado, uma revoluo. De
manh cedo acordamos e a rdio americana anunciava um princpio de
revoluo, toque de recolher
e pedia que as pessoas no sassem de casa.

Falamos imediatamente com os membros da ULAC, que moravam no
Panam. Prontificaram-se a nos ajudar em tudo. Pediram que
aguardssemos no local.

Ligamos para o Brasil e conseguimos, por muito favor, lugares para
mim e Olenka no prximo vo da Varig para o Brasil, dentro de dois
dias. Assim ficamos dois dias
no Panam, visitamos as escolas e as organizaes de cegos. A
revoluo foi um pequeno levante.  claro que havia pessoas
armadas na rua 24 horas; houve toque de
recolher, mas pudemos passear um pouco e visitamos o Canal do
Panam, com a abertura e o fechamento das comportas.  quase um
show, presenciado por centenas de turistas.

Uma volta que deveria ser feita em algumas horas, levou quase trs
dias. Isso se passou um ms antes da deposio de Noriega, o ento
Presidente do Panam.

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O FUTURO ME ESTIMULA

No I Congresso da ULAC, no Chile, Cuba foi escolhida para sede do
I Congresso da ULAC, em 1996.

Fui incumbida a fazer a palestra sobre Cooperao. Estou
convencida c que este assunto acabou fazendo parte de mim mesma e
de muito desta vida que eu acabo de rememorar.

Nessas minhas andanas, tive a oportunidade de conhecer trabalhos
muito interessantes na rea de educao, de profissionalizao de
cegos e mesmo de preveno da
cegueira. Estive em monumentos histricos, absorvi muitas coisas
da histria de todos esses povos. Senti a presena dos
colonizadores e esforo de todos os latino-americanos
de lngua castelhana que, como ns brasileiros, tm buscado,
atravs dos esforos de trabalho e da evoluo, conquistar lugar
que a nossa regio merece e j est
tendo e ter de forma preponderante no futuro concerto das naes.

Alm de tudo isso, sei que ainda tenho um futuro e pretendo ainda
fazer muitos tapetes e chegar a tocar divinamente bem, para mim
mesma, o meu querido rgo.

Se eu pretendo ainda participar de organizaes, do planejamento
de congressos, apresentar trabalhos? Sim! Muitos me pedem para
prosseguir. Quem sabe...

O PASSADO E O PRESENTE ASSIM ME ENCORAJAM

Em 1988 voltei duas vezes  Espanha. Primeiro foi atendendo a
convite muito honroso para receber o prmio "Los Once de la ONCE".
Era o cinqentenrio da criao da
ONCE e homenagearam 11 pessoas. Cada um de ns recebeu o prmio de
uma grande autoridade, eu recebi do embaixador do Brasil, Joo
Carlos Pesso Fragoso.

Pela primeira vez, usei culos escuros porque tive um problema no
canto do meu olho esquerdo. Submeti-me a duas cirurgias sucessivas
e desde ento passei a usar culos escuros. O olho perdeu muito da
naturalidade e, por essa

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razo, Alex teve de me dar uns lindos culos franceses e todas as
vezes que viajo, peo como presente culos, porque sei que ele vai
dar o que achar mais bonito.

Realmente hoje no me preocupo muito com a aparncia. No me
incomodo com esse defeito, que no  muito grande. Os meus culos
tm uma correntinha que fica atrs
da orelha, porque os meus filhos dizem: "Tire os culos" e Alex me
diz: "Pe os culos". Ento eu posso satisfazer a todos.

Fui ainda pela segunda vez, em 1988,  Espanha para o Primeiro
Congresso e Assemblia Geral da Unio Mundial de Cegos. Dessa vez
uma das minha noras foi comigo
e o congresso foi magnfico, com praticamente 800 participantes
contando com toda a fidalguia da maneira de receber dos espanhis.

Os anos 80 me reservaram muitas surpresas. Primeiro Kiko resolveu
casar-se de novo. Conheceu uma jovem, desta vez portuguesa. Ele
tem gosto europeu mesmo! Maria Joo Guimares. Seus pais, Clarinha
e Antnio Guimares, muito gentis. O casamento civil foi realizado
e, depois, oferecemos um jantar muito ntimo. Kiko e J estavam
muito felizes. J tenho dois netinhos portugueses que so uns
amores. Andr, ou Ded, que me chama de vov Dod, nasceu em 3 de
maio de 1992 e Tiago, um boneco, nasceu no dia 15 de setembro de
1993.

Moram todos em So Joo do Estoril, numa regio encantadora e Kiko
e J tm uma firma de importao de matria-prima para confeco
de artigos de plstico em Portugal.

Tenho participado freqentemente de reunies, seminrios e
congressos da Associao Brasileira de Educadores de Deficientes
Visuais, que completou seu 25 aniversrio,
onde, junto com outros companheiros de trabalho, fui agraciada com
a medalha de Presidente-Fundadora dessa organizao. Tenho um
orgulho imenso por essa associao.
Os associados so todos professores e tcnicos especializados e
tenho a certeza de que ela sempre continuar evoluindo para fazer
com que a educao dos cegos no Brasil se equipare cada vez mais 
educao que  realizada nos pases industrializados.

A vida tem surpresas e facetas inesperadas, que todavia nos
colocam em contato com pessoas, fatos e coisas com as quais jamais
imaginamos ter um dia qualquer relacionamento.
Foi o que me aconteceu com a Marinha Brasileira. O que eu conhecia
da Marinha, quando era mocinha, era a vinda de alguns navios da
esquadra brasileira a Santos e
a vinda a So Pa de oficiais para bailes no Teatro Municipal.

Um belo dia, anos mais tarde, me deparei com a Sociedade de Amigos
da Marinha (Soamar). Alex recebeu uma medalha dessa Sociedade. Foi
uma grande solenidade e eu sei que ele ficou muito lisonjeado com
a deferncia. Alex sempre gostou do mar. H anos que ele e Pedro
Gereto saam em barcos, discu-

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tiam sobre barcos, sonhavam com barcos e no terrao de nossa casa
da praia, s
se falava de mar e de novos barcos a vela e motores.

Aprendi muito sobre a Marinha Brasileira. Assisti palestras,
conferncias e encontrei pessoas incrveis, que considero hoje
grandes amigas; Suely Canelas  uma delas.

Suely  casada com o Almirante Waldemar Nicolau Canelas que
durante muito tempo foi presidente da Comisso Naval. Funciona em
So Paulo uma Comisso Naval que cuida
de todos os assuntos relacionados com a Marinha. No mesmo local
est a sede da Associao dos Amigos da Marinha composta e
dirigida por civis. Alex foi membro da
diretoria  qual pertence tambm Regina Herst de Oliveira,
advogada brilhante, presidente da Unio Cvica Feminina. Por seu
intermdio tornei-me scia da Associao
das Mulheres de Negcios e Profissionais de So Paulo.

H quatro anos, a diretoria da Soamar resolveu que para haver
maior entrosamento era imprescindvel a criao de um grupo das
senhoras cujos maridos pertenciam  Associao, alm daquelas que
faziam parte da prpria Soamar.

Estabeleceu-se entre todas ns uma ande amizade: Marice Gereto,
Olga Lerrio, Heloisa Figueiredo, Mariliza Ricco Nunes e outras.
So mulheres que participam de movimentos voluntrios, mes de
famlias, e se interessam pelos problemas da comunidade.

Nossas reunies terminaram por formar um clube - O Flotilha Cisne
Branco. Todas as minhas amigas do Cisne Branco, de uma forma ou de
outra, esto hoje ligadas 
Fundao, sendo que algumas como Olga, j assumiram cargos. Olga 
hoje nossa diretora financeira. Recebi por proposta do Almirante
Arlindo Viana Filho a medalha
"Amigos da Marinha", junto com outras associa das, numa bela
cerimnia em 13 de dezembro de 1995.

Quando os interesses e os objetivos so elevados, as pessoas se
encontram, se entrosam e passam a colaborar em aspectos at ento
desconhecidos para muitas. Incrvel,
mas lembro-me de uma frase que ouvi outro dia numa entrevista de
Andr Montoro na TV, explicando essa ligao que se estabelece
entre as pessoas voltadas para um
bem maior "Quando nos elevamos, ns nos encontramos". Espero ter
sido fiel nesta citao de Teillard de Chardin.

A minha experincia de estar de alguma forma ligada ao Cisne
Branco e a outras organizaes da comunidade fora do mbito de
ao do meu trabalho, tem demonstrado
a importncia de no nos encapsularmos dentro de nossos prprios
interesses. A nossa participao traz indubitavelmente benefcios
e contribuies valiosas para os trabalhos que realizamos.

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Nessas associaes passam-se fenmenos muito interessantes. H
pessoas que freqentam as reunies, por uma obrigao de qualquer
sorte, s vezes por anos. So pessoas
que no falham, prestam ateno na hora, mas sinto que em algumas
delas no permanece nenhuma ligao, nenhum vnculo verdadeiro.
So pessoas timas, cumprem com as suas obrigaes mas realmente
no tm uma ligao espiritual, ou intelectual, com o grupo.

Outras s vezes no so nem muito freqentes, mas tenho observado
muito suas reaes em relao  Fundao: elas buscam, procuram de
qualquer maneira levar uma contribuio.
So dois tipos completamente distintos de pessoas timas, mas
muito diferentes na sua maneira de encarar a responsabilidade em
relao ao grupo, e essa responsabilidade
se reflete muito, tambm, em sua participao comunitria.

A participao das pessoas em associaes, em grupos, a capacidade
de colaborar, nada tem a ver com a quantidade de ocupaes que a
pessoa tenha. Nas ltimas dcadas,
porm, eu sinto tanto nas mulheres quanto nos homens, um desejo
mais sincero, um sentido de sua responsabilidade social mais
acurado e uma disponibilidade maior
para contribuir com diferentes movimentos da comunidade, no
obstante seus trabalhos e suas obrigaes profissionais. E a
semente do bem comum que vinga, cria razes
e se integra ao corao dos homens.

Dentre as ltimas reunies das quais fiz parte na Unio Mundial de
Cegos, em 1990, no posso deixar de lembrar a minha participao
na reunio realizada em Varsvia,
na Polnia. Fui com Olmpia para essa reunio que teve um
prembulo, quando fui pela segunda vez  ento Yugoslvia, onde
fiquei durante trs dias, antes de ir  Polnia com o exclusivo
propsito de realizar um sonho, ir a Medjugorje.

Eu havia ouvido falar de Nossa Senhora de Medjugoi atravs de
vrias pessoas, mas principalmente numa linda festa de aniversrio
de Maricy Trussar di. Houve uma
missa e rezamos todos para Nossa Senhora, pela Paz Mundial e houve
uma pregao sobre Nossa Senhora de Medjugorje.

Depois disso, em vrias outras circunstncias, encontrando com
amigas que haviam ido ao santurio, ouvindo na televiso, no
rdio, nas igrejas, eu tive muita vontade de poder visitar o local
onde Nossa Senhora apareceu para pregar a paz.

Logo que chegamos nos disseram que havia uma missa que seria
rezada exatamente na sacristia onde Nossa Senhora havia aparecido
para os jovens que tinham as vises.
Essa missa foi de peregrinos franceses, rezada em francs, eles
cantaram e todas as pessoas que ali estavam comungaram.

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Foi muito emocionante. Nesses lugares, como Ftima, Lourdes e
outros santurios, o ambiente parece que se fecha  volta das
pessoas. Ns nos sentimos como que envolvidos
por uma nuvem de espiritualidade que nos transforma, nos emociona
e nos eleva.

Embora aquele santurio tenha sido preservado,  lamentvel que
tantas vidas estejam sendo sacrificadas pela incompreenso dos
homens, pelo choque de religies,
ou por outros fatores que alimentam esse tipo de antagonismo e que
os fazem destruir tudo aquilo que durante anos os seus prprios
ancestrais tiveram tanto trabalho para edificar.

Dubrovnik  um exemplo com suas obras de arte, monumentos que
falam, por si s, daqueles que os construram. So cidades antigas
que permaneceram para que os homens
de hoje pudessem avaliar o quanto devem  criatividade e ao
esforo dos homens de ontem, sobre cujos monumentos a civilizao
moderna plantou as suas bases. Lamentavelmente
Dubrovnik praticamente no mais existe.

Fomos ento para Varsvia, uma cidade que me impressionou por
aspectos diferentes daqueles que eu havia percebido nas outras
capitais em que estive.

Achei que Varsvia ia se parecer com aquela Polnia, cheia de
romances, das histrias e dos livros que eu havia lido na minha
adolescncia e no incio da minha juventude
Ao contrrio, me pareceu pela descrio uma cidade de prdios,
muito retos, muito lisos, muito frios. Eu senti uma cidade fria.

H monumentos muito interessantes, mas talvez na poca em que eu
l estive, ainda sob o domnio do comunismo sovitico, o dio que
eu senti naquele povo contra o
regime que era detestado, as histrias que eram contadas, o Gueto
de Varsvia, tudo contribuiu para me dar uma sensao de tristeza,
de insegurana e de frieza.
A no ser na cidade antiga, colocada bem no centro da cidade
moderna e em uma igreja onde fui assistir uma missa onde a
religiosidade, c nmero de vozes que se ouvia
rezando alto e cantando, era de um calor e de um fervor
impressionante. Outro lugar que eu vi com uma grande alegria foi
nos arredores de Varsvia, a casa de Chopin.

Fomos levados pelos delegados representantes da Polnia na Unio
Mundial. Fiquei radiante quando, no museu de Varsvia, a guia me
disse que um dos maiores intrpretes de Chopin no mundo,
reconhecido,  o nosso pianista brasileiro, Arthur Moreira Lima,
que eu j tive a felicidade de ouvir tocar vrias vezes.

A reunio da Comisso Executiva da Unio Mundial de Cegos
transcorreu muito bem graas  cordialidade dos representantes
poloneses. Foram excelentes hospedeiros
que nos mostraram fbricas, onde um razovel nmero de

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pessoas cegas tinham a oportunidade de trabalhar e ganhar
suficientemente para o seu sustento, alm de escolas que se
modernizavam atravs do uso adequado de equipamentos
necessrios  sua melhor educao e formao.

Na noite do jantar de despedida, fui surpreendida ao receber uma
condecorao da Associao de Cegos de Varsvia que muito me
honrou. Como aconteceu outras vezes,
o Embaixador Brasileiro em Varsvia, Alcides da Costa Guimares
Filho, alm de nos mandar buscar no aeroporto, ofereceu-nos um
jantar em sua residncia.

Depois da Polnia, Olmpia e eu fomos para Paris. Passamos dois
dias passeando, observando vitrines, verificando a moda,
encontrando amigos, principalmente Marina
Magalof, que tinha sido secretria do Conselho Mundial no tempo em
que fui presidente.

CLUBES E OUTRAS ASSOCIAES

Desde a infncia pertenci a clubes culturais, sociais e
esportivos.

Hoje somos associados do Clube Alto de Pinheiros, prximo de nossa
casa. Gosto de freqent-lo.

H muitos anos sou convidada a assistir cerimnias da Associao
das Mulheres de Negcios e Profissionais de So Paulo. Confesso
que a cerimnia das velas, que a
Associao realiza todos os anos, me emociona porque lembra muito
a minha vida nos EUA, na Casa Internacional.

Perteno  Comisso sobre a Situao da Mulher. Fui convidada para
falar num dos seminrios organizados pela associao e espero
colaborar cada vez mais com essa
organizao e trazer  conscincia de todas as associadas a
situao da mulher cega. Alm de excelentes conferencistas h
grande nmero de homens que participam
de seminrios e conferncias, principalmente aqueles que mantm no
momento uma responsabilidade pblica notria.

Nos meus cinqenta anos de vida profissional, sempre me encantou
participar da criao de organizaes, do desenvolvimento de
outras, do inter- relacionamento das mesmas. Todos estes
movimentos por ideais, que exigem muito de nossa atuao, de
nossos esforos, so muito estimulantes para mim at hoje.

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As organizaes da nossa rea de trabalho, algumas de mbito
nacional vinham sentindo a necessidade de unificao entre elas.
Esse fato tambm est ligado ao novo
modelo de administrao pblica. Quando o governo cria um
organismo como por exemplo a CORDE, essa necessidade torna-se
ainda mais evidente. Nos rgos governamentais
desse tipo h sempre um conselho de organizaes no-
governamentais (ONGs), organizaes de pessoas deficientes ou
servios para pessoas deficientes.

A verdade  que nesses conselhos  preciso que haja uma
organizao que represente todas as outras existentes no pas, da
mesma rea, principalmente as de mbito
nacional. Por outro lado, as organizaes e as prprias pessoas
cegas precisam exercer presso junto ao poder legislativo e ao
poder executivo para a obteno de
legislao e de recursos necessrios ao desenvolvimento de
programas em todo o Brasil.

Essas organizaes, diversificadas em sua ao, tm um objetivo
comum que  agir junto  comunidade, tanto na sociedade civil como
no governo, para que as reivindicaes
das pessoas cegas possam ser atendidas. Vrias reunies foram
realizadas entre a Fundao Dorina Nowill para Cegos, o Conselho
Brasileiro para o Bem-Estar dos Cegos,
Associao Brasileira de Educao de Deficientes Visuais,
Instituto Benjamim Constant, Associao Brasileira de Desportos
para Cegos, Federao Brasileira de Cegos, Associao de
Professores de Cegos e Ambliopes com o intuito de unificao.

No incio foi feito um protocolo de intenes para o funcionamento
de um organismo que unificasse todas e que se deliberou chamar
Unio Brasileira de Cegos. Depois entrou para o grupo a Associao
Pr Livro Esprita em Braille.

A Diretoria da Unio Brasileira de Cegos est hoje composta por
Adilson Ventura, Presidente; Luiz Geraldo de Mattos, Vice-
Presidente; Marco Antonio Bertoglio, Tesoureiro; e Regina Ftima
Caldeira de Oliveira, Secretria.

Tenho acompanhado muito de perto a evoluo dessa organizao que
 muito necessria.

REUNIES DE FAMLIA - MEUS 70 ANOS

Eu me referi s grandes surpresas dos anos 90, mas houve tambm
uma pr estria. Foi em 1989, quando completei 70 anos. Festejei o
meu aniversrio todo os anos, procurando
reunir parentes, amigas, amigos e colaboradoras. Todo

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trabalho frutfero, sincero e entusiasta faz com que as pessoas
nele envolvidas mantenham laos de amizade indestrutveis.

Foi assim quando eu fiz 70 anos, as minhas companheiras de
diretoria e profissionais da Fundao disseram-me que se
encarregariam de organizar o meu ch de 1989.
Conseguiram reunir mais de 250 pessoas no Buffet Residence. A
reunio foi muito carinhosa, alegre e inesquecvel para mim. Todas
as pessoas que falaram me emocionaram
profundamente e eu pude me ver um pouco nas palavras, nas imagens
que elas usaram. Claro, foram generosas demais!

Neste trecho eu gostaria de colocar o versinho que Armando Galo
fez para os meus 70 anos:

A soma do tempo no nos envelhece
quando agasalhamos bons sentimentos.
A velhice, ela s mesmo aparece
quando trocamos sonhos por lamentos.

Alm das minhas filhas, noras, as minhas amigas, toda a diretoria,
ex-diretoras e muitas voluntrias estavam presentes. Foi uma festa
minha e da Fundao.

Eu imaginava, quando era jovem, que houvesse grandes
transformaes quando a pessoa tivesse 70 anos. Essa idade parecia
uma enormidade de anos. H pessoas que sentem
a idade. Eu no sei o que  sentir a idade, por dentro eu me sinto
a mesma pessoa, certamente exteriormente tudo mudou, muda a cor
dos cabelos, a fisionomia sofre transformaes normais. Dizem que
eu mudei muito pouco de fisionomia, dizem outros que eu estou
muito parecida com minha me. Quando eu era jovem, eu era muito
parecida com meu pai.

Mantendo a atividade fsica e mental  difcil que a pessoa sinta
profundamente a passagem dos anos ou, como se costuma dizer, o
peso dos anos. Os anos no tm
peso, as pessoas que voluntariamente se tornam inativas com a
idade  que ficam pesadas, por falta de uso da musculatura e
tambm do prprio raciocnio.

As atividades diversificadas de cada um de meus filhos foi
dificultando as reunies, os almoos e os jantares, que eu mantive
alguns anos depois que eles se casaram
e constituram as suas prprias famlias. A princpio, tentei um
almoo aos domingos. Funcionou durante um certo tempo, mas
raramente conseguia reunir todos e na
mesma hora. Os dois mdicos tinham plantes, ou doentes para ver,
ou chamadas de uma hora para outra. Um chegava mais cedo e
precisava sair, outro chegava mais tarde
e no dava tempo de esperar.

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As noras da mesma forma, cada uma com suas atividades e os netos
que j tinham tambm seus programas, nem sempre os programas dos
pais. Eu no queria que o almoo na casa da vov e do vov se
tornasse uma rotina pouco desejada. Alex e eu, depois que
compramos o stio, vamos muito freqentemente passar os fins de
semana em Tatu.

Ficamos reduzidos ento aos aniversrios de vov e vov, Dia dos
Pais, Dia das Mes e Natal. A princpio eu fazia festa de vspera
de Natal e o almoo de Natal.
Depois Denise assumiu a vspera de Natal. As nossas cozinheiras se
renem e se ajudam mutuamente. O dia de Natal  por minha conta. A
mesa foi esticando. Minha mesa
comporta 10 pessoas razoavelmente bem. As vezes pnhamos 12,
depois adotei o sistema das mesinhas. Quando Dollie era viva,
sempre passou o Natal conosco. A me
de Ricardo tambm, e muitas vezes o Paulo, irmo do Guil vinha com
sua mulher e seus filhos. Eram de 20 a 25 pessoas. Variava,
cheguei a ter 30 pessoas no almoo de Natal. Kiko passa um Natal
conosco e no ano seguinte, com os pais de J em Portugal.

Reveillon. Esta  uma festa para a qual cada membro de nossa
famlia tem liberdade total para escolher onde e com quem deseja
celebrar a passagem do ano. Anos houve em que Alex e eu fomos ao
Paulistano e ao Jockey, sempre com amigos.

O nmero de pessoas cresceu. O nosso grupo de 25 casais preferiu
reveillon em casa. Danvamos cada ano numa das casas e
aguardvamos a chegada dos filhos no fim
da noite, que chegavam de suas respectivas festas para tomar
conosco o caf da manh.

Nesses ltimos anos reunimo-nos em casa de Lucila e Hugo Piva em
So Jos dos Campos. Nunca ficamos sozinhos nessa data.

H reunies que alm de agradveis mantm e alimentam as amizades
verdadeiras e ns as consideramos parte de nossas vidas, Lucila e
Alex resolve ram estender o reveillon
para almoos mensais. Somos hoje seis casais. Graas a Deus somos
capazes de manter nossas amizades e querer bem aos amigos.

Os netos, em faixas etrias diferentes, formam dois grupos bem
distintos. Os interesses mesmo nos grupos so diferentes. Os mais
velhos freqentam colgios diferentes
e portanto mantm seus amigos. O que no acontece com o grupinho
dos menores. Os filhos de Denise, Dorininha e a filha menor de
Alexandre esto praticamente juntos.
As trs menininhas so uma graa. Eu dizia  Luzia quando elas
nasceram que eu gostaria de v-las brincando e brigando juntas no
gramado do stio. Tudo parecia um
futuro distante, no entanto chegou to rpido! Realmente, as trs,
Renata, Fernanda e Marina so muito amigas, brincam muito juntas e
queira Deus que cresam assim,
sempre amigas. Ricardinho  o guardio

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das trs, ele  mais velho. Na sada da aula de natao, que 
perto de minha casa, esto todos juntos. Alis, parece que minhas,
filhas e noras arrumam tudo perto de minha casa, o que facilita
muito para que Joana possa recolh-los na natao e na escola at
que as mes venham busc-los.

 uma oportunidade para que eles se encontrem e apesar do barulho
e das minhas reclamaes, acho que Alex e eu sentiramos muita
falta se eles no nos atormentassem todas as tardes, como vm
fazendo h algum tempo.

A vida segue o seu ritmo, cada um de nossos filhos dentro de seu
plano de vida. Um dia Cristiano entrou em nossa casa, sentou-se e
de repente nos disse que iria
separar-se de sua mulher. No posso negar que foi um choque muito
grande para mim e para Alex. Cristiano pediu se podia ficar uns
tempos conosco. Eu confesso que
at um certo ponto achei que era a melhor soluo, porque assim
podamos ajud-lo nesta fase difcil. Cristiano e sua mulher
assinaram a separao e iniciou-se o processo de divrcio.

Nossos filhos so sempre nossos filhos. Temos que respeitar e
aceitar suas decises. Logo cedo eu aprendi essa realidade.

Minha idade no me impede de estudar msica e no me impede de
fazer exerccios fsicos. Estudar msica alimenta, faz crescer e
desenvolver a memria, que na minha
idade no pode ser deixada de lado, no pode ser negligenciada,
porque a memria se destri, se deteriora, se anula se no for
alimentada pelo exerccio. Estou
absolutamente convencida disso e o exerccio fsico certamente no
vai nos devolver a postura, a forma fsica que tnhamos h mais de
50 anos atrs, mas certamente
corrige e evita que idade e sedentarismo possam influir e
prejudicar nossa forma fsica, atrofiando nossos msculos.

O conhecimento do nosso esquema corporal, a conscincia de ns mes
mos, as razes pelas quais as dores se manifestam por falta de
exerccio so muito importantes e a conscincia da nossa prpria
postura  a melhor correo que podemos ter para manter uma
aparncia agradvel e bem-estar interior.

Minha aposentadoria como supervisora de educao do Estado de So
Paulo no me assustou. O trmino do meu trabalho com o Governo
Federal e na Campanha Nacional de
Educao de Cegos tambm no, porque eu havia decidido que no me
aposentaria da vida, no me aposentaria das responsabilidades e do
trabalho. Alex sempre me apoiou neste sentido e sempre alimentou a
manuteno deste meu interesse em no parar.

A vida no lar no pra quando atingimos uma determinada idade. Ela
continua, so fases diferentes, mas a vida continua, as
responsabilidades, as ino-

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vaes, os interesses, tudo continua presente.  s descobri-los e
eu, graas a Deus, alm disso, tenho a Fundao e mais as outras
organizaes com as quais continuei trabalhando.

Os problemas tambm no acabam, eles apenas se modificam. Acho que
tive muitos, tanto na vida particular como no trabalho. Chegaram
os anos 90, quando completaria,
em 1993, 50 anos de trabalho e em 1995, 50 anos de formatura na
escola Normal Caetano de Campos.

Os anos 90 tiveram realmente muitas novidades. Um belo dia
Cristiano nos comunicou que havia encontrado uma pessoa que
apreciava muito, que o compreendia profundamente
e com quem ele queria reiniciar sua vida, Maria Melo Guimares.
Uma jovem fina, simptica e que, acima de tudo, tem demonstrado
entend-lo em seu mago e com quem ele se sente feliz.

FUNDAO DORINA NOWILL PARA CEGOS

As transformaes da Fundao tambm foram profundas. Fez-se
imprescindvel uma campanha de flego, para apoiar essas
transformaes. A diretoria reuniu um grupo
de profissionais interessados em colaborar com a Fundao. Quando
profissionais de gabarito se voltam para assuntos que no so de
rotina de sua prpria rea de
atividade, trazem sempre inovaes, principalmente aqueles cuja
funo tem de ser criativa.

Foram analisados os nossos programas junto com as nossas
dificuldades de recursos e da reforma do prdio que se tornava
cada dia mais deficitrio. Vrios grupos,
sempre em carter voluntrio, estudaram todo o movimento da
Fundao, as atividades, o alcance, o pblico atendido, o pblico
voluntrio, a equipe profissional que
realiza os servios dentro da Fundao, os grupos de pessoas que
se interessam pela manuteno de seus servios. Enfim, apreciaram
a Fundao como um todo, para
o planejamento de uma grande campanha.

Qual a estratgia, os mecanismos para realiz-la? Campanha em
nossos dias  uma realizao essencialmente profissionalizada.
Nessa hora de desespero, de falta de dinheiro, de necessidade de
campanhas, de movimento, eu estava na

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minha mesa conversando com Carolina. Tinha ouvido uma entrevista
de Washington Olivetto e achei, como todos, que ele era um
profissional de grande capacidade.

Precisvamos de uma pessoa, de uma empresa assim para fazer uma
grande campanha, mas como atingi-lo? Ser que telefonando se
consegue chegar a Washington Olivetto?
Eu tinha vontade de telefonar e Carolina disse: "E por que voc
no telefona?" respondi: "Voc acha?" e ela: "Acho, sim!"

Consegui o nmero, disquei, falei com a secretria e Washington
Olivetto me atendeu. Simplesmente foi uma alegre surpresa. Ele
disse que pediria a um de seus companheiros
de trabalho que fosse conhecer a Fundao, ver as necessidades e
prometeu que faria uma campanha para divulgao, como base para o
levantamento de fundos.

Assim, Fernando Ribeiro da Luz comeou a trabalhar conosco.
Depois, integraram-se outros membros da equipe da WBrasil e foi
feito um projeto que contou com a imaginao
frtil e a criatividade de Rui Lindenberg, o competente redator da
WBrasil naquela poca. Rui e equipe redigiram alguns clipes para a
televiso, jornais, rdio, que prenderam a ateno do pblico.

A WBrasil, durante essa campanha buscou inteligentemente e obteve
a colaborao de vrias empresas do ramo e de profissionais de
alto nvel como Hiran Castelo Branco,
proprietrio da HCA. Sua colaborao no se restringiu  campanha,
Hiran tornou-se conselheiro da Fundao e tem prestado inestimvel
contribuio na criao de
publicaes e principalmente na campanha para a reforma do prdio.

No meio de todo este planejamento a Diretoria da Fundao
acreditou que finalmente era hora de fazermos uma reforma
estatutria, adaptando a Fundao  sua prpria
realidade. Era preciso reformular a administrao geral com a
criao de conselhos, diretoria executiva, secretarias e tambm
modificaes de relacionamento entre departamentos, coordenaes
etc.

A Diretoria criou uma comisso para fazer um estudo sobre a
reforma estatutria. Pedi que nessa comisso houvesse algumas
pessoas que trabalhavam diretamente na
administrao e membros da Diretoria, alm de mim. A comisso
ficou constituda por Antnio Carlos Monteiro da Silva, empresrio
e membro da Diretoria, Luis Augusto
Paula Santos, advogado e tambm membro da Diretoria; convidamos um
voluntrio, Arnaldo E. Mindlin, advogado e que tinha muito
interesse pela Fundao, Dr. Paulo de Tarso Comes, nosso consultor
jurdico, Jurema Lucy Venturini, coordenadora geral e Luis Roberto
de Andrade Novaes, um grande advogado jovem, e eu.

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A Comisso tinha de estudar a reforma dos estatutos, adapt-los ao
que na realidade a Fundao vem fazendo em todas as suas
atividades. Nessa reforma
foi considerada, inclusive, a mudana do nome da Fundao.

A comisso da reforma estatutria estabeleceu que depois que
tivesse uma unidade de pensamento e o documento fosse escrito,
seria submetido a dois membros do conselho
consultivo, Fabio Monteiro de Barros, que estudou a primeira
reforma estatutria da Fundao e que acompanha o Conselho da
Fundao h muitos anos, e Emdio Dias
de Carvalho que tambm  membro do Conselho da Fundao e que
acompanhou a sua evoluo. O trabalho da Comisso foi
integralmente supervisionado e aprovado pelo
Dr. Edson Jos Rafael, curador de Fundaes do Ministrio Pblico.

Nesse mesmo tempo, junto com os profissionais da Fundao,
iniciou- se o estudo dos aspectos que deviam ser levantados na
futura campanha publicitria.

Durante esses trabalhos o primeiro ponto levantado foi a
necessidade da mudana de nome. Foi feita uma pesquisa geral em
grupos e chegou-se  concluso de que o
nome Fundao para o Livro do Cego no Brasil no representava mais
todo o servio que  realizado atualmente na Fundao, na rea de
educao, preveno, reabilitao
e emprego, alm da imprensa braille e de todos os aspectos
relativos ao acesso  leitura, que foram sempre o objetivo
primordial, quando se instituiu a prpria Fundao.

Para a minha surpresa, numa das discusses surgiu o ponto de vista
levantado por vrias pessoas: que para mudar o nome, precisvamos
escolher um outro, que fosse
igualmente conhecido. A Fundao j era muito conhecida em todos
os pases do mundo, principalmente por organizaes
internacionais, nos cinco continentes. Era preciso
criar um nome que correspondesse ao que a Fundao era, e
precisava ser reconhecido nacional e internacionalmente. Chega ram
 concluso, eu confesso que quando
ouvi pela primeira vez foi com uma emoo muito grande, que a
Fundao deveria ter o meu nome. Isso foi estudado por nossos
profissionais juntamente com os profissionais
de propaganda. Foi aceito pela Diretoria. Senti em todos uma
unanimidade que me convenceu e me trouxe uma alegria imensa.

No dia 11 de novembro de 1991, com a presena do curador de
Fundaes, Dr. Edson Jos Rafael, foi lavrada a escritura do novo
estatuto da Fundao Dorina Nowill
para Cegos e dada a posse  diretoria executiva para o perodo
1991/1994, indicada pelo curador de Fundaes.

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Os rgos da Administrao eleitos para o trinio 1994/1997 so os
seguintes:

Conselho de Curadores
- Adilson Ventura
- Alfredo Weiszflog
- Emdio Dias de Carvalho
- Fbio Monteiro de Barros
- Ives Gandra da Silva Martins
- Joo da Cruz Vicente de Azevedo
- Luiz Roberto de Andrade Novaes
- Roberto Faldini

Diretoria Executiva
- Dorina de Gouva Nowill - Diretor Presidente
- Antonio Carlos Monteiro da Silva - Diretor Vice-Presidente
- Olmpia Ana Sant'Ana Sawaya  l Diretor Financeiro
- Olga Mantovani Lerrio  2 Diretor Financeiro
- Maria Celia Ferraz Monteiro de Barros  1 Diretor Secretrio
- Maria Carolina Pinto Coelho Carvalho  2 Diretor Secretrio
- Tarcylla de Andrade Novaes - Diretor de Patrimnio

Conselho Fiscal
- Gualter Godinho
- Milton Mira de Assumpo Filho
- Padre Lionel Corbeil

Suplentes
- Geraldo de Faria Lemos Pinheiro
- Jacques Benain
- Jos Carlos Prates

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Conselho Consultivo
- Amrico Oswa Campiglia Antonio Arnosti
- Antonio Salgado Peres Filho
- Armando Gailo
- Carlos Augusto Monteiro da Silva
- Dalva Assumpo Soutto Mayor
- Eduardo Saddi
- Fbio Ribeiro da Silva
- Fernando Ribeiro da Luz
- Heloisa Vidigal
- Hiran Castelo Branco
- Horst Muller Carioba
- Trai Fracasso (Frei Anselmo)
- Joo Baptista Monteiro da Silva Filho
- Luiz Alberto Dabague Paneili
- Luiz Augusto Ottoni de Paula Santos
- Maria Lcia Whitalcer Vidigal
- Mary de Almeida Meireiles
- Max Feffer
- Ricardo Migliano
- Silvio Chebabi Teixeira de Vasconcelos Sonia Caropreso de Sa
Comes
- Vera Giangrande

Secretarias Especiais
Secretaria Especial de Servios Voluntrios
- Sonia Caropreso de Salles Comes

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Secretaria Especial Editorial
- Milton Mira de Assumpo Filho

A Campanha da WBrasil foi ento providencial. Sacramentou a
mudana do nome. Mostrou os aspectos da Fundao menos conhecidos
do pblico, como a estimulao precoce,
a clnica de viso subnormal, a reabilitao, o emprego das
pessoas cegas, alm de todo o imenso e enorme trabalho na rea de
publicaes: livros em braille, livros falados, mquinas para ler,
equipamentos eletrnicos e de informatizao.

A Campanha idealizou um "botton" muito interessante. Foi usado
para o "botton", o Smile, a figura de uma cara redonda com um
imenso sorriso, s que, para se referir
a uma Fundao no trabalho de cegos, foram colocados culos
escuros, O "botton" foi aprovado, pegou e tem sido usado como
smbolo em todos os nossos programas.

Agora a Fundao Dorina Nowill para Cegos era o sorriso, era o
Sinile chamando a ateno do pblico. E uma figura alegre, traz
alegria para um problema que para muitos pode parecer triste.

A Campanha foi muito bem-sucedida, conseguimos um nmero grande de
mantenedores, as peas preparadas para televiso e jornais foram
premiadas pela Associao dos
Criadores, o que nos deixou muito orgulhosos e fez jus 
competncia dos profissionais da WBrasil. Ficamos devendo, somos
at hoje devedores a todo o pessoal da
WBrasil, especialmente ao Fernando e ao prprio Washington.

O lanamento da Campanha foi presidido pela senhora do Governador,
Ika Fleury, o que nos deixou muito honrados e abrilhantou a festa.
Estiveram presentes muitos
diretores de servios do Estado e da Prefeitura, representantes de
instituies especializadas, profissionais e a imprensa.

O bem-estar de todos os membros da sociedade, sem excees,  o
que faz de um pas um povo civilizado. J ouvi grande autores
expressarem que uma nao s  realmente
civilizada quando os seus membros assumem que a felicidade dos
seus semelhantes  responsabilidade de todos os membros dessa
nao, dessa sociedade ou dessa comunidade. Assumem, sim, que 
sua responsabilidade, acima de ser o seu dever.

Para quem j viveu 50 anos num trabalho social, a evoluo da
sociedade brasileira, principalmente da comunidade paulista, na
expresso humana e social, tem sido muito grande.

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No incio de meu trabalho encontrei pessoas vacilantes para
aceitar um encargo social, pessoas indiferentes e pessoas
desejosas de faz-lo. Observamos esse quadro
nas grandes organizaes, em todos os ramos da atividade humana.
No entanto, h inmeros exemplos de homens e mulheres que deixam
todos os seus afazeres para realizar
um trabalho social. Na Fundao h muitos exemplos desse tipo de
voluntrios, mesmo entre os profissionais que so contratados pela
Fundao e que fazem servios
voluntrios, participam de congressos, preparam, estudam trabalhos
para congressos, trabalho este que no  remunerado.

As minhas memrias deveriam incluir um nmero enorme de nomes que
tm se dedicado  nossa obra e provavelmente eu no tenha feito
toda a justia que estes nomes
merecem, dando-lhes o valor que eles tm no desenvolvimento dos 50
anos de trabalho da Fundao. No posso deixar de mencionar a
importncia do papel que tm tido,
em todo esse quadro, as empresas comerciais e industriais que nos
tm dado apoio tcnico e financeiro, bem como a imprensa falada,
escrita e televisionada cujo
poder tem grande influncia na transformao da mentalidade. A
imprensa pode eliminar esteretipos e criar imagens que a
comunidade passa a admirar e respeitar.

Quero deixar registrada a minha eterna admirao pelos grupos de
voluntrios, em sua grande maioria mulheres voluntrias, que neste
50 anos deram  Fundao centenas de horas de trabalho. Muitas
delas jamais contaram essas horas, porque aquilo que se faz com
corao raramente se marca no relgio.

Quantas pessoas cegas como eu j sentiram a mesma gratido, ou o
mesmo reconhecimento que tenho por todos esses voluntrios,
profissionais ou no, todos aqueles que sabem dar de si, quando
nossos projetos necessitam de os servios profissionais que os
nossos recursos no permitem contratar.

Felizmente, nos ltimos anos, a Fundao tem contado com servios
voluntrios de profissionais altamente qualificados, o que lhe tem
permitido realizar campanhas
de captao de recursos, produzir folhetos e todo material de
comunicao que anteriormente era feito em nmero bastante
reduzido, devido ao seu alto preo.

A Imprensa Oficial do Estado de So Paulo, graas aos seus
dirigentes, entre outros, Plnio Alves de Lima e Antonio Arnoste e
seus diretores tcnicos, tm colaborado
com a Fundao alm de ter em seu quadro tambm funcionrios
cegos. Menciono esses fatos porque eles comprovam a minha
afirmao sobre a evoluo da compreenso
da comunidade e a participao da sociedade civil atravs de
profissionais, empresrios em programas de obras sociais.

So Paulo  bem rico em obras sociais e, mesmo nos outros estados
do Brasil, a evoluo dessas obras que se colocam cada vez mais
como empresas profissionais pode ser notada. Isto  progresso e
conscincia social.

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Nem sempre todos ficam satisfeitos, porque esse progresso foi
bastante lento e ainda  incipiente.  preciso muita criatividade
de dirigentes e de profissionais
que trabalham nas organizaes para pessoas deficientes para
obter, numa proporo desejada, a contribuio intelectual e
financeira dos membros da comunidade.

REFORMAS

Ser que aos 50 anos de trabalho poderia faltar entusiasmo, calor
e vontade de vencer para iniciar uma nova e complicada etapa
difcil? Eu acho que no! Por isso
a reforma do prdio, a informatizao da imprensa braille e uma
nova etapa para o livro falado e novos equipamentos continuam
diante de mim e no tenho medo de enfrentar o que est por vir.

A sociedade j respondeu atravs de uma voluntria,, Maria de
Lourdes Sailes Prado. Lourdes se props a conseguir que um
empresrio assumisse a conduo dos trabalhos
de reforma do prdio. Foi portadora de nosso pedido ao empresrio
Jos Ermrio de Moraes para enfrentar conosco essa etapa e nos dar
uma ajuda concreta e slida,
no s financeira. Foi assim que lhe pedimos que encabeasse uma
comisso para promover a reforma do prdio da Fundao.

Ele aceitou e teve a feliz inspirao de colocar como seu preposto
um homem como Joo Cncio Pvoa Filho. Um homem cuja cultura,
conhecimento prtico, conhecimento
de trabalho de grupo e de promoo, de grandes realizaes
permitiram coordenar a comisso da reforma do prdio.

Para chegar a esse estgio, foram longos meses em busca de pessoas
que pudessem nos ajudar. Um dia, nosso voluntrio Arnaldo Mindlin
resolveu trazer arquitetos para
ver qual deles se prontificaria a estudar a reforma do prdio da
Fundao. Precisvamos de um memorial descritivo para solicitar
verbas e fazer um levantamento de
recursos. Entre as pessoas que vieram destacaram-se Vera e Luis
Alfredo Corra, um casal de arquitetos, que imediatamente se
prontificou a estudar o assunto.

Procuramos, depois que o primeiro estudo foi feito, captar
recursos para ter o memorial descritivo. O presidente do Conselho
de Curadores, Joo da Cruz Vicente de
Azevedo, me levou um dia para falar com Sebastio Camargo, que
foi, realmente, uma personalidade inesquecvel.
Ele contratou uma empresa, mandou fazer o levantamento, mandou
preparar este primeiro documento, depois pagou tambm a confeco
do oramento e nos fez, antes de
falecer, um donativo para o incio dos nossos trabalhos. Com

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os dois arquitetos integrando uma comisso que j tinha um
coordenador, iniciamos um planejamento. Da Comisso fazem parte
Tito Enrique da Silva Neto Hiran Castello
Branco, Vera e Luiz Alfredo Correa, Olga Mantovani Lerrio Olmpia
Sawayia, Tarcylla de Andrade Novaes, Maria Cristina Barros Down,
outros membros da Diretoria, alm
de Jurema, Francisco, Ivete, Ana Cristina Maria Cristina.

Medidas a curto e longo prazo foram tomadas conforme as
possibilidades do momento e do alvo ambicioso. Custou, levou
bastante tempo. Infelizmente, Arnaldo E. Mindlin
no pde ver os frutos de seus esforos, da sua dedicao, do seu
trabalho. Faleceu repentinamente, sabendo que ia receber medalha
do Rio Branco, de que tanto se
orgulhava. Nesse mesmo dia eu receberia Ordem do Rio Branco em
grau de Comendador. A viagem que ele planejava a Braslia, para
receber a medalha foi realizada, mas
apenas com a sua saudade. Foi uma homenagem pstuma, mas Arnaldo,
durante seu trabalho, foi daqueles que soube deixar um seguidor de
grande valor que j vinha contribuindo
para desenvolvimento dos programas da Fundao, seu irmo Jos, o
brilhante e corajoso empresrio da Metal Leve. Sua colaborao 
inestimvel. Jos levou-nos para
Braslia no avio particular, gentilmente cedido por Jos Safra.
Na volta de Braslia, no sei por que inspirao eu disse a Jos
Mindlin: "Gostaria de expor nossos
projetos a Jos Safra", pois j havia ouvido falar sobre o
esprito empreendedor desse grande empresrio financeiro. Nossa
obra necessitaria de contribuies de
vulto. Estvamos trabalhando graas a uma excelente contribuio
de Olavo Setbal, mas havia um grande caminho a percorrer.

Com a colaborao dos amigos de Jos Safra, como Jos Ermrio de
Moraes e Jos Mindlin, que estavam nos ajudando para dar 
Fundao um prdio digno para a celebrao
do seu cinqentenrio (1946-1996), Jos Safra, esse homem de
grande viso e altrusmo resolveu nossos problemas e garantiu
recursos para o trmino da reforma. Com
entusiasmo, todos, diretores, voluntrio e funcionrios preparam-
se para a celebrao do cinqentenrio.

Quando esses pensamentos me vem  mente, analisando 50 anos de
trabalho e de esforo de tantos, eu s posso pedir a Deus com todo
o fervor que mantenha acesa no corao
dos homens a chama do impulso para as realizaes. A fora do
ideal e a coragem da dedicao so elementos essenciais, para que
as obras que tm como objetivo o homem
propriamente dito, a sua felicidade e seu bem-estar, possam
prevalecer em qualquer sociedade presente ou futura.

Arnaldo se foi. Sebastio Camargo tambm. Mas tudo acaba bem par
aqueles que amam a Deus. Plantamos e nem sempre vemos o fruto do
nosso trabalho completo, mas felizmente outros continuaro.

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Todas as histrias tm um fim, mas a minha continua.., porque ao
terminar o que pude relembrar e o que desejei consignar neste
livro s fiz revigorar minha memria
e trazer  lembrana mincias, passagens que certamente estavam
adormecidas. Foi um grande prazer poder faz-lo.

Reviver fatos  tambm viv-los outra vez. O importante  no
tentar julgar, com a cabea de hoje, os fatos de ontem. As
circunstncias no so as mesmas e julgar
as vivncias do passado nem sempre  fazer justia a ns mesmos e
aos outros, que foram protagonistas da mesma poca, dos mesmos
fatos, da mesma histria.

Tive muitos receios e muitas dvidas sobre as minhas prprias
possibilidades de poder relatar fatos que dizem respeito, muito de
perto,  mim mesma e s minhas
reaes. No fantasiei, no romanciei as grandes transformaes,
porque o que passamos na vida no prejudica a memria dos fatos
que ficaram profundamente gravados,
por serem de uma importncia capital para toda a nossa existncia.

Tenho a certeza de que contei e escrevi apenas o que eu sou. Tenho
tambm uma grande dvida. Acho que o que sou  to igual s outras
vidas, s experincias vividas
pelos outros, nas mesmas fases e em circunstncias muito
semelhantes. Onde est a variao?, eu me pergunto. Certamente
est nas diferenas individuais, nessa maravilha
que Deus criou na natureza humana, absoluta diversificao que
ningum conseguiu ou consegue igualar. Ns, seres humanos, s
somos iguais na imensa diversificao que representamos. Nossas

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vidas, tambm, so muitas e por isso mesmo valiosas. Depois de
muitas lembranas que representam anos e anos, a vida, hoje, me
parece um s dia; as realizaes,
as grandes emoes, longos minutos; os dissabores, as desiluses,
apenas fraes de segundos. Ao repassar o nosso passado, a
histria de nossa vida, ao conseguirmos
discernir o equilbrio que existe entre as alegrias e tristezas,
os sucessos e frustraes, as esperanas e desiluses, sentimos
que Deus foi prdigo conosco. Deus
foi prdigo comigo. Realmente, aprendi muito cedo que a aceitao
e a resignao diante do imutvel no significa capitulao dos
nossos sonhos e ideais. H, dentro
de todos ns, uma fora estranha nesses momentos que nos conduz
para a fonte inesgotvel da criatividade, para resolver os
problemas que a vida nos apresenta.

O importante  no desistir. A f e a esperana nunca me deixaram,
nunca me abandonaram. Existem muitas solues na vida para alm
dos obstculos,  preciso ter
fora para enfrentar. A grande cincia da vida  saber recomear.
Recomear com confiana, com entusiasmo. H sempre algo mais alm
dos males e das deficincias que a vida nos apresenta.

Para alm da dvida, existe a f. Para alm do sol, existe o calor
e a energia quando a luz se apaga. Para alm da vida, a
eternidade.

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